Conceituar o direito penal econômico constitui tarefa árdua, em virtude das inúmeras concepções existentes a respeito do tema, cada uma a eleger um critério distinto, como aspectos processuais, criminológicos e dogmáticos (bem jurídico).97
Como critérios dogmáticos, destacam-se os conceitos restrito e amplo. Conforme o conceito restrito, o bem jurídico protegido pelas normas que formam o direito penal econômico é a ordem econômica estatal em seu conjunto, isto é, o fluxo da economia em sua organicidade.98
Bajo Fernandez, apontado como o pioneiro na sistematização da matéria na doutrina espanhola99, conceitua o direito penal econômico como “o conjunto de normas
jurídico-penais que protegem a ordem econômica entendida como regulação jurídica da intervenção do Estado na economia”.100
Enrique Bacigalupo101 define o delito econômico a partir também do bem jurídico
ordem econômica, pelo que adere ao conceito restrito em análise:
[...] são delitos econômicos aquelas condutas descritas em leis que ofendem a confiança na ordem econômica vigente em sentido amplo ou em alguma de suas instituições em particular e, portanto, põem em perigo a própria existência e as formas de atividade dessa ordem econômica.
Bajo Fernandez, partindo de um conceito amplo de direito penal econômico102,
define o delito econômico em sentido amplo como “aquela infração que, ofendendo um bem
97 BALCARCE, Derecho penal económico, p. 21. 98 BALCARCE, Derecho penal económico, p. 28.
99 A afirmação foi feita por: BUJÁN PEREZ, Derecho penal económico, p. 34. 100 BAJO FERNANDEZ; BACIGALUPO, Derecho penal económico, p. 13. 101 BACIGALUPO, Derecho penal económico, p. 35.
102 “É o conjunto de normas jurídico-penais que protegem a ordem econômica entendida como regulação jurídica
da produção, distribuição e consumo de bens e serviços” (BAJO FERNANDEZ; BACIGALUPO, Derecho penal económico, p. 14-5).
jurídico patrimonial individual, produz lesão ou coloca em perigo em segundo plano a regulação jurídica da produção, distribuição e consumo de bens e serviços”.103
Buján Perez104 precisa a diferença entre uma e outra concepção de direito penal
econômico:
[…] a diferença da noção anterior não se trata aquí de tutelar o intervencionismo estatal, senão de salvaguardar a atividade econômica no marco da economia de mercado, em virtude de que os limites da segunda concepção de Direito Penal Econômico se vêem bastante ampliados, ao considerar a ordem econômica como um bem jurídico mediato ou de segundo plano de cada uma das figuras delitivas concretas, por trás dos bens jurídicos que em cada caso resultam imediatamente protegidos.
Adepto do conceito amplo de delito econômico, Klaus Tiedmann sustenta que o projeto alternativo do Código Penal Alemão, apresentado em 1977 caracteriza o delito econômico e, pois, o direito penal econômico, em virtude de o fato punível neles implicado ofender não só bens jurídicos individuais como também bens jurídicos sociais e supraindividuais da vida econômica.105
O conceito amplo ofertado ao direito penal econômico é objeto de críticas por parte da doutrina. Objeta-se que o conceito de bem jurídico supraindividual com o qual trabalha é vago, de difícil apreensão.106 Sustenta-se que o conceito restritivo também
propiciava um conceito restrito de delitos econômicos como fatos lesivos ou que colocavam em perigo a intervenção do Estado na economia, particularidade essa refletida no nível legislativo e bem aceita cientificamente.107 O conceito amplo de direito penal econômico
resultou mais de um pragmatismo de agrupar tipos penais que contivessem significação econômica.108 Em realidade, o conceito amplo foi influenciado pelas considerações
103 BAJO FERNANDEZ; BACIGALUPO, Derecho penal económico, p. 15. Esse conceito é adotado e
encontrado nas obras de Raúl Cervini (CERVINI; ADRIASOLA, El derecho penal de la…, p. 64) e de Buján Pérez (BUJÁN PEREZ, Derecho penal económico, p. 35). Esteban Rigui (RIGUI, Los delitos económicos, p. 100) também é adepto do referido conceito, mas, fazendo-lhe ligeiro reparo, põe em relevo que o dado central do crime econômico é a ofensa a bens jurídicos supraindividuais, não se excluindo o fato de tal delito ofender também, mas secundariamente, um bem jurídico individual (RIGUI, Los delitos económicos, p. 108).
104 BUJÁN PEREZ, Derecho penal económico, p. 35. 105 TIEDEMANN, Derecho penal y nueva..., p. 09.
106 Hassemer, a respeito de “bens universais”, critica a sua amplitude, apontando a sua inerente incapacidade
para a crítica de certas incriminações. Para ele, a proteção penal dos bens universais propicia mudança de paradigma no bem jurídico: não se protegem mais interesses concretos da pessoa, mas instituições sociais ou unidades funcionais de valor, como meio ambiente em sua totalidade, o funcionamento do sistema de subvenções e de processamento de dados e de créditos, a saúde pública (“Lineamientos de una teoría personal del bien jurídico”, HASSEMER, Lineamientos de uma..., in Doctrina Penal, p. 279).
107 CERVINI; ADRIASOLA, El derecho penal de la…, p. 74. 108 CERVINI; ADRIASOLA, El derecho penal de la…, p. 70.
criminológicas de crimes do colarinho branco, que mais acentuavam as características de seu autor109 do que o seu aspecto referente ao bem jurídico implicado.110 O resultado obtido com o
conceito amplo de direito penal econômico foi uma grande expansão de seu conteúdo111, sem
rigor dogmático.112
Sem embargo das críticas, o conceito amplo de direito penal econômico acabou prevalecendo. O conceito restrito parece remeter à economia planificada dos sistemas socialistas, que, posteriormente, sucumbiram à economia de mercado.
O conceito amplo contém aspecto essencial do sistema capitalista e do estado de direito: a intervenção estatal na produção, distribuição e consumo de bens e de serviços por meio do direito. Crítica que lhe pode ser feita é a ausência de referência ao conteúdo social que demarca o estado social e democrático de direito, tal como é reconhecido pela Constituição pátria. Talvez o esquecimento desse conteúdo em seus conceitos seja um reflexo das características do direito penal econômico atual, que, infelizmente, manifesta-se de molde a relegar a segundo plano garantias próprias do direito penal liberal, como se verá a seguir.
Também não pode passar despercebida a referência contida no conceito amplo de direito penal econômico à ofensa a bem individual de natureza patrimonial, o que não reflete a realidade da criminalização em alguns setores adjacentes à produção, à distribuição e ao consumo de bens e serviços, mas que são contemplados pela política social e econômica do País, como o meio ambiente.
Essa ofensa a bem individual, que nem sempre será patrimonial, pode revestir-se sob a forma de perigo, e não necessariamente de dano, esclareça-se.
Com o objetivo de contribuir para o esclarecimento do objeto e do conceito de direito penal econômico, poder-se-ia dizer que se trata do ramo especial do direito penal que contempla infrações à ordem social e econômica do País que possam ofender bens jurídicos pessoais e coletivos, e para cuja tutela acentua o caráter preventivo.
109 BALCARCE, Derecho penal económico, p. 30.
110 CERVINI; ADRIASOLA, El derecho penal de la…, p. 70.
111 PEREZ DEL VALE, Aproximación al concepto de..., in: BACIGALUPO, Derecho penal económico, p. 32.
No mesmo sentido: RIGUI, Los delitos económicos, p. 107.
112 CERVINI; ADRIASOLA, El derecho penal de la…, p. 72. Nesse sentido também: VOLK, Diritto penale