2. KURAMSAL BİLGİLER VE LİTERATÜR TARAMASI
2.3 Öğrencilerin Kavramsal Anlayışlarının Araştırılması
2.3.3 Alternatif Kavramları Açığa Çıkarmada ve Değiştirmede Kullanılabilecek
Quando a proposição é estudar o Teatro do Boi, conhecer suas peculiaridades e aqueles que as praticam, a questão da localização geográfica dos sotaques é ainda mais complexa do que foi abordada até aqui
A partir disso há uma nova expectativa de entendimento da realidade desses sotaques, ao se buscar compreender suas territorialidades, o que extrapola as questões de lugarização. Basta observar que o conjunto de um determinado sotaque adota o nome do lugar onde se originou, mesmo que sua organização física (e sua constituição jurídica, quando há), seja domiciliada em outro lugar.
Isso ocorre, normalmente, com grupos criados na capital que mantêm o nome de identificação referindo-se ao lugar de origem do seu fundador, do promesseiro ou do grupo de brincantes que se juntam para esse fim. E que esses brincantes residem no bairro onde vai ter início a brincadeira com as rezas de ladainhas e onde é construído o barracão, o terreiro para os treinos. Pode acontecer
9
São conjuntos que, segundo informações complementares do folclorista Jandir Pereira (2006) – (informação verbal) – podem ser encontrados nos povoados de municípios que extrapolam as localizações dos “sotaques” e que compõem as regiões:
Do Brejo: Brejo de Anapurus, povoado de Olaria; São Bernardo; Santa Quitéria; Bacuri; Do Itapecuru: Itapecuru Mirim; Timbiras e Pirapemas;
Do Baixo Parnaíba: povoados do Prata e do Veado Branco, município de Milagres do Maranhão; Do Litoral Setentrional: município de Luís Domingues, povoado de Estandarte; municípios de Cândido Mendes e Carutapera;
Do Sertão Maranhense: Timon; Matões; São João do Sóter; povoado de Ourinho, município de Caxias; sede do município de Alto Alegre do Maranhão e sede do município de Pastos Bons;
Dos Lençóis Maranhenses: povoado de Boa Vista, município de Santo Amaro do Maranhão; sede do município de Tutóia;
Do Médio Mearim: povoados do município de Lago da Pedra; sede do município de Trizidela do Vale; sedes dos municípios de Pedreiras e Lago do Junco;
São “Bois” que ainda não tem se interessado em brincar em São Luís. É necessário ressaltar que esses grupos apresentam conjuntos instrumentais especiais e com características regionais próprias, o que determina suas linhas coreográficas e interferem naturalmente em alguns aspectos das encenações.
também que, mesmo morando em outros bairros da capital, esses brincantes para ali se desloquem durante treinos, festejos e apresentações.
Essa é uma das situações em que se pode observar o problema da territorialidade entre os sotaques do Bumba-meu-boi do Maranhão, quando se pretende compreender a fragilidade das fronteiras existentes nessa expressão cultural popular e que vai influenciar na forma de realização do seu teatro.
O território, segundo Dorea (2002:92), a partir desse contexto, não deve ser confundido como um mero espaço geográfico. “Ele pode ser compreendido por uma etnia, uma identidade ou mesmo um simples modo de conceber a vida, apropriado existencialmente por um sujeito ou grupo.” Porém, no exame da brincadeira do Boi, o entendimento da territorialidade dos sotaques que a compõem exige especial atenção para a identificação de conceitos diferentes que podem operar de forma relativa a grupos e a indivíduos.
Fenômenos eminentemente culturais, os processos de lugarização dos sotaques se dão na construção de uma territorialização a partir de um conjunto de intercâmbio entre aquilo que se considera que já é sabido e o espaço a ser conhecido.
Ao se instalar num espaço geográfico novo, um conjunto de Boi de um determinado sotaque é acomodado em outro espaço, em um novo lugar. Tal deslocamento indica que esse conjunto está ultrapassando realmente uma fronteira espacial e cultural, pois é agora um “novo” grupo formado por sujeitos que se moveram para um outro espaço e se rejuntaram em torno do mesmo ideal.
Com as mesmas “raízes” de memória,10
No processo de identificação territorial do conjunto, nesse novo lugar, um complexo mecanismo cognitivo foi ativado envolvendo as tradições trazidas. Esse
supostamente as mesmas vontades, mas embora mantendo o mesmo ritmo, a mesma musicalidade e a mesma linguagem artística, terão que se adequar ao ambiente novo, no espaço novo e essa adequação poderá “reinventar” o mesmo sotaque do lugar de origem do chefe ou promesseiro, o comandante da brincadeira.
10“Os narradores dessa história são na maioria homens com mais de 50 anos, oriundos das camadas
mais simples e artesanais, possuindo suas raízes no povo(...)Brincantes do Bumba-meu-boi do Maranhão, revesam-se entre capital e interior, o que determina a narrativa e o desenrolar de suas lembranças”(Vasconcelos. 2007;p 77). Considero de grande importância para este trabalho observar que o capital das ações e narrativas da brincadeira que estão na lembrança vão se acumulando e que, por se acumularem, se atualizam.
aspecto territorial extrapola aí o conceito ou condição de lugar físico e alcança outro nível de entendimento que se mescla ao de estado psicológico, onde o território das produções estéticas ficam melhor entendidas. Nesse território lúdico-conjuntural- artístico, o brincante não se dilui, mas ao contrário se re-inventa e se torna como um amálgama disponível, um ser “entre” que comporá com os outros (antigos ou novos) brincantes, uma nova condição de espetáculo que em si não se completa, pois estará sempre aberto a mudanças.
Está iniciado um novo conjunto com brincantes de um mesmo lugar de origem e outros do novo lugar, mas manterá como título de identifiçação o nome, as identidades em jogo e as relações de poder.
Em São Luís é comum encontrar-se conjuntos que ostentam nomes de municípios ou de povoados do interior do Estado e três situações distintas são aí constatadas.
Quando conjuntos completos, totalmente originários de um lugar, cujos brincantes se transferiram para a capital e durante o cumprimento de alguns rituais, voltam ao seu lugar de origem, temporariamente, retornando em seguida para a capital,11 ou de conjuntos que vivem, treinam, cumprem todos os rituais em seus lugares de origem e se transferem para a capital apenas durante o período das brincadas,12 ou, ainda, quando a família ou grupo de parceiros que “botavam” ou brincavam boi de um determinado sotaque migraram de um lugar do interior para a capital 13
Esse deslocamento não implica numa simples extensão ou alargamento de fronteiras sem um rompimento formal, mas sim num ajustamento cultural, reacomodação e adequação de hábitos, que interferem diretamente nos resultados mais visíveis que são o deslocamento das prioridades estéticas, o relaxamento da cena “dramática”, uma readequação da encenação teatral..
e criaram um conjunto novo com o nome do lugar de onde saíram.
O deslocamento de fronteiras, a instalação de outras territorialidades de sotaques executadas por grupos ou conjuntos de brincantes pode ser um movimento entendido como dilatação ou trocas espaciais. Pode-se encontrar ali características
11
Por exemplo, os bois de Axixá, Morros, Nina Rodrigues etc.
12Bois de Cururupu ( sotaque de Costas-de-Mãos)
óbvias dos “sensos de identidade, exclusividade e a compartimentação do espaço”. E observar que ali se cria e se instala um conjunto de um mesmo sotaque.
Porém, se examinarmos um outro aspecto de movimento, o deslocamento de sujeitos, brincantes domiciliados em lugares diferentes, que por vontade própria decidem ultrapassar suas fronteiras em busca de um conjunto novo em outro espaço, que lhes ofereça a oportunidade de brincar em um sotaque de sua preferência, a análise de territorialidade carece de outros elementos, mesmo que não se apele para o aspecto lúdico e sim, talvez, poético.14
Esses brincantes são sujeitos que atuam ou não em outros sotaques em seus territórios de origem. São atores do Bumba-meu-boi em geral, atuam em qualquer posto da brincadeira como um todo e sentem-se livres para transitarem em qualquer território.
15
Essas trocas são possíveis mas não tão freqüentes. Esse fenômeno pode ser atribuído a uma escolha livre, motivada por um convite de um conjunto que esteja necessitando de reforço no seu elenco de brincantes, por exemplo, ou por mero exercício de empatia.
Tais sujeitos não podem ser analisados como elementos dissidentes e tampouco se enquadram em nenhuma categoria pré-definida.
Ao proceder esse movimento de deslocamento, o brincante ou brincantes (individualmente), conscientemente ou não, procederão uma viagem que representará um rompimento de fronteiras físicas, oníricas, lúdicas e psicológicas. Essa viagem, decisão de seu arbítrio, pode resultar num traslado complexo, pois o leva a um reendereçamento (não a um novo domicílio) por um período de tempo que poderá ser ou não predeterminado ou o desejado. Tal deslocamento de territorialidade implica em um desdobramento de atitudes e comportamentos que serão desencadeados no conjunto receptor e seus sujeitos e, naturalmente, nos
14 Pode-se perceber aí o desenvolvimento de um processo de “heterogênese”, como descrito por
Dorea (2002:100) (a partir do pensamento de Deleuze e Guattari), indicando que as linhas de fuga “estão inseridas na idéia de que é possível desfazer-se de um território existencial e criar outros simultaneamente”.
15 “Ser livre, portanto, é o mesmo que conceber o território como lugar de passagem e não de
chegada, estando sempre em conexão com o mundo, misturando-se a ele a partir do processo dinãmico da heterogênese e do desejo que é, ao contrário da carência enquanto necessidade de algo, a potência de estar sempre produzindo algo novo para nossas vidas” (DOREA.2002:106)
sujeitos recém-chegados que deverão ser considerados como agentes recém- instalados.
O contato desses agentes recém-instalados se faz diretamente e quase que unicamente, com a célula matriz da brincadeira que é designada pelo conjunto receptor. É a equipe que coordena essa célula que providencia os alojamentos, os trajes e acessórios que serão compartilhados até o final da temporada de apresentações e também é responsável pela apresentação dos sujeitos novos para o restante do pessoal do conjunto e a integração destes nos treinos, fazendo assumir os “postos” que lhes competem na composição da brincadeira para garantir a sinergia necessária durante as brincadas.
Esses novos sujeitos estão cientes de que o seu tempo de permanência no conjunto está garantido enquanto lhe são confiados os trajes e acessórios e que possam cumprir todas as tarefas que lhes forem atribuídas, bem como desempenhar os papéis em que deverão atuar nas brincadas.
Após completado o período das brincadas, eles deverão retornar aos seus lugares de origem ou permanecer (alguns sim, outros não) no seio deste território até o encerramento do ciclo da brincadeira.
A maioria desses sujeitos (quase a totalidade) retorna aos seus lugares e só voltam a compor o conjunto acolhedor durante os rituais dos festejos da “morte” da brincadeira. É nesse tempo que os trajes e acessórios utilizados por eles são devolvidos para a equipe responsável pelo conjunto.16
Há como observar nesse tipo de comportamento um modo de adentrar e sair, nos planos de lugarização, sem traumas ou sem temor de nenhum pertencimento obrigatório após qualquer tipo de opção. O brincante, o agente a que me referi, tem direito de usar seu livre arbítrio, mesmo que o seu deslocamento anterior tenha sido executado em grupo.
O contato dessas duas realidades de sujeitos brincantes promove as condições que determinam o comportamento das relações entre as partes, contagiando os novos com toda a energia produtiva acumulada no território agora
16
Em geral, esses trajes e acessórios ficam guardados dependurados no barracão-sede da brincadeira e serão retomados segundo a decisão do brincante. Mas poderão ser recolhidos imediatamente, caso ele não pretenda retornar. Em outra situação somente serão recolhidos após a morte do boi, se o brincante compromete-se em voltar para participar das festas de encerramento do ciclo da brincadeira.
dilatado, ampliado, proporcionando a existência de uma inter-relação positiva para a composição do conjunto como um todo.
O contágio desses novos agentes se dá na instância molecular do conjunto recomposto, ampliado em sua composição original e só aí. Mesmo que essa recomposição ocorra, não necessariamente deverão ser realizados novos arranjos estruturais na brincadeira.
Isso não significa que não haja contato entre eles e os habitantes da comunidade de entorno da sede do Boi, mas sim que a convivência com o contingente humano que compõe o conjunto do Boi é de tamanha intensidade que não abre brechas para outros aprofundamentos de relações sociais. O tempo de envolvimento com as brincadas (o deslocamento, as apresentações e o descanso) fica totalmente tomado.
Os depoimentos colhidos junto a sujeitos brincantes, a respeito dos deslocamentos e de lugarização dos sotaques, ajudam a confirmar a reflexão anterior. Seus comportamentos com relação à brincadeira do Boi podem ser compreendidos de forma atemporal e aterritorial.17