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Embora o Românico não esteja hoje presente, de forma evidente, em nenhuma estrutura da igreja, afirmando-se formalmente por escassos elementos de arquitectura, vale a pena referir alguns apontamentos sobre três dos cinco capitéis românicos que foram retirados da igreja, em 1989, para o Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (Fig.206). Como iremos ver pela análise estilística dos capitéis de São Martinho, existem analogias em relação à produção de Lisboa, e houve uma fábrica contemporânea e comum com Lisboa. Se a escola de mestres escultores e construtores foi a mesma, tal reforça a ideia de que desde a sua fundação tenha havido uma fachada com torre-nathex. Manuel Luís Real escreveu sobre dois capitéis românicos muito semelhantes aos de Sintra, da colecção do Museu Arqueológico do Carmo de Lisboa e a sua relação com o Românico da Estremadura portuguesa. Cabe aqui incluir alguns dados, não só na medida em que Sintra se situa nessa região, como pelo facto de se conservarem três capitéis românicos de São Martinho de Sintra no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, e a semelhança de um dos capitéis dessa igreja com um dos existentes naquele museu. Diz- nos Manuel Luís Real:

«A Sé de Lisboa controlou um território que do ponto de vista artístico do Românico, tem originalidade e homogeneidade. Após a conquista de Lisboa e Santarém, essa zona foi rapidamente coberta por uma rede de igrejas, o que interessava devido à necessidade de conversão dos povos islâmicos. Contavam-se 58 templos na “Inquirição” sobre os bens das ordens e igrejas de Lisboa e seu termo, provavelmente do reinado de D. Sancho II (1223-1245), no quadrado delimitado pelo Tejo, o Cabo Carvoeiro e o Cabo Raso98. (…) Nessa Inquirição se dá conta serem, além de Lisboa, Sintra e Torres Vedras os pólos mais importantes»99.

Relativamente aos objectos que Manuel Luís Real estuda, diz-nos que:

«A semelhança entre os dois capitéis de Sintra no Museu do Carmo atestam terem pertencido ao mesmo portal e em posição fronteira um ao outro. Já eram referidos no catálogo do museu de 1892, que informa terem sido encontrados num estábulo de Sintra, pelo arquitecto. J.da Silva».

98 Real, 1983-1983, p.530.

99

Estes capitéis têm semelhanças com capitéis de São Pedro de Leiria e com os do lado direito do portal norte da Sé de Lisboa, seguindo um esquema originário da Sé Velha de Coimbra. Nas palavras de Manuel Real:

«(...) o motivo vegetal desenvolve-se a partir de dois pés equidestantes, donde diverge um par de hastes, as quais se vão tocar de novo no ângulo superior da corbelha cesto do capitél. Aqui dobram-se, dando origem a um tufo de folhas. No seu movimento ascendente, as hastes da face principal tocam-se e surgem ligadas por uma presilha ou, mesmo, entrelaço. No presente caso, dos tufos de folhagem nascem ainda os rebentos de novas hastes que se atravessam por baixo das anteriores, vindo morrer junto ao colarinho. Esta derivação vamos também encontrá-la na Sé Velha, num dos capitéis da galeria exterior da torre lanterna. A firmeza do desenho e a robustez dos motivos não deixam dúvidas sobre a fonte original de inspiração, no entanto, estamos em crer que a chegada do modelo a Sintra se terá processado por via indirecta, cedendo já a novos conceitos estéticos».

Além desta poder ser a genealogia100 de um dos capitéis românicos de São Martinho, Manuel Luís Real refere ainda que:

«(...) uma das características que progressivamente vai distinguir os capitéis meridionais é a tranformação das proporções da corbelha, cada vez mais esguia. Ao mesmo tempo, os ramos e as folhas tornam-se frágeis».

É precisamente esta tendência que se verifica em dois dos capitéis onde se cruzam elementos vegetalistas, num dos quais quase parecem fitas, e que assumem corbelhas bastante esguias. Por essa forma geral comum e pela dimensão idêntica, ponho a hipótese que sejam o par de uma mesma porta. Manuel Luís Real continua, afirmando que também progressivamente:

«(...) os ramos e as folhas tornam-se frágeis. Este refinamento plástico deriva, em parte, da metamorfose sofrida pela flora coimbrã ao contactar com o “atelier” da catedral de Lisboa. É uma evolução favorecida pela tendência local para o arabesco como atesta o capitel de Chelas».

O aspecto de Manuel Real considera mais importante da escultura vegetalista do românico lisboeta, reside nos

«(...) acantos “digitados” em forma de dedos que se espalmam no capitel, ou aparecem a envolver outros motivos».

Este motivo aparece num dos capitéis do par referido acima. Segundo o mesmo autor:

100 «(...) a origem destes acantos recortados é-nos sugerida por um interessantíssimo capitel românico, vindo com toda a probabilidade de Chelas, e que até hoje tem passado despercebido no Museu Nacional de Arqueologia. Ele evidencia uma nítida influência da arte almorávida, não só por uma profusa utilização do trépano, à semelhança dos capitéis de favos, mas também pelos nódulos que desabrocham ao centro e aos cantos da corbelha. O desenho adquire maior clareza – outrora contrariada pela tendência exclusivamente decorativista da escultura muçulmana – e as folhas espreaiam-se através da ramificação exagerada do limbo. O motivo central, com um cacho duro envolvido por folhas delgadas e de perfil assimétrico, parece ser trazido de Coimbra, embora a sua miniaturização possa considerar-se uma característica meridional».

Relativamente à alusão aos capitéis de favos, é de salientar a existência de um capitel desse modelo, embora de um tipo, talvez particular, pouco escavado.

Por outro lado, o autor justifica também a razão dos capitéis se tornarem progressivamente mais esguios, relacionada

«(...) sobretudo com a penetração de um novo sentimento estético, que irá culminar na arte gótica. Para isso terão contribuído múltiplos factores. Entre eles, não será descabido pensar numa certa influência exercida pelos “scriptoria” conventuais. Esta é uma época de intenso labor na cópia e iluminação de manuscritos e as obras mais importantes datam precisamente a partir dos anos oitenta, quando o Pomânico coimbrão acabava de esgotar todo o seu poder criador. (…) adivinha- se já uma tendência para as figuras esguias e para uma flora onde o efeito da ramagem começa a dominar , em detrimento das folhas. Estas tornam-se mais pequenas e dobram-se como se fossem cálices floridos. Tais desenhos acabam por contaminar a própria escultura monumental, como pode verificar-se nos capitéis do pórtico da Sé de Lisboa»101.

Manuel Real refere ainda outra tendência, talvez associável a um dos quatro capitéis românicos da Igreja de São Martinho:

«(...) renovada nesta época pela mão dos cistercienses, a qual reduz o capitel à sua estrutura mais simples. A corbelha aparece envolvida por grandes folhas, que lhe acentuam a função estática, como suporte. Os limbos são simples ou, quando muito, sobrepostos».

Por outro lado, tendem a eliminar todos os restantes elementos decorativos, inclusive as volutas, que são substituídas por uma orla sinuosa na parte superior. Este tipo de folhas vemo-lo frequentemente na Sé de Lisboa e volta a encontrar-se sob o arco triunfal da arruinada igreja de São Pedro de Sintra, no castelo dos Mouros.

101 Id. 536 e 537.

101

O autor avalia os paralelismos de Sintra102 com os dos dois portais românicos da igreja de Santa Maria do Castelo, de Torres Vedras, em cujo portal sul existe um importante elemento para a cronologia deste grupo de igrejas. Está bastante gasta, mas lê-se na inscrição “m c c x’v “, pelo que o portal construído antes de 1207, e por isso, em consonância com a cronologia de São Pedro de Leiria, já referida na Inquirição de 1200- 1201.

Também aqui existe um capitel análogo103, com influência meridional, caracterizado por acantos digitados e um nódulo central, formado pelo cacho redondo envolvido em pequenas folhas. Outros capiteís comparáveis são o do arco da ousía da igreja de São João de Alfange de Santarém. Filiavel na escola lisbonense, nas palavras de Real:

«(...) o esquema é dos mais correntes, com as características folhas espalmadas, a partir do colarinho, e os enrolamentos folicolares junto ao ábaco. O modelado é muito mais duro que o das obras coimbrãs, o que se compreende, dada a proximidade geográfica com Lisboa e a fácil ligação entre as duas cidades, tanto por via fluvial, como através da antiga estrada romana»104.

Real também refere que em meados do século XIII há um regresso à geometrização do século XII105, o que nos pode ajudar a compreender os capitéis de São Martinho de Sintra, onde efectivamente existe essa tendência, já anunciada na charola de Tomar. Começara, aliás, a estar patente nos capitéis de São Tomé de Soure, classificados do período de D. Sancho II. Enquanto no sul ele se vai desenvolver com fluidez, nos arredores de Coimbra torna-se rígido e formal. A par desta evolução para uma arte cada vez mais abstracta, a igreja de São Tomé tem o particular interesse de mostrar como, depois de 1180, se acabam por reunir num mesmo programa as fórmulas “beneditina” e “catedralícia” do Românico da cidade. Parece ser neste espírito de geometrização que se integra o capitel mais sintético de São Martinho de Sintra, por sinal, o primeiro que foi aqui referido.

Descontextualizados da sua localização original, estes capitéis são apenas uma testemunha do primeiro templo, que, por analogia, pensamos ter sido construído no

102 Id., p. 539.

103 Id., p. 540. 104 Id., p. 542. 105 Id., p. 548.

102

período em que a fábrica catedralícia de Lisboa era a grande escola. Poderíamos ter insistido neste ponto e tentado balizar a data extrema superior para apurar a sua cronologia, pelo menos correspondente à empreitada, já possivelmente em ambiente gótico. Mas tal preciosismo já não é do âmbito da presente dissertação, e assim se constatou, mais uma vez, a importância que Sintra teve na arte românica portuguesa, acompanhando a vaga construtiva dos primeiros templos cristãos do Portugal reconquistado, em particular, sob a influência formal de Lisboa.