A partir da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA), em 1977, inicia-se um amplo processo em nível global orientado para criar as condições que formem uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da complexidade. Já na ocasião do Rio 92, o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global estabelece a noção de que a EA deve ser pautada sob uma perspectiva holística, enfocando, de forma interdisciplinar, a relação do homem com a natureza e o universo.
O conceito de ambiente global transporta consigo outros conceitos e orientações com implicações significativas no campo da Educação Ambiental. O princípio de pensar globalmente para agir localmente ganha cada vez mais uma relevância maior até porque, além da dimensão holística e sistêmica que lhe está subjacente, podemos hoje considerar que, quer do ponto de vista social, mas também, e, sobretudo, no que se refere à educação em geral e à EA, em particular, uma interpenetração a diferentes escalas das esferas que compõem o sistema global, sendo uma necessidade é também e cada vez mais uma possibilidade.
Como referem Wilbanks e Kates, (1999), nós precisamos ver o mundo no seu contexto global e, como educadores, ajudar o cidadão comum e as decisões (políticos, legisladores, etc.) atuarem segundo uma perspectiva global na visão e na mente. Isso significa o reconhecimento de que estamos todos ligados e interdependentes, seja historicamente, geograficamente, ecologicamente, politicamente, religiosamente e de inúmeras outras vias: partilhamos o mundo e, sobretudo, partilhamos o destino que nos é comum.
Porque é ao nível pessoal que os resultados podem ser mais óbvios, as ações positivas sentidas diretamente e as consequências frequentemente mais imediatas, os efeitos globais indiretos ou longínquos tendem muitas vezes a ser ignorados ou subvalorizados. Importa, portanto que se adquira a consciência de que muitas das ações a nível local, ou decisões individuais, acabam por ter repercussões e ramificações globais. Uma educação ambiental global ajudando na compreensão desse fato pode desenvolver nos indivíduos uma visão compreensiva do ambiente planetário e ajudá-los a assumirem o seu próprio lugar e responsabilidade na procura de soluções para os problemas atuais e vindouros. Como afirma
Reigota (1999), problemas como “as chuvas ácidas, o efeito de estufa, os buracos na camada
azimute nem pátria” [...] mas “como convencer e lograr a cooperação ativa do seu antípoda
civilizacional?” E para o Gadotti (2000), considerando o contexto da globalização, torna-se
possível falar em uma sociedade global, com um destino comum e, no planeta Terra como um lar comum.
Na verdade, o Homem de hoje sente-se atraído (ou impelido?) para um diálogo à escala universal e a percepção, a vivência e a dimensão do espaço vital que cada pessoa sente como seu, vê-se influenciado por um conjunto de forças que representam valências de
diferentes sinais. “O espaço esfumou-se, vivemos hoje como que numa aldeia global”
(NÓVOA, 1992). Em sintonia com as ideias de Pike e Selby (1999), ao considerarem o mundo como um sistema, onde o relacionamento é tudo e onde nada pode ser entendido separadamente de seu conjunto, bem como, pelas ideias de Morin (2000) ao chamar a atenção para a relação não somente das partes com o todo, mas das partes entre si, de modo a considerar que o global constitui-se na relação entre as partes e o todo, sinalizando que o global ainda não é o todo, é apenas uma parte, um contexto.
De fato, os crescentes fluxos de informação e a multiplicação das redes de comunicação vem trazer à educação a possibilidade de adoção de diferentes escalas de análise, de conceptualização e, consequentemente, de ação. No entanto, alguns autores como (SANTOMÉ, 1998) insistem que a questão global e central da EA não deve situar-se nos problemas ambientais, argumentando que, dando apenas ênfases aos problemas ambientais estes podem funcionar como fator distanciador das pessoas e propõem uma aproximação mais positiva e glorificante. Ou seja, defendem uma sensibilização não especificamente para os problemas do ambiente, mas, sobretudo para o ambiente no sentido da exploração dos sentidos e sentimentos dos indivíduos em relação ao ambiente e aos lugares.
Na concepção do Coelho (2002, p. 36), “global é definido como, possuindo determinados traços identificadores – as línguas, as histórias, as culturas, as economias, projetos para o futuro – em suma, uma identidade comum. Esse território mundial é dominado
pelas relações que se geram entre as pessoas”.
Miguel de Moragas Spá (apud, COELHO, 2002, p. 36) pontua que global é fruto apenas de definições geográficas ou administrativas – ele “é o resultado de grandes processos históricos de herança de estruturas de origem feudal, e até de épocas anteriores à romanização, tudo isso determinou profundas diferenças e traços de identidade entre as
Alguns autores, como Solly e Benatar entenderam e definiram o global não no sentido de abrangente, desde o ponto de vista interdisciplinar, mas como uma visão uniforme e homogênea em termos mundiais, enquadrando-a no processo de globalização. Ou seja, que seria estabelecido um único paradigma filosófico para o enfoque das questões morais na área
da saúde, caracterizando uma nova forma de "imperialismo” (1998, p. 22; 1998, p. 24). O
conceito global como sendo uma proposta abrangente, que englobasse todos os aspetos relativos ao viver, isto é, envolvia a saúde, o ensino, as relações econômicas e sociais e a questão ecológica (POTTER, 1998). Esta teoria corresponde com os pressupostos emanados na pesquisa proposta. É assim que, a educação ambiental global constitui uma ferramenta para reflexão sobre os caminhos para se atingir o desenvolvimento sustentável – com as devidas melhorias da qualidade ambiental e justiça social.