BÖLÜM 1: TEORİK ÇERÇEVE
1.3. Okul Öncesi Dönemde Temel Dini Kavramlar
1.3.1. Allah
O filósofo Giorgio Agamben irá trabalhar em seus escritos, a transformação da política em campo, em espaço da vida nua: o campo se configura, para ele como paradigma da política na modernidade no mundo ocidental. O estado de exceção surge como paradigma a partir das experiências históricas das duas grandes guerras mundiais, das leis marciais, que suprimiam as leis ordinárias em nome da proteção ao Estado no tempo de guerra. No entanto, esta suspensão temporal do ordenamento irá mais e mais tomar um
55 Oàd spotaà àoàpa a oi oà eàj à oàh ài o e ie teàe à a te osàse elha teàp oposiç o,àdadoà ueà osà desembaraçamos do familialismo próprio à concepção da paranoia na psicanálise e psiquiatria, e dado que vemos na paranoia um tipo de investi e toà deà fo aç oà so ial .à Deleuzeà &à Guatta i,à Oà a ti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia, 2010, p. 255).
aspecto permanente de um poder que passa a incidir, de forma contundente, sobre os corpos e a vida:
Apenas porque a vida biológica, com as suas necessidades, tornara-se por toda parte o fato politicamente decisivo, é possível compreender a rapidez, de outra forma inexplicável, com a qual no nosso século [século XX] as democracias parlamentares puderam virar Estados totalitários, e os Estados totalitários converter-se quasesem solução de continuidade em democracias parlamentares. Em ambos os casos, estas reviravoltas produziam-se num contexto em que a política já havia se transformado, fazia tempo, em biopolítica, e no qual a aposta em jogo consistia então apenas em determinar qual forma de organização se revelaria mais eficaz para assegurar o cuidado, o controle e o usufruto da vida nua (2002, p.128).
Assim, mesmo que, de direito, estejamos vivendo, na maior parte do planeta, em democracias representativas e não sob as ordens de poderes soberanos, de fato, segundo a leitura de Agamben, há um poder de soberania quando a política é transformada em algo que incide sobre os corpos – como poder, inclusive, de decidir entre a vida e a morte – doravante cada vez mais despida de características da política clássica. Há o predomínio de
bios, da vida como mero existir, sobre a antiga concepção de zoé, do homem como animal
político, que se constitui como cidadão ao participar dos fóruns públicos da vida na polis. A
polis, revestida deste poder de gerir a vida, se caracterizará cada vez mais como polícia,
entendida aqui em sua acepção originária, etimológica56, como maneira de dispor,
administrar, governar; não só como um ordenar mas também como vigilância57. E ainda:
como um poder soberano de decidir entre quais vidas são dignas ou não de serem vividas. Portanto, seguindo esse raciocínio, a questão não seria de perguntar como foram possíveis tamanhas desumanidades e crueldades nos lager – os campos de concentração e, posteriormente, com a adoção da solução final, de extermínio nas câmaras de gás. Mas
56 Segundo o dicionário Houaiss (2014), do latim polĭtia,ae 'organização política, governo, sistema
go e ati o' àDoàg ego: politeía,as 'qualidade e direitos de cidadão, vida de cidadão; o conjunto de cidadãos; vida e administração de homem de Estado'; em sentido coletivo 'medidas de governo; forma de governo,
egi eàpolíti o;àgo e oàdosà idad osàpo àelesàp p ios;à o stituiç oàde o ti a .
57 A vigilância estende-se também a um nível mais sutil, além do controle das condutas por agentes estatais das
i stituiç esàdeàsegu a çaàpú li a.à“egu doàFou ault:à Oà o t oleàdosài di íduos,àessaàesp ieàdeà o t oleàpe alà punitivo dos indivíduos ao nível de suas virtualidades, não pode ser efetuado pela própria justiça, mas por uma série de outros poderes laterais, à margem da justiça, como a polícia e toda uma rede de instituições de vigilância e correção – a polícia para a vigilância, as instituições psicológicas, psiquiátricas, criminológicas, médicas, pedagógicas para a correção. É assim que, no século XIX, desenvolve-se, em torno da instituição judiciária e para lhe permitir assumir a função de controle dos indivíduos ao nível de sua periculosidade, uma gigantesca série de instituições que vão enquadrar os indivíduos ao longo de sua existência; instituições pedagógicas como a escola, psicológicas ou psiquiátricas, como o hospital, o asilo, a polícia etc. Toda essa rede de um poder que não é judiciário deve desempenhar uma das funções que a justiça se atribui neste momento: fu ç oà oà aisàdeàpu i àasài f aç esàdosài di íduos,à asàdeà o igi àsuasà i tualidades à Fou ault,à ,àp.à 86).
compreender como o predomínio do paradigma biopolítico pôde criar as condições de possibilidade à redução dos homens a uma vida nua. Os campos, como fenômenos do regime de biopoder, expressam de maneira paroxística a ideia de redução do outro a mera existência biológica, cujos assassinatos não são passíveis de punição ou mesmo lamentação; talvez sequer sejam vistos como assassinatos.
Mas meu intuito aqui não é entrar nos meandros dos estudos sobre o estado de exceção. Para a presente pesquisa, interessa-nos ressaltar que, a incitação de Agamben para ueàap e da osà a reconhecer através de todas as suas metamorfoses, nas zones d'attente deà ossosà ae opo tosà e à o oà e à e tasà pe ife iasà deà ossasà idades ,à o osà a posà onde impera o estado de exceção, deve ser refletido com algum cuidado. Pois há o risco da reificação ide tit iaàdosà fa elados ,àle a do-nos a exotizar, lugares como as favelas como sendo inscritas num regime de exceção, por oposição à cidade. Nosso intuito é pensar tanto a continuidade, da favela como cidade; quanto a diferença, no que tange ao fato das populaç esàfa eladasàesta e à uitoà aisàe postasàaoà dei a à o e àdaà iopolíti aàdoà ueà em outras partes da cidade.
Tanto no clássico estudo de Lícia Valladares sobre A Invenção da Favela, como nos trabalhos de sociólogos como Luiz Antonio Machado da Silva e Marcia Leite, encontramos esta crítica à identificação pejorativa da favela e seus habitantes como inscritos num registro faltoso:
Essa construção das favelas como uma espécie de subcultura, inclusive pela ciência social, nada tem de recente (Valladares, 2005). O que parece novo é que agora não se trata de basear este entendimento, como antes, na desorganização social dessas localidades, mas de associá-las diretamente ao crime violento... Os moradores de favelas são tomados como cúmplices de bandos de traficantes porque a convivência com eles no mesmo território produziria aproximações de diversas ordens – relações de vizinhança, parentesco, econômicas, relativas à política local etc. – e, assim, um tecido social homogêneo que sustentaria uma subcultura desviante e perigosa. Esta, por sua vez, fundamentaria a aceitação e a banalização do recurso à força, o que terminaria por legitimar a ha adaà leià doà t fi o .à E à o se u ia,à osà o ado esà deà fa elasà esta ia à e usa doà aà leià doà país à aoà opta e à po à um estilo de vida que negaria as normas e valores intrínsecos à ordem institucional (Silva & Leite, 2008, pp. 49-51).
Mas, como lembra a antropóloga Patrícia Birman (2008), os pesquisadores devem sempre estar atentos a como os habitantes destes lugares, com quem pesquisamos, levam e à o taàtaisà i age sàtotaliza tes àso eà áàFa elaàeàOàFa elado à aà o st uç oàdeàsuasà idas.à“o eàisso,àgosta iaàdeàdis uti ,àaàtítuloàdeàe e plo,àaà uest oàdoàte oà Co ple o .
Uma coisa é criticarmos a naturalização do uso doàte oà o ple o àpa aàseà efe i àaà favelas como o Complexo de Acari e o Complexo do Alemão, alusivo a um conjunto de várias favelas menores, cujo teor é claramente associado ao vocabulário penal, militar, como em o ple oà pe ite i io .à “ouza,à ; Alves & Evanson, 2013.) Outra é prestarmos atenção aos usos estratégicos que são feitos destes termos pelos próprios habitantes locais. Em seu estudo sobre a favela de Acari, Marcos Alvito (Souza, 2001; 2005) comenta que alguns líderes comunitários utilizam-seàdoàte o,àe àfalasàpa aàoà e te io àdaàlo alidade,à basicamente reivindicatórias. Obviamente, ao aludir a uma grande concentração de pessoas, cerca de 180 mil, incluindo 10 favelas, dentre elas o morro da Pedreira e da Lagartixa, produz-se um efeito deà po o .àCo stitui-se assim, a imagem de uma multidão.
Agora mesmo, enquanto procuro recolher o termo, encontrado em algumas das crônicas de Deley para corroborar esta tese, leio uma publicação em seu blog, na internet, em que o assunto é as eleições que se aproximam. Neste texto, ele não só se refere à de epç oàdosà o ado esàdoàCo ple oàdeàá a i ,àpa ti ula e teàa uelesàe ol idosà o à a luta pelos direitos humanos, com o deputado estadual Marcelo Freixo58, por ele não ter
ido a Acari, conversar com seus apoiadores e eleitores, como discute a questão do voto e da conjuntura política, declarando seu apoio a dois candidatos: o estadual, Toninho da Padaria (morador de Acari) e o federal, Wadih Damous, ex-presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos daà OáB.à áp sà te i a à o à suaà de la aç oà deà oto,à assi a:à Poeta,à animador cultural, militante negro, líder comunitário e defensor de direitos humanos do Complexo de Acari,àdesdeà .à “u li hadoà osso. àLe o-me, em contrapartida, de uma conversa com Deley em que ele me diz que certo comandante da polícia que teria vindo o a àu à o à o po ta e to àdosàfa eladosàeà ueàele,àe ua toàlíde à o u it io,àte iaà dito:à N oàpossoàse à espo s elàpo àtudo!àátuoàape asàju toà àasso iaç oàdeà o ado esàdoà Parque á a iàeàoàCo ple oàdeàá a iàte à à ilàha ita tes! .à
58“egu doàDele àes e euàe àout aà i aài tituladaà Má‘CELOàF‘EIXOàMAIS UMA VEZ MAIS EM ACARI. ATÉ QUáNDO?à TáLVE)à NÃOà MUITOà MáI“... à deà à deà outu oà deà ,à F ei oà te eà . à otosà aà egi oà deà ¬Acari. Atribui a expressividade desta votação, mesmo sem campanha, como sendo fruto do reconhecimento de seu trabalho de base na área de direitos humanos, especialmente junto a presos e suas famílias. Em: http://www.facebook.com/vanderleydacunha.vanderley/posts/710879962301303. Igualmente expressiva, segundo divulgado no jornal O Globo, foram os votos de Freixo nas regiões do estado dominadas por milícias, demonstrando também uma reação de apoio a seu trabalho de coordenação da CPI das milícias (pela qual ele é ameaçado de morte). <http://oglobo.globo.com/brasil/marcelo-freixo-surpreende-com-votacao-em-regioes- de-milicia-no-rio-14190302>
Outra questão, levantada por Hannah Arendt (2008), diz respeito ao aspecto de resistência na escolha do termo com o qual se identificar. Arendt, que critica a atitude de rejeição de termos estigmatizantes em nome de um pretenso humanismo, tem como p i ípioà ueà s àseàpodeà esisti à osàte osàdaàide tidadeà ueàest àse doàata ada à p.à .à Se há racismo e estigmatização em jogo, dizer simplesmente que não há diferenças entre favela e cidade é algo bastante perigoso, por não reconhecer, na arena pública, o estigma. Daí a insistência com que os militantes ligados ao movimento social nas favelas afirmam o te o,àe à o t aposiç oàaoà idi ti oà o u idade ,à a te doà o àoà o teúdoàse ti oà do mesmo uma relação quase que mítica. Na mesma crônica de Deley, acima citada, nosso poetaà ilita teà fazà efe iaà aoà te oà fa ela,à o à Fà aiús ulo:à Mas,à e te doà ueà à i po ta te,à pa aà u à ilita teà eg oà eà e olu io ioà so ialista,à pe e e à oà o e toà hist i o à ueàoàB asilà i e,àeàp i ipal e te,à o oàesteà o e toàhist i o àafetaàaàFa ela,à j à ueàtudoà ueàa o te e,à oà u do,à oàestado,à aà idadeàafetaàaàfa ela. à“egu doàPat i iaà Birman (2008) o termo comunidade (outro termo bastante utilizado pelos moradores e líderes o u it iosà e à ego iaç esà o à políti osà eà out osà e feito es à te iaà u à to à eufemístico, mais ameno e, ao não confrontar o estigma, apenas o colocaria, momentaneamente, de lado.
Portanto, quando questionamos as fronteiras rígidas entre favela e cidade não queremos, certamente, corroborar a evasão ingênua por meio de uma pretensa igualdade humanística, mas sim cuidar para não colar a outrem uma identidade ligada a determinadas imagens, sobretudo faltosas, que o empobreçam em sua diversidade. Ressaltamos novamente que, para falar de compaixão num diálogo com vidas e relações humanas que se passam na favela, faz-se imprescindível ter o cuidado em não reificá-la como lócus privilegiado do estado de exceção em contraposição à cidade. Pois, se Agamben fala do campo como paradigma da política na modernidade, está afirmando, na esteira de Benjamim, que o estado de exceção é a regra no âmbito político na modernidade e não que o estado de exceção seja um estado que se instaure vez por outra, ou apenas em determinados lugares. Precisa-se, portanto, de alguma cautela quanto à pontuação de que devemos olhar para as periferias e favelas como campos. Não tomemos tais fronteiras como fi asàeàsi ,àpa aàutiliza àosàte osàdeàága e ,à o oàu aà espa ializaç oàdeslo a te .à
Uma das características essenciais da biopolítica moderna (que chegará, no nosso século [século XX], à exasperação) é a sua necessidade de redefinir continuamente, na vida, o limiar que articula e separa
aquilo que está dentro daquilo que está fora. Uma vez que a impolítica vida natural, convertida em fundamento da soberania, ultrapassa os muros do oicos e penetra sempre mais profundamente na cidade, ela se transforma ao mesmo tempo em uma linha em movimento que deve ser incessantemente redesenhada (2002, p.138, sublinhado nosso).