As abordagens evocadas por Chouliaraki (2013) na compreensão do que chama de "solidariedade agonística" fornecem, de certo modo, algumas "soluções" para os problemas encontrados nos modelos de apelo à solidariedade fundamentados na piedade e no cinismo. Com isso, essas perspectivas nos oferecem insumos para continuarmos mapeando as condições para realização do potencial político que acreditamos haver nos testemunhos de sofrimento a serem investigados mais adiante. Até essa altura, por força do instrumental
teórico mobilizado, pressupõe-se uma relação entre a retórica humanitária e os testemunhos de sofrimento associados ao uso do crack, conexão essa que deve ser nuançada tão logo comecemos a escrutinar esses testemunhos em suas formas expressivas audioverbovisuais.
Para desenvolver as bases do argumento sobre a falência política das retóricas da piedade e da ironia, no sentido de vislumbrar alternativas aos apelos contemporâneos à solidariedade, Chouliaraki (2013) assume dois pontos de partida: em primeiro lugar, a autora faz uma releitura das reflexões de H. Arendt até chegar ao conceito de "espaço de aparências" (ARENDT, 2007) para refletir sobre as assimetrias do mundo moderno, especialmente quanto à participação dos sujeitos na construção de um comum partilhado; em segundo lugar, o uso do termo "agonismo" remete à proposta de um modelo agonístico de democracia edificado sobre a defesa de um caráter inerradicável do pluralismo, da diversidade e do conflito nas bases da política, seguindo a perspectiva de C. Mouffe (2005).
O espaço de aparências é, para Arendt, o lugar de realização da vida em seu sentido não-biológico, isto é, manifesto na ação, na fala e na presença visível dos sujeitos (CALVET, 2011). Trata-se, portanto, de um espaço de visibilidade onde os sujeitos aparecem uns aos outros através de suas falas e ações, onde nos fazemos visíveis e os outros se fazem visíveis a nós. No entanto, esse aparecer em comum não significa que todos ocupem o mesmo lugar. Para Arendt, "a realidade da esfera pública conta com a presença simultânea de inúmeros aspectos e perspectivas nos quais o mundo comum se apresenta e para os quais nenhuma medida ou denominador comum pode jamais ser inventado" (2007, p. 67). Nesse sentido, o mundo comum é possível exatamente porque comporta necessariamente mais de uma perspectiva.
Para Chouliaraki (2013), a reivindicação de Arendt nos compele à tarefa moral de dar as condições para a criação de um espaço de aparências aberto a todos como um gesto inclusivo de solidariedade. Nesse sentido, a crítica daquela autora à retórica da piedade, centrada na exposição e exploração do sofrimento, e ao apelo irônico, amparado numa educação sentimental que condiciona a satisfação pessoal a fazer o bem ao outro, parte da constatação de que ambos os gestos acabam por transformar o espaço de aparências em um lugar dominado por fortes emoções ou pela autossatisfação, o que, por consequência, retira os outros vulneráveis de nosso campo de visibilidade - o que, de certa forma, oblitera sua existência simbólica ou os reduz à vida biológica à qual a aparição, a ação e a fala são negados.
A riqueza conceitual da leitura arendtiana sobre a medida do comum oferece à compreensão da solidariedade tanto a atenção às formas de aparição dos sujeitos nos espaços
de visibilidade como elemento político decisivo, quanto o cuidado de não se advogar em favor de um comum generalizado a ponto de apagar a diversidade e as diferenças. Segundo essa perspectiva, os processos que possibilitam o encontro entre espectadores e sujeitos sofredores, pela mediação do testemunho midiático, demandariam, necessariamente, a aparição e a inclusão da fala do outro como manifestações singulares que devem ser levadas em conta para que se conserve o potencial político desses apelos à solidariedade, nos quais é possível a revelação de um comum partilhado.
A metáfora do "espaço de aparências", argumenta Chouliaraki (2013), dá ensejo a um movimento duplo de conexão e separação: constrói uma aproximação entre "nós", os que assistimos, e "eles", os que sofrem, ao mesmo tempo em que mantém a distância entre as experiências de ver e de ser visto, de assistir ao sofrimento e de senti-lo na pele. Esse esforço para se pensar uma coexistência de mundos que não pode ser confundida com uma imediata coincidência ou correspondência de realidades e experiências leva a autora a se apropriar do esquema compreensivo desenhado por Mouffe (2005) na proposta de um modelo agonístico de democracia. Voltado para o estabelecimento de uma ordem política que organize a existência humana nas condições conflituais que lhes são inerentes, esse modelo fornece uma base lógica para pensarmos as potencialidades políticas de determinadas formas de apelo à solidariedade centradas na confrontação efetiva de mundos antagônicos.
Antes de explorar essas formas de solidariedade sob o prisma da política, é preciso entendermos a perspectiva agonística de Mouffe (2005), que distingue entre o "político" e a "política":
Por “o político” refiro-me à dimensão do antagonismo inerente às relações humanas, um antagonismo que pode tomar muitas formas e emergir em diferentes tipos de relações sociais. A “política”, por outro lado, indica o conjunto de práticas, discursos e instituições que procuram estabelecer uma certa ordem e organizar a coexistência humana em condições que são sempre conflituais porque são sempre afetadas pela dimensão do “político”. (MOUFFE, 2005, p. 20)
A abordagem política de Mouffe é voltada para as possibilidades de fundação de uma unidade num contexto de conflito e diversidade, está ligada às condições políticas para a construção de um "nós" que, no entanto, não se opõe à discriminação "nós-eles", mas busca lidar com ela de maneira compatível com a democracia. Embora o esforço dessa autora seja, em primeiro lugar, oferecer uma alternativa à tradição do pensamento político preocupado com a democracia deliberativa, interessa-nos pensar nessa proposta a partir do que ela oferece para a compreensão da comunicação do sofrimento sob um ponto de vista político que
considere não apenas a pluralidade, mas a alteridade radical que muitas vezes é trazida à tona por testemunhos.
Não se está falando do desacordo entre opositores, tampouco da diversidade argumentativa de adversários políticos, mas da confrontação entre uma ordem política e seu excedente, do caráter inerradicável da diversidade e do antagonismo que toda realidade política comporta. Trata-se, portanto, de vislumbrar a possibilidade de fundação de um terreno comum através de apelos agonísticos à solidariedade que, embora façam emergir esse conflito entre opostos, conservam o pluralismo e a diversidade de sujeitos, de lugares, de ações e de falas.
Na esteira desse modelo, o apelo à solidariedade agonística, em vez de negligenciar ou minimizar o papel da emoção e das paixões, atribui a ele um lugar decisivo como precondição da solidariedade. Isso porque, na formulação de Mouffe (2005), a política, sob o prisma do agonismo, não visa à eliminação das paixões, como se sua presença constituísse uma ameaça à racionalidade, ou mesmo como se fosse possível eliminar completamente as paixões do jogo político. O objetivo, segundo a filósofa, é "mobilizar tais paixões em prol dos desígnios democráticos" (MOUFFE, 2005, p. 21). As paixões atuam como mecanismos capazes de estimular expressões sobre o que está, de fato, em conflito. É nesse sentido que, para Chouliaraki (2013), a evocação da empatia através da comunicação do sofrimento instaura não apenas um apelo emocional, mas uma possibilidade de identificação entre quem assiste e quem sofre, mas uma identificação apesar da diferença insuperável no interior de qualquer "nós" que seja configurado, em substituição ao par "nós-eles".
Não obstante a suspeita de H. Arendt em relação às emoções implicadas nas retóricas do sofrimento, Chouliaraki (2013) reconhece na empatia como parte da encenação que permite o encontro com o sofrimento alheio uma dimensão importante da solidariedade agonística. Para a autora, a evocação da empatia através da inclusão da voz do sofredor como ator das próprias histórias de sofrimento permite, em primeiro lugar, que esses sujeitos sejam vistos como "alguém que fala e age em seu próprio contexto, esforçando-se para fazer a diferença mesmo sob restrições sistemáticas da injustiça" (CHOULIARAKI, 2013, p. 193, tradução nossa)31. Em segundo lugar, a inclusão do outro sofredor nessas condições negociadas permite que esses sujeitos apareçam em situações difíceis, as quais, no entanto, provocam a empatia.
31
someone who is seen to speak and act in her/his own context, striving to make a difference under systemic constraints of injustice.
A inscrição das falas e corpos desses sujeitos como atores capazes de protagonizar a própria história, embora seja capaz de inspirar a empatia, não lhes assegura, a priori, a proteção em relação aos sentimentalismos da piedade ou à instrumentalização mercadológica do sofrimento. Garante-lhes, no entanto, um espaço legítimo de aparição, no qual emergem como sujeitos dotados de fala e capazes de reagir frente às condições que se impõem. Para Chouliaraki (2013), esse tipo de configuração das narrativas de sofrimento desloca o espectador como único polo ativo da relação com aquele que atravessa as provações e presta depoimento sobre essas experiências. Esses deslocamentos dos sujeitos sofredores e dos espectadores são, para a autora, ainda insuficientes para instaurar formas de solidariedade ancoradas numa moralidade altruísta.
Uma espécie de par-oposto do sentimentalismo empático é, para Chouliaraki (2013), o juízo subjacente às formas agonísticas de solidariedade. Esse juízo
se refere à força do espetáculo para estabelecer uma distância contemplativa entre aqueles que assistem e aqueles que sofrem, suscitando a questão do porquê, em um duplo sentido: por que esse sofrimento é importante e o que há a ser feito sobre isso, mas também por que o sofrimento, como um sintoma da injustiça, é perpetuado e o que pode ser feito para mudar suas condições de existência. (CHOULIARAKI, 2013, p. 192, tradução nossa, grifos da autora)32
Contra as generalizações que podem ser feitas a respeito do sofrimento, como uma questão de injustiça global, ou como a reivindicação de um clamor universal por solidariedade, a autora reconhece na abertura da comunicação da solidariedade à reflexão uma dimensão crucial da solidariedade agonística. Trata-se, em suma, de singularizar cada situação ou narrativa de sofrimento, abrindo mais espaços para perguntas do que para respostas prontas sobre as razões e soluções para o sofrimento do outro. Chouliaraki (2013) aposta no julgamento como contrapeso à importância da empatia para a evocação de uma forma de solidariedade politicamente engajada para com o outro sofredor. Por engajamento entendemos não apenas a disposição a agir à distância e de maneira isolada, a exemplo das doações on- line, formas das mais comuns de humanitarismo.
Segundo Chouliaraki (2013), a força do par empatia-julgamento, na comunicação do sofrimento, reside em sua capacidade de fundar um espaço de aparência no qual espectadores e sujeitos sofredores emergem em posições instáveis. Esse espaço deve ser capaz não apenas de permitir uma identificação entre esses polos, mas de mostrar que os sujeitos vulneráveis
32
refers to the force of the spectacle to establish a contemplative distance between those who watch and those who suffer, raising the question of why, in a dual sense: why this suffering is important and what there is to do about it but also why suffering, as a symptom of injustice, is perpetuated and what can be done to change is conditions of existence.
são também dotados de voz e de ação, evidenciando sua capacidade de responder às situações de sofrimento (ainda que essa seja uma sobrevivência apesar de, precária, frágil). Esse cenário, para a autora, fornece as condições para que os próprios espectadores se imaginem como atores igualmente capazes de responder ao apelo à solidariedade.
Toda essa relativização do desfecho potencialmente político de determinadas formas de apelo agonístico à solidariedade leva Chouliaraki (2013) a um retorno às vantagens do debate político como fenômeno capaz de mobilizar coletividades para a constituição e defesa de uma causa comum. "As performances do agonismo são, nesse sentido, não apenas sobre o juízo empático, mas também sobre o debate público" (CHOULIARAKI, 2013, p. 197, tradução nossa)33. Para a autora, a efetividade do apelo solidário também depende do exercício da cidadania num sentido argumentativo, de sorte que o sofrimento seja atenuado, mas também e principalmente tenha suas condições de existência postas em questão.