Direito e linguagem são indissociáveis. O direito é decorrência natural da sociabilidade humana, isto é, conforme Hugo Grotius41 do fato do ser humano possuir “nele mesmo um pendor dominante que o leva ao social, para a cuja satisfação, somente ele, entre todos os animais, é dotado de um instrumento peculiar, a linguagem”.
39 CINTRA, Antonio Carlos de; GRINOVER, Ada Pelegrini; e DINAMARCO, Candido Rangel. Teoria
Geral do Processo. 21ª ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 90.
40 BUENO, Cássio Scarpinella. Op. cit., p. 50-51.
41 GROTIUS, Hugo. O Direito da guerra e da paz. 2ª ed. Tradução Ciro Mioranza. Ijuí-RS: Unijuí,
O Direito é expresso na linguagem, isto é, nas lições de Gregorio Robles42, o “direito é o resultado das múltiplas decisões dos homens que só podem se expressar mediante palavras”. A importância dessa conexão é traduzida na expressão de Luis Alberto Warat43 “fazer ciência é traduzir numa linguagem rigorosa os dados do mundo”.
François Ost44, ao tratar do tema Direito, língua e povo, cita a fala de Grimm em aula inaugural da Universidade de Berlim ocorrida em 1841, que fazia um paralelo entre direito e linguagem, considerando
Entre direito e linguagem, [...] reina uma profunda analogia. Sua essência comum reside, a meu ver, em sua igual antiguidade e sua igual juventude. Tanto um como outro repousam, de fato, sobre um velho e impenetrável fundamento, como a tendência a se regerem incessantemente.
O objeto de estudo do presente trabalho requer a compreensão exata do significado de processo, analisando-se especificamente o significado de processo no contexto do Estado Democrático de Direito, ou, dito de outro modo, o significado de processo no constitucionalismo do porvir, que se preocupa, sobretudo, em impor limites à atuação do Estado, quando esta for arbitrária, ou, contrariar as garantias dispostas na Constituição.
Para tanto, ressalta-se a importância do Direito na instituição de uma sociedade. François Ost45 considera que
[...] direito só secundariamente é comando, e que suas funções de direção das condutas e de resolução de conflitos, são elas mesmas, apenas derivadas em relação a um papel muito mais essencial, assumido pelo jurídico. Este papel fundamental consiste em instituir uma sociedade. Antes de regrar o comportamento dos agentes ou de separar conflitos, é preciso de fato, definir o jogo no qual a ação deles se inscreve.
42 ROBLES, Gregório. O Direito como texto: quatro estudos da teoria comunicacional do Direito.
Tradução: Roberto Barbosa Alves. Barueri-SP: Manole, 2005, p. 47.
43 WARAT, Luis Alberto. O Direito e sua linguagem. 2ª ed. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris, 1995,
p. 37.
44 OST(b), François. O tempo do Direito. Tradução Élcio Fernandes. Revisão técnica Carlos Aurélio
Mota de Souza. Bauru-SP: Edusc, 2005, p.83.
Em razão da fragilidade da linha distintiva entre as normas materiais e processuais é forçoso reconhecer que o significado de processo ganha uma nova roupagem com a crescente constitucionalização dos direitos relativos às normas processuais. Contudo, é indubitável que o vocábulo processo possui múltiplas acepções e, clara é a divergência doutrinária acerca das terminologias processo e procedimento, especialmente na seara do processo administrativo.
Como bem resume Lênio Luiz Streck46
O neopositivismo, fonte para a construção de metalinguagens e discursos analíticos, centrou suas criticas às insuficiências da linguagem natural (ordinária), propondo, como contraponto, a construção de uma linguagem artificial, para assegurar, assim, a neutralidade científica.
A afirmação do autor vai de encontro ao fato de que, para os neopositivistas, a linguagem natural não representava uma fonte segura para atender às demandas do discurso científico. A origem desse dilema, contudo, não nasce da preocupação do neopositivismo. Lênio Luiz Streck47 assinala, nesse sentido, o contraponto entre a teoria comunicativa de Habermas 48, para quem uma “linguagem natural pode ser substituída por outra” e a pré-compreensão em Gadamer.
Já Hans-Georg Gadamer49 observa que, “em nossos pensamentos e conhecimentos sempre já fomos precedidos pela interpretação do mundo feita na linguagem, e essa progressiva integração no mundo chama-se crescer”. Tudo isso explica que a linguagem extrapola, representando mesmo “o verdadeiro vestígio de
46 STRECK, Lênio Luiz. Decisionismo e discricionariedade judicial em tempos pós-positivistas: O
solipisismo hermeneutico e os obstáculos à concretização da Constituição no Brasil. In: O Direito e o futuro: O futuro do Direito. Coordenadores: Antônio José Avelãs Nunes e Jacinto Nelson de Miranda Coutinho. Coimbra: Almedina, 2008, p. 93
47 STRECK, Lênio Luiz. Op. cit., p. 93
48 HABERMAS, Jürgen. Agir comunicativo e razão descentralizada. Tradução: Lúcia Aragão. Revisão:
Daniel Camarinha da Silva. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2002 p. 35.
49 GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II: complemento e índice. 2ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes.
nossa finitude”, visto que o parâmetro de sua medida não está em nossa consciência individual e, nem tampouco na reunião das consciências individuais.
Hans-Georg Gadamer50 lembra a clássica definição de homem em Aristóteles, como “o ser vivo que possui logos” que, entre os ocidentais, pode ser compreendida como o cânone do animal racional. Menciona, ainda, que a palavra grega logos possui também acepção de linguagem.
Genaro R. Carrió51 observa que não obstante sua complexidade “el lenguaje es la más rica y compleja herramienta de comunicación entre los hombres”.52
Nesse contexto, Hans-Georg Gadamer53 aponta para o fato de a linguagem não representar uma espécie de instrumento ou ferramenta, mas, segundo ele, “um processo enigmático e profundamente oculto”, concluindo ser a linguagem, a representatividade do “centro do ser humano, quando considerado no âmbito que só ela consegue preencher: o âmbito da convivência humana, o âmbito do entendimento, do consenso crescente, tão indispensável à vida humana como o ar que respiramos”.
Segundo Custódio Luís S. de Almeida54 “é na linguagem que a consciência histórica emerge com toda sua agudeza”, pelo que se pode afirmar que a linguagem e seu processo, é fundamental à convivência humana em sociedade e, como tal, tem profunda ligação com o Direito.
Para Alaor Caffé Alves55 é por meio da linguagem e de seus elementos que se pode externar as coisas passíveis de existência. Diante desta constatação é que
50 GADAMER, Hans-Georg. Op. cit., p. 173.
51 CARRIÓ, Genaro R. Notas sobre Derecho y lenguaje. Buenos Aires: Abeledo Perrot, 1968, p. 13. 52 Tradução Livre: A linguagem é a mais rica e completa ferramenta de comunicação entre os
homens.
53 GADAMER , Hans-Georg. Op. cit., p. 176-177e 182.
54 ALMEIDA, Custódio Luís S. Hermenêutica e dialética: dos estudos platônicos ao encontro com
Hegel. Coleção Filosofia 135. Porto Alegre: EdIPUCRS, 2002, p. 276.
55 ALVES, Alaôr Caffé. Lógica: pensamento formal e argumentação: elementos para o discurso
o autor afirma “[...] o pensamento, para existir, não prescinde de uma formulação lingüística. [...] embora ele não se confunda com a linguagem, não se pode tê-lo expressamente sem esta”.
Para Mikhail Bakhtin56 a linguagem traduzida como fenômeno ideológico “faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário, destes, ele também reflete e refrata outra realidade, que lhe é exterior”.
Retomando o pensamento de Alaor Caffé Alves57, pensamento e linguagem, embora não sejam a mesma coisa, possuem uma inter-relação que não pode ser subestimada, razão pela qual conclui que o homem “pensa porque fala, bem como fala porque pensa”. A importância de sua fala está no encadeamento da linguagem como “fenômeno intersubjetivo” e sua conexão com as relações sociais de uma dada sociedade em um determinado tempo.
Como afirma Lourival Vilanova58 “mediante a linguagem fixam-se as concepções conceptuais e se comunica o conhecimento”.
Segundo Paulo Ferreira da Cunha59, a linguagem traduz-se na “luta pela palavra e pela “labelização” (a possibilidade de colar labéus, etiquetas, estigmas) é uma das grandes lutas ideológicas [...]”, pois, em razão do predomínio “ideológico, cultural, pela ideologia dominante se conseguem inibir adversários e inimigos, que inconscientemente aceitam as regras do jogo de quem define as regras, pelo controlo da palavra”.
56 BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução: Michel Lahud & Yara Frateschi
Vieira. 12ª ed. São Paulo: HUCITEC, 2006, p. 31.
57 ALVES, Alaôr Caffé. Op. cit., p. 26.
58 VILANOVA, Lourival. As estruturas lógicas e o sistema de direito positivo. São Paulo: Noeses,
2005, p. 40.
59 CUNHA, Paulo Ferreira da Cunha. Anti-Leviatã: direito, política e sagrado. Porto Alegre: Sérgio
A análise da linguagem liga-se de forma umbilical ao estudo do significado que, em sentido amplo, pode ser compreendido como “aquilo que uma língua expressa acerca do mundo em que vivemos ou acerca de um mundo possível” e ainda, como significado gramatical “aquele que se estabelece dentro de um sistema linguístico determinado e que dele depende” por fim, o significado lexical, compreendido como “aquele que se estabelece em relação ao mundo biossocial”.60
Ao transpor as questões atinentes à linguagem e ao significado, do campo geral para a função da Ciência do Direito, de acordo com Humberto Ávila61, esta “não pode ser considerada como mera descrição do significado, quer na perspectiva da comunicação de uma informação ou conhecimento a respeito de um texto, quer naquela intenção de seu autor”.
A constatação do autor refere-se ao estudo da hermenêutica e da interpretação do direito, que, por seu turno, estão interligadas à questão dos princípios jurídicos, temas que serão estudados em capítulo próprio.
Nesse sentido também contribui Plauto Faraco de Azevedo62 atribuindo importância extrema ao domínio da linguagem, visto que a ausência deste influenciará de forma direta a aplicação do direito, tornando assim as leis confusas por semear “a perplexidade entre as pessoas, dificultando-lhes o conhecimento de seus direitos e deveres.”
Nesse sentido arremata Genaro R. Carrió63 aproximando a linguagem do direito da linguagem natural
Espero que se me conceda sin necesidad de una elaborada demostración que las normas jurídicas, en cuanto autorizan, proihiben o hacen obligatorias ciertas acciones humanas, y en cuanto suministran a los
60 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Op. cit., p. 1853.
61 ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 9ª ed.
rev. e amp. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 31.
62 AZEVEDO, Plauto Faraco de. Aplicação do Direito e contexto social. Revista dos Tribunais: 1996,
p. 73.
súbditos y las autoridades pautas de comportamiento, están compuestas por palavras que tienen las características próprias de los lenguajes naturales o son definibles en términos de ellas. [...] La fúncion social Del derecho se veria hoy seriamente comprometida si aquéllas estuvieran formuladas de manera tal que solo un grupo muy pequeño de iniciados pudiese comprenderlas. Por ello es legítimo decir que las normas jurídicas no sólo se valen del lenguaje natural sino que, en cierto sentido, tienen que hacerlo.64
Sob esse prisma, não se pode negar, os efeitos do uso da linguagem natural na compreensão do próprio direito. A linguagem natural do legislador não é a linguagem rigorosa do jurista. Na expressão de Marcelo Neves as “imprecisões semânticas (vagueza e ambiguidade) dos termos constitucionais e legais (linguagem-objeto) dão margem a uma diversidade de processos redefinitórios (metalinguagem)”, dos quais podem ser extraídos tanto “soluções afirmativas quanto negativas do “estado” de inconstitucionalidade de uma lei “65.
Segundo Marcelo Dascal66, a “linguagem jurídica é identificada como um registro da linguagem natural”. À esse raciocínio acrescenta que a linguagem jurídica possui “aspectos semânticos e pragmáticos, mas não tem aspectos sintáticos distintivos, se comparada com a linguagem natural em geral”. Nesse contexto o autor afirma
Ao contrário das línguas „planejadas‟ ou „artificiais‟, a língua jurídica evolui historicamente. Ela é o resultado das necessidades práticas da elaboração das leis e de sua aplicação. O legislador tem que optar por um meio-termo entre, por um lado, a acessibilidade e a intelegibilidade direta dos textos jurídicos por seus destinatários potenciais e, por outro, um nível adequado de exatidão na formulação das leis sancionadoras.
[...]
A língua jurídica compartilha dois aspectos importantes com a língua natural comum. O primeiro é a contextualidade e a co-textualidade do significado dos seus termos; o segundo, a sua imprecisão pragmática. Os significados
64 Tradução livre: Espero que me seja concedido sem necessidade de uma elaborada demonstração,
que as normas jurídicas, enquanto autorizam, proíbem ou tornam obrigatórias certas ações humanas, e enquanto fornecem aos súditos e às autoridades padrões de comportamento, estão compostas por palavras com características próprias das linguagens naturais ou podem ser definidas nos termos propiciados por elas. [...] A função social do Direito estaria hoje seriamente comprometida caso elas tivessem sido formuladas de forma tal que pudessem ser compreendidas por apenas um pequeno grupo de iniciados. Por isto é legítimo dizer que as normas jurídicas não somente se valem da linguagem natural, mas também, de certa forma devem fazê-lo assim.
65 NEVES, Marcelo. Teoria da inconstitucionalidade das leis. São Paulo: Saraiva, 1988, p. 161. 66 DASCAL, Marcelo. Interpretação e compreensão. Tradução: Marcia Heloisa Lima da Rocha.
dos termos jurídicos dependem dos contextos lingüísticos, sistêmicos e funcionais do seu uso; e esses termos são imprecisos no sentido que há sempre uma penumbra semântica na qual a questão da sua aplicabilidade permanece em aberto.
Ressalta-se o alerta de Gregorio Robles67, no sentido de se distinguir “entre a linguagem descritiva e a linguagem prescritiva”, posto que a linguagem descritiva “é a realidade que cerca o narrador” e a linguagem prescritiva “estabelece, ordena, prescreve que seja de uma determinada maneira”.
Desse modo, de acordo com A. Castanheira Neves68 o universo jurídico é compreendido, “como um universo linguístico”, cujo “método específico” é “a analise da linguagem”, isto é, “da linguagem legal” do “discurso do legislador”. Pois, como adverte Francisco Geny69 não se pode negligenciar o fato de que “todo linguaje humano, el verbo de la ley no es más que um instrumento destinado a manifestar el pensamento del que habla”.70 É dizer, em qualquer discurso, não se deve esquecer a íntima relação entre direito e justiça