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Şikâyet ve Taleplere ilişkin Faaliyetleri 1-EPK Mevzuatları

A impossibilidade de esgotar a imensa e quase infinita gama de experiências que consolidam a autodefinição de um agente como torcedor de futebol é óbvia. Os caminhos são vários e cada um descreve a sua trajetória com tantos detalhes, nomes, datas, lugares, cheiros e gostos que cada história parece, e de fato é, absolutamente única. Todavia, após tantas conversas, entrevistas, ou mesmo a simples escuta das falas alheias, foi possível estabelecer traços comuns, momentos específicos que podem ser generalizados como marcações importantes da construção destas autodefinições de torcedores.

12 Apesar da designação “torcedor comum” evocar uma generalização que inexiste na experiência

concreta dos sujeitos sociais, passo a trabalhar com a mesma sem utilizar nenhuma ressalva, o que tornaria o texto excessivamente pesado. A partir deste ponto, toma a categoria de “torcedor comum”, objetivando apreender traços mais ou menos comuns que permitam a elaboração de um modelo com razoável alcance analítico para a discussão das experiências e identificações dos agentes.

Para traçar este mapa de afetos, sensibilidades, emoções, devoções, investimentos, formas e jeitos, terei de me sustentar fortemente nas falas e entrevistas dos torcedores. Aqui destacarei principalmente dois deles, com quem pude conversar longamente em várias ocasiões. O primeiro, Afonso, atualmente com trinta e nove anos, casado, possui formação superior e é servidor público federal. O segundo, Francisco, é porteiro e zelador de uma faculdade particular em Fortaleza, completou o ensino médio, também é casado e tem atualmente trinta e oito anos. Quanto ao Francisco, é forçoso salientar que ele torce pelo Fortaleza, o que constitui uma exceção neste trabalho. No entanto, a convicção e o devotamento de ambos aos seus clubes estiveram na base de minha escolha, tanto em entrevistá-los, quanto em dedicar mais espaço às transcrições de suas falas.

Parto de suas biografias para a elaboração de uma cartografia das experiências dos torcedores comuns, tentando identificar os momentos e vivências mais marcantes. Estes são determinados por sua recorrência, não apenas nos depoimentos dos dois torcedores citados, mas no conjunto de vozes que ouvi ao longo da pesquisa. A coincidência entre o conjunto de falas justifica, portanto, a sua presença aqui.

Uma primeira marcação importante diz respeito à iniciação destes torcedores no campo futebolístico.13 De antemão, vê-se que para o futuro torcedor o jogo, muito cedo, torna-se companheiro de infância. Antes mesmo da ida ao estádio, da escolha do clube, os pequenos já batem bola, chutam-na para amigos, primos, irmãos, ou para a parede, travestida em um adversário qualquer. A pelada, jogo de futebol disputado na escola, na rua, nos campinhos, ou onde for possível, promove a continuidade da relação da criança com as regras, não tão simples, do futebol, com sua linguagem e com sua imagética. Entrevistei Serginho Amizade, ex-jogador do Ceará e atual colunista do Jornal “O Povo”, responsável pela coluna “Ora, Bolas”. Ele assim se referiu ao início do seu interesse pelo futebol.

13O conceito de campo, desenvolvido por Bourdieu, vai ao encontro da intenção deste trabalho, voltado

para a apreensão das experiências sociais articuladas nas torcidas organizadas, das redes de identificações daí decorrentes e das significações que resgatam as práticas dos torcedores organizados de classificações vazias e arbitrárias. Desta forma, cito o autor: Compreender a gênese social de um campo, e apreender aquilo que faz a necessidade específica da crença que o sustenta, do jogo de linguagem que nele se joga, das coisas materiais e simbólicas em jogo que nele se geram, é explicar, tornar necessário, subtrair ao absurdo do arbitrário e do não-motivado a actos dos produtores e as obras por eles produzidas e não, como geralmente se julga, reduzir ou destruir. (BOURDIEU, 2002: 69)

Tem uma história legal desse tempo: como é que eu aprendi a jogar com o pé esquerdo. Pode ir começando assim? Vai e volta, né? Porque, casa de pobre, né?, você bota cimento no quintal, se você vai ganhando algum dinheirinho você vai cimentando o quintal. E aí, e aí o que acontece, tinha duas bananeiras assim, aí eu botava um cabo de vassoura e fazia um gol. Eu ficava de castigo dentro de casa e botava a lata de lixo no gol e bola eu fazia de papel, de papel bem durinho, jornal assim.Aí você passava barbante em volta. Aquele tempo não tinha bola, né? Era uma bola aqui outra acolá. E Aí eu chutava no cimento em direção a esse gol. Aí um tempo eu chutei o cimento, eu fiquei dois anos com aquela ferida que menino tem aqui perto da unha, aí eu não podia usar o pé direito, aí eu passei a fazer isso com o pé esquerdo, aí quando eu fui jogar bola eu sabia fazer isso com o pé direito e com o pé esquerdo. Isso é muito legal. Eu tinha oito anos. Eu tinha oito anos... Mas eu me interessei por jogar futebol mesmo, quer dizer eu jogava na rua, na periferia...

Todavia, a pelada, apesar de seu inerente improviso, pode se apresentar como uma evolução do simples ato de chutar a bola, para ou contra jogadores reais ou imaginários, na medida em que o jogo de pelada pressupõe o entendimento das regras e posicionamentos dos times, mesmo que esses só venham a ser toscamente obedecidos. Sobre a experiência com o jogo de pelada, Afonso declara que:

Eu lembro de chutar a bola. Em Teresina eu ficava direto no gramado com o meu irmão, chutando um contra o outro. Quando a gente conheceu os amigos, a gente dividia em grupos, duas traves... Com sete ou oito anos a gente já jogava de modo organizado, com a formação de times.

Existe uma opinião circulante no senso comum acerca da imensa popularidade do futebol dever-se à simplicidade de suas regras. Bem, penso que as regras do futebol não são tão simples assim, pois, se o fossem, não haveria margem para tantas divergências, interpretações contrárias e reclamações, que fazem já parte do jogo paralelo que acompanha as partidas. As divergências, leia-se, interpretações diferentes, apontam para um processo mais largo, que se refere à socialização de indivíduos no esporte.

Tais indivíduos, a certa altura de suas vidas, que pode se dar ainda bem precocemente, já demonstram amadurecimento suficiente para jogar organizadamente, para falar de futebol, para discordar. Falar, discordar... Tudo indica um desenvolvimento, um aprendizado que supõe liberdade nos usos dos códigos específicos do jogo, no domínio de uma linguagem. E aqui já se anuncia uma característica estruturante para a identificação do “torcedor comum”, qual seja, o aprendizado como base desta experiência.

Daí a iniciação do jovem aspirante a torcedor ser sempre mediada por um veterano mais velho e do sexo masculino, que o convida, o conduz ao estádio. Para a criança ou para o jovem, a relação com o esporte, antes de qualquer coisa, significa uma forma de “estar com” alguém, de acompanhá-lo, de ouvi-lo e observá-lo em suas falas, reações e análises. Não raro existe uma referência ao pai, que aparece nas falas de forma positiva, ou seja, como o sujeito da ação, responsável pela condução do narrador ao estádio, como ocorreu, por exemplo, com Afonso.

Bom... Como é que eu comecei a torcer... A primeira lembrança que eu tenho associada ao futebol é de ir ao estádio com meu pai. Eu acho que nesse período a minha relação era principalmente com meu pai, e não com o time de futebol, nem tanto com o estádio. Isso aí eu tinha quatro ou cinco anos de idade. [...] Bom, então tem essa primeira experiência no estádio. Com, quando eu tinha sete anos de idade, nós mudamos de Fortaleza para Teresina e lá também meu pai me levava ao estádio. Eu gostava, né? Passei, a partir de um certo momento, a reivindicar isso, a ter na ida ao estádio um elemento importante da diversão.

Em outros casos, e devo assinalar que não em poucos, a escolha pelo time e a ida ao estádio são conduzidas por outro homem mais velho, um amigo, vizinho, tio ou primo de mais idade. Nestas situações, o narrador comumente busca demarcar uma relação com o pai, mesmo que a relação se dê por oposição, chamando a atenção para a ruptura que ele mesmo realizou com a figura paterna. No entanto, a oposição é parcial, posto que, mesmo que não seja o time do pai, o jovem aprendiz aceita e se introduz na cultura futebolística. Vejamos o caso de Francisco, cuja inserção no universo do futebol foi mediada por um vizinho, torcedor do Fortaleza.

Olhe, eu comecei a torcer, eu não lembro a idade não, mas era bem, eu tinha assim, mais ou menos, uns dez anos. aí morava um vizinho da gente lá, no Montese, que eu fui nascido e criado no Montese, próximo à igreja Nossa Senhora Aparecida, por ali. Aí tinha um vizinho da gente, que ele torce Fortaleza, né? Eu me lembro que eu era pequeno, eu dizia tá, pois tá bom, eu vou torcer pelo Fortaleza! O meu pai não me levava, né? E, o meu pai, ele já faleceu, ele torcia Ceará. [...] Pois é, professora, eu fui começando a pegar o gosto, né? Aí eu comecei a ir pro estádio, comecei, comecei, comecei. Aí foi quando eu comecei a entender de futebol, aí fui indo, fui indo, fui aprendendo...

Tanto Afonso quanto Francisco, que aqui representam um universo maior de entrevistados, se referem à tutela masculina no início de sua experiência. Falam, então, de um crescente entendimento do “assunto” futebol, até o momento em que passaram a reivindicar a ida ao estádio, e até mesmo irem sozinhos, como marcos em suas

trajetórias. Mesmo que não as definam desta forma, selecionam estes momentos e os narram com um orgulho proporcional às peripécias empreendidas para garantir a ida ao jogo. Bom, mais adiante voltarei a este assunto. Por hora cabe mapear pontos importantes para a compreensão do processo de articulação das experiências e identificações do torcedor, no caso do “torcedor comum”:

• Desde cedo a criança – mais comumente o menino, mas não apenas ele – é familiarizada ao jogo de futebol, por meio de sua socialização nas brincadeiras infantis;

• A primeira incursão ao estádio é comumente conduzida por um homem mais velho, cujo comportamento servirá de molde para a identificação do jovem torcedor;

• Ir ao estádio sem a tutela de um adulto responsável consiste na maioridade simbólica do torcedor.

Dito de outro modo, a construção da experiência social do torcedor pressupõe a incorporação processual de um habitus masculino e, articulado a este aprendizado, a adoção de uma posição-de-sujeito, ou seja, a construção de uma identificação, tendo como duplo referencial a combinação das significações masculino – torcedor.14 Para o aprendiz, a relação com o futebol significa o desvelamento processual de um mundo inicialmente confuso, que, à medida que revela seus segredos, proporciona prazer, excitação, diversão e, também, sofrimento. Desde cedo socializados, no e pelo futebol, o jovem “torcedor comum” aprende que futebol é coisa muito séria.

14Sobre a construção de identificações, acho importante ressaltar Hall, quando o mesmo afirma que: As

identidades são, pois, pontos de apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós. Elas são o resultado de uma bem sucedida articulação ou fixação do sujeito ao fluxo do discurso. [...] Se uma suturação eficaz do sujeito a uma posição de sujeito exige não apenas que o sujeito seja ‘convocado’, mas que o sujeito invista naquela posição, então a suturação tem que ser pensada como uma articulação e não como um processo unilateral. Isso, por sua vez, coloca com toda força, a identificação, se não as identidades, na pauta teórica. (HALL, 2000: 112)

Benzer Belgeler