BÖLÜM 3: SES BİLGİSİ
3.1. Ünlüler
Essa questão da sexualidade, a bem dizer, da diversidade sexual, tratada de forma sutil e liberal, aparece numa “tenção” em que cinco contendores discutem o sexo de duas damas que se beijavam, se acariciavam e se aconchegavam lascivamente. O poema é uma ajuda para o motejo lançado pelo poeta João de Meneses que se intitula “De Dom Joam de Meneses a NJa dama que refiava e beijava dona Guiomar de Crasto.” Na sentença, Meneses evidencia o assunto e, aparentemente, condenam-se os atos lascivos da Senhora: acariciar (rafiar) e beijar tão inescrupulosamente (sem empacho) Dona Guiomar, condenação estendida ao ato de “antrepernar”, que vem no penúltimo verso da estrofe inicial. Composta de um mote de seis versos e de seis estrofes em décimas, o formato é propício para o desenvolvimento da “tenção”, seguindo a mesma montagem rítmica, rímica e métrica.
Quanto ao ritmo, os cinco poetas primam por quebrar qualquer regra fixa, dando às suas intervenções variedades na montagem, com o intuito, parece, de quebrar a monotonia e também – isso certamente – para mostrar destreza formal. Neste poema, o ritmo varia entre as acentuações nas segundas e sétimas sílabas, e nas terceiras e sétimas. Cria-se uma musicalidade própria à redondilha maior, de sete sílabas, desenvolvida ao longo da composição. Outro recurso inovador dos poetas que desta peça participam é o uso dos “pés quebrados”, que se alternam entre os de cinco sílabas
paródia na literatura portuguesa de Quatrocentos. Lisboa. Instituto de Cultura Portuguesa, 1978,
Biblioteca Breve, volume 15, p. 72). 208
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 4 ed. Trad. Yara Frateschi. São Paulo/Brasília: Hucitec/Edunb, 1999, p. 17.
– com a intenção, parece, de enfatizar o nome de uma das personagens-alvo da tenção, Dona Guiomar –, e os de três sílabas.
Quanto à rima, que mescla femininas com masculinas, também ao longo de todo o poema, o esquema é alterado pelos intervenientes, exceto nos últimos versos de cada estrofe, em que ele é mantido: abab. Entretanto, no cabo209, o próprio D. João quebra o delineamento alterando as posições para baba. Acrescente-se que a natureza das rimas também é diversa. Há opção pelas ricas, misturando-se verbo e substantivo e pronome, nomeadamente no cabo. Isso corrobora o fato de que, mais do que querer fugir ao enfadonho, os poetas estavam realmente interessados em mostrar sua aguda habilidade na forma, com finalidades satíricas. Segue o poema:
Senhora, eu vos nam acho rezam para rafiar
e beijar tam sem empacho Dona Guiomar,
salvante se vós sois macho.
Se o sois e nam sois dama, é mui bem que o digais e tambem deve sua ama nam querer que vós jaçais soo com ela em NJa cama.
Confessai-nos que sois macho ou que folgais de beijar, que doutra guisa nam acho rezam de antrepernar tal dama tam sem empacho.
Proposta a discussão e dados os seus argumentos, D. João de Meneses será ajudado por Fernão da Silveira, o “Moço”, que traz à baila um comportamento que é muito pouco explorado na literatura satírica: a bissexualidade210. Aos olhos de uma
209
Designava-se “cabo” a última estrofe; geralmente, no caso das ajudas, elaboradas pelo proponente da disputa ou do pedido de opinião a outro(s) poeta(s). Além desse termo, era usado, indistintamente, a palavra “fim” para designar a conclusão das trovas ou ajudas. Cf. DIAS, op. cit., 2003, p. 141.
210
São palavras de M. Rodrigues Lapa sobre uma única peça cujo tema é a bissexualidade, encontrada no Cancioneiro da Biblioteca Nacional [1583] e no Cancioneiro da Ajuda [1115], de autoria de Afonso Eanes de Coton: “São raros, na nossa poesia medieval, os documentos que aludem a esse vício feminino”. Segue, como ilustração a primeira estrofe da poesia composta de duas coplas: “Mari’Mateu, ir-me quer’eu daquen, / por que non poss’un cono baratar; / alguen que mi o daria nõno tem, / e algun que o tem non mi o quer dar. / Mari’Mateu, Mari’Mateu, / tan desejosa ch’és de cono com’eu!” Diferente da
sociedade educada na rigidez dos princípios cristãos e onde prevalecia a figura viril do homem, espera-se que a condenação seja mais veemente, já que as damas, além de praticarem o lesbianismo, também fazem amor com homens. Silveira, como aparece no terceiro e nos sexto e sétimo versos, não parece constrangido com a atitude da Senhora: quer louvá-la e não tachá-la, pois sabe ela de tudo usar211. A questão, agora, é a de saber se a mesma poderia engravidar outra mulher, uma vez que se duvida de seu sexo: o de uma mulher ou o de um macho.
Ajuda de Fernam da Silveira. Dous gostos podeis levar, senhora, desta maneira, pois sabeis de tudo usar: ser macho pera Guiomar e femea pera Nogueira. E por isso nam vos tacho, antes vos quero louvar, nos trajos em que vos acho podereis vós emprenhar outra molher como macho.
Terminada a intervenção de Silveira, é a vez de Dom Rodrigo de Castro, irmão de Dona Guiomar, a dama assediada. Nota-se aqui como se movia a sociedade no Paço. Mesmo que irmãos, os desvios devem ser satirizados e, como se tem visto até agora, de forma não contundente, mas jocosa. O tom de Dom Rodrigo, já mais cáustico, pede o exílio das duas. Caso contrário, que lhes dêem outra mulher, com ânimo mais varonil, a machoa, para que o desejo ardente de sexo seja amainado; literalmente, nas palavras do poeta, “com que percais o raivaço”. O desejo seria ainda aplacado se fosse colocado nas damas um cabeção de cordas, próprio para animais – o barbicacho ou, mais extremadamente, se as duas fossem castradas. Aqui, Rodrigo de Castro não está interessado, pelo que parece, no sexo das duas infratoras, mas sim, em saber se a irmã é macho.
poesia aqui estudada, a de Coton prima pela obscenidade declarada. (Cantigas de escarnho e de
maldizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses. [Coimbra]: Galáxia, 1965, p. 74).
211
Quanto a essa maneira de encarar os “desvios”, presentes no Cancioneiro Geral, comenta Lapa: “o Cancioneiro nos dá a imagem fiel daquela época do limiar da Renascença: o desejo ardentíssimo de gozar de todos os bens da vida, saltando por cima dos preconceitos, que tolhiam a acção do homem. Aos olhos daqueles que tinham vivido no passado, este novo e ambicioso espírito surgia como um preságio
Dom Rodrigo de Castro
Lancem-vos fora do paço, ou vos levem a Lixboa ou vos dêm outra machoa com que percais o raivaço. Lancem-vos NJ barbicacho ou vos mandemos capar, porqu’outra forma nom acho pera poder escapar
Dona Guiomar,
pois s’afirma que sois macho.
A contenda tem continuidade e o próximo mediador é Dom Pedro da Silva, que centra suas farpas relatando as “cousas” que ambas têm em excesso, provavelmente os seios e as partes baixas212. Contudo, não devem ser formosas, como bem o explicita: o que “nam vem de boa parte” são a “muela”, ou seja, a face e os beiços, que não parecem “de dama bela”. Passada a descrição das amantes, vem a parte mais cômica: Dom Pedro não se arriscaria a se agachar perto das duas e, partindo para um nível ainda mais baixo
catástrófico”. (LAPA, M. Rodrigues. Lições de Literatura Portuguesa. Época Medieval. 4. ed. Coimbra: Coimbra Ed., 1955, p. 418).
212
Vale aqui um comentário de Maria Isabel Morán Cabanas quanto ao retrato da mulher no Cancioneiro Geral: “se na lírica amorosa apenas surgem muito esporadicamente alusões às partes altas ou nobres do corpo, cuja fronteira inferior é a cintura, nas trovas compostas ‘em deslouvor’ também aparecem referências às baixas, facto que se vem interpretando desde Mikhail Bakhtin, como uma influência da cultura cómica popular de inspiração carnavalesca” (2001b, p. 433). Observe-se que na poesia que estamos analisando, os poetas contendores referem-se tanto às partes altas quanto às baixas e, sempre, em “deslouvor” de seu alvo.
quanto à linguagem, gentilmente arregaçaria e olharia se ambas são fêmea ou macho. Dom Pedro da Silva.
Pera parecer donzela cousas tendes bem que farte, mas chamardes vós muela a beiços de dama bela nam vos vem de boa parte. D’hoje avante nom me agacho nem mais hei assi d’andar, mas com mui gentil despacho vos hei-d’ir arregaçar
e oulhar,
se sois femea ou macho.
Fernão da Silveira é o penúltimo a intervir e vem nomeado “regedor”, cargo que lhe foi atribuído por D. João II, como já se sabe, e é a única vez que Resende a ele assim se refere nas didascálias. O poeta retoma a questão do beijo das duas damas surpreendidas “no ato ilícito” e afirma que a acusada do desvio comporta-se de maneira altiva e arrogante, como se fosse um “fino senhor”. Na sua ajuda, Silveira não alveja Dona Guiomar, a dama assediada, mas sim a outra dama, cuja “identidade” sexual quer saber o poeta. Se nessa intervenção o Coudel-mor não inova na forma, contrariamente ao que faz em grande parte de suas composições, vale observar o poema como um todo não só pelo subgênero desenvolvido – o da ajuda –, mas, também, como Silveira, assim como seus colegas, aborda qualquer tema e dele faz poesia.
Fernam da Silveira, o Regedor. Com estes tratos d’amor, com estes beijos maa hora vos nom ham já por senhora, mas por NJu fino senhor. Tambem trazês NJu recacho e NJ som de galear,
que beijais tam sem empacho Dona Guiomar,
que vos ham todos por macho.
Finalmente, fecha a composição o próprio proponente, Dom João de Meneses. E o faz trazendo à cena mais uma nova personagem: Dona Joana de Souza, que estaria prenhe daquela a quem se dirigem os poetas. Para que a dúvida proposta no mote e glosada ao longo das trovas seja esclarecida – na verdade, resolvida a pendenga sobre
sexo –, Meneses sugere que a dama mande o “mochacho” – outra nova figura na peça – ou Dona Joana cortar ou tapar o membro da acusada para que ela ficasse fêmea ou macho.
Outra sua e cabo. lja mui estranha cousa se ruge caa antre nós, porque laa convosco pousa Dona Joana de Souza, dizem qu’ee prenhe de vós! Tambem diz cNJ mochacho vos foi nam sei quem topar! Havei eramaa empacho, mandai NJ deles cortar ou tapar,
e ficai femea ou macho. (CG, IV, 586).
Na leitura desse poema, observa-se que a questão da homossexualidade e da bissexualidade é vista pelos poetas do Cancioneiro Geral, muito geralmente, como motivo para chufa, passando ao largo da crítica moralizante. Nessa composição, a preocupação, em termos conteudísticos, é a sexualidade de algumas damas corteses. Não se percebe qualquer doutrinação moralista, que, aproveitando-se da divisa horaciana ridens dicere verum, pretenda, mesmo que através da poesia, moralizar os costumes213. Pelo contrário, um dos contendores, Fernão da Silveira, homônimo do Coudel-mor, até incita uma das damas infratoras a fazer bom uso dos prazeres como bem lhe apeteça. É, certamente, um conselho que se dirige a todos os freqüentadores dos serões áulicos, recomendação que se percebe, também, na intervenção do Coudel- mor em “Resposta do Coudel-moor, que foi requerido pola senhora, que respondesse por ela.”, quando declara “antes que este maldito mundo me destrua, quero me fartar de bua.”214, a cuja análise procederei mais adiante.
213
É claro que, sob qualquer sátira, há um fundo moralizante; lembre-se do ditado popular: “É brincando que se dizem as coisas sérias”. Se a intenção primeira parece não ser a de moralização dos costumes, por detrás do enunciado há sempre um aspecto moralizador.
214
O que se percebe na composição dos cinco glosadores, no entanto, é a prática de um costume antigo, nascido na poesia provençal, e dela transposta à poesia galego- portuguesa, qual seja, cantar qualquer tema de forma humorística e irônica, o que é próprio da sátira215. Para isso, nada melhor do que a poesia, pela exploração de sua forma, pelo significante – enquanto linguagem simbólica e sonora – e também quanto à estrutura a que se molda a peça. Mantendo a tradição trovadoresca, agora os poetas palacianos cantam os mesmos temas comuns aos seus antepassados, apenas adequando- os a uma forma inovadora. Nessa transição para a era moderna, o que se revela na produção cultural é a renovação estética formal, mesmo que as preocupações sejam as mesmas que atormentam – ou aliviam – o indivíduo. A propósito, Gustav R. Hocke, estudioso alemão, afirma que
na sexualidade, o indivíduo descobre (...) a última liberdade possível. Nas depravações sexuais, ele encontra a mais ampla liberdade, ou seja, a última liberdade da vida pessoal, inacessível aos espiões do poder. Há uma tentativa para escapar do ‘egoísmo a dois’, procurando a liberdade num ‘desespero a dois’. Quanto mais rígido for o poder, tanto mais ‘abstrusa’ tornar-se-á a sexualidade. (Grifos do autor)216.
Se o homem encontra a liberdade nas depravações sexuais, encontra-a também na expressão estética dessas mesmas depravações, quando alia o canto ao prazer. E isso o faz através da arte e da literatura – mais especificamente, através da poesia. Nela, coloca a expressividade do som, transformando-o em música, moldando o tema numa estrutura que une deleite e destreza, mesmo que através da sátira, considerada por muitos antigos poetas e escritores – e mesmo na atualidade – uma expressão não nobre. Viu-se que a sátira presente nas duas composições analisadas apontava ora para um órgão sexual, ora para um comportamento sexual. Em ambas, o centro era o ser humano. Mas o Coudel-mor, como se verá adiante, vai além ao tratar do mesmo tema entre seres divinos.
215
LOPES, Graça Videira. A sátira nos Cancioneiros medievais galego-portugueses. Lisboa: Estampa, 1994, p. 208 passim. Também cf. DIAS, op. cit., 1998b, p. 352-53.
216
HOCKE, Gustav R. Maneirismo: o mundo do labirinto. Trad. Clemente R. Mahl. São Paulo: Perspectiva, 1974. 334p. (Debates, 92), p. 288.