2. BÖLÜM: DÜNYA ALTIN ARZI VE TALEBİ
2.6. ALTIN TALEBİNİN EKONOMİK KOŞULLARLA İLİŞKİSİ
Permeia toda a pesquisa aqui apresentada algumas concepções acerca do espaço, as quais são fundamentais para a compreensão do desenvolvimento dessa análise. Assim como o tempo, compreende-se que o espaço não é algo neutro, nem estático. Trata-se de algo elaborado, construído por meio de relações sociais.
122 Ibid. p. 198.
123 MACEDO, Helder Alexandre Medeiros. Populações indígenas no sertão do Rio Grande do Norte: história e
mestiçagem. EDUFRN; Natal, 2011.
47 Para o geógrafo Milton Santos, o espaço não é um mero palco das ações humanas, e sim um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.125 As ações implicam na técnica, que corresponde a todos os domínios das atividades humanas, ou seja, na arte, na economia, na cultura, entre outros meios.126 A técnica, aqui traduzida como a forma de fazer e de pensar, colabora para historicizar o espaço na medida em que a técnica também obedece a uma dada temporalidade, a um contexto histórico.127
Segundo Santos, o espaço possui algumas categorias analíticas: paisagem, configuração territorial, divisão do trabalho, e espaço produtivo e produzido.128 Contudo, as configurações territoriais não são o espaço. A primeira baseia-se na existência puramente territorial, enquanto o espaço é a unção da materialidade territorial com as relações sociais.129
Compreende-se que as diversas estratégias dos indivíduos fazem parte de um grande sistema de ações, da técnica. Assim, as estratégias utilizadas pelos indivíduos para garantir seu acesso ou posse de terras, podem ser compreendidas como parte de um sistema de ações que quando relacionado ao material gera um espaço social, fruto de tais relações. Como a elaboração de tal espaço surge de acordo com contextos diferentes de ações, há mutações nestas relações, aos quais por sua vez, modificam tais espaços.
Dessa forma, que para assegurar e ampliar seu acesso à terra, a Companhia de Jesus possuía suas estratégias, ou seja, um sistema de ações. No caso apresentado, referente ao conflito pela posse da terra Cidade dos Veados e Olho d’Água Azul, observou-se que a Companhia de Jesus possuía na capitania do Rio Grande as fazendas Oitizeiro, Ceará, Curral de Baixo e Santa Cruz; os sítios dos Galos, Guamaré, e o Arraial das Formigas; além de uma sorte de terra no lugar chamado Ceará; totalizando três fazendas, dois sítios, um arraial e uma sorte de terra.130 Percebe-se a existência de um patrimônio consistente.
Entretanto, mesmo possuindo algumas terras, os padres jesuítas da missão de Guajiru não hesitaram em solicitar ao rei terras para o sustento dos índios da missão, como ocorreu em 1725, com a solicitação da Cidade dos Veados131, e em 1727, com a solicitação do Olho
125 SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo, razão e emoção. 4° ed. São Paulo: EDUSP, 2008.
p. 21.
126 Ibid. p. 35. 127 Ibid. p. 55. 128 Ibid. p. 22. 129 Ibid. p. 62.
130 IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) - Arq. 1.1.15. Avaliações dos bens jesuítas em
Pernambuco, 1772, p. 9-11. ANTT, Erário Régio, Capitanias do Brasil – Pernambuco, livro 636, traslado n° 3, Autos de arrematação dos bens confiscados dos jesuítas e pertencentes ao Fisco Real, dos anos de 1776, 1777 e 1778. Em carta da Junta de Pernambuco, de 15 de junho de 1779. Apud LOPES, Fátima Martins. Em nome da
liberdade. p. 172.
48 d’Água Azul.132 Mesmo que as terras da ordem religiosa e das missões possuíssem jurisdições diferentes, sabe-se que era comum que os religiosos e os indígenas usufruíssem das terras uns dos outros (este aspecto será explicitado no primeiro capítulo).
Assim, compreende-se que as solicitações das terras para os indígenas possivelmente visavam expandir o domínio da Companhia de Jesus na região do Ceará-Mirim, pois, além de possuírem sítios e fazendas na região, também solicitaram terras para os índios de sua missão, expandindo os domínios de uso das terras para os seus membros e para os índios de Guajiru.
Segundo o também geógrafo, Antônio Carlos Robert de Moraes, a formação territorial enquanto espaço somente é possível por meio das ações, dos interesses dos indivíduos. Para o autor, a conquista territorial da América portuguesa tornou-se um novo espaço na perspectiva do colonizador não apenas pelas novas conquistas, e sim por sua dominação simbólica.133 Segundo o mesmo autor, a valorização simbólica do espaço é também a sua valorização material, pois o processo de conquista e de produção do espaço implica em interesses tanto simbólicos como matérias de um indivíduo ou instituição.134 Assim, o espaço produzido é um resultado das ações e relações humanas sobre um território. Trata-se de um processo teleológico, ou seja, que implica em uma finalidade, e neste caso aplicada aos interesses, motivações e valores dos indivíduos envolvidos.135
Cabe destacar que as análises de Antônio Carlos Robert de Moraes sobre a conquista territorial da América portuguesa são referentes à perspectiva do colonizador, que para o caso do conflito de terra aqui apresentado associa-se à família Carneiro da Cunha como representante. Na perspectiva de Moraes, observa-se que as ações e estratégias dos indivíduos como algo motivado por interesses, simbólicos e materiais. Tal perspectiva possibilita compreender as ações da família Carneiro da Cunha e seu intento para estabelecer um patrimônio na ribeira do Ceará-Mirim, na capitania do Rio Grande.
Verificou-se que a família Carneiro da Cunha recebeu a concessão de títulos de sesmarias na capitania do Rio Grande, sendo algumas delas terras compradas anteriormente. Manuel Carneiro da Cunha, pai de João Carneiro da Cunha, recebeu a concessão de dois títulos de sesmarias na ribeira do Ceará-mirim, em 1712. Manuel Carneiro da Cunha, filho homônimo, requereu para si em 1714, as duas léguas de terra que foram concedidas ao seu pai em 1712. João Carneiro da Cunha requereu uma sesmaria, em 1737, também na ribeira do
132 AHU, Códice 259, fl. 152-152v.
133 MORAES, Antônio Carlos Robert. Bases da formação territorial do Brasil. O território do Brasil. O território
colonial brasileiro no “longo” século XVI. São Paulo: HUCITEC, 2000. p. 91.
134 Idem. Territórios e história no Brasil. 3° ed. São Paulo: Annablume, 2008. p. 23. 135 Idem. Ideologias geográficas. 3° ed. São Paulo; HUCITEC, 1995. p. 15-17.
49 Ceará-mirim.136 As terras adquiridas pela família localizavam-se nas proximidades da aldeia de Guajiru, onde missionavam padres da Companhia de Jesus.
Percebe-se que o envolvimento da família Carneiro da Cunha no conflito pela posse da terra Cidade dos Veados e Olho d’Água Azul faz referência à necessidade da família em ampliar seu domínio territorial na ribeira do Ceará-Mirim, tanto por seu interesse material na terra, bem como por seu domínio simbólico, aqui compreendido pela manutenção do status de senhores de terra. Além disso, a atuação da família na disputa pela terra também pode ser observada como uma possível medida de segurança, preservando os domínios conquistados pela família anteriormente, objetivando barrar a expansão das terras dos índios de Guajiru, que estava sendo impulsionada pelos inacianos de sua missão.
Ainda no caminho das novas perspectivas da geografia, destaca-se a autora Doeeren Massey. A geógrafa buscou reformular a compreensão do senso comum sobre a relação tempo e espaço, mostrando que mesmo com naturezas diferentes ambos são indissociáveis. Para a autora, o espaço é a dimensão social não apenas no contexto da sociabilidade humana, mas no sentido do envolvimento dentro de uma multiplicidade muito maior de articulações. Segundo Massey, há uma pluralidade e simultaneidade de trajetórias conexas, sendo o lugar a articulação entre tais conexões.137
A autora aponta que o espaço, por ser relacional, é heterogêneo, há: diversidade, subordinação, e interesses conflitantes. Trata-se assim de uma constante modificação do espaço por meio das mudanças do relacional. Segundo Massey, para perceber o lado relacional do espaço deve-se considerar o contexto de cada relação social para então refletir sobre as diferentes formas de relações, variáveis em cada espaço em particular.138
Esta importante perspectiva de Massey possibilita um olhar mais crítico para os diferentes interesses dos envolvidos no conflito de terra aqui abordado. As análises da autora sugerem a necessidade de compreender a mentalidade e os diferentes interesses das partes envolvidas e de sua relação com o espaço, percebendo, sobretudo, os interesses conflitantes.
Para o caso do conflito de terra aqui apresentado, pensa-se a formação de um espaço em um determinado contexto social, formado pela culminância dos diferentes interesses dos indivíduos envolvidos pela mesma terra, e pelas diferentes mentalidades possessórias.
136 IHGRN (Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte) – Fundo Sesmarias, Livro II, n° 120, p. 121-122; Livro II, n° 119, p. 120; Livro III, n° 254, p. 184. DOCUMENTAÇÃO, histórica pernambucana, Recife: Imprensa Oficial, 1954, v.1, p. 195-197.
137 MASSEY, Doreen. Pelo espaço: uma nova política da espacialidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 2008. p. 97-
98.
50 O espaço relacional, heterogêneo e mutável de Massey atenta também para a percepção do indígena neste conflito de terra analisado. Aponta-se para a necessidade de compreender a mentalidade e os interesses dos índios de Guajiru por meio de sua relação com o espaço. Segundo a historiadora Maria Regina Celestino de Almeida, o território das aldeias indígenas, embora se comparados à amplitude dos sertões, fossem terras limitadas, era o espaço físico no qual diferentes etnias se reuniam e onde buscavam possibilidades de sobrevivência, sobretudo, por meio da cultura de subsistência.139 A mesma autora aponta que ao aldearem-se os índios, estes:
Passavam a habitar um território fixo que lhes fora dado ou até imposto conforme as circunstancias, por uma ordem político-administrativa externa ao grupo. Tal processo implicava mudanças consideráveis vivenciadas pelas várias etnias que, na experiência comum do cotidiano, reconstruíram culturas, valores e tradições, misturando-se entre si e com grupo outros grupos sociais. Nesse processo, os povos indígenas reelaboravam também as relações com o novo território, que passava a ser vivenciado de forma diversa, de acordo com novas necessidades do mundo colonial.140
Os apontamentos colocados por Almeida enfatizam a imposição de alguns valores à cultura indígena, e a sua consequente metamorfose, compreendida como transformações da cultura, valores, e tradições indígenas, destacando-se as relações dos índios com seu território.
Nesta perspectiva, observa-se que uma das mudanças impostas pelo Diretório dos Índios foi a repartição das terras, privilegiando a propriedade individual e não mais a propriedade coletiva, as terras comunais, como ocorria nas aldeias e missões indígenas. Segundo Fátima Lopes, tratava-se de uma tentativa da Coroa de inserir um novo sistema econômico-tributário nas vilas, o qual visava uma maior fiscalização da Coroa em arrecadar impostos por meio da propriedade individual.141
Dentro desse contexto da fundação da vila de Estremoz, e das mudanças impostas no que diz respeito à terra, cabe destacar que os índios da antiga missão de Guajiru não aceitaram de imediato tais imposições. É sabido da ocorrência de um quase levante dos índios da antiga missão, em fevereiro do ano de 1760, na qual um dos motivos impulsionadores seria a insatisfação com relação as novas divisões das terras da missão.142 Este episódio atenta para o que Almeida afirma acerca da metamorfose indígena, que, devido às circunstâncias, os
139 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais
do Rio de Janeiro. 2° ed. Rio de Janeiro: FGV; FAPERJ, 2013. p. 255.
140 Ibid.
141 LOPES, Fátima Martins. Em nome da liberdade. p. 259-260.
142 AHU, Códice 1822, fls. 31v-32, CARTA do capitão-mor do Rio Grande, João Coutinho de Bragança ao
51 indígenas passaram a adaptar imposições da administração portuguesa a sua cultura, transformando sua cultura e valores para sobreviverem na América portuguesa.
Por outro lado, também se propõe uma articulação com a Sociologia, especificamente com as teorias de Pierre Bourdieu acerca do espaço social e dos conceitos derivados deste, como distinção social, habitus, capital simbólico, capital político, e trocas simbólicas.143 Compreende-se o espaço social como uma realidade invisível que organiza as práticas e as representações dos agentes sociais. Este espaço social seria um campo constituído pela disposição de grupos e de agentes de acordo com suas tomadas de posições, ou seja, de suas escolhas práticas, que operam como princípio de diferenciação ou de aproximação de outros grupos e/ou agentes.
As disposições dos agentes sociais, que se pode compreender como classes de habitus (de gostos), são estabelecidas por meio de uma separação e da diferenciação dos gostos e das práticas, entre os agentes. As diferenças estabelecidas em cada sociedade por meio da tomada de posições, de escolhas, expressam diferenças simbólicas nas práticas sociais, como na posse de bens, nas maneiras, e nas opiniões.144
O espaço social pensando como um campo de distinções e aproximações sociais será pensado para compreender a família Carneiro da Cunha. Compreende-se que as tomadas de posição da família objetivam aproximá-la de um grupo específico, a nobreza da terra, ou a açucarocracia. A posse de terras era um forte elemento de diferenciação social para este grupo. Assim, busca-se pensar a propriedade familiar da açucarocracia como necessária para uma distinção social145 destas famílias. Buscar-se-á compreender o conflito pela posse da terra Cidade dos Veados como parte de uma empreitada familiar para consolidar e manter o status da mesma.
As concepções de espaço aqui explanadas, referentes à área da Geografia e da Sociologia, possuem em comum a ênfase no social, das relações entre os indivíduos e o seu meio. Tais concepções colaboram para esta pesquisa na medida em que se buscou analisar os conflitos pela posse de terra na capitania do Rio Grande, compreendendo as diferentes interpretações da lei, das práticas sociais e das diferentes mentalidades possessórias.
143 BOURDIEU, Pierre. Razões práticas sobre a teoria da razão. 3° ed. São Paulo: Papirus, 2001; idem. O poder
simbólico. 14° ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
144 Idem. Razões práticas sobre a teoria da razão. p. 19-25.
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2. 1° CAPÍTULO: “ENVOLVIDOS PARTE I: OS JESUÍTAS”