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O conceito de Regime de Informação, como acabámos de afirmar, foi desenvolvido por Frohmann (1995); consiste em um conjunto de redes onde as informações são transferidas de seus produtores, através de canais determinados, com a mediação de estruturas organizacionais às comunidades específicas ou aos consumidores. O conceito traz e realça componentes que não só contribuem para a compreensão de uma política de informação, como também, das relações diretas e indiretas, entre diversas instituições públicas e privadas. (DELAIA, 2008, p. 37)

Segundo Frohmann (1995), regime de informação é

um sistema ou rede mais ou menos estável no qual informação flui através de determinado canal, gerada por específicos produtores, via estruturas específicas, para consumidores ou usuários específicos. Radio e TV, distribuidores de filmes, publicações acadêmicas, bibliotecas, todas são nós de redes de informação ou elementos de um especifico regime de informação. (FROHMANN, 1995, p. 4) Com o mesmo objetivo de analisar a política de informação, Braman (2004) introduz Teoria de Regime, termo que propicia uma visão abrangente da política de informação em relação às instituições, as regras e normas frente à prática da política. (DELAIA; FREIRE 2010, p. 109). A teoria do regime foi

97 desenvolvida por especialistas da área de relações internacionais e oferece um quadro teórico e conceitual para lidar com sistemas regulatórios que incluem campos formais e informais, envolvendo três elementos:

 Governo, que engloba as instituições formais, regras, normas, práticas e histórias de entidades geopolíticas;

 Governança, que são as instituições formais e informais, regras, acordos e práticas de atores estatais e não estatais com efeito constitutivo na sociedade;

 Governabilidade, que é o contexto social e cultural no qual modelos de governança emergem e são sustentados. (BRAMAN, 2004)

Para Braman (2004), os três elementos acima mencionados configurarão um regime específico através de relações entre atores, arraigados de princípios abstratos, porém operacionalizados por meio de múltiplas e diversas instituições, acordos e procedimentos.

Carvalho (2009) cita um trabalho não publicado de Braman57 no qual a autora destaca a nova imagem que o Estado ganhou com a intervenção da teoria do regime. O Estado passou a ser visto como,

um sistema que está em constante interação com outros sistemas (no mesmo nível de analise, acima e abaixo dele) e que a mudança era sinal de saúde. Assim, esta teoria permite analisar as instituições, processos e políticas (policies) numa determinada forma política (political form) num momento de estabilidade, tendo consciência de que o mutável campo da política também inclui normas comportamentais e éticas, formas organizacionais, hábitos, práticas culturais, estruturas de conhecimento, setor privado e decisões individuais e tecnologias. (BRAMAN apud CARVALHO, 2009, p. 64) Não obstante essa reconfiguração do Estado devida à intervenção da teoria do regime, Carvalho (2009) lembra que algumas críticas foram apontadas, sobretudo no que se refere à atualidade do termo que, não tendo sido recontextualizado, após seu regresso à tona, criou dificuldades de reconhecimento entre os acadêmicos. A autora aponta Strange58 como tendo questionado se a teoria do regime não estaria fora da moda, sob o argumento da “expectativa superestimada e não concretizada dos acadêmicos europeus

57 BRAMAN, S. Information policy and the information regime: critical review of analytical

framework and concepts. Rio de janeiro: IBICT, UFRJ, ICICT/Fiocruz, 2009b.

58 STRANGE, Susan. Cave! Hic dragones: a critique of regime analysis. International

98 de que os Estados Unidos pudessem conformar o mundo à sua imagem.” (CARVALHO, 2009, p. 60). As outras críticas à teoria do regime podem ser sintetizadas e apresentadas no seguinte quadro:

Quadro 5 - Críticas à Teoria do Regime, segundo STRANGE (1982) e BRAMAN (2004b)

Crítica Descrição

Imprecisão da terminologia

 Não há consenso sobre o conceito de regime, contribuindo, assim, para a falta de clareza de onde começa e onde termina um regime e quais as suas fronteiras.

Questionamentos sobre a perfomance de muitos arranjos e

organizações internacionais

 A integração da economia mundial e o avanço da tecnologia têm criado muitos problemas, mas, por outro lado, têm alargado as possibilidades de alcançar acordos e proporcionar soluções.

Significado semântico do vocábulo regime, de origem francesa

 Assume um caráter pejorativo do que de aprovação, como em Antigo Regime, Regime de Franco, dentre outros.

 O termo vincula-se mais a governos autoritários e injustos; Dá-se mais ênfase à ordem, não à justiça, eficiência, legitimidade ou qualquer outro valor moral.

Exagero na qualidade estática dos arranjos para a gestão do sistema

internacional

 Ao enfatizar os elementos estáticos da mudança do mundo político, não se confere destaque aos elementos dinâmicos.

Fundamentação no paradigma centrado no estado

 Conseqüências: desviar os acadêmicos de temas que seriam realmente importantes e, por não estarem atrelados aos Estados, não fariam parte de agenda política. Desenvolvimento insuficiente do

papel do conhecimento, das comunidades epistêmicas

 Dificulta de operacionalização

Fonte: CARVALHO (2009, p. 60-61). Adaptado pelo Autor

Não obstante as críticas, é pertinente observar que, o regime de informação, diferentemente, exige um olhar contextualizado de uma prática informacional com seus conteúdos e ações.

González de Gómez (2002) baseia-se na formulação de Frohmann (1995) para redefinir regime de informação, desta feita, associada à perspetiva foucaultiana

99 de "dispositivo". A opção de definir o conceito de regime de informação nesta perspetiva fundamenta-se pelo fato de os dois termos configurarem uma proximidade entre os seus conceitos. Assim, regime de informação é:

um modo de produção informacional dominante numa formação social, conforme o qual serão definidos sujeitos, instituições, regras e autoridades informacionais, os meios e os recursos preferenciais de informação, os padrões de excelência e os arranjos organizacionais de seu processamento seletivo, seus dispositivos de preservação e distribuição. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 2002, p. 34)

E dispositivo é um conjunto heterogêneo de discursos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicos, estabelecendo uma rede passível de mudanças de posições entre os elementos e modificações de funções. (FOUCALT59 apud WILKE; JARDIM, 2006)

Carvalho (2009) pontua que o conceito de dispositivo inspira o conceito de regime de informação proposto por Frohmann (1995). De fato, pelas colocações de Frohmann (1995) e desenvolvidas por González de Gómez (2002), percebe-se, no dizer de Wilke e Jardim (2006), que o conceito de regime de informação agrega alguns elementos constantes no dispositivo foucaultiano, designadamente, as instituições, as organizações arquitetônicas, as decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, e as diferentes maneiras de produzir, processar, selecionar e distribuir a informação. E, “todos esses elementos aglutinam-se na forma de rede, o que faz com que um regime de informação expresse-se na morfologia da rede.” (WILKI; JARDIM, 2006, p. 5)

Como afirmámos anteriormente, Frohmann (1995) considera que, tanto a transmissão de rádio e televisão, como a distribuição de filmes, publicações acadêmicas, bibliotecas constituem exemplos de nós de redes de informação ou elementos específicos de regimes de informação.

González de Gómez (2007) considera que o regime de informação resulta de uma configuração em rede de vários elementos submetidos à dinâmica de

100 harmonia e de conflito. Esses elementos podem ser grupos, práticas, interesses, discursos, instrumentos, artefatos científicos e tecnológicos. E a rede apresenta-se como uma instância de estabilização.

É nesta perspetiva que se enquadra a seguinte definição de González de Gómez (1997), sobre Regime de Informação:

Conjunto de redes formais e informais de fluxos de informação mais ou menos estável, através dos quais as informações são transferidas de produtores específicos por canais determinados, com a mediação de estruturas organizacionais específicas à comunidades específicas de usuários ou consumidores. (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1997, p. 27) E Política de Informação como sendo um “[...] conjunto de práticas/ações encaminhadas à manutenção, reprodução ou mudança e reformulação de um regime de informação, no espaço local, nacional, regional ou global de sua manifestação.” (GONZÁLEZ DE GÓMEZ, 1997)

Com base na redefinição de González de Gómez (1997), Ribeiro (2003), considera que o regime de informação demarca um domínio amplo e exploratório da relação entre a política e a informação.

Assim permitiria incluir tanto políticas tácitas e indiretas quanto explícitas e públicas, micro e macropolíticas, possibilitando, também, a articulação em um encadeamento de relações, por vezes indiscerníveis - as políticas de comunicação, cultura e informação. Ou resumidamente, regime de informação designa uma morfologia de rede e configura-se por plexos de relações plurais e diversas, intermediárias, interorganizacionais e intersociais. (RIBEIRO, 2003, p. 72)

Ao perpassar fontes/recursos de informação, infraestruturas tecnológicas, memórias documentais, instrumentos de processamento, culturas profissionais e posições relativas dos atores técnicos e políticos, o regime de informação, segundo González de Gómez (1999), permite explorar o fenômeno da informação a partir das relações entre Estado e Sociedade e dos setores estatais e governamentais entre si.

Ribeiro (2003) considera que essa formulação permite

compreender, analisar e descrever a política de informação através da descrição da genealogia do regime de informação, a política de informação provoca a passagem do ambiente informacional complexo e não transparente do regime de informação para um ambiente onde é possível identificar os atores, os conflitos, as vontades plurais e os efeitos das ações. (RIBEIRO, 2003, p. 73)

101 O regime de informação, no âmbito da política de informação, permite que seja possível criar maior visibilidade da política de informação cuja passagem de um ambiente opaco e confuso para a transparência constitui requisito para a governança informacional.

Marques (2010) constata que a incipiência da evolução do conceito de regime de informação leva a que não haja, ainda, consenso entre os pesquisadores da CI, sendo essa, a razão porque não assume a operacionalização do conceito em seu estudo sobre políticas de informação nacionais brasileiras.

No contexto do presente trabalho, subscrevemos a posição deste autor, embora reconheçamos a importância de Regime de Informação na formulação de políticas de informação60, cuja construção se caracteriza pela intervenção de diversos atores e meios envolvidos nos contextos em que a informação assume centralidade, bem como os diferentes níveis de influência que eles podem aí exercer.