2. ESERLERİ
2.18. Ikdü’l-ferâid min’nüsûsi’l-ülemâi’l-emâcid ehli’l-mezâhibi’l-erbaʻa
Destituição da escola como local de formação: a diretora da escola atribuiu muitos problemas de indisciplina apresentados por alunos a uma suposta “perda de valores” (sic) na família atual;
disse que para resistir aos problemas apresentados pelo aluno atual, sempre impõe limites aos mesmos.
Uma professora de inglês falou sobre sua estratégia de ensino, a partir de um projeto que integrou música RAP29 e ensino de gramática inglesa;
INVENÇÃO/SINGULARIZAÇÃO
Práticas alterativas:
Hip Hop como estratégia de ensino: Eu não gosto
de RAP, mas, tinha um aluno meu que gostava de colocar medo na turma, não respeitava os professores e dizia que era cantor de RAP. Fiz questão de ir até Heliópolis entrevistar o cantor Rapping’ Hood. Comprei alguns materiais para ouvir e ler sobre o movimento Hip Hop e depois desenvolvi um projeto para o ensino de inglês. O
28 Discorreremos posteriormente sobre o que chamamos aqui de práticas alterativas.
29 A sigla RAP vem do inglês Rhythm and Poetry (Ritmo e Poesia). É um dos elementos da cultura hip-hop. Há uma nota explicativa sobre a nomenclatura Hip Hop no capítulo 4.
resultado foi surpreendente, os alunos mostraram muita motivação e envolvimento com a atividade
(Professora de Inglês – ensino Fundamental II e Médio);
A partir da leitura das diferentes situações apresentadas no quadro 1, estabelecemos as temáticas transversais e alguns analisadores. Definimos cada uma dessas temáticas no quadro 2:
QUADRO 2: Eixos temáticos
analisadores definição
IMPASSES E TURBULÊNCIAS:
O cotidiano escolar é marcado por impasses e turbulências, sobretudo na relação entre atores que compõem a trama das relações no estabelecimento escolar. Esse analisador aparece com bastante freqüência, como pode ser visualizado no quadro 1; ele destaca impasses na relação professor-aluno, professor-coordenação, aluno-aluno, aluno-direção, professor-direção, pesquisador-professor, alunos-trabalhadores da escola (agentes escolares e agentes operacionais). As situações indicadoras de impasses e turbulências na escola variam. Podem aparecer sob a forma de brigas; atos de indisciplina; ameaças de violência entre alunos; agressões verbais entre alunos e professores; dentre outras situações provocadoras de agitação no cotidiano escolar;Destituição da escola como local de formação:
Esse analisador indica a destituição da escola como local de formação, de produção de saber, aquilo que Duschatzky e Corea (2002) denominam de modos dessubjetivantes, isto é, a perda do sentido da escola. Dessubjetivação nos remete à noção de impotência, sentida como impossibilidade de agir em determinadas situações, é estar à mercê do que aconteça. “Trata-se de um modo que tira o sujeito da possibilidade de decisão e da responsabilidade” (DUSCHATZKY & COREA, 2002, p. 73, nossa tradução). Dessubjetivação faz referência à percepção de não poder alterar o que se apresenta. Nesse contexto de pesquisa, utilizaremos a noção de dessubjetivação como analisador de despotencialização no cotidiano escolar. Mencionaremos aspectos que nos remetam à sensação de impotência, à perda de sentido da escola para toda a comunidade escolar;
Desregramento /disciplinamento: Esse analisador mostra estratégias de contenção pelo disciplinamento. Nessa trama, são controlados alunos, professores e até mesmo o corpo diretivo da escola. Segundo Eizirik e Comerlato (2004), é possível localizar estratégias de controle da vida e das condutas de membros que compõem uma escola. Todos são governados por diferentes práticas de poder que, ao mesmo tempo, controlam e utilizam a força dos controlados. Com efeito, as complexas redes micropolíticas formadas nesses processos, formam e manipulam a todos. A contraface desse controle aparece como indisciplina, desregramento. Os “escapes” frente às estratégias de controle são entendidos como “falta de limites”, terribilidades, descuido, problema, “falta de compromisso”, dentre outras rotulações constatadas através de relatos e observações no contexto escolar;
Rotulação: Esse analisador está vinculado a relatos e discursos acerca do aluno morador da comunidade, pertencente às classes desfavorecidas. Registramos discursos sobre um suposto “aluno-problema”, “sem-valores”, “desinteressado”, “violento”, “sem higiene”, “fracassado”, “terrível”, dentre outras rotulações que circulam no espaço escolar;
Assujeitamento/submissão: Utilizamos esse analisador para apresentar falas vinculadas ao modo pelo qual os alunos se apresentam. Denominações do tipo: alunos fracos, submissos, subservientes e passivos compõem análises sobre o modo de subjetivação predominante na escola. Entendemos o assujeitamento e a submissão como efeito de práticas que dificultam e vão na contramão dos processos criativos, inventivos e, portanto, processos de subjetivação, de produção de subjetividade;
Crise nos processos de trabalho na escola: Nesse item inserimos aspectos pertinentes aos processos de trabalho na escola. Apresentamos falas vinculadas à: falta de suporte pedagógico aos professores; tarefismos; incômodos vivenciados por agentes escolares contratados, frente à possibilidade de rescisões contratuais; reclamações a respeito do sistema de ensino; cansaço decorrente da atuação profissional no âmbito escolar;
Autoritarismo: Esse analisador mostra autoritarismos recorrentes no cotidiano escolar, especialmente, nas relações: professor-aluno, direção-aluno e direção-professor. Indica ações que impedem o diálogo, estratégias de bloqueio dos movimentos coletivos na escola, impedimento de discussões acerca de problemas pertinentes à escola;
SINGULARIZAÇÃO/INVENÇÃO:
Chamamos singularização/invenção toda açãoimpotência e irreversibilidade da condição escolar. São práticas inventivas, inovadoras, pautadas em uma ética de transformação do instituído. Não se trata de renunciar ao ensino, principal função da escola. Trata-se de abrir novas possibilidades ao ensino, convidar o aluno à participação, improvisar, trabalhar com o diferente. Uma análise crítica acerca das forças que atravessam o espaço escolar pode ser fundamental aos processos de invenção. Nas palavras de Duschatzky e Corea (2002): “*...+ a educação consiste em examinar uma situação de impossibilidade contingente e em trabalhar com todos os meios para transformá-la” (DUSCHATZKY & COREA, 2002, p. 91, nossa tradução).