5. TEKĠRDAĞ ĠLĠNDE BULUNAN TÜKETĠCĠLERĠN ĠNTERNETTEN SATIN ALMA
5.4. ARAġTIRMANIN ÖNERĠLEN MODELĠNĠN YENĠDEN DĠZAYN EDĠLMESĠ . 34
Qualquer tentativa de criar mecanismos de responsabilidade sobre reportagens e matérias publicadas pela grande imprensa pode parecer para os meios de comunicação como tentativa de controle, de ditadura da imprensa, de mordaça. Acontece que ao menosprezar a discussão do assunto, a imprensa pode mostrar, por outro lado, sua face arrogante diante de um problema tão sério. Diante de casos, como o que foi estudado nesse trabalho - envolvendo Alceni Guerra e Ibsen Pinheiro – é preciso existir preocupação sobre erros, exageros e distorções. E, conforme foi visto aqui, eles existem. Rosa, por exemplo, defende que os mecanismos de regulação também podem partir por meio de iniciativas das próprias instituições brasileiras, como Ministério Público e Congresso, por exemplo.
(...) a persistência de falhas inadmissíveis, muitas vezes cruéis, não pode se justificar em nenhuma hipótese, por representarem a médio e longo prazo a perda de credibilidade dessas instituições. Ignorar o clamor dos que se sentem injustiçados e traduzi-los apenas como choro dos descontentes ou dos atingidos por uma ―nova ética‖ vigente é uma atitude de radicalismo, antidemocrática, que põe em risco justamente os enormes e visíveis benefícios que estão por trás do dinamismo dessas organizações. 362
Mário Rosa, em seu livro, tem uma definição interessante e que será utilizada nesse
360 ROSA, 2007, p. 506. 361 ROSA, loc. cit. 362 Ibid., p. 455.
capítulo para definir a atuação da imprensa. Ele afirma que existe diferença entre a liberdade de imprensa e a liberdade da imprensa. ―Liberdade de imprensa não é o mesmo que liberdade da imprensa. Cabe à própria imprensa tomar a iniciativa de garantir sua credibilidade. Isso atende ao interesse público. Imprensa sem credibilidade é imprensa fraca, o que sem dúvida nenhuma é ruim para a sociedade‖363.
Ele quer dizer que a liberdade de imprensa deve existir para o bem da democracia. A liberdade da imprensa é aquela liberdade, sem responsabilidade em que os órgãos de comunicação publicam tudo o que querem sem qualquer tipo de controle. Seria importante aprofundar mais a questão: além da liberdade de imprensa, existe a liberdade da empresa de comunicação, como identificou Cláudio Abramo, reformulador dos jornais O Estado de S.Paulo e Folha de S. Paulo. Esta última mais perigosa. Os interesses particulares são buscados a todo tempo em nome da defesa da opinião pública, do interesse público. Um risco para a sociedade.
A grande imprensa, inserida dentro da sociedade, se diz ‗defensora do interesse‘ público. Portanto, deve existir acompanhamento público de tudo aquilo que é publicado ou colocado no mercado pela mídia: a notícia. É preciso mais transparência dos órgãos de comunicação. Ou seja, os meios de comunicação – a grande imprensa – que se auto- proclamam compromissadas com a verdade devem dar o exemplo. Isso os tornariam mais respeitáveis e com maior credibilidade.
Será que a imprensa está se posicionando em relação aos demais setores sociais com a eficiência necessária? Será que está se posicionando estrategicamente bem ao não assumir a vanguarda da coerção aos eventuais erros e exageros na cobertura (ainda mais em momentos tão tumultuados e sacudidos por escândalos em todos os setores)? O modo como a mídia se comporta nos bastidores dos escândalos precisa ser pensado e aperfeiçoado (...)364.
Pode-se dizer que a liberdade de imprensa é um ‗bem inegociável‘. Ela deve existir para beneficiar a sociedade democrática em sua dimensão pública. Ela não deve ser utilizada para fins comerciais, como negócio, por parte das grandes empresas do ramo.
Eugenio Bucci também resume a importância da liberdade de imprensa para a sociedade, por vezes defendendo também a responsabilidade sobre aquilo o que é publicado na mídia:
Não faria sentido – nem técnico, nem lógico, nem ético – que os jornalistas se mobilizassem contra a liberdade de imprensa. Seriam suicidas. A liberdade de imprensa, a propósito, é um princípio assegurado não por eles, jornalistas, mas pela
363 ROSA, 2007, p. 455.
sociedade, que deles precisa para mediar a comunicação pública. Do mesmo modo, está no fundamento da ética jornalística, qualquer que seja a sua acepção, a defesa da liberdade, da verdade, da justiça, da pluralidade de opiniões e de pontos de vista (...)365.
Ele cita também um dilema jornalístico em que envolve razões de Estado em relação a essa liberdade de imprensa. Como foi visto no estudo desse trabalho, os órgãos de imprensa deveriam ―se ver‖ entre optar pelo respeito à privacidade, de Ibsen e Alceni, por exemplo, que foi tema das reportagens, e o direito do cidadão de ser ‗bem informado‘. Fica a pergunta: é justo investigar a intimidade de alguém?
Mas, e um agente público que esteja exercendo uma função pública e guarda em sua intimidade práticas suspeitas que envolvam o Estado? O dilema ético tem sido desse tipo. Claro que seria justo investigar esse agente, mas com responsabilidade, sem sensacionalismos, paixões ou direcionamento de enfoques jornalísticos para prejudicar essa ou aquela pessoa.
O problema é que ‗os desvios‘ éticos, conforme afirma Eugênio Bucci, não se resumem apenas às falhas dos jornalistas, que, evidentemente, devem ser analisadas em público, para o bem da melhoria, da qualidade da informação.
(...) eles se estendem às empresas e à sociedade. O problema ético é um problema estrutural e sistêmico. A desinformação não se deve apenas aos maus profissionais, mas também a atitudes empresariais que revelam falta de compromisso com o direito à informação, que se articulam para excluir o cidadão das decisões que em seu nome são tomadas. O único interessado na discussão ética é o cidadão – não os proprietários dos órgãos de imprensa, não os jornalistas, não os governantes (que também são cidadãos mas se encontram investidos de condições que os diferenciam dos demais); o único interessado é o cidadão como outro qualquer, aquela pessoa comum que consome as notícias e que, no fim, é o beneficiário final do jornalismo de qualidade – ou a vítima do jornalismo vil. É por isso que essa discussão vale a pena, faz sentido e, mais que isso, é urgente366.
O perigo de tudo isso é que, muitas vezes, a grande imprensa se julga acima do bem e do mal. Não quer discutir ética ou meios de responsabilização sobre o que é publicado, uma espécie do que já foi descrito como ‗accountability‘.
E ao julgar-se mais, ou imaginar-se acima, ao pensar que não precisa prestar contas de seus métodos e de seus valores a mais ninguém, estará corroendo a função social que um dia fundou sua profissão. Sua auto-suficiência no fundo é uma ilusão, mas é exatamente assim, como ilusão, que ela é nefasta. Mata a qualidade de informação.
365 BUCCI, 2000. p. 18.
Aí, o jornalismo, em lugar de um método ético para buscar a verdade dos fatos, sempre frágil torna-se fonte da verdade. Torna-se impostura. 367