Notavelmente boa parte dos estudos sobre população de rua dedica-se detidamente à interpretação dos processos que levaram pessoas a encontrarem-se em situação de rua. E uma metodologia comumente utilizada nestes estudos é a análise de histórias de vida. As narrativas aí coletadas revelam toda uma multiplicidade de itinerários e de circuitos anteriores à situação de rua. Estes relatos expõem um mundo inesperado de aventuras, profissões, moradias, viagens, amores, brigas, ilusões e desilusões, que permitem pôr de lado explicações homogêneas e mecânicas a respeito das causas que levaram a pessoa à rua. Devido às características extremamente contingenciais e particulares com as quais cada trajetória flui, as determinações da situação de rua são aí embaraçadas com tantos outros acontecimentos econômicos, familiares, biográficos e históricos. Contudo, nestes itinerários que transcorrem e correm rumo à rua, as similaridades capazes de articular as intrincadas diferenças residem justamente em seu aspecto negativo de perda. Prejuízo emocional e físico, estrago em casa e no trabalho. Deslocamento brusco, concreto e simbólico. O que estas heterogêneas histórias de vida possuem em comum é justamente o fato de serem histórias de rupturas, percursos de sucessivas perdas, trajetórias de exclusão (Escorel, 1999; Nasser, 2001; Frangella, 2005; Rosa, 2005). Estas biografias narradas enunciam toda uma teia de relações anteriores, mas que inevitavelmente possuem a rua como ponto de chegada: “daí, acabei na rua”, “então, me vi no olho da rua”, “aí fui parar na rua da amargura”, “de repente, virei morador de rua”. E a
rua é tida aqui como fim de linha, situação-limite da qual “daí para baixo não se desce mais”. Apesar de toda riqueza que estas trajetórias podem nos oferecer, este capítulo não
busca se dedicar aos percursos biográficos dos moradores de rua, apesar de eventualmente fazê-lo. A tentativa foi de intercambiar um pouco as coisas para ver o que daí pode surgir. E assim o ponto de interrogação usual foi deslocado: não mais fazer falar de si o morador de rua, mas sim fazer falar de si aquele que fala do morador de rua. No entanto, aqueles que aqui irão falar de si e suas experiências não são precisamente porta-vozes da rua, apesar de em determinadas ocasiões constituírem-se enquanto elos capazes de ligar estas vozes emanadas da rua com o espaço público da cidade. Por isso, focar nestes relatos nos ajuda a apreciar como a experiência da rua vai sendo urdida sob outros pontos de vista e olhares, bem como ganhando contornos muito particulares.
Como na cidade de São Paulo a população de rua possui uma história própria, a aposta aqui é seguir justamente os percursos de alguns mediadores desta história. Mediadores que a agenciaram, mas que também a questionaram. A idéia é tecer a trama desta história a partir dos tempos biográficos e práticas singulares nas quais vivenciaram os atores que participaram do processo. E o processo analisado, ou melhor, o solo histórico e pano de fundo onde se ancoram e se encenam tais trajetórias é o nascimento da questão população de rua na cidade de São Paulo. Como uma questão não nasce sozinha, o desafio aqui é o de acompanhar fluxos de memória em itinerários interligados que atravessaram, envolveram e também possibilitaram o nascimento da mesma. É sob tal perspectiva que este capítulo visa contribuir parcialmente com alguns dos poucos estudos já efetuados sobre os processos históricos relativos à população de rua (Rosa, 1999, 2005; Domingues Jr., 2003; Barros, 2004).
Tal é o terreno exploratório deste capítulo: trabalhar com narrativas de trajetórias que se cruzam, para daí trançar e apreciar de perto a trama de uma história. Não qualquer história, mas sim uma história específica e, como toda, parcial. Por isso o intuito é apreender, mediante perspectivas singulares de passados compartilhados, a tessitura de historicidades plurais cujo pólo de gravitação passou a ser a rua e as questões que transitam por este universo. Um universo hoje cravejado por aparatos institucionais, técnicas discursivas e operações políticas específicas. No entanto, como sabemos, as coisas nem sempre foram assim. Este conjunto interligado de práticas são realidades recentes e que foram se assentando aos poucos à experiência urbana paulistana. A própria população de rua – atualidade indiscutível e irredutível – é algo relativamente novo, questão que foi ganhando maior coerência discursiva, consistência óptica e prática, e constituiu-se enquanto um dilema público, ou pelo menos, um dilema para um certo público. Assim, este capítulo busca contar um pouco desta história, só que não uma história abstrata a partir de algum ponto de vista que lhe seja exterior e que lhe transcenda. O desafio consiste em trabalhar com uma rede de destinos entrecruzados unidos pela lembrança de uma história partilhada, com o propósito de narrá-la de perto e de dentro, através dos atores que fizeram e se fizeram nela. No entanto, antes de falar dos atores, suas obras e, portanto, da história que será contada, faz-se necessário levantar algumas questões de ordem metodológica.
Para iniciar esta discussão, um interessante texto de Bernard Lepetit (2001) pode aqui nos fornecer idéias fecundas, cujo título já é em si mesmo bem sugestivo: A história leva os atores a sério? Neste ensaio o autor tece uma ferrenha crítica às interpretações que vêem no movimento histórico apenas o ajustamento mecânico de uma estruturação abstrata. Insiste, por sua vez, que os processos são o resultado de uma contínua interação entre uma infinita
pluralidade de agentes. Contudo, este deslocamento efetuado por Lepetit não consiste naquilo que poderia ser (mal)visto como um simples abandono da estrutura anônima e inconsciente em direção a sujeitos supostamente voluntaristas. O que o autor quer enfatizar é a inviabilidade de se pensar numa história ausente de intencionalidades, obras e usos sociais, ainda que todos estes muitos bem circunscritos em campos de correlações de forças e situados em configurações de poder. Trata-se, portanto, não de abandonar ou elevar os sujeitos, mas sim de saber historicamente como se chega a um acordo estratégico entre sujeitos, sobre sujeitos e sobre objetos. Trata-se também de saber como este acordo se faz, fracassa e se desfaz, manifestando o dissenso mediante múltiplas formas de apresentação.
Ao focar na reconstituição cuidadosa dos horizontes espaciais e temporais dos atores, é possível apreciar ações humanas como seqüências de engajamentos sucessivos que, mobilizando competências diversas, realizam uma adequação à situação presente em constante fluxo. Deste modo, Lepetit acena para a necessidade de se pensar a história como um movimento real, assentado em práticas e situações concretas. O processo histórico é colocado aqui como um eterno presente em andamento, um presente conflitivo, controverso e carregado de impasses e competências variáveis, no manuseio do tempo passado e nas redefinições dos rumos futuros. Aproximar-se dos atores em ação permite também jogar luz sobre o engajamento na experiência ordinária do citadino, bem como nas modalidades de reutilização das formas urbanas passadas. Ao se colocar o processo histórico na perspectiva dos atores, é possível ver como se instauram “dispositivos novos que são ao mesmo tempo o contexto de elaboração, o ponto de ancoragem e uma das condições da eficiência das novas normas” (Lepetit, 2001:236). Contudo, há várias maneiras de se levar a sério os atores numa dada história e aqui serão privilegiadas trajetórias entrecruzadas, nas quais estes se envolvem e das quais são o resultado.
Sabe-se que a categoria de trajetória evoca um movimento temporal no espaço, apresentando a operação de unidade numa sucessão diacrônica de pontos percorridos. Não se limita, portanto, a uma seqüência de posições num espaço dado. A trajetória implica necessariamente numa alteração temporal, simultaneamente sua e dos elementos que a envolvem. Ao mesmo tempo em que se desloca, adquirindo ritmo e intensidade própria, a constelação dos laços que a constituem também se transforma (Grafmeyer, 1995). Apesar de esta noção restituir parcialmente a margem de manobra dos atores, a trajetória não é uma sucessão de decisões livremente tomadas ao sabor de suas preferências e desejos, tampouco uma imposição totalmente estruturada. Mas a questão que se coloca aqui não é, como pode parecer à primeira vista, sobre o grau de determinação ou liberdade que os atores sociais
foram construindo ao longo de sua existência. Seguindo as sugestões de Grafmeyer (1995) e Levi (2005), a atenção descritiva se deterá, sobretudo, sobre o sentido que tais operações em deslocamento adquirem em relação a outras formas de mobilidade e ao longo dos processos interdependentes. Ao analisar de perto estas trajetórias enlaçadas, o esforço é apreciar a maneira como aquela poeira ínfima dos acontecimentos ordinários vem a ser sedimentanda, alterando, ganhando substância e transformando-se em referência para devires e processos futuros12.
Contudo e apesar de tudo, permanece o problema da unidade evocada na idéia de trajetória, como se os sucessivos tempos e espaços fossem atravessados por um mesmo agente e não por um movimento sujeito a infinitas transformações e metamorfoses. E esta unidade evocada na noção de trajetória adquire sua mais explícita puerilidade no nome próprio, um suporte de multiplicidades que pode se manifestar tanto no nome de uma pessoa, de uma coisa ou de uma coletividade qualquer. O nome próprio, como mostra Pierre Bourdieu, é um “designador rígido”, um ponto fixo num mundo que se move. E assim, falar de histórias de vida é “pressupor que a vida é uma história” (Bourdieu, 2005:183). E aqui reside uma de suas principais críticas ao uso de trajetórias, pois, para Bourdieu não seria possível compreender uma trajetória sem um conhecimento prévio dos estados mistos e sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, do conjunto das relações que uniram o agente considerado ao conjunto dos outros agentes considerados. Em suas palavras “quem pensaria em evocar uma viagem sem ter uma idéia da paisagem na qual ela se realiza?” (Bourdieu, 2005:190). Assim sendo, o desafio aqui proposto é menos evocar uma travessia sem ter em conta o terreno que esta cruza, e mais evocar um campo irregular, tendo por lastro trajetórias que o atravessam. Ao focar nos percursos individuais e por vezes coletivos, a intenção é ver como estes itinerários entram em cena, organizam espaços para práticas e abrem todo um campo de ação. Para retomar a metáfora de Bourdieu, a idéia é descrever como esta paisagem é em verdade composta por múltiplas viagens.
Entretanto, renunciar ao simulacro da integridade unitária (de indivíduo ou grupo) permanece como um empreendimento no mínimo complicado. As considerações de Bourdieu sobre enclausurar a existência social em busca de uma improvável unidade de sentido revelam uma ingenuidade imperdoável nos usos das trajetórias, ainda mais porque, neste século, a
12 A noção de sentido aqui citada de maneira alguma se remete a uma teleologia histórica ou curso temporal pré- determinado. Pelo contrário, vincula-se às intrincadas e insuspeitáveis direções nas quais os processos vão sendo canalizados e desviados no decorrer do infinito e indefinido jogo das relações sociais. E é na pluralidade e instabilidade imanente de tais processos que os sentidos dos deslocamentos, aqui interrogados, vão sendo construídos.
literatura não cansou de revelar a natureza descontínua e provisória do real (Clifford, 2002; Loriga, 1998). É por isso que os nomes, estes designadores pouco ou muito rígidos, aqui manuseados (e suas supostas unidades evocadas) terão como ancoramento justamente a experiências dos atores. Trata-se de levar a sério as narrativas, suas elaborações e construções de sentido, bem como as classificações êmicas articuladas. Através das narrativas, os atores exibem mundos sociais pelos quais passaram, apresentam enredos de travessias, expõem jogos de linguagem e revelam categorias culturais disponíveis no meio que circulam. Em verdade o próprio relato é uma trajetória, nos diz Michel de Certeau (1982). Trata-se de um tipo de travessia em um campo de relações, um modo de tratamento, inserção e exposição destas relações. As potencialidades humanas fluem sobre a realidade também pelas fissuras abertas pelas palavras. As narrativas, diz de Certeau, antecedem as próprias práticas sociais no sentido de abrir um campo para elas. A oralidade do relato se insinua, sobretudo, como um desses fios na trama de uma interminável tapeçaria, que pode e deve ser, utilizada na economia escriturística. Como é a narrativa que organiza discursivamente o campo de prática dos atores, na medida em que o relato diminui, o espaço de relações da experiência se torna cada vez menos visível. E é por isso que a presença das narrativas é importante: elas revelam práticas e são em si mesmas práticas. Mais do que descrever golpes, elas o fazem (de Certeau, 1982).
Como uma maneira de acentuar as variações existentes nas trajetórias, uma estratégia aqui utilizada é enfatizar e focar nos pontos de inflexão e intersecção com outras trajetórias e outros eventos. Vera Telles, ao discorrer sobre o uso de trajetórias urbanas, atenta para a importância de se refletir mais detalhadamente sobre estes entroncamentos, aquilo que chama de eventos de mobilidade: “pontos críticos, pontos de inflexão, de mudança e também de entrecruzamento com outras histórias – ‘zonas de turbulência’ em torno das quais ou pelas quais são redefinidas (deslocamentos, bifurcações) práticas sociais, agenciamentos cotidianos, destinações coletivas” (Telles, 2006:70). Seriam estes pontos, nodalidades plurais da experiência social, que permitiriam colocar os processos urbanos e históricos sob perspectiva, flagrando como tais percursos conectam e se conectam em pontos de condensação e pólos de tensão múltiplos. Estas curvaturas, mudanças e passagens ambíguas, que se fazem presentes nas narrativas, constituem-se como momentos especiais de interrogação sobre o modo pelo qual as diferenças enunciadas são articuladas numa ordem de sentido atribuída pelo próprio narrador.
Assim, narrar é conferir sentido e ordem ao mundo que se vive e no qual as palavras são lançadas. Uma narrativa possui uma estrutura que convém sempre considerar, e tal
ordenamento discursivo é justamente aquilo que permite estabelecer significado aos diferentes fragmentos do relato. Suas diversas partes permitem encaixes, todo conjunto do enredo possui um certo encadeamento que vale analisar, principalmente ao se considerar e reproduzir apenas parte do texto oral (Kofes, 1994). É por este motivo que a criação de uma imagem de si e de outros não pode ser interpretada como um problema ou empecilho para a análise das trajetórias. São estas expressões, manifestas por uma infinidade de titulações e nomes próprios, que permitem um uso analítico da narrativa e a constitui como um enredo dotado de ordem e sentido. Não se trata, então, de descrever subjetividades alheias. A idéia é que tais subjetividades falem sobre si mesmas e de outras, e que estes registros narrativos forneçam o lastro descritivo para a construção de um texto capaz de contar uma história, que reintroduz permanentemente as regras do jogo no próprio relato do jogo (Revel, 1989a). O foco da exploração também não é decifrar os atores e aquilo que supostamente residiria por trás de seus relatos, mas compreender os sentidos e as causalidades presentes no interior de suas elaborações discursivas. As narrativas não serão tratadas em nome de outra coisa que não elas mesmas e seus cruzamentos imanentes com outros elementos. Também não será suposto que por trás destas histórias existam segredos ocultos, cujo progressivo desvelamento faria aparecer. Antes de qualquer forma de crítica, trata-se de ouvir o que os atores têm a dizer e, assim, preocupar-se mais com as contribuições que enunciam e deixam entrever do que com os supostos limites de suas afirmações. Esforçar-se para entender o dito como dito, portanto.
Já se disse várias vezes que oralidade é quente e a escrita é fria. Por isso a passagem de uma ordem verbal para uma não-verbal é sempre um assunto um tanto complicado de se lidar. A fala é um ato carregado de ambigüidade. Lança ao mundo palavras moldadas e ajustadas à situação de interlocução, signos enunciados que se deslocados do plano comunicativo no qual foram criados podem adquirir significados outros. Justamente por ter sido arquitetada no preciso instante da conversa é que a oralidade é quente, instável e fugidia. Carrega consigo trejeitos, correspondências e sentidos tácitos urdidos no fugaz processo interacional. Por sua vez, a escrita busca registrar, demarcar. Ela tenta estabilizar no texto um mundo fluido de ações verbais e operações lingüísticas plurais. A economia escriturística, nos diz de Certeau (2003), é uma prática mítica moderna, um sonho visionário do universal que consiste em construir um texto unívoco que tem poder sobre a exterioridade da qual foi previamente isolado. A tradução do texto oral para o escrito é, portanto, um momento delicado de intensa negociação, seleção e valoração. Momento nada neutro e que pode fixar na lápide fria da página em branco apenas uma faceta reduzida (e por isso mesmo redutora) do contraditório signo que foi capturado no meio da corrente verbal, no agitado ato da fala.
Então como escrever uma história do sucessivo fluxo presente através de uma escritura que, de uma maneira ou outra, tende a estabilizar, fixar e esfriar tudo aquilo que foi dito e feito no calor do instante? Uma pergunta interminável para uma resposta inalcançável e, apesar disso, perseguida.
Para composição deste capítulo, foram privilegiadas narrativas de personagens conhecidos e conhecedores do universo de relações que gravitam em torno da rua. Não por acaso seus relatos citam outros atores e outras trajetórias, conjugando uma verdadeira rede de inter-reconhecimento. As pessoas entrevistadas obviamente possuem um conhecimento muito maior que o meu acerca daquilo que perguntei. E o que me ajudou nestas conversas foi o fato de conhecer um pouco da linguagem travada, ser conhecido entre tais personagens, bem como saber um pouco das histórias singulares destes narradores antes do momento da entrevista. Várias outras anotações de campo, escutas, conversas e narrativas registradas neste meio (e que não aparecerão aqui) também serviram como base e referência de apoio para a construção das trajetórias. Igualmente outros documentos, livros e estudos foram utilizados de maneira a situar melhor tais itinerários no tempo e no espaço da cidade. Contudo, como já foi afirmado antes, as narrativas são os principais lastros que tornaram possível navegar por estes percursos sociais que conectam diferentes coletividades, pessoas e lugares.
Assim, um conjunto de entrevistas não estruturadas foi efetuado e as narrativas aí produzidas foram, então, gravadas e transcritas. Com exceção de uma, todas as conversas se realizaram nos locais de trabalho e atuação dos narradores. O pretexto do encontro foi explicado com antecedência à ocasião e, no momento da entrevista, o motivo do estudo foi mais bem detalhado. O tempo das entrevistas variou desde uma hora e meia de conversa, até mais de três horas. E, também, por este motivo, algumas trajetórias renderam descrições e travessias mais elaboradas que outras. O diálogo foi conduzido da maneira mais aberta possível (levando em consideração às condições específicas), visando que os locutores pudessem construir e formular suas narrativas e experiências vinculadas à rua da maneira que melhor lhe aprouvessem. A pergunta inicial, e que serviu como parâmetro de diferenciação em todas trajetórias, era: “como você foi parar na rua?” A interrogação comumente feita aos moradores de rua foi então posta para aqueles que trabalham e engajam-se diariamente com a questão. Não por acaso, as diferentes formas de recrutamento e o sentido dos deslocamentos efetuados nesta constelação de proximidades e distâncias são alguns dos eixos principais na descrição dos percursos. De maneira geral, pode-se dizer que o fato de possuir algum conhecimento anterior sobre os narradores facilitou o acesso a eles, a flexibilidade na
conversa e também a construção de um certo inventário de questões anteriores sobre suas trajetórias.
Os relatos aqui inseridos no corpo do texto não foram pensados como apêndices, mas sim como parte dele. Estes trechos nos ajudam a compreender como o contexto é significado discursivamente pelos atores. Texto e contexto, pois, se articulam neste capítulo. No entanto, mesmo inserindo no texto apenas curtos trechos das narrativas coletadas, o processo de