• Sonuç bulunamadı

Um menino do jardim de infância pergunta à educadora, que era “aquela coisa”, nas árvores. Ela respondeu: - É uma goma, que sai de dentro da árvore. E, logo, ele concluiu, dizendo: - Ah! Já sei, é o “cuspe” das árvores... (NINA, 1955, p. 176)134.

Celina Airlie Nina foi uma educadora importante no ensino pré-escolar, porém há escassez de estudos a seu respeito. Foi uma das autoras que encontramos maior dificuldade em descobrir mais informações sobre sua vida e trajetória educacional. Porém, pela pesquisa no Diário Oficial e pelo trabalho desenvolvido por Leite Filho (2008) foi possível encontrar algumas informações cruciais a respeito da atuação dessa educadora e de sua influência tão instintiva na educação das crianças pequenas.

Com a instalação do Instituto de Educação do Rio de Janeiro (IERJ) no ano de 1932, e, consequentemente, a presença de uma pré-escola, mesmo que ainda funcionando em um pavilhão isolado, como relata Leite Filho (2011), foi que começaram os primeiros registros a respeito de Celina Airlie Nina.

De acordo com Leite Filho (2008), a educadora atuou no Serviço Público Federal, sendo a primeira diretora do Jardim de Infância135 anexo ao IERJ. No Diário Oficial de agosto de 1938, destacou-se a contratação de Celina Airlie Nina para o cargo de assistente de didática do referido Instituto de Educação. No ano seguinte, encontra-se outro registro sobre a

134 Esse trecho foi retirado do Anexo número 34, da obra de Celina Airlie Nina, analisada neste tópico. Os

referidos anexos têm o intuito de exemplificar histórias curtas e verdadeiras que ocorreram no Jardim de Infância.

135 Sobre o Jardim de Infância não foi possível encontrar muitas informações: sabe-se que fora fundando em

1932 e que, dois anos depois, em 1934, a educadora Heloísa Marinho iniciou seu trabalho no IERJ, desenvolvendo suas pesquisas nesse local. Algumas informações foram possíveis de ser encontradas pelo endereço eletrônico do acervo do IERJ: http://cemiiserj.blogspot.com.br/search?q=jardim+de+inf%C3%A2ncia

educadora, convocando-a para o pagamento de um processo em seu nome, com a numeração 8952.

Em fevereiro de 1940, Celina Airlie Nina iniciou seu trabalho também em uma Comissão de Livros, na qual ela participou como julgadora de trabalhos didáticos designados a crianças e jovens. Porém, mesmo como julgadora das obras didáticas, a educadora continuou atuando como Diretora do Jardim de Infância do IERJ, tanto que em junho de 1940, no Diário Oficial (p. 3228), encontra-se uma nota da Secretaria Geral de Educação e Cultura, que oficializa a comissão de educadores designados a emitir parecer sobre os livros escolares e assim “(...) D. Celina Airlie Nina, diretora de estabelecimento”, foi uma das designadas, oficialmente, a integrar a comissão.

No ano de 1941, Celina Airlie Nina, no entanto, passou a fazer parte da seleção, por meio de concurso público, para o cargo de Técnica em Educação do Ministério de Educação e Saúde, sendo 65ª inscrita. No mesmo ano, como publicado pelo Diário Oficial (1941), a educadora foi uma das 30 aprovadas na primeira etapa do processo seletivo, ocupando a 15ª posição com um total de 62 pontos.

Mesmo prestando o concurso para Técnica em Educação, Celina Airlie Nina continuou à frente da direção do Jardim de Infância do IERJ, o que pode ser comprovado pelo informe que ela publica no Diário Oficial, em março de 1941, no qual convida os pais das crianças que foram matriculadas na instituição, nesse ano, para uma reunião, como se pode observar na Figura 16.

Figura 16 - Trecho do Diário Oficial de 14 de março de 1941, p. 1843. Comunicado do Jardim de Infância do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, publicado pela diretora Celina Airlie Nina

Em abril do mesmo ano, Celina Airlie Nina foi convocada pelo Departamento Administrativo do Serviço Público para comparecer ao Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) para a defesa oral de monografia para o provimento do cargo de Técnico de Educação do Ministério da Educação e Saúde. Sua apresentação foi agendada para o dia 03 de maio de 1941. A educadora, então, foi aprovada em maio de 1941, mas o resultado final, com a lista dos selecionados foi promulgado em 18 de novembro de 1941, e ela ocupou o quarto lugar na classificação geral, com 72,3 pontos.

Desse período em diante, não se encontram mais informações sobre a atuação de Celina Airlie Nina. Sabe-se que nesse período, o Departamento Nacional da Criança (DNCr) já estava exercendo suas atividades, porém não há registros da atuação da educadora.

Pelas informações encontradas no Senado Federal136 em 10 de fevereiro de 1949, Celina Airlie Nina foi excluída do cargo de Técnica em Educação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), passando a ocupar o mesmo cargo no DNCr, aprovado pelo Decreto n. 26339 de 10 de fevereiro de 1949, atuando na Divisão de Proteção Social junto com Elisa Dias Veloso137, como foi publicado pelo Diário Oficial.

Sendo assim, acredita-se que, ao ser aprovada e convocada pelo concurso de Técnico em Educação, a educadora passou a exercer suas atividades no INEP até 1949 quando foi transferida ao DNCr, com o intuito de contribuir mais pontualmente com os objetivos de proteção e amparo à criança pequena.

A Divisão de Proteção Social, por sua vez, na qual Celina Airlie Nina atuou a partir de então, correspondia a uma das divisões do DNCr com o objetivo de amparar e proteger desde à maternidade até a adolescência.

Segundo Leite Filho (2008), a Divisão estabelecia uma série de ações que deveriam ser executadas em todo o país em prol de seu objetivo, com campanhas de distribuição de leite, disseminando, também, o Clube das Mães e trazendo algumas publicações para veicular

136 Maiores informações podem ser encontradas em: <

http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=158673 >

137 Elisa Dias Veloso, formada em Psicologia, atuou no DNCr de 1944 a 1969, no qual dedicou-se a atuação no

Centro de Orientação Juvenil (COJ) fundando por Helena Antipoff, atuando entre 1944 e 1968, como destaca. O objetivo do COJ, segundo a psicóloga era o de: “(...) treinamento de médicos, psicólogos e assistentes sociais, com o objetivo de prepará-los para o atendimento e o estudo de técnicas de trabalho com os clientes adolescentes portadores de dificuldades emocionais.” (trecho da entrevista proferida pela psicóloga a “Psicologia, Ciência e Profissão”, no ano de 1986). Autora de inúmeros trabalhos, Elisa Dias Veloso esteve voltada à psicologia clínica como destaca, tendo como principais referências a contribuição ao professor Lourenço Filho no que compete à elaboração e aplicação de Testes Mentais, tendo como base os trabalhos de Binet e Claparède como cita. Faleceu no ano de 2002, na cidade do Rio de Janeiro, aos 88 anos. Maiores informações podem ser encontradas em <

suas ideias de cuidado à criança, tendo como diretor responsável o Dr. Flammarion Afonso Costa138.

Celina Airlie Nina, portanto, integrou a referida Divisão, contribuindo para que os objetivos de proteção e amparo à criança fossem disseminados em todo o país. Tanto que, em 1954, publica uma obra bibliográfica, cujo título é: “Escolas Maternais e Jardins de Infância”139, relacionada diretamente ao DNCr. Tal publicação alcançou grande veiculação, tanto que contou com quatro edições espalhadas da seguinte maneira: 1ª ed. – 1954; 2ª ed. 1955; 3ª ed. 1957; 4ª ed. 1961.

Pelas informações encontradas logo na apresentação dessa obra, destaca-se que o DNCr encomendou-a de Celina Airlie Nina, com o intuito de despertar nas jovens patrícias o interesse para os trabalhos nas instituições pré-escolares.

Por isso, preocupou-se, esse livro, em estabelecer condições gerais que demonstrassem a importância e organização da escola pré-primária, como forma de auxiliar na dispensa de recursos financeiros e generalizar os padrões de funcionamento destinados à assistência social da maternidade, infância e adolescência.

Na Figura 17, pode-se observar a capa de sua segunda edição:

Desde 1943, o Departamento Nacional da Criança (DNCr), segundo Celina Airlie Nina (1955), vinha se dedicando a estudar os problemas relacionados à instalação, aparelhamento e orientação para organização das instituições pré-escolares.

Algumas discussões, nesse período, vinham se apresentando com o intuito de responder essas questões, as quais, com a colaboração do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), procuravam divulgar os esforços diante de um trabalho que prezasse pelo bem-estar da criança brasileira, tendo como foco o desenvolvimento infantil.

Nessa produção, a única da educadora, pode-se notar seu empenho em corresponder às demandas do DNCr, de modo a subsidiar tanto o trabalho, quanto a instalação de instituições pré-escolares no Brasil.

Ao longo de suas 217 páginas, Celina Airlie Nina discorreu sobre a necessidade de pré-escolas, a importância delas para o desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo em que chamou a atenção para a forma de construção do prédio e disposição, tanto das salas de aula quanto dos materiais a serem utilizados.

138 Flamarion Afonso Costa foi medico pediatra, de acordo com as informações do Diário Oficial de outubro de

1951. Participou ativamente dos debates e conferências da Sociedade de Pediatria.

139 NINA, Celina Airlie. Escolas Maternais e Jardins de Infância. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da

Figura 17 - Capa da obra: “Escolas Maternais e Jardins de Infância”, de Celina Airlie Nina, publicada em 1955. Fonte: (NINA, 1955).

Ao final, na parte em que denomina de Anexos, a autora apresenta desenho dos: materiais, brinquedos, lavatórios, refeitório, móveis, etc.; como também uma série de planos de aula e sugestões para o trabalho professoras pré-escolares que vão desde sua atuação com a criança, até dicas de como elas poderiam lidar com prováveis problemas que pudessem surgir. Como um guia prático para aqueles que procuravam abrir ou até mesmo reestruturar os Jardins de Infância, foi que essa obra de Celina Airlie Nina se organizou. Trouxe orientações tanto para os diretores da instituição quanto para os educadores e pais que com ela teriam contato, perpassando, desde as questões de cunho pedagógico que defendiam a formação integral e desenvolvimento natural da criança, respeitando principalmente, seus aspectos salutares e higiênicos, até atividades que estimulassem seu desenvolvimento físico e mental.

As últimas informações encontradas a respeito de Celina Airlie Nina foram nos anos de 1955 e 1958, ambas no Diário Oficial. A primeira informação refere-se ao pedido de permanência da educadora como Técnica em Educação do Ministério da Saúde junto com

Elisa Dias Veloso, isso porque o DNCr, por sua característica médico-higienista cada vez mais evidente, fez com que o Ministério da Saúde o assumisse de maneira integral, como Kramer (1992) destaca. E a segunda informação a respeito da educadora refere-se ao pagamento de auxílio-doença a ela no valor de Cr$ 13.000.00 em 1958.

Porém, não há mais informações se Celina Airlie Nina continuou ou não a desempenhar suas tarefas no DNCr nos anos posteriores e qual foi sua atuação. De acordo com Kramer (1992), a década de 1960 marcou o enfraquecimento do Departamento fazendo com que ele, em seus mais variados serviços, fosse todo absorvido pelo Ministério da Saúde, afirmando de vez sua preocupação médico-higienista. Tanto que pelo Decreto n. 66.623, de 22 de maio de 1970, que dispõe sobre a Reforma no Ministério da Saúde, o DNCr foi transformado na Coordenação de Proteção Materno-Infantil, cujo objetivo centrou-se apenas em reduzir os níveis de morbimortalidade infantil.

Diante das informações encontradas a respeito da educadora, pode-se afirmar que Celina Airlie Nina esteve à frente das discussões de seu período. Mesmo que com a publicação de uma única obra, a educadora mostrou-se atrelada aos objetivos do DNCr no que se referia à proteção materno-infantil. Preocupada, principalmente, com a saúde, bem-estar e desenvolvimento da criança, a educadora integrou o discurso médico-higienista, trazendo, ainda que timidamente, as características pedagógicas do trabalho a ser desenvolvido, o que fica visível pelos planos de aula e atividades que apresenta em sua obra, trabalhando com diferentes materiais, e estimulando o desenvolvimento da criança através das mais variadas experiências.

A influência médico-higienista no DNCr e mais especificamente, na Divisão de Proteção Social, onde Celina Airlie Nina atuou, pode ser explicada, segundo Kramer (1992), pela escassez de recursos com que o DNCr contou desde sua fundação. Com os objetivos de assistência às famílias; realização e divulgação de estudos; orientação, auxílio financeiro aos governos estaduais e à iniciativa privada e a fiscalização deles; o DNCr acabou por ter de adaptar esses objetivos voltando-se mais para os problemas de saúde, dirigindo-se, a partir de 1948, mais à questão médico-higienista, premissa essa que fica visível ao notarmos a implantação, em seu interior, do Instituto Fernandes Figueira composto, exclusivamente, por médicos, enfermeiros e farmacêuticos, dentre os quais destaca-se Odilon de Andrade Filho, sobre o qual dedicamos a apresentar no próximo item deste trabalho.