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5. BÖLÜM: DÜNYADA VE TÜRKİYE’DE AİLE İÇİ ŞİDDET VE KADINA YÖNELİK ŞİDDET

5.3. Aile İçi Şiddetin En Acı Tezahürü: Namus Cinayetler

Como uma entidade multiétnica, a União Soviética mantivera um extenso território, que ia da fronteira polonesa no Ocidente até as águas costeiras japonesas no Oriente; sua sobrevivência se deu devido à Revolução de Outubro (HOBSBAWM, 1995), mas as tensões que haviam desmontado os impérios arcaicos do início do século XX ressurgiram na terra dos sovietes no final da década de 1980, quando o regime comunista, que preservou grande parte do antigo território imperial russo intacto, deu claros sinais de falência. Após a Revolução de 1917, formou-se um verdadeiro universo separado e em grande parte auto-suficiente do ponto de vista político-econômico do resto do globo, em que a Rússia soviética via o capitalismo

37 A partir de 1962, a Grã-Bretanha deu a algumas ilhas do Caribe o status de self-government, o que permitiu

como o inimigo a ser derrubado pela revolução mundial e, como ela nunca se deu, acabou isolada, cercada por um mundo capitalista. Apesar de não ter sofrido os efeitos da crise econômica dos anos de 1930, sua economia continuou até certo ponto isolada pela política da Guerra Fria, mesmo na expandida esfera soviética pós-1945.

Ferro (1996) aponta que tanto no caso das repúblicas reconquistadas, como nas que já se encontravam sob seu domínio, o poder soviético atuou como toda uma série de medidas que favoreciam a “nacionalização” leal, como a desrrussificação das instâncias encarregadas de decidir sobre os territórios não-russos; a regeneração das culturas nacionais – vítimas da russificação na época czarista – acabando com algumas frustrações explícitas ou latentes; a formação de toda uma constelação de entidades nacionais, federais, estatais, encaixando-se umas nas outras, tais como bonecas russas (repúblicas federais [repúblicas autônomas], regiões [oblasts], territórios [krais]), criando uma intelligentsia não russa, assim como a injeção de um número crescente de funcionários não-russos no sistema federal. Isso explica porque até o final da década de 1980, não houve qualquer separatismo político sério em parte alguma, a não ser nos países Bálticos (que haviam sido independentes de 1918 a 1940), na parte ocidental da Ucrânia (que era habsburga e não russa antes de 1918) e talvez na Moldávia (que fora parte da Romênia de 1918 a 1940 sob o nome de Bessarábia).

As combinações da glasnost e da perestroika em meados da década de 1980 que tentaram reestruturar a economia e promover uma liberalização política na União Soviética não impediram que os eventos subseqüentes evitassem o seu esfacelamento, sobretudo, com o surgimento dos movimentos nacionalistas de base étnica no seio de cada uma das Repúblicas do sistema federal. Para Bertonha (2009), foi à medida que a política da glasnost fazia as pessoas mais livres, que elas tornavam-se menos dispostas a obedecer ordens; junto com o autoritarismo, a autoridade também ia desaparecendo. Somam-se a isso os gastos militares, que drenavam grande parte dos recursos do país, bem como a burocracia e o atraso tecnológico em relação ao Ocidente, fazendo com que a desintegração econômica ajudasse a acelerar a desintegração política.38

38 Esse contraste explicará, em parte, o desaparecimento da URSS a partir de 1989, junto com as eleições livres

de Gorbachev, que vão alimentar o espírito separatista dos movimentos nacionalistas. Quando essa onda nacionalista espalhou-se de um extremo ao outro, Gorbachev (na tentativa de perpetuar o todo) fez assumir em seu governo novamente uma ala tradicionalista, que deu o golpe de Estado. Boris Yeltsin, na qualidade de presidente da Rússia Soviética, soube fazer a situação retroceder ao substituir o presidente da URSS e na tentativa desesperada de criar uma Comunidade de Estados Independentes, da qual não participaram os Estados Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia). Na verdade, ao proclamar a soberania da Rússia no quadro da URSS, e em seguida retirando-se desta, após dissolver o Partido Comunista, ele concedia de facto a liberdade às diversas Repúblicas, que por sua vez fizeram o mesmo, transformando as estruturas da URSS numa casca vazia [...] (FERRO, 1996, p.381). [...] as outras repúblicas agora temiam a grande irmã Rússia como não tinham feito à uma URSS não nacional, sobretudo desde que o nacionalismo russo era a melhor carta que Yeltsin podia jogar

A desintegração da União Soviética causou a reversão de quase quatrocentos anos de sua história de conquistas e de expansão territorial, pois como Rússia, sob um czar, ou na forma de URSS, havia sido uma grande potência desde meados do século XVIII, sua desintegração deixou um vazio entre Trieste e Vladivostok que não existia antes na história moderna (HOBSBAWM, 1995). Conforme relembra Bertonha (2009), em 1992, as fronteiras russas haviam regredido de forma realmente substancial. No Cáucaso, elas estão hoje mais ou menos onde estavam no início do século XIX, enquanto, na Ásia Central, voltou-se a meados daquele século. Na fronteira européia, a perda foi ainda mais dramática, com a Rússia retornando às fronteiras da época de Ivã, o Terrível, no século XVI.

Além disso, a queda do muro de Berlim e o fim do comunismo nos Estados satélites europeus no período de 1989-1991 demonstraram o colapso da União Soviética como potência internacional; a moral e a posição internacional soviéticas foram afetadas de tal modo que o país parecia que havia sido derrotado em uma grande guerra sem armas. Desse modo, durante o começo da década de 1990 faltava inteiramente ao mundo qualquer regime ou estatuto internacional, pois a própria natureza dos atores no cenário internacional não estava clara como na época da Guerra Fria (HOBSBAWM, 1995; 2007),39 em que os Estados também passaram a viver uma forte crise de identidade (nacional) nas mais variadas formas.

Isso havia ficado evidente com o surgimento de dezenas de Estados territoriais no pós- 1989 sem qualquer precedente histórico, como ficou evidente com a fragmentação da ex- Iugoslávia, com a independência da Eslovênia, Croácia, e Macedônia (1991), além da instável e multiétnica Bósnia-Herzegovina (1992). Esse processo de fragmentação só se desacelerou (parcialmente) depois da Guerra do Kosovo (1999), que viu a separação pacífica de Montenegro (2006) da federação que mantinha com a Sérvia. Mesmo a independência de Timor Leste (2002) ou a do Sudão do Sul (separado do Sudão em 2011), mostram-se como resultados ainda não-acabados da disputa entre as potências imperiais que retalhou o mundo, agora aliada ao ressurgimento dos movimentos nacionalistas, como uma ideologia ainda capaz de acolher as dissidências regionais de todos os tipos.

para conciliar as Forças Armadas, cujo núcleo sempre ficara entre os grandes russos. Como a maioria das repúblicas continha grandes minorias de russos étnicos, a insinuação de Yeltsin de que as fronteiras entre as repúblicas poderiam ter de ser renegociadas acelerou a corrida para a separação total [...] (HOBSBAWM, 1995, p.479).

39 Embora a guerra tenha retornado ao sudeste da Europa (no período pós 1989), é muito pouco provável que ela

ocorra de novo no resto do continente. Durante o período de 1945-1989, guerras entre países permaneceram endêmicas no Oriente Médio e no Sul da Ásia, e guerras importantes derivadas diretamente dessa confrontação ocorreram no leste e no sudeste da Ásia. Ao mesmo tempo, áreas como a África subsaariana, tornaram-se teatros de conflitos armados entre 1945-1989 e voltaram a sofrer no pós-1989 (HOBSBAWM, 2007).

Como recorda Ferro (1996), se no século XVI havia várias economias-mundo, como a China, o Mundo Islâmico, o Ocidente, a unificação do mundo foi feita de modo irreversível e, hoje, não existe mais qualquer zona fora do sistema internacional, livre da aceleração dessa unificação e dos fenômenos econômicos que atingiram seus recantos mais afastados. No início do século XX, os avanços da concentração geográfica das atividades industriais e o desenvolvimento do capitalismo atingiram níveis que a era pré-industrial jamais havia conhecido e a globalização avançou em quase todos os aspectos, seja no econômico, no cultural e no tecnológico, menos no ponto de vista político e militar, em que os Estados territoriais enquanto uma forma de governo quase universal perderam, por várias razões, o monopólio tradicional da força armada, da estabilidade e da legitimidade que possuíam ou se tornaram incapazes de controlá-lo (HOBSBAWM, 2007).

Se o processo de formação dos Estados nacionais seguiu o modelo Europeu e as fronteiras territoriais da qual se enxameou o mundo foram resultado das disputas entre as potências imperialistas nos últimos séculos, produzindo uma fragmentação do espaço intensa e ainda em movimento, a entrada para o século XXI revela não apenas a crise institucional vivida pelo modelo do Estado-nação territorial em curso, mas também o renascimento de ideologias que se acreditava estarem inertes, como nacionalismo, sobretudo em sua base étnico-cívica, que, apesar e com os processos de globalização, retomou com a mesma força dos tempos de outrora. Na formação dos Estados, por sua vez, o papel dos símbolos tornou-se um instrumento acessório essencial na mobilização das massas e na produção das identidades nacionais, cujos imaginários que se ajustaram aos discursos e circunstâncias geopolíticas ao longo do tempo e do espaço e que devem ser agora esmiuçados.

Dessa forma, os próximos capítulos versarão justamente sobre o papel dos símbolos e seu contexto histórico, cultural e político, correlacionando suas etapas de desenvolvimento com os processos que envolveram a formação dos impérios coloniais, o advento do modelo de Estado nacional e as fases do nacionalismo que embasaram as discussões dos capítulos iniciais. Posteriormente, estes apontamentos permitem avançar para a análise da dimensão geográfica nos símbolos nacionais, suas estratégias de controle social e sua eficácia simbólica, de forma a completar a trama metodológica inaugurada com as noções teóricas sobre espaço, nacionalismo, identidade e geopolítica.