1.3. Feminizmin Tarihi
1.3.5. Üçüncü Dalga Feminizm
Para Milgram (apud BAUMAN, p.186), pode suceder uma conduta desumana quando, no decorrer de uma ação seqüencial, o ator se torna preso de suas próprias ações passadas. “Suaves e imperceptíveis passagens entre os estágios atraem o ator para uma armadilha. O ator entra num círculo vicioso, uma vez que se torna para ele impossível abandonar a sua conduta, sem rever, avaliar e eventualmente reprovar os seus atos anteriores”. Milgram chama essa armadilha de “paradoxo da ação seqüencial”.
Por outro lado, o uso da violência é mais eficiente e menos dispendioso quando os meios são submetidos a critérios instrumentais e racionais que permitem dissociá-los da avaliação moral dos fins. Como observa Bauman (1998, p.48) , “o processo civilizador é, entre outras coisas, um processo de despojar a avaliação moral do uso e exibição da violência e emancipar os anseios de racionalidade da interferência de normas éticas e inibições morais”. Essa dissociação resulta, de modo geral, de dois processos paralelos, ambos intrínsecos ao modelo burocrático de ação: o primeiro consiste na minuciosa divisão funcional do trabalho e o segundo na substituição da responsabilidade moral pela responsabilidade técnica.
A minuciosa divisão do trabalho consiste na mera extensão da cadeia de atos que intermediam a iniciativa e seus efeitos palpáveis. Com ela, a maioria dos envolvidos é liberada de significado e de exames morais. Os indivíduos são ainda sujeitos a avaliação, mas por critérios técnicos e não morais. Assim, os problemas morais passam a ser problemas técnicos que pedem melhor e mais racional planejamento, e não exame de consciência. Como explica Todorov:
Essa compartimentação da própria ação e a especialização burocrática decorrente funda a ausência de sentimento de responsabilidade, que caracteriza os executantes da Solução final, assim como todos os outros agentes do Estado totalitário. Em uma das extremidades da cadeia há, digamos Heydrich: seu sono não é perturbado pelos milhões de judeus que morrem; ele nunca vê rosto sofredor, ele manipula cifras inodoras. Em seguida, vem, por exemplo, o policial francês; sua tarefa é muito limitada: recebe as crianças judias e dirige-as em seguida por um campo de reagrupamento, onde os alemães passam a ocupar-se delas; quanto
a ele, não mata ninguém, não vai além da execução de uma rotina: receber, expedir.
Segue o autor:
A partir daí, Eichmann entra em cena: seu trabalho, puramente técnico, consiste em assegurar que um trem parte de Drancy, no dia 15, e chegue a Auschwitz no dia 22. Onde está o crime? Em seguida, Hoess (o comandante de Auschwitz) intervém: dá ordens para que se esvaziem os trens e para que se encaminhem as crianças para as câmaras de gás. Por fim, o derradeiro elo: um grupo de prisioneiros, o comando especial empurra as vítimas para as câmaras de gás e aciona o mecanismo de injeção letal; esse grupo é o único a matar com suas próprias mãos; mas, nesse caso, com toda evidencia, trata-se de vítimas e não de carrascos.
De acordo com o pensamento do autor:
Nenhum dos elementos da cadeia tem sentimento de responsabilidade pelo que faz: a compartimentação do trabalho suspendeu a consciência moral. A situação só é ligeiramente diferente nas duas extremidades da cadeia: alguém deve tomar a decisão – para tanto, basta uma única pessoa: um Hitler e o destino de milhões de seres humanos é selado; tal pessoa, nunca entra em contato com os cadáveres. E alguém deve desferir o golpe de misericórdia – até o fim de seus dias (que, aliás, pode estar muito próximo), tal pessoa (a vítima) perderá a paz interior, mas nem por isso poderá ser considerada verdadeiramente culpada (TODOROV,1995, p.191).
Talvez convenha observar que o mal não é apenas o contrário do bem, mas também o seu inimigo. O verdadeiro mal tem por objetivo destruir as próprias distinções morais. Uma maneira de fazer isso é transformar as vítimas em cúmplices. Os dilemas decorrentes da cooperação dos Conselhos judaicos o comprovam. Embora seus objetivos fossem salvar vidas e reduzir o sofrimento, graças aos meios muito limitados de que dispunham, suas ações bem-intencionadas ajudaram os nazistas a assassinar judeus com uma eficiência e uma perfeição que, de outro modo, a Solução Final não teria tido. A capacidade nazista de implicar as vítimas ou aqueles que de outro modo permaneceriam observadores inocentes foi o aspecto mais maléfico do regime nacional-socialista. Os nazistas forçaram todos, de observadores passivos a vítimas, a participar na vasta rede de destruição. A capacidade de implicar as vítimas ou aqueles que de outro modo permaneceriam observadores inocentes é o aspecto mais aterrador do regime nacional-socialista.
Condenar a vítima a participar da mecânica do assassinato era uma maneira de destruir a própria moralidade.
No que tange a responsabilidade moral, acrescenta Bauman, o sistema burocrático não advoga contra as normas morais, mas “as utiliza, ou melhor, as reutiliza”, com um duplo efeito: a “moralização da tecnologia e a recusa do significado moral de todas as questões não técnicas”. Nesse processo, a responsabilidade pessoal se dissolve na autoridade fria e impessoal do conhecimento técnico. Bauman analisa essa sutil passagem da responsabilidade ética para a responsabilidade técnica, nesses termos:
É a tecnologia da ação e não da sua substância que é submetida à avaliação como boa ou má, própria ou imprópria, certa ou errada (...). A responsabilidade técnica difere da responsabilidade moral pelo fato de esquecer que a ação é um meio para alcançar, algo para além dela mesma. Como as conexões exteriores da ação são efetivamente removidas do campo visual, o próprio ato burocrático se torna um fim em si mesmo, desembaraçado de preocupações morais. Quando desembaraçado de tais preocupações, o ato pode ser julgado em termos racionais, inequívocos (BAUMAN, 1998, p.125 e 188).
A desumanização começa no ponto em que os objetos visados pela operação burocrática são reduzidos a um conjunto de medidas técnicas. É o que podemos definir de racionalidade do mal. Assim, para os administradores de ferrovias, a única formulação significativa do seu objeto se reduz em termos de toneladas por quilômetro. Mandam os soldados atirarem em alvos, que caem quando são atingidos. Eichmann não tinha contato com seres humanos ou arame farpado, só lidava com carga.