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A crítica de Hegel ao formalismo da moral kantiana é um tema que pode ser abordado de diferentes modos. Esta tese demonstra que o argumento central em relação ao formalismo é da razão especulativa, onde se desenvolvem e determinam as razões do formalismo da filosofia kantiana e da sua superação dialética na filosofia hegeliana. Tanto na filosofia de Kant, quanto na de Hegel, os argumentos decisivos em relação ao formalismo (Kant) e a sua necessária superação (Hegel) estão desenvolvidos na filosofia especulativa.

A filosofia de Kant é a afirmação de uma nova metafísica, a da autonomia da razão, ela significa um passo filosófico importante. Ela é um dos momentos decisivos da filosofia moderna, na elaboração da filosofia da subjetividade e na ruptura com o pensamento ontoteológico greco-medieval, exigindo da reflexão filosófica imanente autônoma a capacidade de fornecer respostas suficientes às suas principais questões. A filosofia kantiana conquista um novo conceito de criticidade, demonstra a autonomia da razão e estabelece a exigência prática – ética e moral – do respeito universal à pessoa humana em sua dignidade. De acordo com o próprio Hegel, a filosofia Kant significa a conquista da autodeterminação da razão, estabelecendo as bases para a eticidade moderna, ao afirmar a liberdade como princípio a ser respeitado universalmente. A partir disso, não se pode mais legitimar qualquer forma de eliminação da liberdade pessoal, negando todas as formas de escravidão, comercialização e desrespeito à dignidade da pessoa humana.

A filosofia de Kant se caracteriza pela autonomia da razão, em oposição ao realismo metafísico. Ela significa um avanço, na medida em que abandona uma perspectiva de argumentação já criticada, apresentando uma nova resposta, o idealismo transcendental. Kant opta pela crítica da razão pura para fornecer uma bússola, um cânon, um critério, por reconhecer a crítica de Hume ao realismo metafísico e considerar as sua próprias respostas mais satisfatórias. No entanto, ele aceita o idealismo transcendental como posição sempre já legitimada, a partir da qual explica a possibilidade do conhecimento científico e da moral, mas sem apresentar, propriamente, uma fundamentação. Ele não crítica os próprios critérios do conhecimento e da moral. A filosofia de Kant compreende estar justificada, por

fornecer argumentos a favor da sua posição filosófica, sem, no entanto criticar seus próprios critérios. Por isso, o imperativo categórico é como que revelado, não podendo ser criticado, mas sendo ele mesmo o único e absoluto critério (fórmula) para a valoração moral da vontade.

Hegel, desde o começo da Fenomenologia do espírito e da Ciência da lógica assume a criticidade kantiana, no entanto ele a estende sobre o todo, a partir da absoluta não pressuposição, do senso comum, naquela - Fenomenologia do espírito - e do pensamento puro, do conceito de ciência filosófica, nessa - Ciência da lógica. Ele compreende que os erros de Kant já estão no seu ponto de partida, mas principalmente, na aceitação acrítica e dogmática das suas respostas e soluções insuficientes. Para Hegel, do fato de Kant não expor a contradição imanente do finito, mas a resolvendo de forma abstrata, no pensamento, como se fosse só externa, mostra sua unidade originária posta no conceito, pois fenômeno e númeno são conceitos, mas ele tematiza somente a sua distinção, a oposição. Por permanecer na contraposição dos conceitos, na abstrata indeterminação, Kant acaba não resolvendo a contradição do finito, afirmando o infinito, como sendo o verdadeiro, mas que somente o é nessa contraposição, sendo efetivamente, um falso- infinito, portanto, um finito. Dessa forma, a filosofia crítica de Kant mais se aproxima da acriticidade, afirmando má-infinitude como sendo a verdadeira infinitude e, por isso, se mantém na falsa-metafísica e na falsa-autonomia.

A filosofia hegeliana parte do indeterminado, pondo e expondo o que aí está pressuposto. Portanto, o todo ou o absoluto. A principal diferença dessa filosofia em relação à de Kant consiste no reconhecimento da contradição imanente a cada momento, do ser, do nada, do algo, do finito, não aceitando a posição de que a contradição é só algo externo, podendo ser resolvida ao nível do pensamento abstrato, fazendo-se as devidas distinções.

A crítica de Hegel é sempre imanente, mas não só enquanto imanência à unidade da razão pura, do pensamento, como em Kant, mas imanente a cada momento, exigindo sua exposição desde ele mesmo, revelando sua verdade, trabalhando e superando a contradição em sua efetiva concretude. Dessa forma, demonstra como o próprio finito, já é um não não- finito, pondo e expondo a originária substancialidade do verdadeiro infinito, no qual os dois momentos abstratos, finito e infinito, são verdadeiros. A partir disso, demonstra que o ser

determinado já contém em sua destinação o dever-ser, superando a kantiana separação, exclusão e oposição entre ser e dever-ser.

Hegel expõe a insuficiência de todo critério formal, que consiste na abstrata e indiferente universalidade, à base do abstrato e formal princípio de não-contradição, expondo-o, apresentando o universal concreto efetivo, o determinado, como o (seu) verdadeiro, bom e ético. O método analítico é capaz de conduzir à certeza, mas não a verdade. Assim, a dialética é o método das ciências humanas, pois é capaz de se justificar desde ele mesmo.

O critério supremo da moral kantiana é, segundo Hegel, vazio, formal, analítico e tautológico. Pois, um critério moral, totalmente formal, somente pode afirmar em relação à máxima, o que ela sempre já sabe. Ele é incapaz de acrescentar uma nova informação de forma sintética. O que a fórmula diz da máxima, já está na máxima, logo não diz nada de novo. Dessa forma, segundo o formalismo kantiano, o roubo não pode ser justificado. No entanto, Hegel mostra que a palavra “roubo” já está determinada pelo seu contexto, onde existe a propriedade e por isso, pegar o que é dos outros é roubar. No entanto, em Hegel, devido à superioridade da razão em relação ao entendimento, mesmo que o roubo continue sendo roubo, é possível que, sob determinadas circunstâncias, ele seja justificado eticamente, sem eliminar a regra e nem cair na arbitrariedade. É a compreensão da diferença entre princípios e regras que possibilita, a partir de Hegel, mas somente sob algumas circunstâncias, justificar eticamente a exceção.

REFERÊNCIA