derivado de biomassa renovável para uso em motores a combustão interna com ignição por compressão ou, conforme regulamento, para geração de outro tipo de energia, que possa substituir parcial ou totalmente combustíveis de origem fóssil.144
No Brasil, a utilização de biocombustíveis foi impulsionada pelas crises do petróleo ocorridas na década de 1970, onde para diminuir a dependência do mesmo, que alcançara preços exorbitantes no mercado internacional, o governo instituiu através do Decreto 76.593/1975 o Programa Brasileiro de Álcool (PRO-ÁLCOOL), no qual
a produção do álcool oriundo da cana-de-açúcar, da mandioca ou de qualquer outro insumo será incentivada através da expansão da oferta de matérias-primas, com especial ênfase no aumento da produtividade agrícola, da modernização e ampliação das destilarias existentes e da instalação de novas unidades produtoras, anexas a usinas ou autônomas, e de unidades armazenadoras.145
Em um primeiro momento, o programa se firmou, conseguindo obter bons resultados. Porém, com a queda do preço do petróleo e da produção de álcool no mercado doméstico, prejudicando a oferta do mesmo, a credibilidade do programa foi abalada, o que resultou na diminuição da produção de automóveis movidos a álcool. Somente com a introdução dos veículos flex fuel,146 que podem ser abastecidos com mais de um combustível, e com novos aumentos do preço do petróleo o álcool voltou a ser opção para o consumidor.
Juntamente com o PRO-ÁLCOOL surgiu o Plano de Produção de Óleos Vegetais para Fins Energéticos (PRO-ÓLEO), que teve, também, como objetivo diminuir a dependência dos combustíveis derivados do petróleo, no caso o diesel. Embora várias pesquisas tenham sido realizadas,147 o referido programa não teve a mesma amplitude do PRO-ÁLCOOL, só
144
BRASIL. Lei n. 9.478, de 06 de agosto de 1997. Dispõe sobre a política energética nacional, as atividades relativas ao monopólio do petróleo, institui o Conselho Nacional de Política Energética e a Agência Nacional do Petróleo e dá outras providências. Diário Oficial da União de 07 de agosto de 1997. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9478.htm> Acesso em: 13 out. 2009.
145 BRASIL. Decreto n. 76.593, de 14 de novembro de 1975. Institui o Programa Nacional do Álcool e dá outras
providências. Disponível em: <http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=123069> Acesso em: 13 out. 2009.
146 Os automóveis flex fuel são aqueles que podem rodar com mais de um combustível ao mesmo tempo. No
Brasil, o mais comum são os que utilizam gasolina e álcool.
147 “Na década de 70, a Universidade Federal do Ceará – UFCE desenvolveu pesquisas com o intuito de
encontrar fontes alternativas de energia. As experiências acabaram por revelar um novo combustível originário de óleos vegetais e com propriedades semelhantes ao óleo diesel convencional, o biodiesel. (...) Com o envolvimento de outras instituições de pesquisas, da Petrobrás e do Ministério da Aeronáutica, foi criado o PRODIESEL em 1980. O combustível foi testado por fabricantes de veículos a diesel. A UFCE também desenvolveu o querosene vegetal de aviação para o Ministério da Aeronáutica. Após os testes em aviões a jato, o combustível foi homologado pelo Centro Técnico Aeroespacial”. BIODIESELBR. História e Biodiesel.
voltando a se tratar da utilização de óleos vegetais como combustível, o biodiesel, recentemente, através das novas políticas governamentais direcionadas para esse fim. Para a Lei 9.478/97, art. 6º, inciso XXV, biodiesel é o
biocombustível derivado de biomassa renovável para uso em motores a combustão interna com ignição por compressão ou, conforme regulamento, para geração de outro tipo de energia, que possa substituir parcial ou totalmente combustíveis de origem fóssil.148
Assim, várias plantas oleaginosas, como a mamona, o algodão, a soja e o dendê, vêm sendo utilizadas para a produção do biodiesel, prevendo-se a mistura deste ao diesel derivado do petróleo no volume de 5%, conforme dispõe a Lei 11.907/2005.149
Do ponto de vista ambiental, a utilização de biocombustíveis apresenta resultados positivos em relação ao uso de combustíveis fósseis. Quando se trata do álcool, a adição do mesmo à gasolina permitiu a diminuição das emissões de chumbo, de monóxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio na atmosfera.150 Quando se trata da substituição total da gasolina pelo álcool, o ganho ambiental está na redução da chuva ácida, pois o álcool é praticamente isento de enxofre e também porque a combustão do álcool
resulta em emissão de material particulado significativamente menor que a gasolina. O material particulado e o ozônio são no momento os compostos mais críticos da poluição do ar nos grandes centros urbanos brasileiros. Além de todas essas vantagens ambientais, o álcool é menos prejudicial à saúde no manuseio e causa menores danos ao meio ambiente no caso de derramamento acidental.151
Disponível em: <http://www.biodieselbr.com/biodiesel/historia/biodiesel-historia.htm> Acesso em: 13 out. 2009.
148 BRASIL. Lei n. 9.478, de 06 de agosto de 1997. Dispõe sobre a política energética nacional, as atividades
relativas ao monopólio do petróleo, institui o Conselho Nacional de Política Energética e a Agência Nacional do Petróleo e dá outras providências. Diário Oficial da União de 07 de agosto de 1997.
149 Conforme a Lei 11.907/2005, em seu art. 2º “Fica introduzido o biodiesel na matriz energética brasileira,
sendo fixado em 5% (cinco por cento), em volume, o percentual mínimo obrigatório de adição de biodiesel ao óleo diesel comercializado ao consumidor final, em qualquer parte do território nacional”, sendo instituído o prazo de 8 (oito) anos para aplicação do citado artigo (§1º). BRASIL. Lei n. 11.907, de 13 de janeiro de 2005. Dispõe sobre a introdução do biodiesel na matriz energética brasileira. Diário Oficial da União de 14 de janeiro de 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/Lei/L11097.htm> Acesso em: 13 out. 2009.
150 JÚNIOR, Olímpio de Melo Álvares, op. cit., 2007, p. 51. 151 Id. Ibid., 2007, p.51.
O ganho ambiental obtido pelo biodiesel está relacionado ao fato do mesmo, assim como o álcool, ser um combustível renovável e mais limpo do que os derivados do petróleo. O biodiesel
promove uma redução das principais emissões associadas ao diesel derivado de petróleo, como por exemplo, de óxidos de enxofre (SOx). A redução é proporcional à quantidade misturada com o óleo diesel. Verifica-se também uma sensível diminuição (10%) das emissões de materiais particulados quando se usa a mistura de 20% de biodiesel e, segundo Knothe et al., o uso desse combustível também diminui as emissões de hidrocarbonetos poliaromáticos, que são responsáveis pelo desenvolvimento de vários tipos de câncer. 152
Outro ponto interessante está ligado ao fato de que os biocombustíveis diminuem consideravelmente a emissão de dióxido de carbono, reduzindo, assim, o impacto sobre o aquecimento global. Isso ocorre porque quando da plantação das culturas que serão transformadas em biocombustíveis, há a retirada da atmosfera da quantidade de dióxido de carbono que será liberada posteriormente pela combustão do mesmo, o que resulta em um ciclo fechado.
Apesar dos benefícios várias dúvidas ainda persistem em relação aos biocombustíveis, pois para o devido dimensionamento do ganho ambiental obtido com o mesmo deve ser levada em consideração toda a sua cadeia produtiva. Dessa forma, os críticos da sua utilização como substituto dos combustíveis fósseis questionam pontos sensíveis como a quantidade de água necessária para sua produção,153 a utilização de várias extensões de terra dedicadas aos mesmos em detrimento da produção de alimentos, a expansão das áreas dedicadas à produção de biocombustível para áreas de floresta e de proteção ambiental, o uso de pesticidas e fertilizantes agrícolas utilizados nas colheitas etc. Segundo a especialista em genética e bioquímica, Mãe-Wan Ho, da Universidade de Hong Kong,
os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erroneamente como “neutros em carbono”, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera; quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia de fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas,
152 BERMANN, Célio. Crise ambiental e as energias renováveis. Cienc. Cult., São Paulo, v. 60, n. 3, set. 2008.
Disponível em: <http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009- 67252008000300010&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 14 out. 2009.
153 “Na produção de um litro de álcool gasta-se 13 litros de água, e ainda sobram 12 litros de vinhoto, sub-
dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra- estrutura para distribuição. 154
As críticas aos biocombustíveis são consistentes e devem ser consideradas na tomada de decisões acerca das políticas públicas para o setor. Assim, no que diz respeito principalmente à produção de alimentos e do uso de áreas de florestas e de proteção ambiental, o Poder Público deve estar atento para que não haja a diminuição da produção de alimentos155 e a expansão para áreas de importante interesse ambiental como as florestas. Quanto a outros pontos como a energia utilizada no processamento, refinação, transporte e distribuição dos biocombustíveis, as críticas devem ser contextualizadas, pois os combustíveis derivados do petróleo também necessitam de grandes quantidades de energia para esses fins, resultando, assim, que o uso de biocombustíveis se torna mais desejável do que o uso de combustíveis fósseis.
Achar uma forma de produzir energia sem que haja impactos significativos no meio ambiente é tarefa difícil, porém o desenvolvimento de novas tecnologias e processos que mitiguem os mesmos é primordial na busca de fontes energéticas mais sustentáveis. Assim, os biocombustíveis são vistos como uma alternativa viável e eficaz tanto economicamente quanto ambientalmente para a substituição do petróleo, desde que as suas possíveis falhas sejam levadas em consideração e corrigidas. A análise a ser feita deve levar em consideração, portanto, toda a cadeia de produção dos biocombustíveis, não só a sua utilização final pelo usuário do automóvel. Dessa forma, tanto os potenciais benefícios quanto os potenciais malefícios devem ser ponderados para que se possa chegar a uma conclusão sobre a utilização dos biocombustíveis com o objetivo de se mitigar o impacto ambiental causados pelos automóveis.
154
PINTO, Edvan; Melo, Marluce e MENDONÇA, Maria Luisa. O mito dos biocombustíveis. Brasil de Fato, São Paulo, 22 fev. 2007 Disponível em: <http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/o-mito-dos- biocombustiveis>. Acesso em: 14 out. 2009.
155 Preocupados com a concorrência entre o cultivo de alimentos e a produção de biocombustíveis, os
responsáveis pelo setor já desenvolvem os chamados biocombustíveis de segunda geração, os quais “serão produzidos a partir da celulose e de outras fibras vegetais presentes na madeira ou nas partes não comestíveis dos vegetais. As microalgas ou a exploração biológica dos resíduos constituem outras pistas de pesquisas”. CARAMEL, Laurence. Em meio a críticas, biocombustíveis preparam sua segunda geração. Le Monde, Paris, 23 abr. 2008. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/lemonde/2008/04/23/ult580u3038.jhtm>. Acesso em: 14 out. 2009.