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Exteriormente, o elemento que afirma mais o estilo na Igreja é o campanário, sobre a fachada porticada. Chamamos campanário porque se trata efectivamente de uma estrutura para sinos (do italiano campanile, para os sinos ou campane), sem relação directa com a estrutura porticada que o suporta, não se tratando por isso de uma torre- campanário. Apresenta uma planta exteriormente quadrada, quase rectangular, com quatro fogaréus, um em cada canto, havendo dos lados opostos, respectivamente a norte e a sul, pilastras de pedra serrada, uma em cada extremidade e quatro ao todo, rematadas com capitel de balaústre ao gosto do Renascimento português do século XVI. O interior é aproximadamente circular e o tecto semi-esférico. É rematada por um coruchéu de base octogonal e perfil contra-curvo, com fogaréu na extremidade.

Este campanário tem de ser entendido como uma memória, pelo menos, da igreja com torre central na fachada, desenhada cerca de 1509 por Duarte de Armas, com torre central na fachada. No entanto, como se verá noutro capítulo, supomos que ela tenha tido, na sua fundação, uma origem românica, de acordo com o modelo de igreja- fortaleza. Admitindo que houve obras em meados do século XVI, durante as quais se terá executado o pórtico em serliana, manteve-se um campanário no mesmo lugar, refeito mais tarde por Mateus Vicente de Oliveira quando da reconstrução. A torre foi assim remodelada várias vezes, conhecendo-se pelo menos duas versões: a representada em 1509 e a actual, correspondente à reconstrução após 1755. Se é evidente, pela sua definição formal, a intervenção setecentista, quem sabe se os cunhais de remate jónico, com capitéis de balaústre (semelhantes por exemplo aos da igreja de São João de Alfange em Santarém) claramente de outra época, não provêem de algum restauro subsequente ao grande terramoto de 1531? Penso ser mesmo admissível que a intervenção de Mateus Vicente de Oliveira no campanário se tenha verificado quase exclusivamente na abertura dos arcos para suspensão dos sinos e na execução do coruchéu contra-curvado do coroamento. A pedra usada é aliás do tipo calcário usado por toda a vila de Sintra a partir do reinado de D. João I, tendo sido as pilastras da fachada (que acompanham a altura da nave) subidas por Mateus Vicente de Oliveira,

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para dar maior segurança à abóbada. O actual frontão no vão central, que pensamos constituir também memória do frontão original, seria prolongado até aos cunhais na sua versão pré-terramoto, com uma ligação por meio de aletas. Durante as reconstruções era frequente conservarem-se memórias das edificações anteriores, neste caso o campanário, herança da torre-narthex da antiga torre fortaleza, e o frontão, talvez amputado lateralmente.

A relação entre o corpo da fachada e a nave indicia, além disso, um outro aspecto. O campanário pode ter sido o primeiro corpo concluído no processo da reconstrução, ainda antes do levantamento das paredes e telhado da nave. Senão, não faria sentido. que numa reconstrução de grande unidade estilística e rapidez de execução, se procedesse ao refazimento da torre, e deixar intencional, parcialmente obstruída pela estrutura do telhado, a abertura do campanário que está voltada para o telhado da abóbada da nave (a nascente). Considero que esse tenha sido um erro de projecção, revelador mais uma vez, da autonomia da fachada em relação ao resto do templo, ou vice-versa. No entanto, o limite superior da abóbada da nave encontra-se ao nível do pavimento do campanário, deixando supor a possibilidade de um telhado mais baixo, e com menos inclinação, que não obstruísse tanto o campanário.

Seja como for, e assumindo uma anterior configuração da fachada com frontão, os elementos mais recentes desta torre serão, assim, os arcos do campanário, com a já referida “assinatura” de Mateus Vivente de Oliveira, bem como o remate da torre, de perfil bulboso contra-curvado, que terá seguido o modelo da cúpula da capela do Palácio de Queluz, mas agora de base octogonal, e com quatro urnas-fogaréu.

A Igreja de São Martinho surpreende também pela dimensão da abóbada da nave, em arco abatido de desenho comum (esquemas das Figs.251 e 252) e pela reduzida dimensão das paredes, que variam entre 1,10 m. do lado do Evangelho e 1m. do lado da Epístola (medições nas únicas portas de cada lado, simétricas). O que se explica pelo facto da abóbada ser uma estrutura leve, na medida em que é constituída por tabique (ripado de madeira com cerca de 1 cm. de espessura, com enchimento de gesso). Não seria desejável uma abóbada de madeira, como nunca foram desejáveis as estruturas de madeira nas igrejas, por vários motivos, sobretudo o risco de incêndio. A arquitectura religiosa evoluiu sempre no sentido da substituição das coberturas de madeira por coberturas abobadadas de alvenaria, embora isso nem sempre tenha sido possível devido

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à necessidade de contenção de custos. Mesmo a igreja de São Martinho, onde esse motivo chegou a ser explicitado em documentos, acabou por ter uma abóbada de madeira, solução decidida logo antes do início da reconstrução, pois não nos parece possível que paredes com 1m de espessura pudessem suportar o peso de uma abóbada de alvenaria com 9m de vão. Pelo tipo de coberturas da igreja e pelo depoimento do arquitecto Mateus Vicente, quando a visitou a 29 de Julho de 1764 (Documento nº 4 do Anexo Documental), considerando as paredes pouco espessas e sem segurança, percebe-se a opção pelas coberturas de madeira, mais leves, mais baratas, e (embora isso não seja dito), mais seguras no caso de réplicas do Terramoto, porque mais dúcteis. Ainda que se tenham encontrado elementos de arquitectura nas alvenarias, comprovando a total reedificação do templo, acredito que, até certo ponto, se aproveitaram as fundações da antiga construção, mantendo desse modo a mesma espessura das paredes. Nesta medida se explica a possibilidade da Igreja de São Martinho ter assumido o modelo de uma igreja paroquial característica do século XV, com as três naves com cobertura leve de madeira, e não, embora estruturalmente isso fosse possível, de uma paroquial do século XVII, de nave única, com cobertura leve em tecto de masseira ou em abóbada de volta inteira de madeira. Isto porque, além de não haver quaisquer vestígios seiscentistas, tudo aponta para que a intervenção anterior tenha decorrido na segunda metade do século XVI, exclusivamente ao nível fachada, não se colocando a hipótese de a modificar segundo das igrejas salão quinhentistas. Além da abóbada abatida da nave, existem outras três abóbadas na Igreja, em forma de berço, a primeira das quais no coro alto, que estando sobre o último andar da torre, o do campanário, deverá ser de alvenaria, a segunda na capela-mor, que, tal como a da nave, é de tabique, o que é visível na parte posterior do retábulo-mor, no acesso ao camarim. Além disso, a parede poligonal não lhe serve de suporte, como se observa na parte posterior do retábulo. A abóbada da capela-mor está assente sobre as paredes laterais e construída entre o arco da ousía e o retábulo-mor. Na parte posterior deste, a planta é poligonal, dispondo-se ali a escada de acesso ao trono para colocação do Santíssimo Sacramento, sendo a cobertura em telha-vã.

A terceira abóbada é a da Capela dos Passos, a segunda a partir do arco da ousía, e do lado do Evangelho. Esta abóbada é claramente em tabique, na medida em que as paredes desta capela terão cerca de quinze centímetros, e devido à dimensão, funciona,

49 lato senso, quase como uma maqueta das duas abóbadas referidas anteriormente. Ocupa parte do espaço de uma sala, contígua à sacristia, para a qual tanto esta como a capela têm uma porta de acesso, que permite observar a espessura da parede.

As duas referidas salas, uma correspondente à sacristia, e outra que serve de corredor, são paralelas à nave, do lado norte, o do Evangelho, o lado onde geralmente de situa o espaço destinado à sacristia, enquadrada à mão direita do altar-mor. A estas salas, pavimentadas com lages (que pelo tipo de envelhecimento parecem reaproveitadas da igreja anterior ao terramoto) algumas das quais correspondentes a sepulturas, correspondem outras duas na parte superior da igreja, perfazendo um corpo anexo a esta com quatro salas. Numa delas está hoje instalado o núcleo de Arte Sacra. A cobertura das salas de baixo será de barrotes de madeira, com forro de madeira, e das salas de cima, é de telha-vã de uma água e tecto com forro de madeira.