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Ainda no que diz respeito ao Mutual Legal Assistance Treaty – MLAT, acordo de

mútua assistência, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos da América, verifica-se, também, a possibilidade de violação do devido processo legal caso o pedido de assistência seja fundado no artigo 1.3 – MLAT193, na medida

em que restou ajustado que a assistência entre os países será prestada mesmo que não reste configurada a dupla incriminação, ou seja, mesmo que o fato não seja punível na legislação de ambos os Estados.

Nesse sentido, em se tratando do pacto firmado entre os respectivos países, mesmo que determinado fato não seja punível por dado Estado, a assistência poderá ser prestada, insurgindo-se desta forma, segundo o preceituado pela legislação brasileira, contra a legalidade e sequer obedecendo a um procedimento anteriormente estabelecido, o que, indiretamente, conduz ao desrespeito do devido processo legal, em razão da necessidade de existência de lei anterior que defina o respectivo crime no dito ordenamento jurídico (Artigo 5º, inciso XXXIX, da Constituição da República Federativa do Brasil).194

Com vistas ao citado dispositivo, denota-se que a relativização e, até a mesmo, a supressão do mencionado direito, conduz o Estado a uma apuração e, consequentemente, a uma prestação jurisdicional injusta, visto que é dever do Estado processar o acusado com ética.

192 Artigo 5º, inciso LXXV, da Constituição da República Federativa do Brasil: “O Estado indenizará o

condenado por erro judiciário, assim como o que ficar preso além do tempo fixado na sentença”.

193 Artigo I.3 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados Unidos

da América: “A assistência será prestada ainda que o fato sujeito a investigação, inquérito ou ação penal não seja punível na legislação de ambos os Estados”.

194 Artigo 5º, inciso XXXIX, da Constituição da República Federativa do Brasil: “Não há crime sem lei anterior

Ademais, outra violação do devido processo legal, além da falta de criminalização da conduta no arcabouço jurídico brasileiro, a partir da situação descrita acima, poderá decorrer da produção e da utilização de provas ilícitas que, por sua vez, prejudicam a lisura da persecução penal.

Quanto à temática, imperioso destacar que, a depender do pedido de auxílio, a referida violação também poderá ser verificada caso seja requerida com base no artigo IV.1 –

MLAT195, a partir da previsibilidade do acatamento de solicitação sob outra forma, diversa da

escrita, quando explicitada a urgência, o que poderá levar à utilização de provas ilícitas, face à informalidade prevista.

Em se tratando do âmbito interno, cumpre ressaltar que a Carta Magna brasileira prevê a inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos (Artigo 5º, inciso LVI, da Constituição da República Federativa do Brasil)196, dispositivo que, por sua vez, guarda

estreita relação com o devido processo legal, tendo em vista que, durante a persecução penal, o Estado não deve colher e, muito menos, utilizar provas que infrinjam o direito material, sob pena de ser maculado todo o conjunto probatório apurado, ressalvadas algumas restrições.

Nesse sentido, a inclusão de provas ilícitas no processo, uma vez afastada a vedação constitucional, deve ser medida fundada na cautela, tendo em vista que a definição de um caso de extrema gravidade é permeada de subjetividade que, se desmedida, pode levar ao cometimento de excessos, bem como à relativização e, até mesmo, à supressão do dito direito.

A par de tais considerações, verifica-se que, apesar de terem sido indicados dispositivos do MLAT que demonstram a violação do devido processo legal, o respectivo direito, além se ser protegido na esfera internacional, também é protegido no âmbito brasileiro.

Assim, observa-se que o mesmo foi incluído no ordenamento jurídico brasileiro, de forma que restou vedada a privação de liberdade ou de bens, sem o devido processo legal (Artigo 5º, inciso LIV, da Constituição da República Federativa do Brasil)197.

195 Artigo IV.1 do MLAT, em matéria penal, celebrado entre a República Federativa do Brasil e os Estados

Unidos da América: “A solicitação de assistência deverá ser feita por escrito, a menos que a Autoridade Central do Estado Requerido acate solicitação sob outra forma, em situações de urgência. Nesse caso, se a solicitação não tiver sido feita por escrito, deverá ser a mesma confirmada, por escrito, no prazo de trinta dias, a menos que a Autoridade Central do Estado Requerido concorde que seja feita de outra forma. A solicitação será redigida no idioma do Estado Requerido, caso não haja disposição em contrário”.

196 Artigo 5º, inciso LVI, da Constituição da República Federativa do Brasil: “São inadmissíveis, no processo, as

provas obtidas por meios ilícitos”.

197 Artigo 5º, inciso LIV, da Constituição da República Federativa do Brasil: “Ninguém será privado da

Observa-se, portanto, que o devido processo legal configura dupla proteção ao indivíduo, tanto no aspecto material de proteção ao direito de liberdade e de propriedade quanto no âmbito formal, na medida em que proporciona paridade total de condições com o Estado e plenitude de defesa.

Por sua vez, José Frederico Marques, ao tratar sobre as garantias processuais, leciona que, quando se fala em “processo” e não em simples procedimento, alude-se, sem dúvida, às formas instrumentais adequadas, a fim de que a prestação jurisdicional quando entregue pelo Estado, dê a cada um o que é seu, segundo os imperativos da ordem jurídica. E isso envolve a garantia do contraditório, a plenitude do direito de defesa, a isonomia processual e a bilateralidade dos atos procedimentais198.