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Todo esse percurso a respeito dos regimes televisivos do ver, do dizer, assim como do ouvir e do mostrar nos leva a pelo menos dois conjuntos de categorias observáveis nas narrativas televisivas jornalísticas sobre o uso radical do crack - reunidas à luz do problema que guia esta investigação. Parece-nos comprovada a centralidade das corporeidades (1) para esse movimento analítico considerando ao menos três justificativas: em primeiro lugar, para compreendermos o fenômeno do testemunho midiático. Como vimos em nosso primeiro capítulo, a presença do corpo constitui uma notável evidência do apelo testemunhal, por

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A moral community built upon non-reciprocity and the aggregation of transient strangers is still a community only for those who have been recognized as strangers – however briefly (civil inattention) – and whose faces appear to its members on their television screens and can be ignored.

carregar consigo marcas visíveis da experiência, o que atua, em primeira instância, como princípio de atestação do depoimento (PETERS, 2009a). No entanto, gostaríamos de reivindicar ao corpo um lugar mais proeminente do que o de mero elemento da retórica testemunhal.

A inscrição dos corpos nessas narrativas telejornalísticas é, de algum modo, complementar ao sentido de "ter estado lá", no limite da realização do "ser-em-comum" instaurado pela co-presença entre aqueles que assistem e aqueles que prestam testemunho. Assim, chegamos à segunda parte do argumento em favor do exame das corporeidades implicadas no testemunho midiático: o testemunho encarnado de experiências de sofrimento possui uma relevância afetiva, como afirma Tait (2011). A presença dos corpos na cena do acontecimento fornece as condições para que haja um apelo moral a quem essas imagens e narrativas se dirigem, o que conduz essa inscrição ao moral point do testemunho midiático, no que diz respeito à problemática do encontro com o outro e das possibilidades políticas desse fenômeno.

Tanto o caráter testemunhal da aparição dos corpos quanto sua relevância para uma analítica do apelo moral nos levam à terceira justificativa da adoção das corporeidades como eixo analítico: o lugar do corpo na própria espectatorialidade televisiva. A despeito da histórica descrença na relação do espectador de tevê com esse dispositivo, estamos convencidos de que essa modalidade de interação depende das conexões entre o corpo do espectador e as situações de realização do jogo, da interlocução. E que esse jogo se realiza entre os corpos da tela e os corpos diante da tela, no limite de um espaço imaginário partilhado graças à função fática que orienta a performance dos organizadores da interação com a tevê, aqueles que habitam o centro da arquitetura de vozes. Essa relação possível entre corpos, no entanto, revela-se, ao mesmo tempo, agregadora e assimétrica, por estabelecer uma proximidade simultânea a uma distância segura entre esses corpos (FROSH, 2011), o que revela-se no mínimo problemático do ponto de vista político da espectatorialidade televisiva do sofrimento.

Nessa inclinação analítica em direção à corporeidade, há dois aspectos centrais que devem orientar, a título de subcategorias, o exame das narrativas que reuniremos a pretexto da observação dos testemunhos do sofrimento. O primeiro deles, mais evidente, é o próprio lugar do corpo (1.1) como parte de uma inscrição narrativa: reveladora dos efeitos dos contextos de sofrimento ("a dor sentida na pele"); constituinte de um apelo emocional ("o corpo que interpela e incomoda"); e organizadora de uma relação ("a interação entre o corpo na tela e o corpo diante da tela"). O segundo termo dessa problemática é coerente ao lugar no corpo, mas

trata especificamente do lugar dos rostos (1.2) como espécie de topos de certa iconografia do sofrimento, mas também como elemento intrínseco às próprias operações narrativas da televisão.

A presença dos rostos na televisão continua sendo um dispositivo imagético central, senão dominante, ao longo da história, sobrevivendo inclusive às contínuas transformações das práticas e processos técnicos televisuais (FROSH, 2009b). O rosto constitui uma tópica visual proeminente dos estudos de cinema e fotografia. A inscrição visual dos rostos e fisionomias há muito se tornou tema para teóricos de ambas as frentes de pesquisa. Nos estudos de televisão, esse problema aparece à luz das implicações semiodiscursivas do primeiro plano. Mas o que nos interessa é empreender uma abordagem do rosto como parte da problemática concernente à inscrição narrativa dos depoimentos e dos corpos daqueles que prestam testemunho diante da câmera.

Além do caráter encarnado do testemunho enquadrado em primeiro plano, correlativo à asserção de verdade, trata-se de considerar essa forma de exposição dos sujeitos na televisão como recurso expressivo voltado à captura das singularidades dos indivíduos, principalmente através do apelo intimista ao sofrimento do outro. O rosto, na televisão, “pertence e fala por uma pessoa específica e, também, fala por outros similares, por comunidades sociais ou experimentais” (FROSH, 2009b, p. 93, tradução nossa)38. Tornados emblemáticos, esses rostos inscritos nas narrativas televisivas são, a um só tempo, particulares e genéricos, singulares e exemplares.

O cerne da preocupação com a exposição dos rostos nos regimes de visibilidade e dizibilidade da televisão advém de um plano de fundo político a partir do qual observamos traços e tensões dos processos midiáticos de captura dessas imagens e falas do outro. Agamben (2015) chama atenção para um contexto no qual todos nós estaríamos sujeitos à disputa midiática pela verdade tributária dessa exposição ostensiva dos rostos. Trata-se de uma "guerra" na qual esses “objetos” são desejados como valiosos produtos a serem mobilizados no jogo estético e político da gestão das imagens dos outros. Pode-se dizer, para além de Agamben, que, nessa guerra, o jogo estético e político da gestão das imagens é também um jogo discursivo regulador dos corpos, mas também das falas desses outros.

Com isso chegamos à nossa segunda categoria analítica, relativa à fala das testemunhas (2). A abordagem das potencialidades do testemunho esteada na teoria política de Rancière joga ênfase nos limites impostos à comunicabilidade da experiência daqueles que

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it belongs to and speaks for a specific person, and yet, it also speaks for similar others, for social or experiential communities.

têm a fala excluída das formas autorizadas de discurso (MARQUES, 2011). Limites esses instaurados pela própria ordem policial, cujo estabelecimento depende da pressuposição de igualdade entre os membros da comunidade. Por outro lado, o testemunho parece inverter essa fórmula quando traz à tona certas falas desejadas pela ordem de discurso midiática. Essa constatação nos leva à indagação que orientou o argumento levado adiante no primeiro capítulo: esses testemunhos midiáticos configuram-se como ruídos emitidos por seres dos quais só se espera ruídos ou como falas possíveis de serem ouvidas?

Uma vez colocada contra a percepção apriorística dos sujeitos do conflito político e da própria cena na qual a política toma a forma de uma verificação da igualdade, a reflexão de Rancière nos levaria a questionar, por exemplo, qualquer percepção sobre a existência de falas prontas no âmbito do fenômeno político. Isto é, referimo-nos menos ao barulho das vozes que preenchem os espaços previamente determinados da ordem policial e mais à construção de falas que constituem o próprio contexto, a inscrições enunciativas que estabelecem novas formas de ocupação do sensível e de dar sentido a essa ocupação. Diante desse problema teórico, mas com claras consequências analíticas, buscaremos observar essas falas que parecem colocar em conflito as ordens policial e política à luz do conceito de lugar de fala (2.1), que nos servirá como subcategoria analítica.

A premissa desse conceito, segundo Braga (2000), é a de que toda fala, realizada sob formas e manifestações discursivas e textuais diversas, produz sentidos segundo sua inserção em determinada situação e contexto histórico. Essa abordagem das falas nos previne, em primeiro lugar, da reificação das falas como realizações meramente textuais, negligenciando sua dimensão de ação socialmente, espacial e temporalmente situada. Ao considerar essa dimensão prática, essa perspectiva nos permite ir além da própria situação ou contexto como algo dado. Leva-nos a percebê-la como "esforço de ação e construção sobre esse contexto" (BRAGA, 2000, p. 169). Em resumo, considera-se o lugar de fala como a própria manifestação de uma tomada de posição, no limite da revelação de uma fala tornada possível, ou mantida impossível.

Na prática, ao nos referirmos aos lugares de fala, também descemos a um nível elementar do fenômeno do testemunho, que é o próprio depoimento, a fala da testemunha (2.2). A questão, no entanto, permanece problemática na medida em que tensionamos essa subcategoria para que nos forneça as condições de análise não apenas das falas esperadas, roteirizadas, mas das falas que, possivelmente, penetrem esses roteiros, ou ao menos revelem- se capazes de construir as próprias condições de realização, ponham-se contra as previsões que recaiam sobre si e sejam capazes de, na comunicação do sofrimento, intervirem na ordem

do sensível e renovarem o sentido dessa ocupação. À pergunta "de onde vem essa fala" corresponde uma outra, que talvez lhe seja anterior: "que fala é esta?".

Devemos, no entanto, ampliar tanto a subcategoria da fala da testemunha quanto a da construção dos lugares de fala até o ponto em que possam abranger não apenas as vozes que, em determinada ordem sensível, ainda não se realizaram ou são ouvidas como falas, mas também as falas próprias dessa ordem discursiva. Parece-nos que a própria construção dos lugares de fala das testemunhas do sofrimento pressuponha a observação dos lugares de fala daqueles que regulam a aparição dessas manifestações, que também são testemunhas e, em certas narrativas, inscrevem-se nas próprias cenas de sofrimento. Se considerarmos que a própria televisão, em especial as narrativas televisivas jornalísticas, funciona segundo uma arquitetura de vozes cuja operação depende da delegação da fala, será preciso, então, ampliar o escopo dessa categoria, de maneira a contemplar todo o circuito de falas, próprias ou impróprias, para usarmos os termos daquela abordagem da política.

Interessa-nos, portanto, e a título de síntese, examinar o regime de visibilidade e dizibilidade da televisão, a partir de narrativas jornalísticas específicas, em busca dessas manifestações testemunhais do sofrimento. Consideramos como pressuposto, na construção dos operadores mobilizados para esse exercício analítico, que o testemunho midiático interpõe tanto um problema para esse regime de dizibilidade - relativo à realização da fala como tal, e não como ruído, ensejando as operações de constituição de determinados lugares de fala - quanto questão ao regime de visibilidade, a pretexto das formas de aparição dos corpos e rostos como mecanismos de atestação, apelo emocional e vínculo intersubjetivo. À guisa de uma síntese, elaboramos o seguinte quadro analítico, que será complementado na seção seguinte, na qual serão explicitadas as categorias analíticas operacionalizadas a partir das especificidades do corpus empírico.

TABELA 1 - Categorias e subcategorias analíticas abalizadas pelo problema

Categorias Subcategorias

1. A centralidade das corporeidades

1.1 O lugar do corpo: a inscrição narrativa das corporalidades, voltada para evidenciar os efeitos das experiências de sofrimento, para produzir um apelo emocional, e enquanto elemento organizador da relação com outros corpos e com o espectador.

1.2 O lugar dos rostos: a exposição dos rostos enquanto recurso expressivo voltado à captura das singularidades dos indivíduos e ao apelo intimista ao sofrimento do outro.

2. A fala das testemunhas

2.1 O lugar de fala: formas e manifestações discursivas e textuais e a maneira como produzem sentido a partir de sua inserção em

determinada situação e contexto histórico, mas também sobre essa inserção.

2.2 A fala da testemunha: falas, depoimentos, declarações cuja estrutura e organização a definem como textos testemunhais capazes de problematizar e tensionar, de dentro, os regimes de dizibilidade televisivos.

Fonte: Desenvolvido pelo autor

Benzer Belgeler