• Sonuç bulunamadı

Ah, antigamente os velhos falavam que os animais caíam quando fazia chuva muito forte; eles caíam como as gotas da chuva. Chovia muito e por isso na época dos antigos havia muita caça. Os bichos caminhavam em nossos quintais, não dava nem trabalho para abater, mas agora tá tudo mudando, a caça ta cada vez mais longe e a rapaziada não quer caçar. (Tomaz Katuto – aldeia Porquinhos, 16 de janeiro de 2005)

Todos os indivíduos apãniekra têm o livre arbítrio para pescar e caçar, porém há indivíduos que são caçadores por excelência, cuja habilidade é explicada como sendo adquirida em processos relacionais com o mundo sobrenatural140. O processo que torna um indivíduo caçador por excelência é iniciado em revelações oníricas quando o mesmo está com idade entre sete e oito anos. Geralmente ma pessoa do sexo masculino, que após revelar seus sonhos para seus entes, é orientado a procurar um kaj – curador – para lhes dar orientações. O grupo reconhece códigos de natureza onírica que lhes permite indicar certas habilidades individuais, como caçadores, pescadores, curandeiros, cantores etc. Porém, essa afirmação se dá através das transmissões de conhecimento, tanto por uma pessoa habilitada em cada especialidade ou através dos processos rituais.

O processo de preparação de um caçador é complexo, sendo constituído por várias etapas. Uma das etapas primordiais é a abstinência alimentar de certos animais em conformidade com as características fisiológicas e cerimoniais de cada indivíduo. As outras etapas são processos rituais que giram em torno do corpo, do indivíduo e da sociedade. As etapas rituais começam com sessões com um kaj, que lhes receita puçangas, tais como garrafadas de ervas; sessões de aplicação de gordura de animais sobre o corpo, fazer investiduras na mata a fim de conhecer o ambiente, demonstrar coragem para tal habilidade, não se relacionar no início das preparações com mulheres grávidas e evitar relações sexuais em suas primeiras caçadas.

Um homem para se tornar caçador tem que deixar de comer muitas coisas. Primeiro ele sonha com muitos bichos bravos; sonha com mekarõ [alma/monstros], sonha com o irõncatë [mata grande]. Tem muito remédio que o curador passa para o caçador. Se ele quiser ser bom de tõn [tatu], ele tem que passar em seu corpo banha, gordura desse bicho; se ele quiser ser bom de crá [paca], a mesma coisa e assim para todos os bichos. O caçador tem que comer o olho dos bichos para enxergar melhor na mata. Tem caçador que bebe sangue de bicho e fica muito bom, sente o bicho de longe, sabe onde ele anda, vai ao rastro do bicho. (Tomaz Katuto, aldeia Porquinhos, 16 de janeiro de 2005).

A pesquisa do antropólogo Siqueira Junior (2003) nos mostra outras restrições alimentares e comportamentais que deve seguir um bom caçador Apãniekra, assim como o processo ritual da primeira caçada:

140 Mais adiante apresentarei o ritual do ketuwje em que processo de transmissão de conhecimento

O caçador para não perder a caçada não pode comer aves, principalmente galinha, paca, tatu, veado, entre outros. Só pode comer cotia, peba, piaba dura e sem sal, os vegetais são liberados. Não pode fumar do cigarro de outro e não pode fazer sexo, o cheiro do sexo atrapalha muito. (...) Na primeira caçada ele não pode comer nada, só os velhos podem. Depois de quatro semanas caçando é que lhe é permitido comer do “dianteiro” das caças (carnes geralmente mais macias). Estas regras são em especial

para quem está aprendendo a caçar. (Siqueira Junior, 2003, p.58)

Esses caçadores são identificados pela comunidade, mantendo um status especial. A narrativa do Hartant141, contada pela grande maioria dos Timbira, ilustra algumas características de um bom caçador. A vida desses caçadores, quando ativos, é regulada por uma série de restrições. O caçador quando estiver com filhos recém- nascidos e/ou em processo de lactância, evita adentrar na mata para não abater caça fêmea, principalmente de mamíferos, cuja prole depende dos cuidados e da proteção dos progenitores. Quando essa situação ocorre, o caçador tenta salvar a vida da cria, trazendo-a para casa, dando-lhe os cuidados necessários para sua sobrevivência, e esse animal se tornará um bicho de estimação das crianças da casa. Esse cuidado não seguido pelo caçador pode trazer consequências maléficas para com sua prole, como morte de filhos, enfermidades etc. É proibido consumir a carne dos animais criados como de estimação. Para ilustrar esse caso, entre os Apãniekra existe uma criação comunitária de ema (Rhea americana). A comunidade não abate os animais desse criatório, mesmo quando uma ema morre por acidente, a carne não é aproveitada, todavia, as emas capturadas ou abatidas no cerrado são altamente cobiçadas para o consumo alimentar.

Existem algumas penalidades individuais para o caçador que porventura dispare em uma caça e não consiga atingi-la. Nesses casos, entre os Apãniekra, assim como observei entre os Krahô, o caçador é proibido de cortar o cabelo durante certo período, e excluído de participar das caçadas coletivas. Portanto, a vida do caçador é regulada por processos relacionais regidos pelos componentes sobrenaturais, individuais e sociais.

Os caçadores utilizam várias estratégias e instrumentos de caça, no entanto irei descrever somente as que foram presenciadas por mim durante minhas estadas na aldeia de Porquinhos: 1) a caçada de espera, 2) barrida, 3) caçada com cachorro e 4) caçada coletiva. A caçada de espera se caracteriza pelo fato do caçador ficar esperando

141 Ver essa narrativa anexa, coletada por mim durante o VII módulo da Escola Timbira, realizado na

a presa em cima de uma árvore frutífera, que é definida conforme o tipo de fruto que o animal gosta de comer e o caçador deseja abater. Essa caçada é exclusivamente praticada à noite, de forma individual, tornando-se mais intensiva nos meses de setembro a dezembro, período do afloramento de várias espécies de árvores frutíferas do cerrado. O caçador, antes do escurecer, entra na mata à procura da árvore frutífera para pernoitar, mas antes investiga se há rastro de animais para então armar sua rede em cima da árvore escolhida. Possuindo uma lanterna e uma espingarda nas mãos, fica atento para quando o animal chegar para comer as flores ou frutos no chão para disparar sua arma. Muitas vezes, o caçador passa a noite inteira deitado em sua rede sem aparecer nenhum animal. Os caçadores têm a ciência de identificar os tipos de frutos que cada bicho gosta de comer. Dessa forma, existe um controle ecológico regulado no processo de caça, pois nem todo tempo é o período de certos frutos, assim com não é dia de determinadas caças.

A segunda estratégia de caça é denominada pelos Apãniekra, assim como pelos sertanejos do entorno do território de “barrida”. Essa técnica requer um conhecimento especial do ambiente. O caçador pesquisa áreas que considera potencial de andanças dos animais. Identificando o local, que geralmente se caracteriza por serem matas adensadas, constrói pequenas trilhas para andar durante a noite, tendo o cuidado de não fazer barulho com suas pisadas entre as folhas secas para não espantar os bichos. A função da barrida é justamente essa, limpar as trilhas para não fazer barulho quando o caçador pisar nas folhas secas. Assim, o caçador passa a noite percorrendo as trilhas com lanterna e espingarda nas mãos. Escutando pegadas de bicho, foca com a lanterna e dispara sua espingarda. Esse tipo de caçada é utilizada na captura das espécies de tatu (Priodontes maximus e Euphractus sexcinctus), espécie de caça considerada pelos Apãniekra com presa fácil.

A terceira estratégia é a caçada com cachorro, que se caracteriza como caça diurna. O caçador tem que criar um cachorro e treiná-lo para que o animal torne-se um bom predador. Esse tipo de caçada poder ser individual ou em dupla. A estratégia é sair com o cachorro para a mata fazendo caminhadas em locais de predominância de caça. O cachorro indica quando há caça e sai para acuar. O caçador, quando necessário dispara sua espingarda. As presas mais fácies nesse tipo de estratégia são a paca (Agouti paca), o tatu (vide espécies acima), o veado mateiro e o veado catingueiro. Esse tipo de caçada é mais utilizado pelos Apãniekra.

O quarto tipo de caçada é a coletiva, através da qual caçadores armados com espingardas e cachorros organizam expedições e definem os pontos estratégicos para abater animais. Monta-se um esquema de encurralamento, onde caçadores procuram espantar as presas para lugares onde não tenham muito espaço para correr e se esconder. Esse tipo de caçada geralmente é realizada próximo às serras.

Das quatro estratégias de caça, a “espera” e a “barrida” não utilizam o cachorro como elemento fundamental do processo de caçada. Apesar de o cachorro ser um ajudante de caça por excelência, ele é figura ambígua, pois vive em maus tratos e ao mesmo tempo é bem de valia na aldeia. Os cachorros são magros e vítimas de espancamentos constantes pelos donos, principalmente quando entram na casa no horário das refeições. Apesar dos maus tratos, esses animais se constituem em uma espécie de bem para seus proprietários, pois um cachorro considerado bom caçador é cobiçado por todos na aldeia e seu dono não o empresta tão facilmente para qualquer pessoa. No entanto, mesmo com todo o reconhecimento de cachorro bom, seu dono e todos não aldeia não o tratam de forma menos opressora. Em caso de morte de cachorro propositada ou acidental por outra pessoa, seu dono exige uma indenização. Nos casos detectados de doenças terminais nos cachorros, como o calazar muito, comum na região, que exige o sacrifício dos animais, seus donos somente autorizam o sacrifício em caso de indenização. Portanto, o cachorro é um animal controverso para os Apãniekra.

A arma142 de fogo é utilizada em todas as estratégias de caça apresentadas aqui. Introduzida desde o século XIX, tornou-se a principal arma de defesa e caça em substituição ao arco e flecha que hoje tem um papel simbólico nos principais rituais. Também o arco e a flecha são fabricados para serem vendidos como artesanato.

Os pescadores também seguem os mesmos processos rituais de iniciação dos caçadores. Observei que entre os pescadores existem uma sub-especialidade pautada na qualidade do peixe. De acordo com o curador Zico Pinhoc, na aldeia eles reconhecem quem são os pescadores para cada tipo de peixe, exemplificando que seu genro é especialista em pacu.

A diversidade de peixes no território apãniekra é considerada baixa em relação às áreas de florestas. As espécies de peixes mais comuns giram em torno de 20, cuja

142 Essas armas denominadas de “por fora” são de fabricação artesanal, porém não fabricadas pelos

Apãniekra. Elas são adquiridas nas mãos dos sertanejos. Existem algumas armas de calibre mais potente, que são adquiridas na cidade.

maioria está representada na classe dos peixes teleósteos de pequeno porte, dando destaque para a traíra (Hoplias malabaricus), o pacu (Myleus micans), a cará (Astronotus ocellatus), o jaú (Paulicea lutkeni), o acari (Hypostomus), o piau (Leporinus striatus)

Os locais de pesca são muito restritos, sendo a localização dos principais pesqueiros143 distante da aldeia.

As técnicas de pesca concentram-se na utilização de anzóis, cuja variação dos mesmos, assim como as iscas é escolhida em conformidade com a espécie do peixe e do local de pesca. Os anzóis são adquiridos na cidade e costumam ser objeto de presente para homem, quando não-índios visitam a aldeia. As principais iscas utilizadas também variam, todavia, o bicho-do-coco (Pachymerus nucleorum), denominado pelos Apãniekra de gongo que são retirados do coco da palmeira do inajá (Maximiliana maripa) é a isca principal para pescar piabas para tornar isca para peixe de médio porte, principalmente a traíra, o acari e o jaú; usa-se também, para captura de piabas, a minhoca (Pheretima havayana). Já a isca para o pacu são as vísceras de caça.

Outra técnica de pesca é a utilização de substâncias retiradas de ervas sapindáceas contidas no cipó do timbó (Piscidia erythrina), cuja função é liberar sapinina tóxica para o envenenamento de peixes. Essa prática passa por um processo duradouro que tem início com a seleção do timbó, o preparo e a aplicação. Geralmente, o timbó é aplicado em lagoas e não costuma acontecer com frequência, sobretudo, porque no território dos Apãniekra, onde não existem lagoas, açudes e represas em abundância, limitando esse tipo de atividade, que é realizado uma vez por ano. A pesca de timbó ocorre de forma coletiva, onde segmentos organizam expedições longas, acampando nas proximidades das lagoas, permanecendo até o esgotamento dos peixes.

A técnica do timbó é muito agressiva para o meio ambiente, pois sua aplicação aniquila os ecossistemas (lagoa, rios, açudes, represas), matando fitoplanctos, planctos, crustáceos, peixes etc. o que levará tempo para sua recomposição. A diminuição do pescado nos rios e lagoas do território Apãniekra está muitas vezes relacionada à prática da pesca de timbó, bem como se sabe pela pressão demográfica que o território Apãniekra vem sofrendo nas últimas décadas, pois há no seu entorno grandes plantações

143

Os principais pesqueiros são: Cabeceira da Cobiça / Himpodi - lagoa grande, ponto de caçada; Caburé – abaixo do Sítio dos Arruda no riacho papagaio e cabeceira da Buritirana - Krol aro Ko; Sambaiba /

Kradi ko – cabeceira da Sambaiba, riacho da Estiva – lago da Tiririca; Atolador , Boa Esperança e na rio

de soja culminando no desaparecimento de várias nascentes de rios e córregos, que se lançavam para dentro da área dos Apãniekra, quebrando um curso de água que fazia parte do complexo da bacia do rio Corda, principal ponto de pesca do grupo. O aumento populacional significativo do grupo deve ser levado em consideração como uma das causas da diminuição do pescado, pois aumentou o número de pescadores e consumidores.

Por pressão de ONGs ambientalistas, os Apãniekra atualmente evitam utilizar o timbó em locais perenes, como medida para equilibrar os ecossistemas degradados. Esses ecossistemas levam anos para serem recuperados. A comunidade está na iminência de receber recurso para a construção de tanques para criação de peixes com objetivo paliativo de suprir a carência de peixes no território. A maioria do pescado será de espécies introduzidas da Amazônia, como o tambaqui (Colossoma macropomum), carpa (Cyprinus carpio), espécies muito utilizadas para piscicultura no Brasil.

A pesca, a caça e as atividades na agricultura são os principais meios de produção econômica que ocupam boa parte de trabalho dos Apãniekra; sendo a agricultura a atividade que despende de maior tempo de trabalho coletivo, seguido pela caça que predomina com uma atividade individual e a pesca que nos últimos anos sofreu uma diminuição significativa.

2.4. “Lados” cerimoniais, organização política e os principais rituais do calendário sazonal.

Entre os Apãniekra existem vários “lados144 cerimoniais” que orientam sua vida política e social em conformidade com uma variedade de “agrupamentos” que se filiam em processo de polarização145. Cada indivíduo pertence a um ou mais “lados”. O pertencimento a um desses “lados” está ligado aos nomes146 que o indivíduo recebe

144 Muitos pesquisadores consideram os lados cerimoniais como partidos. (Nesse texto passarei a

denominá-los de lados, pois entre o grupo é comum se falar: “eu sou do lado da chuva, do sol; eu sou do lado de Moisés, Euzébio etc”.

145

Melatti (1978) utiliza sistema de oposição para pensar Krahô.

146 Os Timbira podem possuir mais de sete nomes que lhes dão direito de se relacionar com várias

associações e com certos grupos. No mundo dos não-índios é conhecido apenas um deles e, geralmente o que foi utilizado no RG. (Cf. meus.)

quando nasce, quando seus nominadores147 obedecem à lógica de transmissão de nomes predominantemente da linhagem matrilinear.

Os membros dos segmentos residenciais estão na constante dinâmica de nominação, pois os indivíduos nascidos nos segmentos são responsáveis pela transmissão de nomes para seus entes, que se dá em sistema bilateral, isto é, pode ser nominador de indivíduos pertencentes aos segmentos residenciais de origem e segmento de estado. Quando os indivíduos nominadores são do sexo masculino são denominados de keti. Esses indivíduos dentro de um segmento residencial são na maioria os irmãos da mãe = MZ ou sobrinhos da mãe = SZ e estão representados na genealogia abaixo pela cor azul. Geralmente, quando a criança for do sexo feminino, todas as mulheres do segmento – residencial de origem do nascido são nomeadoras potenciais; estas estão representadas na genealogia pela cor vermelha – que são geralmente irmãs da mãe = ZM, que podem ser chamadas de tyjre pelo nominado ou estão na posição de ënxetyjre148. Ladeira (1982) faz uma análise sociológicada transmissão de nomes entre os grupos Timbira e esclarece como funciona a troca de nomes entre esses grupos:

Quem dá nome a quem desloca a análise da nominação de suas implicações com o pátio e com a vida cerimonial, onde as relações envolvem indivíduos nominador e indivíduos nominados (...). O parentesco define as relações sociais. O sistema de parentesco serve como mecanismo para a transmissão de nomes pessoais: nominador de ego masculino é um indivíduo pertencente à categoria – kety - e a

nominadora de ego feminino uma mulher pertencente à categoria - tyjre. (Ladeira,

1982, p. 8-32)

Quando um irmão dá seu nome ao filho de sua irmã, ele reconhece que o grupo da irmã - a família elementar dela - é um fato sociológico. “Assim, ao mesmo tempo em que ele rompe os laços de substância comum que tem com ela, ele os substitui por laços cerimoniais, por meio de seu sobrinho, que recebe o seu nome”. (Ladeira: 1982) Essa análise pode ser resumida como uma forma de compensação de um membro do segmento que se afastará de seu segmento de origem, ou seja, vai passar a residir e prestar serviços no segmento residencial de sua sogra; mas sua classifição simbólica ficará marcada na figura de outra posição – sobrinho - que também representará o segmento nos atos cerimoniais.

147 Sobre troca de nomes entre os Timbira, ver Ladeira (1982)

148 As irmãs da mãe são chamadas pelos filhos das irmãs de ënxe, ënxethugré, ënxecoprô, que

corresponde à mãe intermediária, mãe nova, mãe velha ou ënxetyjre – mãe tia que é nominadora de uma filha de sua irmã.

Um indivíduo Apãniekra raramente pode receber nome de seus progenitores, exceto na utilização do nome não-indígena, que o grupo passou a utilizar recentemente com o processo de “cidadanização” imposto pela situação social, através do qual o Estado lhes obriga a portar uma série de documentos como carteira de identidade, CPF, carteira de trabalho etc. Essa “cidadanização”, entre outros dispositivos, serve para identificar o indivíduo para fins de concessão de direitos e demandas de deveres. Dessa forma, o documento149 passar a legalizar e oficializar o cidadão e o torna visível, passível de controle e legitimidade pelo Estado. O nome utilizado nesses documentos não segue as regras de nominação do grupo e, dessa forma é permitido aos progenitores nomear seus filhos. Há exemplo entre os Apãniekra de nomeação hierárquica, onde o pai passou seu nome de não-índio para o filho e este passou para o neto e o neto para o bisneto. Os documentos apresentam a ordem nominal seguinte: 1) nome não-indígena, 2) escolhe um dos seus nomes indígena e 3) acrescenta o etnônimo Canela. Exemplos: Patrícia Prwncwyj Canela.

Nomes de mulheres geralmente são finalizados com os sufixo cwyj, embora em dois casos identifiquei nome de homens com a terminologia cwyj – Luiz Baú Pampcwyj e Rildo Amtxocwyj, respectivamente inkrejmpej (bom cantor)/padré (organizador de rituais) e inkrej (cantor). Meus dados de campo não são suficientes para afirmar se essa exceção está relacionada com suas funções e se foram renomeados posteriormente pelo desempenho de seus cargos.

149

Os Apãniekra enfatizam que seus nomes não são escolhidos aleatoreamente, mas de uma forma lógica, porque a família procura repassar os nomes dos antepassados para que através destes estejam presentes re-figurados no seio dos segmentos residenciais:

Aqui para nós Apãniekra, os nomes não são escolhidos de qualquer forma, como os

kopë fazem, nós sempre botamos nomes para nossos filhos e netos que já tem em

nossa cultura. Os nomes que cada um recebe já foram de nossos bisavôs, que sempre a gente vai botando para nunca esquecer deles. Veja aqui, minha neta tem o mesmo

Benzer Belgeler