A variedade configura-se como uma questão central da cibernética porque está diretamente ligada a ideia de controle, primordial nos sistemas de primeira A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
105 BALTAZAR, Ana Paula; KAPP, Silke, Por uma Arquitetura... 2006 pp. 101. 106 GLANVILLE, Ranulph. Try again... 2007. p.1198.
107 FLUSSER, Vilém. Obstáculo para ... 2007.
99 ordem, mas não necessariamente nos de segunda. A variedade do sistema é definida como o limite dos números de estados possíveis109. Ashby desenvolve
a lei da Variedade Requisitada, que determina que, se um sistema objetiva controlar outro, ele deve ter, no mínimo, o mesmo número de estados que o sistema controlado, de forma que o controlador tenha a variedade requisitada para que exista controle, e não restrição110.
Assim, a variedade pode ser relacionada com a complexidade do sistema. Complexidade, por sua vez, pode ser definida como “propriedade do sistema de poder assumir uma grande diversidade de estados ou modos de comportamento”111. Desta maneira, a variedade expressa a quantidade de
estados ou comportamentos potenciais que um sistema pode exibir.
Existe ainda, segundo Glanville, duas maneiras de se exercer o controle. A primeira forma, cibernética, acontece quando existe um gerenciamento efetivo (effective management)112. Tal gestão lida com a viabilidade de todo o sistema
que inclui também o administrador (controlador) e atende à lei de Ashby. Um segundo tipo de controle, que não é cibernético, se relaciona exatamente com a restrição, em uma situação onde o controlador limita o controlado quando quer. Este controle é visto como agressivo e destrutivo, ditatorial113.
Ao mesmo tempo, é extremamente difícil que satisfaçamos a lei da variedade requisitada, simplesmente porque o número de estados possíveis em um sistema geralmente transcende o computável (e se torna transcomputável)114, e
em princípio, em um sistema complexo, os estados atuais assumidos são sempre menores que os estados em potencial115. O fato de a variedade dos
Capítulo 4
109 GLANVILLE, Ranulph. A (Cybernetic) Musing: Variety and Creativity, 1998.
110 GLANVILLE, Ranulph.!On being out of control, 2002; GLANVILLE, Ranulph. Try again. Fail
Fail Better, 2007; PANGARO, Paul. Users to Designers, [n.d.].
111 SCHWANINGER, Markus. Complex versus Complicated: the how of coping with complexity, 2009. “system’s property of being able to assume a large diversity of states or modes of behaviour”.
112 termo desenvolvido por Stanford Beer, in Glanville 2002. O sistema se torna não administrável
(unmanageable) quando tentamos controlar o incontrolável (Glanville, 2007, p. 1195).
113 GLANVILLE, Ranulph. Try again... 2007. p. 1180.
114 GLANVILLE, Ranulph. A (Cybernetic) Musing: Variety and Creativity, 1998, pp. 56–62. 115 SCHWANINGER, Markus. Complex versus Complicated... 2009 pp. 84.
100 sistemas geralmente exceder o computável é reconhecido mesmo por Ashby, que afirma que “tudo que é material acaba em 10100”116. O autor estipula tal
limite porque qualquer informação que vá além de 10120 já não pode ser
armazenada117.
O que acontece então é que grande parte das situações complexas, com as quais nos deparamos no dia-a-dia, logo tornam-se transcomputáveis. Como solução, os controladores utilizam o recurso de redução de variedade para obter o controle (que é, neste caso, restritivo). Tomemos como exemplo a relação entre professor e aluno em uma sala de aula"/>. Claramente, um
professor não possui mais estados possíveis que todos os seus alunos juntos, o que significa que não atende a lei da variedade requisitada para gerenciar a turma. Além disso, não pode adquiri-la (a variedade requisitada é uma propriedade da relação entre os sistemas e o ambiente, um binário, por isso, o sistema tem ou não tem118), e por esta diferença ser tão discrepante, o
professor não pode fingi-la. Desta maneira, ele limita a variedade dos alunos, removendo os efeitos da interação (combinações) e tratando toda classe como se fossem uma só pessoa. E, claro, o professor está na posição de poder (podendo ridicularizar e punir, por exemplo)119.
Nesta situação, o professor opta por adotar o controle restritivo da classe. Mas quais seriam os benefícios para ambos professor e alunos se o primeiro assumisse a sua impossibilidade de “administrar a sala” em uma forma de controle cibernético?
Se, ao invés de me irritar por não poder exercer o controle [sobre uma situação], eu desisto de tentar fazê-lo, eu posso descobrir diversas possibilidades que teria excluído se eu insistisse em estar no controle. Essas possibilidades são inesperadas, estão fora do meu escopo de A Cibernética como arcabouço para a avaliação dos museus
116 GLANVILLE, Ranulph. A (Cybernetic) Musing..., 1998. 117 GLANVILLE, Ranulph.!On being out of control, 2002.
"/>127 Esta teoria foi desenvolvida por Robinson e é explorada em GLANVILLE, Ranulph. A (Cybernetic)
Musing... ,1998.
118 PANGARO, Paul (n.d), Users to Designers. [Video online].
119 GLANVILLE, Ranulph. A (Cybernetic) Musing... 1998. “removing the effects of interaction (combinations)
and treating the whole class as if it were simply one person. And, of course, the teacher is in the position of power (he can hold up to ridicule and punish, for instance)”.
101 referência, e, em uma palavra, [são] novidades [novel] [...]. Se você quiser usar conceitos e medidas relacionados à variedade, você pode facilmente criar situações nas quais a variedade a ser controlada é imensamente maior que qualquer variedade que você poderá ter acesso. Desta maneira, você talvez não possa controlar a situação, exceto restritivamente. Parar de tentar encontrar variedade suficiente para controlar significa aceitar a variedade imensamente maior do elemento agora fora de controle, em um momento que todas as possibilidades que você teria excluído não são mais excluídas, e, usando um clichê, o mundo é a sua ostra.120
Dentro de um novo ambiente, muito mais propício ao exercício criativo, talvez as trocas entre professor e alunos pudessem acontecer de maneira mais rica, e o equilíbrio da turma, através da própria flexibilidade à ela permitida. O que Glanville ressalta, é que, muitas vezes, além de o controle não ser possível, ele não é desejável. Se em situações transcomputáveis, o gerenciamento efetivo não pode ser aplicado – simplesmente porque não temos a variedade requisitada para fazê-lo – então a solução pode ser simplesmente desistir do controle. Ao fazer isso, encontraremos uma enorme gama de variedade – possibilidades, uma fonte de criatividade121.
Se, no caso das interfaces em geral, não é possível que se preveja todos os usos possíveis, o que acontece frequentemente é que, através do design, a variedade é reduzida pra garantir um produto final, fechado. Isto porque tais interfaces são vislumbradas como um produto final a ser consumido pelo usuário e não produzido por ele, através da sua interferência. Para entendermos a perversidade de tal estratégia, é interessante explorarmos o conceito de virtualidade na arquitetura desenvolvido no trabalho de Ana Paula Baltazar122.
Capítulo 4
120 GLANVILLE, Ranulph. Try again... 2007, PP. 1189. “if I give up trying to control rather than being annoyed
that I cannot, I can discover many possibilities I would have excluded if I had insisted on being in control. These possibilities are unexpected, outside my frame of reference, in a word, novel.[...]. If you want to use the concepts and measure of variety, you can easily set up situations in which the variety to be controlled is vastly greater than any variety you might ever have access to and so you cannot possibly control the situation, except restrictively. Stopping trying to find enough variety to control means accepting the vastly greater variety in the now out-of-control element while all those possibilities you would have excluded are no longer excluded, and, to take a cliché the world is your oyster”.
121 GLANVILLE, Ranulph.!On being out of control. 2002.!
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