“ Quando as pessoas se encontram , elas se com unicam . Depois de se separarem elas se lem bram do seu encontro, e encontros ulteriores levam dissem inação de seus efeitos: fluxos de com unicação.” (Prigogine, 1996: 83)
A dança, hist oricam ent e, sem pre careceu de m ecanism os que favorecessem efetivam ente a circulação e o com part ilham ento de suas produções, sobret udo para aquelas realizadas em cidades localizadas no int erior do país, fora do consolidado eixo Rio–São Paulo.
Esse panoram a se vê agravado com a proliferação dos fest ivais com pet it ivos por t odo o país. Eventos quase sem pre sazonal e localizado, paut ados em int eresses de grupos e set ores rest rit os da sociedade, sem com prom isso com o desenvolvim ent o de um a polít ica de cont inuidade, que possa incitar um processo cultural que cam inhe engendrando contam inações e desencadeando transf orm ações, no cam po da dança e em seu público .
Sem assum ir um perfil específico, os fest ivais produziram inúm eras confusões, sej a nas dist inções ent re event os profissionais e am adores, e em relação a seus propósit os, a que e a quem se dest inam . Som a - se a isso as precárias e am bíguas polít icas públicas para o set or, que não cont em plam as especificidades e diversidade da dança brasileira.
Para m elhor com preender essas quest ões, é preciso analisar a hist ória recente dos festivais no Brasil, assim com o a diferença entre experiências am adoras e profissionais, com pet it ivas ou que t enham um carát er de m ost ra e discussão das produções contem porâneas, analisando as questões que as envolvem , bem com o as inform ações por elas geradas, no sent ido de
cont ribuir para a em ergência e propagação de novos m odos de organização para os eventos de dança.
Fest ivais com pet it ivos: A propagação de um m odelo hegem ônico de dança
Nos anos 80 do século passado, com eça a em ergir no cenário nacional um a série de fest ivais e encont ros relacionados à dança, que t razem a form atação de um m odelo de evento que tem com o base o caráter com pet it ivo por m eio de concurso. Dest aca-se ent re eles o Encontro Nacional de Dança - ENDA, o ext int o Fest ival SESC- Mobil de Ginást ica e Dança e o Fest ival de Dança de Joinville, hoj e um m egaevent o que, a cada edição, arrebanha cent enas de escolas e grupos de dança de t odo o país e at é m esm o de países vizinhos. Atualm ente , o Fest ival de Joinville é t ido com o m odelo de referência para diversos fest ivais espalhados por todo o território nacional.
A criação desses festivais, num prim eiro m om ento, m ostrou - se com o possibilidade de solução para o problem a enfrent ado pela dança, principalm ent e para grupos am adores e academ ias e escolas de dança, pois fat ores com o os alt os cust os de produção im pediam a circulação e, por conseguinte, desestim ulavam a criação. Vislum brava- se a criação de um circuito que viesse a prom over o fluxo e a troca das inform ações produzidas em diversas part es do país, est reit ando o cont at o com produção nacional de dança e de out ros países que, além de cont ribuir, para essa part ilha de experiências ent re profissionais e est udant es de dança, fom entassem tam bém a form ação de um público para a dança.
Com o passar do tem po, essa cultura dos festivais co m eçou a m ostrar seu viés ideológico, cada vez m ais dependent e de um m ercado bast ant e específico e fora do âm bit o profissional . Tam anha era a influência desses
event os, que escolas de dança com eçaram a ter sua sobrevivência condicionada à part icipação e aos prêmios alcançados nestes festivais, part icipação est a vinculada ao enquadram ento ao m odelo por eles proposto. Um a série de prem issas a regular e prom over um a uniform idade est ét ica im pondo com o condição de participação o aceite irrestrito das regras est abelecidas.
Aquilo que ant es se m ost rou com o um a possível solução, passou a exercer o cerceam ent o das produções que não part ilhassem da estética adot ada, ou sej a, configurando- se com o um a força de controle com vista à m anutenção de um a vontade de verdade.
( ...) vontade de verdade, com o os outros sistem as de exclusão, apóia- se sobre um suporte institucional: é ao m esm o tem po reforçada e reconduzida por todo um com pacto conjunto de práticas com o a pedagogia, é claro, com o os sistem as dos livros, da edição, das bibliotecas, com o as sociedades de sábios de outrora, os laboratórios hoje. Mas ela é tam bém reconduzida, m ais profundam ente sem dúvida, pelo m odo com o o saber é aplicado em um a sociedade, com o é valorizado, distribuído, repartido e de certo m odo atribuído. (Foucault, 2004, p. 17)
O que se observa nest a “ est ét ica dos fest ivais” passou a ser a difusão de um a dança de consum o fácil, puro ent ret enim ent o, onde a aceit ação se dá por m eio de enquadram ent os às filiações est ilist as que se encont ram em seu s regulam ent os e fichas de inscrição. Fest ivais, que t em no virt uosism o de j ovens dançarinos execut ando, ao som de palm as e urros ( é a invasão da t orcida organizada) coreografias que, após a avaliação dos profissionais que com põem o corpo de j urados, são “ hanqueadas” elegendo o prim eiro nisso, o m elhor naquilo. Um sist em a de exclusão que fixa lim it es, regras e cont rola a produção do discurso, im pedindo que o novo, o “ diferent e e inadequado” adent re ao sist em a, legit im ando assim um padrão às custas de outro.
Esse panoram a dem onst ra claram ent e que a capacidade de replicação de um a idéia ou conceit o est á diret am ent e relacionada ao encont ro de condições favoráveis, no am bient e, para a sua perm anência e replicação, com o dem onst ra Dawkins ( 2001) . Um a vez que podem os entender que a perm anência dest e m odelo de fest ival ganhou sobrevivência e proj eção devido às condições propícias para a m anut enção de sua vont ade de verdade que, fortalecida por um a ordem social, em que determ inados consum os e utilização caracterizam um escalão social, a inform ação nova só é adm itida “ se for prim eiro nat uralizada, desbast ada de t oda est ranheza e afinal subj ugada.” ( Baum an, 1999: 235) .
Para sua e xpansão e m anutenção, t ais event os cont aram , além das j á m encionadas “ condições adversas” enfrentadas pela dança brasileira, com est rat égias com erciais, sendo que a m ídia cont ribuiu de m aneira significat iva para a const rução da im agem dest es fest ivais e para t orná-los conhecidos em larga escala.
A repercussão que se seguiu possibilit ou, além de um volum os o núm ero de part icipant e, am pliado a cada edição, a angariação de grandes som as de valores, oriundos de pat rocínios31, quase sem pre via leis de I ncent ivo à Cult ura – ou sej a, dinheiro público corroborando para a dissem inação de um m odelo de fazer art ístico, baseado em conceitos universalizant es, que est im ulam um a cadeia de produção que em perra a dança brasileira, não só a am adora com o tam bém a profissional, pois se baseiam num ent endim ent o de que a dança “ progride” a part ir de um sist em a m at riz de construção técnico - est ét ico, o balé, entendido neste m odelo de fest ival, com o pont o a part ir do qual se configura a m ultiplicidade de nossa dança, sem levar em cont a os nexos criados com o am bient e cult ural que, evolut ivam ent e m odifica corpos e t écnicas, apont ando para a
31 Neste ano de 2006, o valor anunciado de patrocínio é de 2,2 milhões de reais, recebidos das empresas Petrobrás
(empresa de prospecção, exploração e distribuição de petróleo e derivados) e Vivo (empresa da área de telecomunicações).
em ergência de out ras configurações est ét icas e a geração de novos corpos e novas danças.
No ent ant o, t oda ação norm at izadora, na t ent at iva de elim inar a diferença, provoca a produção de m ais am bivalência ( Baum an, 1999) pois, os event os não ocorrem de m aneira descont ext ualizada de seu am bient e, não é um a abst ração a ser t rat ada independent em ent e do seu lugar de inserção, fazem , ant es sim , part e dest a rede e se ent relaça m com os dem ais event os, num a som atória de processos e estados a se reconfigurar const ant em ent e.
Um com prom isso com a cont inuida de
Dentro desse quadro endêm ico, diversos eventos de dança têm desenvolvido ações que se propagam no tem po e no espaço. Experiências que se desenvolvem m aj oritariam ente no cam po da dança profissional, e prom ovem m ais do que a exposição de t rabalhos coreográficos e seus art ist as. Const it uindo-se com o at rat ores e difusores de conhecim ent o, fom ent am a part ilha da diversidade de experiências e pensam ent os que com põem a dança cont em porânea brasileira, proporcionando a criação de terrenos favoráveis para a inform ação seguir um fluxo contam inatório, trazendo “ possibilidades de todo o am biente se reconfigurar, assim com o os que dele fazem part e. Toda reconfiguração, no ent ant o, precisa de t em po para poder dar cont inuidade ao processo que a desencadeou.” ( Kat z, 2006: 5)
Essas experiências no cam po da dança profissional deveriam nortear o que se faz no cam po dos fest ivais am adores, que não deveriam const it uir- se com o um universo paralelo, pelo fato de serem dirigidos a artistas em fase de form ação m as, ao cont rário, alim ent ar os t rânsit os de inform ação com os cont ext os de onde em ergem , t endo com o princípio am pliar e difundir as
discussões desencadeadas nos event os profissionais, am pliando seu raio de apreensão, criando novos públicos ao m esm o t em po em que possam servir com o plat aform a para novos art ist as e, sobret udo para discussões no que tange as esferas de form ação, educativas em dança.
O que se pretende com a dem onstração desses m odos de organização de event os de dança é propor um a nova configuração para este sistem a. Segundo Britto ( 2004) os event os de dança ( com o os fest ivais), são m ecanism os eficient es na prom oção do confront o crít ico entre idéias diversas e que, ao congregar, num espaço de t em po e lugar, produções geograficam ent e dispersas, “ at ualiza referências, m obiliza reflexão crít ica, desafia hábit os de pensam ent o. Mas acim a de t udo, cria dem anda – apontam novas perspect ivas de invest igação.”
Mas com o apont a a própria pesquisadora , tal vocação só se efet ivará de fat o se t ais event os est iverem com prom et idos com o princípio da cont inuidade, ou sej a, proverem condições para que idéias se expandam e ganhem reverberação e cont inuidade, t ant o quant o para o am bient e de ocorrência, com o para o de sua origem . Há assim a necessidade de fazer circular idéias e inform ações - pois só dessa m aneira elas podem sobreviver, o que dem onst ra a relevância de event os que t enham com o pensam ent o nort eador o ent endim ent o da dança com o produt ora de conhecim ent o, prom ovendo espaços que favoreçam a discussão, a troca e a diversidade.
Não basta ser vitrine expositiva de produtos renovados anualm ente sem um program a de ação contextualizadora que perm ita esclarecer o cam po de referências que foram gerados e, ao m esm o tem po, deline ar um a plataform a de vôo para essas idéias. (Britto, 2004 p. 75 -76)
O Fórum I nt ernacional de Dança – FI D, é um bom exem plo dest e ent endim ent o de program a cont inuado. I dealizado por Adriana Banana e Carla Lobo32, o FI D t em seu início em 1996, ainda com a denom inação de fest ival. A m udança caract erizou não só um a t roca de nom enclat ura, m as de necessidade adaptativa às necessidades da dança contem porânea, um processo evolut ivo e de aum ent o da com plexidade, que o t ransform ou num a ação continuada desenvolvida ao longo do ano, com proj etos artísticos e educacionais.
O FI D t em apost ado na produção e difusão do conhecim ent o e na prom oção de criadores locais que, at ravés do Territ ório Minas - program a de apoio a produção - t êm seus processos de criação e investigações apoiados, além do acesso a cursos e palestras, obj etivando o desenvolvim ento da dança cont em porânea local. Out ra frent e de at uação que surgiu foi o FI D – Extensão Brasil, um program a de difusão da dança nacional, que proporciona a circulação da produção, dem ocrat izando as inform ações geradas nas diversas regiões do país.
Num híbrido que conecta a produção de conhecim ento em diversos form at os, no FI D, a dança é ent endida com o um a experiência t eórico -prática do corpo, at ravés de workshops, conversas, debates e discussões que com põem o event o, atrelado às dem andas criadas pelo am biente contextual da dança brasileir a, ações que se expandem e reverberam para além do conglom erado aglutinador espaço- tem poral do fórum .
O contato com a inform ação nova insem ina o contexto de tal m aneira que m odifica o am biente, e esse am biente já m odificado passa a produzir corpos tam bém m odificados para habitá- lo. Esses novos habitantes, então, passam produzir a um contexto m ais com plexo, que vai m odificar outros corpos, et c, etc. Um a vez estabelecido o fluxo de
32 Adriana Banana, coreógrafa e dançarina co-fundadora da Cia. de Dança Burra (1987-95) e do projeto Ur = Hor
(1999) ; Carla Lobo, Formada em psicologia, atua como bailarina e coreógrafa tendo participado do Grupo de Dança Tereza Rico.
alterações contínuas entre corpos e am bientes, ele se torna inestancável. I sso significa que não apenas Belo Horizonte pós- FI D é outra, m as que seus habitantes (e, portanto, as suas produções) tam bém estão diferentes. ( Katz, I n: O estado de São Paulo 12/ 07/ 2000)
Ainda com o intuito de consolidar o entendim ento da dança com o área de conhecim ent o o FI D inaugurou em 2005 o proj et o FI D- Editorial. Const it uído com o ação alt ernat iva às dificuldades edit oriais do país, o FI D- Edit orial t raz com o propost a, baseada na prát ica de econom ia solidária, a edição de obras de pesquisa sobre dança a preço de cust o, sem a associação a nenhum t ipo de Lei de I ncent ivo. Sua dist ribuição se efet iva a part ir de suas redes de relação, sem int erm ediações que oneram o custo das publicações. As publicações se iniciam com um a t rilogia nom eada de “ Corpo, Espaço, Tem po” . O prim eiro livro lançado é livro Um , dois, t rês. A dança é o pensam ent o do corpo, de Helena Katz. Com pletando a trilogia, estão program ados para edição os livros de Fabiana Brit t o e Dulce Aquino, t odos os t rês frut os de t eses de dout oram ent o.
Com est a iniciat iva espera- se dem onstrar existência de um m ercado editorial para a dança, cham ando a atenção do m ercado editorial a existência de público para a com ercialização de publicações do gênero.
Out ro exem plo a ser m encionado é o Panoram a RioArt e de Dança do Rio de Janeiro. Em bora não est ej a fora do eixo de concent ração da produção cult ural no país, o Panoram a apresent a est rat égias diferenciadas para repensar os m odos t radicionais de produzir e criar o no cam po da dança. O que reforça que essas ações se conect am num a geografia de idéias, que não se lim it a às barreiras da geografia t errit orial.
O Panoram a, desde sua criação em 1992, vêm propondo um a ação sem pre renovada, um discurso que em erge da com binação de idéias ali apresent adas, ent endidas com o pesquisas que em ergem do corpo que
dança, lem brando que “ ... o ato de dançar, em term os gerais, é o de estabelecer relações testadas pelo corpo em um a situação em term os de out ra, produzindo, nest e sent ido, novas possibilidades de m ovim ent o e conceit uação.” (Greiner 2005: 132)
Prom ovendo parcerias com instituições culturais nacionais e int ernacionais, esses event os int ent am prom over um a rede de propagação do pensam ent o produzido em dança. No ent ant o, por quest ões de cust os, m uit as vezes se t em um a m aior part icipação de art ist as de out ras nacionalidades em det rim ent o dos nossos próprios, pois enquant o governos com o o da I nglaterra, Alem anha e França subvencionam com verbas expressivas seus art ist as, prom ovendo suas produções, o Brasil ainda não proporciona m ecanism os efetivos e continuados para fazer circular artistas, que se vêm im pedidos de circular e difundir seus t rabalhos, t endo em vist a os altos custos de produção com o: transporte, passagens aéreas, estadias e alim ent ação.
Criam- se assim , zonas de exclusão, nas quais a produção int ernacional, ganha visibilidade e produz ondas de influência, ao m esm o t em po em que a dança brasileira se vê numa sit uação de int erdição, im possibilitada de prom over a circulação de seu discurso, fazendo com que m ais um a vez prevaleça a vont ade de verdade eurocênt rica de nossos colonizadores.
Tal qual o FI D e o Panoram a, outros eventos configuram- se com o pólos dissem inadores de inform ações, exem plos deles são: o Festival de Dança de Araraquara – SP, o Fórum Pública Dança de Vot orant in – SP, o Festival de Dança do Recife, a Bienal de Sant os e do Ceará e o Fest ival I nternacional de Nova Dança em Brasília. Outros festivais, m esm o com certa resistência, t am bém t êm buscado out ros form atos, exem plos são o Festival Curt a Dança, realizado pelo SESI ( Serviço Social da I ndust ria) em Sorocaba- SP e o
Fest ival de Londrina- PR que aboliram o carát er com pet it ivo de seus event os, e dessa m aneira t em cont ribuído para abalroar os velhos padrões de event os destinados a escolas e academ ias de dança.
Tam bém m erecem dest aques iniciat ivas de carát er m ais local que, ao criar circuit os de encont ros, favorecem a dissem inação das inform ações – fluxos contam inatório, podem que servir com o inspiração para outras ações. É o caso do Tubo de Ensaio e do Conexão Sul, am bos eventos realizados na região Sul do país.
I dealizado por Sandra Meyer, Vera Torres e Jussara Xavier33, com o intuito de prom over a circulação de inform ações e im pulsionar novas ações no cont ext o cult ural local, cont ribuindo assim para a qualificação da dança local, Tubo de Ensaio, ao longo de cinco anos de exist ência ( desde 2001) , t êm prom ovido um espaço para que art ist as possam m ost rar e discut ir t rabalhos, propiciando encont ros e t roca de experiências. I m port a salient ar que, ent endendo que a dança opera não som ent e no am bient e local, o Tubo de Ensaio tam bém oportuniza espaços para artistas de outras regiões e m esm o de outros países, configurando- se com o:
Ponto de encontro para intervenção, questionam ento, apreciação, reflexão e discussão sobre a dança e as dem ais artes. Propondo ações capazes de incentivar processos criativos e form ativos, além de aproxim ar artistas, crít icos, pesquisadores e público. ( Meyer et al, 2006: 12)
33 Sandra Meyer é doutora em Comunicação e Semiótica (PUC -SP), coordenadora da Especialização em Dança
Cênica do Centro de Artes da UDESC e professora do curso de Artes Cênicas (CEA RT/UDESC). Crítica de dança