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As primeiras normas de condutas estabelecidas pela empresa para os moradores da Vila foram descritas nos artigos de José Simão da Costa e publicados no Jornal de

Notícias no ano de 1898. Ao todo foram onze artigos que possibilitaram conhecer

aspectos do cotidiano desses trabalhadores. Em seus relatos José Simão fez diversas homenagens à iniciativa de Luiz Tarquínio e ao que aquele empreendimento representava, na sua compreensão, para a Bahia e para o Brasil. Através deles foi possível conhecer as diversas formas utilizadas para o controle deste contingente de trabalhadores que vai além do ambiente produtivo. Estão presentes os registros da tentativa de intervir nos hábitos, nos valores e nas formas de socialização dos moradores. Estes artigos foram também publicados na Revista Cidade do Bem1

, tendo,

portanto, o aval da empresa nas informações fornecidas.

José Simão procurou demonstrar aos leitores a credibilidade dos seus argumentos, a legitimidade de suas ponderações e para tanto afirmou conhecer “os grandes centros industriais do novo e do velho mundo”. Para tanto, cita fábricas da Alemanha, Inglaterra e dos Estados Unidos da América, numa clara intenção de demonstrar que tinha parâmetros comparativos, além é claro, de erudição e cosmopolitismo.

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Procurou justificar a rigidez do regulamento, argumentando que era preciso considerar que naquela Vila Operária residiam “cerca de 1500 habitantes” e por isso era preciso ter uma “noção completa da necessidade” de adotar um “regulamento para garantia da ordem, da higiene moral e material e do respeito recíproco que entre tão avultado grupo heterogêneo deve[ria] prevalecer”.2

Costa tentou mostrar aos leitores do Jornal de Notícias que suas observações não se pautavam por nenhum compromisso assumido, afiançando que deveria mesmo “confessar que a primeira vez” que teria ido “à Vila Operária”, não se fizera “apresentar de propósito” para poder, “à vontade observar esta personalidade de quem tanto” ouvira “tantas e tão desencontradas versões”. Afirmou que, até aquele momento, “tinha arraigado no espírito que, na essência, Luiz Tarquínio” era um “reverendíssimo regulo”, que trazia “o operário e sua família sob o jugo do mais aviltante despotismo”. Segue dizendo que o que iria narrar daria a dimensão da “injustiça” da sua “prevenção, e da razão porque” concluíra “que muita gente boa” falava “de Luiz Tarquínio e da Vila Operária só pelo que deve dizer não pelo que sabe ou visse”.3

O comentário feito sobre a arbitrariedade que alguns estariam atribuindo ao regulamento demonstra que ele foi, ao menos em parte, censurado. Essa fala buscava dissolver ou amenizar a imagem de um regulamento despótico. Após sua visita ele não disse ter mudado sua opinião sobre a rigidez do regulamento, ela foi justificada pelo resultado moralizador. É até possível que seus artigos fossem fruto de uma iniciativa pessoal, esta, contudo coadunou com os interesses da empresa em divulgar o Empreendimento e dissolver imagens negativas que circulassem entre os contemporâneos sobre aquela experiência, principalmente no que diz respeito à rigidez do tratamento dispensado aos operários. As desencontradas versões sobre Luiz Tarquínio e as normas de conduta que tanto se empenhou em implantar não tiveram o mesmo espaço de divulgação. Vigoraram os elogios ao Empreendimento e a condução moralizadora do viver operário no interior da Vila e fora dela.

O teor de sua matéria O Regulamento da Vila é de justificativa e valorização dos itens que compõem o código de condutas referido. Deixa entrever também sua visão do trabalhador brasileiro e baiano em particular. As expressões utilizadas ao mesmo tempo

2Idem. O Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 3

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em que enaltecem o código adotado refletem as condições de imposição que os moradores, adultos e crianças estavam submetidos. Refere-se a uma conformidade, e contrariamente, a imposição. Embora cite igualdade e justiça, certamente esse era um valor relativo, porque ele está se referindo ao fato do regulamento adotado ser aceito por todos devido à sua “justa aplicação, tratando os moradores indistintamente, com absoluta igualdade”. Ou seja, aqueles que ali moravam desde sua implantação não tinham nenhum privilégio em relação aos recém-chegados. Para ele, o regulamento nem era “complicado, nem absurdo. Seria também forçar a nota do sentimentalismo taxá-lo de arbitrário”. Afirmou que o código de condutas tinha o propósito de “converter uma massa composta de elementos heterogêneos, oriunda de diversas raças, de cores várias e hábitos diversos, em um só grupo social homogêneo”, entre o qual reinava a “cordialidade, a urbanidade e o respeito mútuo”.4

O primeiro item do Regulamento estabelecia que só poderiam “ocupar as casas da Vila Operária” as famílias que tivessem “pelo menos duas pessoas” trabalhando na Fábrica.5 Essa exigência iria condicionar muitos dos comportamentos adotados pelos moradores conforme se verá mais adiante. Outra exigência era que as casas deveriam estar sempre limpas e arrumadas. Há registros nos jornais de grande circulação que diversas autoridades, brasileiras ou estrangeiras, em passagem pela cidade de Salvador, visitaram a Companhia, inclusive a Vila. Todos poderiam entrar nas casas e, para José Simão da Costa, seus moradores, ao invés de terem “horror a que olhos curiosos” penetrassem o “interior de sua vivenda”, abriam as portas “de par em par” e sentiam “inefável prazer em que um estranho” percorresse toda a casa, “convictos de que estes” só poderiam “fazer-lhes merecidos elogios em relação à ordem, ao gosto e ao asseio que em tudo” se notava.6

Difícil imaginar o “inefável prazer” desta população com estranhos a percorrer sua privacidade tendo que estar “sempre decentemente trajados mesmo dentro dos seus aposentos”, inclusive as crianças. Para Simão da Costa, todos sentiam os “efeitos benéficos, moralizadores e civilizadores” daquelas medidas.7 É provável que a demonstração de desânimo ou mesmo de indiferença para com as visitas constituísse uma afronta às ordens da Empresa e que tal conduta pudesse ser penalizada. Também é

4Idem. A Fábrica de Luiz Tarquínio. In: Revista Cidade do Bem. 1899. 5Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898.

6Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 7

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possível que nos critérios estabelecidos para a boa conduta dos operários essa disposição para a exibição fosse ressaltada.

Para o informante bastariam estes itens “para afirmar a teoria de que o regulamento da Vila Operária é excelente” e mais, “digno de ser imitado por todas as comunidades”.8 A seu ver, o “código de leis sociais” trouxe os benefícios elencados abaixo:

- Impor deveres e obrigações que redundam todos em grande proveito do próprio indivíduo que os observa, quer sob o ponto de vista moral, higiênico, estético, social ou material;

- Converter uma massa composta de elementos heterogêneos, oriunda de diversas raças, de cores várias e hábitos diversos, em um só grupo social homogêneo, entre o qual reina a cordialidade, a urbanidade e o respeito mútuo;

- Ensinar todos a serem fanáticos pelo asseio, pela estética, pela higiene, pela ordem, pela moralidade e pela camaradagem.9

Os imperativos são, por si, um demonstrativo da imposição, mas vão além, uma vez que pretendiam formar um corpo único de trabalhadores, uníssono em suas ações, cordiais, “fanáticos pelo asseio, pela ordem”. Enfim, disciplinados de acordo com os moldes do mundo do trabalho que se buscava impor.10

José Simão da Costa afirmou que a vigilância ao cumprimento do regulamento era constante e realizada tanto durante o dia quanto à noite. Os vigias comunicavam-se por meio de apitos como um corpo de polícia, subordinado a um chefe. Para ele, a permanência da fiscalização justificava-se pela necessidade de vigiar os hábitos que eram diversos na Bahia. Afirmou que na aplicação do Regulamento, estava o “segredo de transformar em massa uniformemente obediente e passiva uma classe refratária, por índole e por hábito, à ordem e ao asseio”.11

Uma vez que, “para a observação fiel do regulamento”, havia “um corpo de polícia permanente, subordinados a um chefe” os moradores demonstraram não estar tão facilmente convencidos da “excelência” do Regulamento.12 Os dados apontam que a vigilância era constante e realizada “alternadamente dia e noite. Era uma população com a privacidade freqüentemente invadida e o sono constantemente perturbado pelo som

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Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898.

9Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 10Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 11Idem. O Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 12

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dos apitos. O uso dos apitos era uma prática usual em vilas operárias e também em espaços públicos como ruas e bairros. A particularidade no caso das vilas é que esta vigilância não se restringia à proteção dos moradores; dentre suas funções estava a imposição do horário de descanso aos trabalhadores. Para Simão da Costa, a partir das dez horas, ficava a “Vila submergida em absoluto repouso”, todas as noites.13 A Vila era murada e com grandes portões de ferro que eram fechados as vinte e uma horas, a partir desse horário, qualquer movimentação deveria ser justificada.14

As questões apontadas pelo Jornal de Notícias foram confirmadas por D. Clélia Lourdes Galvão Cerqueira, D. Kekinha, antiga moradora da Vila. Em sua entrevista, feita em 1995, quando ela tinha 64 anos, são claras as referencias aos portões que eram fechados a partir das “21 horas” e “as luzes das casas” apagadas segundo normas do regulamento, controlado por um registro geral. Ela informa que, depois daquele horário, quem quisesse que “acendesse seus candeeiros”.15 Em diversas vilas operárias este foi um procedimento foi adotado. Naquelas que não contavam com energia elétrica controlada por um gerador, eram as sirenes que faziam este anúncio.16

A preocupação com a iluminação na Vila Operária da CEIN era constante e aparece em alguns relatórios. O Relatório datado de 1918, referente ao ano anterior, por exemplo, informou sobre a instalação de um conjunto “Diesel elétrico com 700 cavalos de força” que permitiu “movimentar a fiação”, substituindo os antigos motores e possibilitou o trabalho noturno. Foi utilizado ainda “para iluminar a Vila Operária”, que até então era iluminada por um motor instalado na própria Vila.17 Até concluírem toda a instalação alegam ter sofrido “sérios dissabores no acerto do motor e nas precisas experiências” e estes ocasionaram “muitas paradas da Fábrica” o que teria provocado “redução de lucros”. Mostraram-se, todavia, entusiasmados com o fato de poderem recompensar “largamente” naquele ano a redução anterior.18

13Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 14

Idem. As festas operárias. Jornal de Notícias. 17.11.1898.

15NASCIMENTO, Andréa. Abandono condena Vila Operária à decadência. Correio da Bahia.

26.08.1995

16Consultar: TEIXEIRA, Palmira Petratti. A fábrica do sonho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

GIROLETTI, Domingos. Fábrica: convento e disciplina. 2ªed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2002. LEITE, José Sergio. A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés. Brasília: Editor da Universidade de Brasília, 1988.

17CEDOC. CEIN. Relatório. 1918. p. 7 18CEDOC. CEIN. Relatório. 1918. p. 8

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A presença da polícia interna é um forte indicador de que o respeito ao regulamento requeria vigilância. Certamente que, no cumprimento das normas impostas, os moradores poderiam ser muito mais cúmplices que delatores. No entanto, o risco de perder o emprego, e mesmo a moradia, funcionavam como fatores de interdição dos supostos desvios.

Nos relatos de José Simão também estão presentes a tentativa de diferenciar os moradores da Vila dos demais moradores da cidade. Segundo ele, ali não se ouvia o “assovio gaiato, desabafo da indolência” nem os ouvido eram “assaltados” pelo “ruído infernal que tanto deleita o inconsciente elemento infantil, quando não é disciplinado ao gozo das delícias que proporcionam brinquedos mais amenos.”19 Ao que parece, homens andando sem camisas e assoviando pelas ruas, hábitos comuns entre os moradores da cidade, devia realmente incomodá-lo dada a ênfase nestes pontos. As crianças também eram diferentes das demais, ruidosas, livres das imposições que ocupavam as calçadas e ruas da cidade. Na Vila, ainda segundo Simão, transitavam trabalhadores ordeiros e seus filhos aprendizes também ordeiros. Ali não se ouvia uma “só voz alta” que pudesse perturbar o vizinho e as crianças, não colhiam sequer “uma folha muito menos uma flor”, daquelas que adornavam “especialmente a praça principal”.20

Nos relatos de D. Kekinha, este dado também aparece. Segundo ela, na Vila “não era permitido arrancar uma flor do jardim. Se uma criança quebrasse alguma coisa, o pai era chamado. Os custos eram retirados de folha e a gente ainda levava uma surra”.21 D. Kekinha falou ainda que jogar bola na praça era proibido. As crianças podiam jogar bola de gude. No entanto a própria D. Kekinha informou que a meninada burlava a vigilância brincando nas áreas mais escondidas. Lembrou que brincavam também “de fábrica”. Ao mesmo tempo em que enfatizou a severidade dos administradores, revelou que alguns vigilantes, mesmo demonstrando rigor para com as crianças, estabeleciam alguma cumplicidade com elas a exemplo do que ela recorda que apelidaram de “Seu Chep-chep”. O apelido foi atribuído porque ele andava arrastando

19COSTA, José Simão da. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898. 20Idem. Regulamento da Vila. Jornal de Notícias. 11.11.1898.

21NASCIMENTO, Andréa. Abandono condena Vila Operária à decadência. Correio da Bahia.

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as sandálias o que acabava por alertar as crianças da sua proximidade livrando-as das reprimendas pelas traquinagens cometidas.22

Independente dos ajustes internos, a imagem da Vila enquanto um espaço vigiado, e por isso mesmo ordeiro, era reforçada também nos cartões-postais. Dois deles que também veicularam nos primeiros anos da Vila, revelam a presença de um guarda fardado a esquerda do coreto. Este cartão-postal difere em alguns aspectos dos anteriores. A imagem é mais aproximada e nela estão presentes algumas pessoas sentadas nos bancos ao redor dos dois coretos, além do guardinha já citado. A pose das personagens na fotografia é flagrante e, por isso mesmo reveladora das intenções e mensagens que se buscou veicular neste suporte. O prédio da Escola ocupa a metade do espaço da fotografia. Aqui também se vê os jardins bem cuidados que, segundo o engenheiro José Simão, atestava a “civilidade” dos moradores.

O segundo cartão-postal é da mesma fotografia que foi manipulada pelo fotógrafo ou pelo editor para a sua reedição. A tarja branca inserida na imagem deu destaque aos dados sobre a Vila e sua localização. Esses dados aparecem na imagem anterior no lado superior e o que se buscou com esse recurso possivelmente foi dar maior relevo as informações.

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Voltando ao depoimento de D. Kekinha, ela afirmou que, para algumas brincadeiras, as crianças sempre escalavam uma delas para ser vigia e avisar quando os vigilantes se aproximavam. Este episódio revela a inversão do papel de vigiados para o de vigilantes. Percebe-se assim que as crianças conseguiam burlar o controle se valendo dos mesmos métodos que ali também elas aprenderam.

Pode-se inferir que em muitos casos, assim como as crianças estabeleceram cumplicidades, os adultos também puderam fazê-lo. É possível que eles tenham sido aliados em diversas situações, tentando escapar das medidas punitivas. É possível também que a vigilância se acirrasse contra aqueles que, porventura, se configurassem em algum desafeto dos vigias ou chefes intermediários também moradores da Vila.

Os estímulos praticados pela Empresa para o fiel cumprimento das normas estabelecidas foram os mais variados e, em contrapartida, as infrações ou desvios nas condutas foram repreendidos através das multas ou punições. Muitos estudos mostraram ações de empresários no sentido de intervir no cotidiano dos trabalhadores e estas intervenções se fizeram presentes nos diversos espaços possíveis: no lazer, na educação dos filhos, na escola, nas ruas internas das vilas e na domesticidade dos moradores. Enfim, dentro e fora do ambiente produtivo. Isto pode representar mais do que a extração da força de trabalho e revelar também a tentativa de introjetar no universo do

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operário um modelo de vida com valores matérias, morais e espirituais alheios a cultura de origem.23

Para incentivar os trabalhadores, muitas e diversificadas foram às premiações utilizadas pela CEIN. Desde cortes de tecidos, cartões-postais a valores em espécie nas festas de final de ano. O valor relativo a estes prêmios eram registrados nos balanços anuais que a Empresa apresentava aos acionistas nos Relatórios com o item “Caixa de auxílio a operários”.24

O Prêmio máximo prometido aos operários foi a doação de uma casa fora da Vila ao operário considerado “bom” por dez anos consecutivos. O prêmio intermediário, também importante, foi a liberação do pagamento do aluguel da casa na Vila aquele que tivesse “bom comportamento” por cinco anos consecutivos.25 O bom comportamento significava não receber multa, advertência ou qualquer tipo de censura.

A doação de uma casa era medida dispendiosa e requeria a aprovação dos acionistas da Empresa e para tanto os diretores Luiz Tarquínio e Leopoldo José da Silva buscaram justificá-las enquanto meios importantes para se atingir os propósitos da empresa. Para eles, os “socorros, auxílio e prêmios aos bons operários” eram importantes porque:

Nas grandes indústrias, como aquela a que nos dedicamos, em um meio pouco industrial como o nosso, o braço que trabalhava vale pelo menos tanto quanto a cabeça que o dirige, ou o capital que o vivifica. Os abaixo-assinados sempre estiveram disto convencidos e tem feito tudo quanto lhes tem sido possível em prol do bem estar dos seus operários.26

Percebe-se aqui que estes empresários atribuíram ao complexo industrial a função de escola integrada para o investimento na alteração do comportamento dos trabalhadores. A casa fora da Vila representava, para além de um prêmio, o certificado de que o trabalhador estaria instrumentalizado ou habilitado para a vida social e que eles já poderiam viver sem a intervenção da empresa. Após o período de formação ele

23Maria Auxiliadora estudou o cotidiano dos operários em São Paulo e as ações empreendidas pelos

empresários para interferir no comportamento dos mesmos. DECCA, Maria Auxiliadora Guzzo. A vida

fora das fábricas – cotidiano operário em São Paulo (1920-1934). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

24APEBA. CEIN. Relatório. 1907.

25PINHO, Péricles Madureira de. Luiz Tarquínio, pioneiro da justiça social no Brasil. Bahia: Imprensa

Vitória, 1944, p. 91.

26TARQUÍNIO, Luiz e SILVA, Leopoldo José. Cartas aos acionistas da CEIN. Diário de Notícias.

11.09.1903. Esta carta foi escrita em 24 de março de 1902 e pedia a autorização aos associados para doação das casas fora da Vila.

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poderia ser “livre”, afinal seu comportamento já estaria condicionado às normas da empresa.

Ao que as fontes indicam, os primeiros diretores chegaram a encontrar pelo menos cinco bons trabalhadores, pois entregaram cinco casas. O acontecimento, como muitos outros vivenciados pela Empresa no tocante aos operários, foi marcado com festa e noticiado na imprensa, com muitos detalhes, conforme se verifica na reportagem do Jornal de Notícias:

A Empório Industrial do Norte, que conta a sua existência com atos de grandeza para a Bahia e de benemerência para os seus operários, realizou ontem, a sua grande deliberação de doar aos operários que durante dez anos mais se distinguissem pelo amor ao trabalho e irrepreensível procedimento, casas em que possam viver tranqüilamente.27

Os operários que “nunca sofreram multas nem censuras” por dez anos e em conseqüência receberam as referidas casas foram Francisco de Assis Pereira, Salomão Vicente Lopes, Maria Magnalena Lima, Maria de Souza Oliveira e Tarsila Meireles. Os dois primeiros iniciaram como serventes de pedreiro e, no dia da entrega do prêmio, ocupavam respectivamente os cargos de porteiro e lubrificador de máquinas. Cargos que representavam uma confiança nos empregados. O redator registra que “três mocinhas”,

Benzer Belgeler