3 ĠSTANBUL BOĞAZI'NIN HĠDRODĠNAMĠĞĠ
3.2 Ġstanbul Boğazı Ġklimi
3.2.1 Akıntı Ġklimi
As alterações no ranking dos municípios baianos com população superior a 20 mil habitantes segundo os censos de 1940, 1950 e 1960 foram muitas e fortemente associadas à perda de população em 41 dos 76 municípios que tinham em 1940 mais de 20 mil habitantes. É um número proporcionalmente muito alto: mais da metade daqueles municípios experimentaram redução de estoque populacional nos 20 anos entre 1940 e 1960 (principalmente, na década de 1950). Os anos de 1950 foram aqueles em que o Brasil mais cresceu no século XX. Nesse decênio, Salvador viveu também um crescimento sem igual. Se o Brasil convivia com a altíssima taxa de crescimento anual de 3,17%, Salvador atingiu a impressionante taxa de 4,62% ao ano
165 (a.a). Tudo indica que, se a Bahia crescia à taxa de 2,17% a.a., a capital baiana drenava milhares de migrantes para si. Assim, parte das perdas acima comentadas se deu a favor do município de Salvador, no momento em que vivia um crescimento vertiginoso, não mais experimentado posteriormente (ver Anexos 6 e 7).
Contudo, a forte atração populacional de Salvador não explica completamente as perdas demográficas dos 76 municípios acima mencionados. Houve perdas por emigração para outros estados e houve emancipações municipais63. A despeito das dificuldades de seleção e discriminação dos municípios perdedores, a questão pode ser analisada a partir da identificação dos municípios representativos em 1940 que se mantiveram luminosos na rede de cidades do estado da Bahia, mesmo num ambiente de grande êxodo rural.
Além de Salvador, destacaram-se 34 municípios que alcançaram incrementos demográficos nos dois censos subsequentes a 1940. Dentre eles cabe sublinhar seis, Jequié, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Jacobina, Alagoinhas e Canavieiras que ultrapassaram em 1960 a barreira dos 50 mil habitantes (os três primeiros detinham mais de 100 mil habitantes cada um). Na Tabela 16 comparecem esses municípios acompanhados por Itabuna e Riachão do Jacuípe na relação dos 20 que mais ganharam população no período 1940/60. De todo modo, em 1960, um total de 120 municípios na classe de mais de 20 mil habitantes participavam de forma proeminente da rede de cidades da Bahia64. Esses municípios estão representados na Figura 17.
63 As emancipações não ocorrem a todo o momento. Há alguns surtos emancipacionistas em
determinados períodos como o de 1963/4 ou de 1982/3. Essa discussão não é assumida nesse trabalho, embora o problema das fragmentações territoriais seja relevante na reflexão geográfica. A periodização adotada e a observação de sucessivos mapas ao destacar alguns municípios mais populosos na rede de cidades da Bahia é uma ferramenta analítica que ameniza os impactos das emancipações municipais nas análises aqui realizadas.
64 Além dos seis mencionados figuram os municípios de Maragogipe, Barreiras, Valença, Muritiba,
Cachoeira, Senhor do Bonfim, Maracás, Anchieta (atual Piatã), Santo Antônio de Jesus, Brumado, Santo Estevão, Juazeiro, Ituaçu, Paramirim, Santana, Casa Nova, Angical, Itacaré, Camamu, Barra, Barra da Estiva, Tucano, Sebastião do Passé, Paripiranga, Ubaíra e Livramento de Nossa Senhora. Observe que em 1950 o censo registra a presença de 22 novos municípios com mais 20 mil habitantes, os quais se agregaram a outros 22 na mesma classe de tamanho em 1960.
166 Figura 17 - Municípios baianos com população superior a 20 mil hab - 1940
Fonte IBGE, 1940.
Note-se que em 1940, apenas Salvador era definitivamente urbanizada com 100% de sua população residindo no interior do perímetro urbano (38,30% da população das cidades do estado). Esse dado causa certa estranheza ao levar-se em conta que o Brasil ainda era profundamente rural e o processo de urbanização só
167 ganhou celeridade a partir dos anos de 1950. Seria de se esperar que a variação de estoques verificada nos principais municípios baianos se desse no bojo da forte expansão do grau de urbanização, o que indicaria níveis elevados de êxodo rural com transferência de habitantes de áreas rurais para as cidades mais próximas e atraentes, como já preceituara Ravenstein em 1898 (MOURA, 1980).
A análise dos números de 1960 indica que apenas Alagoinhas, Itabuna e Juazeiro (seguidas de perto por Feira de Santana) ostentavam um GU superior a 50%, além, obviamente, de Salvador. Nesses municípios os ganhos verificados no período sugerem que suas áreas urbanas atraíam migrantes de suas áreas rurais e de outros municípios menos dinâmicos, provavelmente os mais próximos da cidade polo.
O fato é que, excluindo Salvador, os demais 19 municípios da Tabela 16 aumentaram seus estoques populacionais em 432.930 pessoas, e, embora os principais municípios baianos em 1960 continuassem predominantemente rurais, o incremento demográfico se deu basicamente na área urbana (eram 153.980 residentes nas áreas urbanas em 1940 e 430.618 em 1960). Isso significa que as perdas nas áreas rurais devem ter sido muito altas em diversos municípios, pois ao estoque de população rural de 1940 acrescentou-se apenas 2.312 pessoas segundo as enumerações do censo de 1960. Essas perdas podem estar vinculadas aos fatores clássicos de expulsão da população do campo, como as adversidades climáticas e a estrutura agrária de um lado, e as facilidades em curso por conta da expansão da malha rodoviária, de outro. A agricultura baiana nesse período era pouco mecanizada65.
O fenômeno urbano na Bahia pôde ser melhor evidenciado a partir dos anos 40, graças à divulgação dos resultados do recenseamento que passou a discriminar as populações presentes ou residentes nas sedes municipais e distritais. Em 1940, observando a população residente nas cidades, conclui-se que das 289 sedes municipais, 269 (cerca de 93%) possuíam contingente populacional de até 5.000 habitantes; 10 localidades possuíam entre 5.001 e 10.000 habitantes e 9 cidades possuíam entre 10.001 e 20.000 habitantes. Salvador, o único centro com população
65 Em 1950, apenas 4 dos 258.043 estabelecimentos eram totalmente mecanizados; 3.492 usavam a
força animal; 59 a máquina e a tração animal e 254.488 o trabalho braçal. Ainda nesse ano, cerca de 1.227.906 pessoas estavam ocupadas no trabalho agrícola, dos quais 70% eram também proprietários rurais e 30% eram somente assalariados (SANTOS, 1960, p. 54).
168 entre 100.001 e 500.000 habitantes, continuava apresentando desmesurada primazia em relação às outras cidades do estado.
Tabela 16 - População total e urbana dos 20 principais municípios com mais de 20 mil habitantes em 1940 segundo maiores ganhos na variação de estoque, por situação domiciliar e grau de urbanização - (1940 a 1960)
Municípios
População Recenseada Variação Bruta Total
1940 1950 1960
Total Urbana G.U. Total Urbana G.U. Total Urbana G.U. Recôncavo e Faixa Litorânea
Salvador 290.443 290.443 100,0 417.235 389.422 93,3 655.735 638.592 97,4 365.292 Valença 29.442 10.115 34,4 33.057 12.370 37,4 40.186 17.862 44,4 10.744 Itabuna 96.879 27.550 28,4 147.730 45.621 30,9 118.417 67.687 57,2 21.538 Canavieiras 36.064 8.542 23,7 53.830 10.190 18,9 63.016 19.954 31,7 26.952 Camamu 22.312 2.901 13,0 23.834 3.582 15,0 37.424 5.950 15,9 15.112 Interior Sertanejo Jequié 84.237 18.286 21,7 90.155 27.032 30,0 112.940 50.484 44,7 28.703 Feira de Santana 83.268 19.750 23,7 107.205 34.277 32,0 141.757 69.884 49,3 58.489 Vitória da Conquista 74.443 11.884 16,0 96.664 23.553 24,4 143.486 53.429 37,2 69.043 Jacobina 51.693 6.548 12,7 61.681 10.456 17,0 75.214 19.992 26,6 23.521 Serrinha 45.842 4.253 9,3 68.413 9.138 13,4 56.750 12.658 22,3 10.908 Alagoinhas 37.827 15.612 41,3 52.007 24.596 47,3 75.422 42.571 56,4 37.595 Ipirá 35.431 1.935 5,5 53.291 2.865 5,4 48.422 4.207 8,7 12.991 Rio Novo (Ipiaú) 33.653 6.532 19,4 48.056 13.360 27,8 47.720 19.276 40,4 14.067 Morro do Chapéu 33.329 3.259 9,8 48.503 4.687 9,7 46.038 8.805 19,1 12.709 Maracás 31.259 3.108 9,9 43.053 3.952 9,2 43.083 5.665 13,1 11.824 Riachão do Jacuípe 27.694 2.044 7,4 21.301 1.844 8,7 49.400 4.587 9,3 21.706 Brumado 26.275 2.733 10,4 36.631 4.288 11,7 43.331 8.483 19,6 17.056 Juazeiro 25.523 11.831 46,4 34.416 17.692 51,4 40.742 23.855 58,6 15.219 Barra 25.388 5.137 20,2 31.781 7.314 23,0 36.514 8.897 24,4 11.126 Tucano 20.472 2.075 10,1 28.596 3.508 12,3 34.099 4.234 12,4 13.627 Total 636.334 114.987 23,165 821.753 188.562 25,94 994.918 337.027 34,435 39,91
Fontes: Censos Demográficos de 1940, 1950 e 1960.
Invertendo-se o ponto de vista, para analisar somente aqueles municípios com mais de 20.000 habitantes, como se verifica na Tabela 17 a seguir, identificou-se vinte e sete localidades nessa condição em 1940. Desse grupo, dezenove cidades possuíam mais de 5.000 pessoas (primordialmente localizados no RB e na Zona do Cacau), e somente em dez casos foram registrados mais de 10 mil habitantes: Salvador, Itabuna, Ilhéus, Feira de Santana, Nazaré, Alagoinhas, Jequié, Santo Amaro, Juazeiro e Cachoeira, que eram servidas naquele momento por estradas de ferro e, em alguns casos, por rodagem.
169
Tabela 17 - Bahia, população na data do recenseamento - estado da população, situação demográfica e classificação por tamanho de cidade - 1940
Unidade da Federação e municípios Superfície (km2) População de Fato População Total
Segundo a localização Por Km2
Cidades Vilas Zona Rural Salvador 1.016 290.443 290.443 - - 285,87 Itabuna 4.439 96.879 15.712 11.838 69.329 21,82 Ilhéus 3.304 113.269 15.566 17.860 79.843 34,28 Feira de Santana 2.429 83.268 14.131 5.619 63.518 34,28 Nazaré 309 24.332 13.382 1.500 9.450 78,74 Alagoinhas 1.546 37.827 13.317 2.295 22.215 24,47 Jequié 3.437 84.237 13.268 5.018 65.951 24,51 Santo Amaro 1.325 106.303 10.929 11.565 83.809 80,23 Juazeiro 5.919 25.523 10.831 1.000 13.692 4,31 Cachoeira 331 26.966 10.374 1.683 14.909 81,47 Valença 1.690 29.442 9.636 479 19.327 17,42 Maragogipe 508 35.095 8.589 4.115 22.391 69,08 Santo Antônio de Jesus 331 26.466 8.518 533 17.415 79,96 Conquista (Vitória da Conquista) 9.199 74.443 7.682 4.202 62.559 8,09 Bonfim (Senhor do Bonfim) 2.286 26.886 7.213 700 18.973 11,76 Castro Alves 1.988 39.301 7.208 687 31.406 19,77 Muritiba 486 28.135 7.095 1.282 19.758 57,89 Belmonte 3.812 27.580 6.137 2.012 19.431 7,24 Canavieiras 4.782 36.064 5.587 2.955 27.522 7,54 Jacobina 6.471 51.693 4.389 2.159 45.145 7,99 Cruz das Almas 243 28.255 4.299 1.673 22.283 116,28 Amargosa 442 28.566 4.264 925 23.377 64,63 Barreiras 19.469 32.183 4.144 2.177 25.862 1,65 Barra 18.133 25.388 4.065 1.072 20.251 1,40 Rio Novo (Ipiaú) 1.060 33.653 3.806 2.726 27.121 31,75 Paripiranga 1.184 20.297 3.540 384 16.373 17,14 Djalma Dutra (Miguel Calmon) 1.723 25.178 2.996 1.393 20.789 14,61 Bahia 529.379 3.918.112 705.884 231.687 2.980.541 7,40
Fonte: IBGE, 1940.
Embora possa parecer, à primeira vista, que uma população de duas mil pessoas, que convivem e constroem relações num determinado espaço, seja pouco relevante para produzir um modo de vida tipicamente citadino, é razoável acreditar que havia, naquele contexto, um conjunto de objetos e práticas reveladoras do ambiente protourbano nas vilas e, sobretudo, nas cidades de então: a presença da igreja, da prefeitura, da delegacia, de estabelecimentos comerciais formais, da feira livre local e de outros tantos fixos integrados entre si. Tudo isso demonstrava a existência de intercâmbios de diferentes magnitudes e naturezas - estabelecidos entre esses e outros pontos - que imprimiam no modo de vida local práticas tipicamente urbanas.
À guisa de contribuição ao entendimento da rede urbana nessas duas décadas, indicadores revelam o papel dos centros distribuídos na hierarquia da rede. Por exemplo, na função comercial varejista, tendo como base a quantidade de
170 estabelecimentos existentes em cada município, bem como o número de pessoas ocupadas nesses estabelecimentos. Para Santos (1958, p. 28), “[...] não é essa a única função a atribuir às cidades um papel regional”, mas demonstram por um lado o grau de organização espacial a que chegou cada núcleo urbano, bem como sua capacidade para servir a esse espaço. Considerou-se para efeito de análise os municípios com mais de 100 estabelecimentos varejistas, os quais certamente atendem a uma parcela maior de consumidores vindos de zonas mais distantes. O comércio atacadista certamente indica posição de comando de uma localidade em uma rede de cidades.
Na comparação entre a Tabela 17 e a Figura 18, conclui-se que as sedes municipais com maior número de estabelecimentos possuíam em 1940 mais de 4 mil residentes. Excluem-se do rol Itaparica, Irará, Poções, Mundo Novo, Miguel Calmon e Gentio do Ouro. É provável que Itaparica e Irará estejam no grupo assinalado por conta de suas funções econômicas do passado e os demais, em função da expansão da rede viária interiorana, cujas sedes eram pontos de entroncamento ou passagem.
Ao estabelecer relação entre a função comercial dos municípios com maior número de estabelecimentos comerciais e a população de suas sedes, fica evidente o papel das ferrovias e rodovias na dinâmica econômica regional, pois a maioria desses municípios era servida pelas linhas de trem e/ou pelas estradas de rodagem - eixos estruturantes do espaço baiano.
Outro indicador de centralidade é a quantidade de empresas registradas nas unidades municipais. A análise dessa variável reafirma a posição de destaque de algumas das sedes municipais acima citadas na rede urbana baiana. Os municípios com mais de 10 empresas registradas eram: Salvador (com 248 unidades), Santo Amaro (65), Ilhéus e Jequié (63), Alagoinhas (41), Itabuna (35), Juazeiro (31), Jacobina (28), Nazaré (27), Itaparica (26), Cachoeira, Condeúba, Feira de Santana e São Félix (24), Aratuípe, Maragogipe, Poções e Tapicuru (20), Camamu e Valença (17), Irara (15), Djalma Dutra (atual Miguel Calmon), Jaguaripe, Santo Antônio de Jesus e São Sebastião do Passé (14), Muritiba (13), Mundo Novo e Pojuca (12) e Conquista (atual Vitória da Conquista), Ituaçú e Castro Alves (com 10 empresas). Verifica-se que esses municípios situavam-se no RB, área de ocupação antiga, na zona cacaueira e na faixa servida pelos principais eixos viários construídos desde o século XIX.
171 Figura 18 - Municípios baianos com mais de 100 estabelecimentos comerciais varejistas - 1940
Fonte: IBGE, Censo Econômico, 1950.
Em 1950, a Bahia possuía 27 cidades cuja população era superior a 5 mil habitantes. Comparando esses números com os do censo de 1940, percebe-se que não ocorreram mudanças significativas na posição que cada centro ocupava na rede urbana estadual. Se por um lado as posições na rede pouco se alteraram, o número de cidades com mais de 5 mil habitantes ampliou consideravelmente, deixando essa faixa hierárquica mais robusta: se em 1940 havia 20 sedes municipais nesse grupo, em 1950 essa quantidade saltou para 32 cidades, um acréscimo de 60%. Salvador manteve-se isoladamente como a cidade de mais alto grau de centralidade no estado - único polo com população inserida na faixa demográfica entre 50 e 500 mil
172 habitantes. As demais sedes municipais podem ser classificadas em pelo menos 5 grupos: Ilhéus, Feira de Santana e Itabuna faziam parte da primeira faixa hierárquica, com cidades de população entre 25 e 30 mil habitantes; Alagoinhas e Jequié figuravam no grupo de cidades com população entre 20 e 24.999 habitantes; Vitória da Conquista e Juazeiro, apareciam na zona hierárquica de localidades com população entre 15 e 19.999; já Ibicaraí, Santo Amaro, Valença, Santo Antônio de Jesus, Nazaré, Cachoeira e Senhor do Bomfim estavam no penúltimo grupo de cidades, com população entre 10 a 14.999 pessoas, e finalmente as demais cidades, treze no total66, na faixa hierárquica com população entre 5 e 9.999 habitantes.
Centralidades que despontaram
Para efeito deste estudo, convém analisar o contexto daquelas localidades que passaram a ter alto grau de centralidade na década de 1950: as cidades de Ibicaraí e Ipiaú, que emergiram como importantes nós na rede urbana estadual e ampliaram seu contingente populacional no decênio. Essa nova posição na rede vincula-se à expansão da atividade cacaueira a partir de Ilhéus e Itabuna para o interior do estado, simultaneamente à chegada de estradas nas sedes municipais. As duas passaram a dividir com Itabuna e Jequié a função de centros de oferta de atividades comerciais e de serviços. Embora Ibicaraí não tenha sido servida por trilhos, sua ligação com Itabuna era de interesse do Instituto do Cacau da Bahia, pois servia para o escoamento do produto até o porto de Ilhéus, cultivado em povoações próximas, situadas, sobretudo, a Oeste. Ipiaú, por sua vez, também viveu contexto semelhante, mas sob influência de Jequié e das atuais BR 116 (antiga BA-1) e BR 101 (antiga BA- 2), na época em construção. Talvez o principal motivo para que as duas cidades tenham mantido expressivo crescimento populacional no período seja porque estiveram menos sujeitas às oscilações do mercado cacaueiro, uma vez que desenvolviam paralelamente a atividade pecuarista. “Além da agricultura, o gado entra com certa parcela nas transações comerciais, ora compensando em parte a queda da produção agrícola, ora aumentando-as nos períodos de bonança” (BOTELHO, 1954, p. 13).
66 Itapetinga, Muritiba, Jacobina, Ipiaú, Cruz das Almas, Serrinha, Canavieiras, Castro Alves, Itaberaba,
173 Outra cidade que ganha destaque como importante nó da rede estadual em 1950 foi Itapetinga: é provável que a posição adquirida tenha sido reflexo do desenvolvimento da pecuária numa vasta região do Sudoeste Baiano sob seu comando. Ao observar a quantidade de hotéis e/ou pousadas registradas na Enciclopédia dos Municípios Baianos no período, Itapetinga estava à frente de todas as cidades incluídas na mesma faixa hierárquica (entre 5 e 10 mil hab.), ostentando 19 estabelecimentos, enquanto a média do grupo era de 5 estabelecimentos; no grupo das cidades mais populosas, Itapetinga só possuía menos pontos de hospedagem que Salvador, Feira de Santana, Ilhéus, Alagoinhas, Vitória da Conquista e Jequié.
Cabe ressaltar também o relativo grau de centralidade de Serrinha, que apresentou expressivo crescimento desde a chegada dos trilhos à sua sede, no final do século XIX; e Cruz das Almas, que foi servida pelo trem por um curto período, na década de 1960. Ambas foram beneficiadas com a execução do plano rodoviário estadual, que permitiu a passagem da BR 116 nas bordas de Serrinha e da BR 101 em Cruz das Almas. É igualmente importante frisar o papel comercial de Serrinha na região em que se encontra, visto que em 1950 possuía o maior número de estabelecimentos comerciais varejistas (390) e atacadistas (17) no grupo de cidades com população entre 5 a 10 mil habitantes. O segundo município com maior número de estabelecimentos desse tipo foi Ipiaú (302/32).
Itaberaba e Rui Barbosa tiveram seu desenvolvimento econômico naquele momento vinculado, sobretudo, à construção da Ferrovia da Grota e experimentaram expressivo crescimento populacional até 1950. Possuíam, respectivamente, 22.861 e 24.332 habitantes em 1920, soma que chegou a 56.990 e 37.317 em 1950. Suas sedes municipais foram certamente impactadas por esse expressivo aumento populacional, aumento esse associado à integração delas ao sistema rodoviário do estado em décadas anteriores.
No que tange às demais localidades-polos identificadas na rede estadual em 1950, como citado anteriormente, a maioria manteve o alto grau de centralidade obtido desde o século XIX. Salvador continuou mantendo a função de principal praça comercial e, naquele momento, ainda era o município mais industrializado do estado. As demais cidades também carregavam consigo reflexos do desempenho obtido desde o século passado, seja como centros demográficos, de comércio ou de
174 serviços. Cabe observar aqui o aumento populacional vivido por Itabuna desde a década passada.
A estrada de ferro, primeiramente, e depois a política rodoviária do Instituto de Cacau da Bahia, foram as responsáveis principais do progresso de Itabuna, que a elevaram a principal centro coletor da zona cacaueira (na década de 1950), no tocante à exportação, e a distribuidor da produção, via Ilhéus (Ibid., p. 17).
A população da cidade de Itabuna mais que dobrou de tamanho em 10 anos, passando de 25.351 habitantes em 1940 para 54.268 habitantes em 1950. Assim, superou a de Ilhéus que, embora tenha aumentado, chegou a somente 45.712 habitantes nessa década. Quanto às cidades que saíram da lista das maiores aglomerações urbanas no decênio, cita-se Maragogipe e Amargosa, no RB, e Andaraí e Lençóis, na Chapada Diamantina.