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Durante minha convivência na orquestra, surgiu a informação de que estava aberto na UFPB o edital de seleção para o mestrado em Práticas Interpretativas na Subárea Violino. Procurei detalhes a respeito do perfil do programa, inscrevi-me, preparei-me e fui aprovado na seleção.

No período do mestrado, além de escrever uma dissertação, foi necessário para obtenção do título executar um recital com peças de períodos contrastantes. Essa experiência do recital aumentou o volume de meu capital cultural em grande medida e, após a conclusão desse processo, em 2008, tornei-me o único violinista com mestrado na cidade de Fortaleza. Assim, é possível expressar o fato de que, em minha trajetória, eu adquiri um habitus violinístico. Essa aquisição fica evidente com base nos marcadores, como diplomas (graduação e mestrado), instrumento musical (violino), livros, a escrita de minha dissertação, publicações, participações em eventos etc. Essa legitimação ensejou-me a concorrer a uma vaga em concurso para a docência do ensino superior. O concurso faz parte das regras estabelecidas para o ingresso no campo acadêmico.

No quarto capítulo deste trabalho, apresento um panorama do processo de aquisição de saberes e vivências que me habilitaram a concorrer à vaga, no setor de cordas friccionadas, para professor do curso de licenciatura em Música da UFCA. Perpassei por diversos espaços sociais que me conduziram à aquisição de um determinado capital cultural que me legitimou a ocupar a função de docente no campo do ensino superior em Música.

4 TERCEIRO MOVIMENTO: HABITUS DOCENTE

Neste seguimento, descrevo a constituição do campo pedagógico musical da UFCA, explicitando minha posição ali como docente da prática instrumental do violino.

A UFCA emergiu na região do Cariri no ano de 2006 como um campus da UFC. O curso de Música (licenciatura) surgiu no ano de 2010 com o objetivo de preparar professores de música para atuação em diversos espaços. Em 2013, o campus Cariri transformou-se em universidade. A criação do curso surgiu na época em que o ensino de Música nas escolas tornou-se obrigatório por meio da Lei nº 11.769, sancionada em 18 de agosto de 2008. Logo, intensificou-se, ainda mais, a necessidade de novos professores de Música para atender às escolas de ensino público.

Antes de 2010, as pessoas que habitassem o Cariri cearense e que quisessem conquistar um diploma de graduação em Música necessitavam deslocar-se para outros centros, como Fortaleza, Recife, Natal ou João Pessoa, entre outros. Essas cidades citadas estão a uma distância média de 600 quilômetros do triângulo Crajubar, que envolve três cidades dessa região: Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

A região do Cariri foi contemplada com cenário de grande beleza, clima privilegiado e riqueza cultural que aos poucos vai sendo descoberta pelo olhar do pesquisador atento. Essa diversidade cultural que a região propicia é descrita no Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Licenciatura em Música da UFC como

[...] ímpar, complexa e de alto teor expressivo, comunicador da capacidade inteligente do homem e da mulher desta Região, da capacidade expressiva e do imaginário desse homem e dessa mulher, através de fatos, obras e objetos de significados estéticos tão próprios de si, que se particularizaram como identificadores do pensamento cultural regional (UFCA, 2014, p. 5).

Na música, tal expressão cultural de um povo simples manifesta-se de variadas maneiras, algumas demonstrando o espaço peculiar da crença e da religião, por meio dos reisados, das festas de padroeiros e de outras manifestações da fé; outras são expressas nas danças, nas bandas cabaçais, nas excelenças, na simplicidade do instrumental próprio, nas rabecas, nos pífaros, nos zabumbas e ainda nos cantadores, nos poetas, nos emboladores, nos repentistas, nas cantigas de procissões e de penitentes, nas festas e nos festivais, onde a cultura de uma gente se manifesta e é inventada, como bem expressa o mesmo PPC:

Um todo, fruto dos entrelaçamentos gestados nos tecidos sociais historicamente localizados, com origens que remontam ao pensamento medieval europeu, aos sentidos de “tempo não medido” da África e aos sentimentos e história dos indígenas, habitantes originais da Região (UFCA, 2014, p. 6).

Há, contudo, em meio a essa mistura cultural, a introdução de outros elementos culturais oriundos de outra tradição cultural, mas que também se exprimem “voltados para a formação humana marco de possibilidades ampliadas de crescimento e expressão de desejo” (UFC, 2009, p. 7). Refiro-me aos grupos orquestrais que têm perpassado pela cultura nativa, buscando estabelecer-se como parte dela. A exemplo disso, cito os trabalhos realizados na região, como: a Orquestra Filarmônica Chapada do Araripe, a Orquestra de Meninos (Araripe), o Projeto Casa Grande (Nova Olinda) e a Sociedade Lírica do Belmonte, que abriga uma escola de música, uma orquestra filarmônica, uma banda de música, uma orquestra de cordas, entre outros equipamentos.

O deslocamento implicaria despesas financeiras para os pretendentes em adquirir uma certificação (legitimação) na área da Música. Existe, na região, um determinado desenvolvimento econômico. E antes do surgimento do curso de Música, existia a necessidade de uma instituição formativa de nível superior que qualificasse os instrumentistas, cantores, compositores, regentes e até mesmo aqueles sem conhecimento prévio para a docência em Música. O ensino de Música no Cariri, do ponto de vista formal, ainda é restrito. De acordo com o PPC do curso de Música,

As diversas ações pedagógicas na área de música que ocorreram e ocorrem no Cariri, como a escola de música SOLIBEL (Sociedade Lírica Belmonte) e a banda de música municipal localizados em Crato, a Fundação Casa Grande em Nova Olinda, a Orquestra de Rabecas em Juazeiro do Norte, são iniciativas que estão diretamente ligadas à cena artística caririense que têm, em boa medida, impacto direto na difusão da educação musical na região. Um projeto pedagógico que englobe todas essas e outras ações poderá gerar diversos benefícios, tais como: o fomento à pesquisa em educação musical, o incentivo ao ingresso no curso superior de música (fortalecendo a área e formando profissionais qualificados e críticos), o incentivo aos jovens que pretendem seguir a carreira do magistério, a integração dessas ações formando redes de capilaridades capazes de dar vazão à produção local e garantir o ensino de música público, gratuito e de qualidade. Além dos benefícios citados, é importante mencionar que o Curso de Licenciatura em Música é uma exigência legal, amparada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, LDB 9.394/96. O referido curso se faz necessário na região do Cariri para suprir as necessidades na formação de professores para atuarem na Educação Básica (UFCA, 2014, p. 7).

Desse modo, o curso de Música emerge na região do Cariri com a missão de preparar professores para atuarem na docência do ensino musical, difundindo essa área de

estudos em diversos ambientes – formais, informais, entre outros. Assim, com o surgimento do curso, a UFCA trouxe a possibilidade de certificação para os alunos do Cariri por meio de suas experiências na graduação, oportunizando aos discentes a permanência em suas cidades de origem.

Para que o curso funcionasse, após sua legalização no Ministério da Educação (MEC), foi necessária a contratação de professores que atendessem à necessidade do curso. Nesse sentido, diversos profissionais do ensino de Música foram reunidos no Cariri via concurso público. Eles reúnem entre si relações sociais dentro de um campo, o ensino de Música. Essa compreensão de campo como espaço de múltiplas relações é explicitada por Bourdieu (2003, p. 10), ao ensinar que campo é

O universo no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência. Esse universo é um mundo social como os outros, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas.

Assim, ao reunir os professores (agentes), com seus capitais sociais e culturais adquiridos em suas trajetórias, em uma instituição de ensino superior, considerando também os caminhos para a legalização do curso no MEC, o campo do ensino de Música foi estabelecido. Este, no Cariri, é relativamente autônomo, pois não depende de outros para estabelecer suas leis, ou seja: criação/modificação do PPC, criação de disciplinas, definição do perfil de uma área de estudos quando houver necessidade de concurso para professor, metodologias de ensino, modos de analisar os alunos, entre outros aspectos.

É importante destacar que o surgimento do curso de Música da UFCA aconteceu juntamente com a criação do curso de Música da UFC em Fortaleza. Os agentes (professores da UFC) que transitavam no campo acadêmico da UFC influenciaram significativamente para que os setores específicos da universidade solicitassem ao MEC a criação de um novo curso de Música, dessa vez no Cariri cearense. Entre os que desenvolveram a ideia de uma nova graduação, destaco os seguintes professores: Izaíra Silvino, Luiz Botelho Albuquerque, Elvis Matos e Erwin Schrader.

Essa região não possui muitas escolas de música e, como consequência dessa realidade, o curso de Música da UFCA, assim como outros cursos de graduação em Música/licenciatura no estado do Ceará (UFC nas cidades de Fortaleza e Sobral), não exige o teste de habilidade específica, comum em outros cursos superiores de Música no Brasil. Assim, os alunos que ingressam no curso, selecionados pelo Exame Nacional do Ensino

Médio (Enem), trazem consigo uma diversidade de conhecimento, ou seja, discentes com algum conhecimento prévio de música, mas sem entendimento dos sinais da partitura; outros com o conhecimento prévio de música e algum entendimento dos sinais da partitura, e outros sem nenhuma noção anterior do estudo prático e teórico de Música.

Ressalto e compartilho do sentimento daqueles que escolheram como proposta retirar o teste de habilidade específica como requisito de entrada no curso de Música da UFCA. Entendo que proporcionar um desenvolvimento artístico/musical aos que não possuem nenhuma prática instrumental, ou experiência prévia com música, significa também desenvolver a sensibilidade desses alunos. Sou egresso de uma experiência que recebia crianças e jovens sem a menor noção dos instrumentos ofertados naquela época, e a maioria não tinha noção nenhuma de música. Nessa mesma direção, eu recebo em minha disciplina de Prática Instrumental o máximo de alunos possíveis, buscando proporcionar um aprendizado musical. Com essa compreensão, é importante dialogar minha prática atual com meu aprendizado no passado, onde posso (re)significar a importância da música na vida dos seres humanos, em especial a prática democrática do ensino. Esse é o pensamento que alimenta minhas práticas e foi sendo elaboradono percurso delineado neste trabalho.

Com a criação do curso na região do Cariri, passei a ser um dos docentes, aprovados em concurso, a exercer a função de professor assistente do referido programa no setor de estudos Cordas Friccionadas. O início das atividades do curso aconteceu com a oferta das seguintes disciplinas de práticas instrumentais: Violão, Piano/Teclado, Violino/Viola e Sopros Madeiras (flauta transversal, clarinete e saxofone).

Em seu primeiro ano, o curso disponibilizou também, entre outras, as disciplinas de Percepção e Solfejo e História da Música. Entre as disciplinas oferecidas para os alunos, destaco, a princípio, nesta pesquisa, as disciplinas de Prática Instrumental Violino/Viola I, II, III e IV12. No primeiro encontro com os alunos, houve a apresentação dos instrumentos que seriam ofertados naquele semestre. Após a exposição, 20 estudantes procuraram a disciplina Prática Instrumental Violão, dez alunos se matricularam em Piano/Teclado e os outros foram distribuídos na Prática Instrumental de Sopros e de Violino/Viola. Cinco alunos me procuraram com o objetivo de aprender os instrumentos ofertados por minha disciplina, ou seja, violino ou viola.

É perceptível, nesse panorama, a ideia de que o instrumento violão possui grande popularidade, daí a grande procura.Embora o violino seja bastante conhecido pela população brasileira, ainda é um instrumento musical pouco praticado no país. Ao analisar o PPC de criação do curso, compreendo que, antes de minha chegada ao Cariri, já havia uma prática musical em instrumentos de cordas friccionadas, o que justifica a introdução da Prática Instrumental Violino na matriz curricular do curso de Música da UFCA. Segue a citação:

Dentre as várias possibilidades de instrumentos musicais da cultura ocidental, elegemos o violão, os instrumentos de cordas friccionados e os instrumentos de sopros (comuns aos diversos projetos de educação pela música, adotados em diversas cidades da região do Cariri Cearense) como possibilidades de escolha a serem oferecidas aos alunos que ingressam no Curso de Educação Musical (UFCA, 2014, p. 18).

Desse modo, procuro contribuir para o aperfeiçoamento dos novos instrumentistas, como também proporcionar um processo de ensino e aprendizagem para os alunos que não possuem um conhecimento prévio do instrumento. Ante ao exposto, minha experiência musical como violinista e professor de violino dialoga com os objetivos do curso de Música. Meus primeiros passos no aprendizado do violino, como já mencionei, ocorreram no Projeto Jaffé, um projeto de ensino coletivo de instrumentos de cordas friccionadas.

Vivenciei a aprendizagem de um bacharelado em Violino. Experienciei os ensinamentos de uma licenciatura em Música. Experimentei as vivências de um mestrado em práticas interpretativas pela escrita de uma dissertação e por um recital. Assim, ao reunir um conjunto de experiências na área da Música e a aquisição de títulos, compreendo como foi possível ter acesso ao concurso que me proporcionou o ingresso em uma instituição de ensino na área de Música. Com a aprovação, fui inserido no campo da docência em Música, ocupando uma posição que possui determinado poder simbólico. Com suporte na minha posição como aluno do Projeto Jaffé, foi possível perpassar por vários espaços sociais de formação até uma nova posição no campo musical, ou seja, docente do ensino superior. Incorporei uma prática musical que vivenciei por meio das estruturas e hoje estruturo novas posições no campo de ensino de Música. No passado, foi-me inculcado um capital cultural musical e hoje aplico maneiras de cultivação do estudo de Música.

Diante dessa realidade, “compreendo que os campos são tendências imanentes e probabilidades objetivas. Um campo não se orienta totalmente ao acaso” (BOURDIEU, 2003, p. 27). A criação do curso de Música da UFCA dependeu das relações dos professores de

Música da UFC, dos gestores da UFC e, também, dos agentes do MEC, que aceitaram a justificativa de criação do curso. Assim, antes de descrever minha prática docente, relato meu encontro com a docência.

Benzer Belgeler