O casamento católico era o único válido e capaz de gerar efeitos civis durante o Brasil Império, como foi dito.
Para Borges Carneiro, os principais efeitos civis do casamento eram: I. a união dos cônjuges em um só corpo e o consórcio para mútuo socorro; II. a legitimidade dos filhos e o estabelecimento do pátrio poder sobre eles;
III. a comunhão dos bens, de acordo com os costumes ou pactos matrimoniais realizados;
IV. direitos e obrigações entre os cônjuges.167
Lafayette ainda destacava os direitos e deveres comuns como o direito de exigir um do outro fidelidade recíproca, o direito de viverem em comum, conjunta e inseparavelmente e o direito à mútua assistência nas enfermidades e desgraças da vida.168
Como direitos e obrigações exclusivos do marido tinha-se que ele se tornava o chefe da família, com o direito de governar a mulher e os filhos, em proveito da união conjugal e dos negócios domésticos. O poder que tinha o chefe de família era moderado e suas ações deveriam ser conformes com a lei. Em relação à mulher, o principal instrumento de controle judicial era o poder marital, que será tratado no próximo capítulo. Quanto aos bens, o marido era responsável por administrá-los e poderia negociá-los livremente, arrendá-los e dá- los em fiança, sem participação e consentimento da esposa, embora, no caso da fiança, os bens da mulher não fossem atingidos. Mas não possuía as mesmas prerrogativas nos casos de 1) doação de bens móveis – exceto esmolas e remunerações, em relação às quais poderia dispor livremente dos bens móveis –; 2) alienação – qualquer ato translativo de domínio, como vender, doar, trocar –, a título oneroso ou gratuito, de bens móveis ou imóveis, à concubina ou qualquer outra mulher com quem tivesse afeição carnal; 3) alienação de quaisquer bens de raiz. Nesse último caso, o consentimento da esposa deveria ser expresso e
167 CARNEIRO, Manuel Borges. Direito civil de Portugal: contendo três livros: I. Das pessoas, II. Das cousas,
III. Das obrigações e ações. Tomo II. Lisboa: Typ. Maria da Madre de Deus, 1858. Disponível em: <http://purl.pt/705>. Acesso em 8 de março de 2012. P. 53.
168
PEREIRA, Lafayette Rodrigues. Direitos de família. Ed. fac-sím. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2004. P. 105.
provado por procuração ou escritura pública, mas ela também poderia ratificar, posteriormente, a alienação.169
Em relação à esposa, ela tinha direito aos privilégios e participava da nobreza e dignidade do marido, bem como os filhos havidos no casamento. Ela sempre seguia a condição do marido, ainda que isso significasse a perda de nobreza, caso se cassasse com um homem inferior. Ao império do marido, deveria corresponder a obediência e a sujeição da mulher. Em consequência disso, devia prestar serviços em casa para melhor comodidade do marido, como assistir-lhe nas doenças, bem como cuidar dos filhos e do bom governo da casa. O marido poderia restringir a prestação de alimentos à mulher, para obrigá-la à realização de algum serviço, desde que não fosse algo imoderado ou desproporcional. A mulher também deveria seguir o domicílio do marido, que era o responsável por defini-lo. Quanto aos bens, a esposa não poderia doar, prometer ou fazer, validamente, nenhum tipo de contrato sem autorização do seu marido, ainda que fossem bens móveis e nem poderia fazer pequenas doações a título de esmola e remuneração (se o fizesse, seria descontado da parte de seus bens e não dos bens conjuntos). Se a mulher pedisse dinheiro emprestado, por exemplo, o marido não era obrigado a pagar a quantia ao mutuante. Nestes mesmos termos, ela ainda não poderia constituir dote para a filha e aceitar ou repudiar herança. A necessidade de autorização do marido tinha por fundamento a natureza da sociedade conjugal, a fragilidade da mulher e o respeito que ela devia ao marido. Mas havia exceções, tais como: se o empréstimo feito se convertesse em proveito do casal; se contraísse dívida para livrar o marido da prisão; se realizasse alguma negociação aprovada pelo marido; se o marido estivesse demente, degradado, banido ou ausente por incerto e longo período; se fingiu não ser casada; se houvesse separação decretada pelo Juízo Eclesiástico.170
Também eram geradas obrigações recíprocas entre os cônjuges, como o dever de companhia e ajuda mútuas; o poder sobre seus corpos, pois nenhum podia se entregar à continência sem permissão do outro; a fidelidade conjugal. Em relação aos bens, eles ficavam na posse do marido, mas ambos os cônjuges tinham direito de testar, sem autorização um do outro, inclusive podendo doar ou fazer usufruto de seus bens em benefício do cônjuge viúvo, em caso de morte. Não havendo testamento, o cônjuge vivo só tinha direito à sucessão, se não
169
CARNEIRO, Manuel Borges. Direito civil de Portugal: contendo três livros: I. Das pessoas, II. Das cousas, III. Das obrigações e ações. Tomo II. Lisboa: Typ. Maria da Madre de Deus, 1858. Disponível em: <http://purl.pt/705>. Acesso em 8 de março de 2012. P. 61; 73-78; 81
170 CARNEIRO, Manuel Borges. Direito civil de Portugal: contendo três livros: I. Das pessoas, II. Das cousas,
III. Das obrigações e ações. Tomo II. Lisboa: Typ. Maria da Madre de Deus, 1858. Disponível em: <http://purl.pt/705>. Acesso em 8 de março de 2012. P. 64-65; 67; 85-87.
houvesse ascendente, descendente ou colateral até o décimo grau.171 Como a mulher que se casava se tornava incapaz, o marido deveria exercer em nome próprio e no dela todos os atos de verdadeiro senhor e possuidor dos bens, por ser o cabeça do casal. A ele, portanto, competia dispor livremente dos bens, não podendo, entretanto, dispor dos imóveis sem outorga da mulher.172