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BÖLÜM 3: SES BİLGİSİ

3.2. Ünsüzler

A sátira pode se exercer sobre qualquer tema ou fato, humano ou divino, como no caso da cantiga intitulada “Coudel-moor a sua cunhada que lhe mandou NJa escrevanhinha fraancesa, que trazia o cano no tinteiro, tudo junto pegado.” Geralmente, a sátira maledicente retrata com realismo fatos e personagens reais. No entanto, nesse poema, considerado uma jóia de composição por Mário Martins217, Silveira aplica-se a comentar por que o objeto que ganhara de presente da cunhada deixava-o perturbado. A cantiga vem assim editada:

Senhora cunhada minha, deu-me grande torvaçam esta vossa escrevanhinha qu’adavinha

a festa d’encarnaçam.

Nunca vi cousa tam nova nem joia tam excelente, mas dos cuidos que renova seja a prova,

o tinteiro seu presente. Ca jaz dentro na bainha d' NJa tam nova feiçam que sem caso d’antrelinha adevinha

a festa d’encarnaçam. (CG, I, 49)

A peça a que se refere o poeta, a escrivaninha, era uma espécie de estojo que os escribas e estudantes do século XV carregavam à cinta ou ao pescoço, contendo tinteiro e pena218, diferenciando-se o objeto do móvel próprio para o officium. A sutileza do poeta é formar a imagem do ato sexual quando a pena era colocada dentro do tinteiro, o que lhe lembrava a festa da Encarnação, i. é, a concepção da Virgem Maria. Sem apelo à obscenidade, cria, com os significantes próprios do campo semântico da peça e com o reforço que Garcia de Resende dá na didascália, quando pontua que o objeto “trazia o cano no tinteiro, tudo junto pegado” (grifo meu), uma imagem que remete à cópula,

217

MARTINS, Op. cit., p. 74. Diz mais o estudioso: “E ei-lo entre o sagrado e o profano, a poetar atrevidamente, à base do tinteiro, do cano, etc., num jogo mental onde entram os órgãos genitais e a festa de Nossa Senhora da Encarnação. Escrever isto a uma prima, mesmo em verso, teria alguma graça entre homens. Se a tivesse. Não, porém, dito a uma senhora” (Idem, ibidem, p.74). Observe-se que a palavra “cunhado(a)” era forma de tratamento à época do Cancioniero Geral (Cf. DIAS, op. cit., 2003, p. 220). 218

mais especificamente ao movimento dos órgãos genitais. E, para desespero da Igreja, remete ao amor carnal das divindades supremas do Cristianismo219.

A descrição a que se entrega o Coudel-mor é cheia de musicalidade, principalmente nos cinco primeiros versos da glosa e nos “pés quebrados”, que, de certa forma, reforçam a imagem que montou: ada[e]vinha e prova; o primeiro com sentido de “visão” e o segundo como prova mesmo dos “cuidos que renova”, ou seja, da imaginação (“cuidos”) que traz o movimento do tinteiro. A musicalidade nesse trecho é ainda reforçada pelas rimas “nova”, “renova”, “prova”. Também essas, aliadas ao verbo “ver”, remetem à imagem de um tema profano, elaborado com sutileza. Esta, por sua vez, é enfatizada pela palavra “antrelinha”: é nas entrelinhas que quer comentar a “grande torvaçam” que o regalo lhe proporcionou – ou seja, não quer ser explícito.

Quanto à questão da imagem, no contexto da arte erótica, de esmerado trabalho imagético do Coudel-mor nesta cantiga, observa V. Chklóvski:

É a arte erótica que nos permite uma observação melhor das funções da imagem. O objeto erótico é apresentado freqüentemente com uma coisa jamais vista. (...) Por vezes, a representação dos objetos eróticos se faz de uma maneira velada, onde o objeto não é evidentemente aproximá-los da compreensão. Relaciona-se a este tipo de representação aquela como um cadeado e uma chave (...), como os instrumentos de tecer (...), como um arco e as flechas, como um anel e um prego (...)220.

219

“Esta mistura entre o sagrado e o profano, resultante de uma concepção medieval e sacralizada do mundo e da vida, constituía o quotidiano daquele tempo [no final do século XV]. Não se estabelecia uma linha delimitadora entre o religioso e o profano: a mentalidade colectiva era marcada por uma concepção teológica e teocêntrica da vida, que se seguia confiadamente ou se rejeitava entre a timidez temerosa, a acrimónia mordaz e a marginalização explícita. O que não encontramos é a indiferença ou o agnosticismo”. (FERNANDES, Manuel Correia. Aspectos da temática religiosa e moral no Cancioneiro Geral. In: Sociedade, Cultura e Mentalidades na Época do Cancioneiro Geral. Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Época. Actas. Vol. IV. Porto: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1989, p. 41). Complemente-se com a descrição de Johan Huizinga: “Como fenómeno cultural esta mesma tendência dá lugar a graves perigos. Uma religião introduzindo-se em todas as relações da vida significa uma constante mistura das esferas do pensamento sagrado e do profano. As coisas sagradas tornar-se-ão demasiadamente comuns para serem sentidas em profundidade.” (Op. cit. [1985], p. 160). E mais à frente: “A distância que separa a familiaridade da irreverência é transposta quando os termos religiosos se aplicam às relações eróticas”. (Ibidem, p. 165-166).

220

CHKLÓVSKI, V. A arte como procedimento. In: TOLEDO, Dionísio de Oliveira (org.). Teoria da

O autor russo refere-se à imagem na pintura; contudo, a vinculação imagem-palavra na poesia serve à análise do poema de Silveira, pois o faz de “maneira velada”, ainda que desenhando o objeto e o ato, como forma de adivinhações (cuja palavra manifesta-se no próprio corpo do texto). Quanto a isso, ainda depõe Chklóvski: “a singularização não é somente um procedimento de adivinhações eróticas ou de eufemismo; ela é a base e o único sentido de todas as adivinhações221”. Ao desenhar a imagem da pena, objeto arredondado e longo adentrando o tinteiro pelo orifício, o Coudel-mor pede ao leitor que adivinhe a cena – obscena – do ato sexual. Como não bastasse a fina ousadia do poeta, Resende reforça o ato criando uma didascália que antevê o resultado daquilo que será cantado. Ambos singularizam o sentido, como propõe Chklóvski, e deixam ao leitor a questão da adivinhação.

Ao parodiar o sagrado, Fernão da Silveira, se se levar em conta a cultura carnavalesca e grotesca da Idade Média, como proposto por Mikhail Bakhtin, não pretende denegrir “os textos sagrados ou [os] regulamentos e leis da sabedoria escolar: elas [as paródias medievais] transpunham tudo isso ao registro cômico e sobre o plano material e corporal positivo, elas corporificavam, materializavam e ao mesmo tempo aligeiravam tudo o que tocavam222.” Isso parece ser verdade quanto a essa cantiga do Coudel-mor. Parece estar longe a questão do denegrimento “herético”; o que pretende o poeta, pelo modo que compôs essa sátira e pela minúcia da imagem que monta, é apenas fazer um jogo gracioso de sons e palavras.

Para a sátira, dessa forma, o tema e a condição do visado não são relevantes. Também não importa se, para se alcançar com primor o resultado da composição, o sagrado sirva de mote. Esse poema pornoerótico é valorizado pela montagem de que o Coudel-mor se utiliza para criar a imagem, valendo-se dos significantes apropriados a essa criação. Na peça, registra-se a liberalidade das relações sociais do Portugal da época, pois um tema de forte conotação erótica é dirigido a uma senhora, e a rigidez da pregação da Igreja traz pouco resultado, mesmo porque quem elabora o “desvio” é um dos mais respeitados cortesãos do Paço.

221

Idem, ibidem, p. 52. 222

Benzer Belgeler