• Sonuç bulunamadı

Socorro Evangelista

A

s viagens são atos sociais eficazes, ritualísticos, que promovem deslocamentos de uma pessoa, como ser total, complexo. Aqui elaboro uma viagem, na qual os deslocamentos ocorrem de diferentes modos –

físicos, materiais, sociais, culturais, emocionais etc. – e que, por isso mesmo, são analisados a partir do recorte das vivências experienciadas. Não foram apenas olhares pela janela, mas envolvimento participativo em cada fase desse processo.

Inicialmente, eram apenas breves percursos pelas ruas de Natal, ou quando muito, em municípios vizinhos. Mas, a viagem se impôs como mecanismo de produção de um efeito de reconhecimento de mim mesma, através do itinerário e, desse modo, levando na mala, sonhos, idéias, novas possibilidades de trabalho, rascunhos de poemas, tomei esse caminho em direção aos carnaubais. Contei, é verdade, com grandes companheiros de viagem, “cabeças bem-feitas”, que me auxiliaram a construir, a partir de folhas caídas, um novo e maravilhoso suporte para as inúmeras possibilidades de registro histórico.

O questionamento de Nachmanovitch (1998, p. 97) sobre “como formas de arte maiores e mais ajustadas tomam forma a partir da matéria prima de inspiração momentânea”, pode explicar como esse trabalho, que partiu de um querer ainda informe, de experiências empíricas, para alcançar a criação de um produto tão maravilhosamente belo e útil, como o papel de carnaúba.

Trilhando esse caminho é que se buscou desenvolver oficinas e cursos com sobras, não só das aparas de papel, mas também das fibras vegetais, quer aquelas da jardinagem residencial, quer as de plantas regionais. Realizou-se, então, todo um estudo, no sentido de transformar folhas, caules, cascas de alho, cebola, em papel reciclado e, diante da grande variedade de fibras vegetais, realizaram-se experimentos, no laboratório de artes, da UFRN, voltadas para melhor conhecer e identificar as fibras que eram capazes de oferecer melhor qualidade para a produção de papel.

O olhar nesse momento estava direcionado para as fibras de carnaúba, estudo antes testado, para o fabrico do papel na UFRN. Suas folhas são sugestivas para numerosas utilidades, já são aplicadas à arte e ao artesanato, na região do Nordeste brasileiro, e, em Açu/RN, volto a explorar o vôo da criatividade, proporcionando, nessa atividade, um fortalecimento da consciência ecológica.

Schimied-Kowarzik (1999) aponta que “daqui para frente todas as gerações serão confrontadas com a tarefa de resolver os problemas decorrentes da crise ambiental”, trazendo para o campo do ensino da arte a relevância de explorar práticas, em especial, da reciclagem para que se possa multiplicar o sentido de valorização e preservação ambiental ao qual pertencemos, como seres nele inseridos.

Sua reflexão filosófica tem como um de seus questionamentos fundamentais exatamente a relação que deve existir entre a ciência e a ética, em razão da repercussão planetária que passaram a ter as ações humanas, ações estas que, em razão de diversos problemas, determinaram a devastação do meio ambiente e que agora devem se voltar para sua preservação.

Estende-se tanto à arte, quanto à produção cultural artesanal, atividade que não pode ficar relegada a um segundo plano, fazendo com que os artesãos sintam- se frustrados, por não poderem dar expressão à sua criatividade, ao tempo em que, igualmente, buscam novas fontes geradoras de renda.

Dentro desse fundamento, formamos um grupo de estudo: dois alunos de Artes e eu, para conhecer a história e a prática do papel artesanal no Laboratório de Artes Plásticas do DEART/UFRN, objetivando trocar idéias e vivências, analisando, construindo novas possibilidades: as sugestões foram fluindo.

A troca de experiências nas atividades de extensão universitária “tem uma natureza própria e um peculiar modo de ser no respeito ao trabalho e às idéias na troca de conhecimento” (NACHMANOVITCH, 1998, p. 91).

Os objetivos do Projeto de Extensão “Papel Reciclado”, da UFRN, se inserem naqueles apontados por Almeida (2003, p. 21-22), quando afirma que “é possível exercitar novos olhares e identificar brechas as quais, na estrutura acadêmica, favorecem o pensamento criativo e comprometido com o presente, sem abrir mão da projeção de futuro”, olhares que se identificam com a metamorfose e com a reorganização “de saberes plurais, polifônicos, polimorfos”.

Há diversos objetivos: criar empregos que diminuam o desemprego e o êxodo do campo às cidades, fomentar a exportação de bens tradicionais, atrair o turismo, aproveitar o prestígio histórico e popular (…) para solidificar a hegemonia e a unidade nacional sob a forma de um patrimônio que parece transcender as divisões entre classes e etnias (CANCLINI, 2003, p. 217).

Entendia-se que o processo de se produzir papel artesanal, utilizando as fibras das folhas das carnaubeiras, em Pendências, no Vale do Açu, poderia manter diálogos no decorrer destes cursos, fortalecendo, desta forma, a troca construtiva desses saberes populares e acadêmicos, funcionando como um elo de integração social para criação e preservação de papeleiros e artesãos varzeanos.

Naquela região, as chuvas traduzem bonanças; as secas tatuam áridos olhares que se cruzam em busca do ganha-pão. Esse vale de contrastes é, para os olhos dos artistas, dos artesãos e dos poetas, fonte inspiradora para suas produções criativas, sendo paisagem ímpar no Rio Grande do Norte na sua singularidade de

harmonia natural e, segundo MELO (1979, p. 27), tudo nela, “faz da Várzea do Açu uma terra esplêndida e majestosa, cheia de encantos e atrativos, capaz de conquistar os temperamentos mais esquisitos e singulares”.

Fixo o olhar em direção à Pendências, no Vale do Açu (RN), porque a planta de meu interesse atual se desenvolve em grupos denominados de carnaubais: “Mais do que a beleza da paisagem, o carnaubal existe, para dizer que o Vale é rico. Nele não existe a sede que arrasa outras áreas do Nordeste” (JORNAL PENDÊNCIAS, 1976). Essa expressão poética marca a característica das terras pela linguagem da sensibilidade.

A cultura no Vale do Açu está arraigada à carnaúba: está presente nas edificações das casas, no mobiliário, no artesanato… A carnaúba representa uma das fontes de renda das famílias varzeanas.

É o nosso mundo – as estrelas em Pendências são as mesmas estrelas que vejo em Natal. Não sou estrangeira aqui, nem lá. Nessa viagem me dirijo, também, aos infinitos caminhos de mim mesma e meus sonhos são como a água tão desejada no nosso sertão: derramam-se, se fortalecem e frutificam. Espero ver crescer esse querer vivo, fecundo, nas folhas caídas como matéria de sonhos.

E os que vierem depois? O que almejo é ser tão desprendida que deixe para eles árvores frondosas de conhecimentos, por todo o caminho que liga a Pendências.