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2. CAMEL Yaklaşımı ve Rasyo Analizi

2.1. Özsermaye Yeterliliği

No plano filosófico, ao tomar como objeto de estudo o conhecimento, suas possibilidades, condições e limites, e visando superar as dicotomias entre o empirismo e o racionalismo (mas mantendo-se ligado às duas teorias)80, Immanuel Kant (1724-1804) elaborou um pormenorizado sistema através do qual pretendeu explicar como ocorre o processo de aquisição de conhecimento. Seu trabalho foi fortemente influenciado pela

80 Kant aspirava à superação das duas forças teóricas que se digladiavam desde o século XVII: o racionalismo e

o empirismo. Considerava ambas as doutrinas falhas, porque além de advogarem a possibilidade de apreensão do objeto “em si”, se empenhavam na explicação do processo de obtenção do conhecimento lançando olhar para a realidade (objeto), ao invés de se preocuparem com o ato de conhecer. No entanto, Kant não negou a importância da experiência para a aquisição do conhecimento: ao contrário, afirmou a imprescindibilidade do empírico (sensível) para que se pudesse conquistar conhecimento, criticando inclusive a metafísica por tratar de objetos que não podem ser apreendidos empiricamente (Deus e imortalidade da alma, por exemplo), e que, por este motivo, não teriam a faculdade, segundo sua visão, de ser objetos de conhecimento. Por outro lado, Kant emprestou primazia aos juízos apriorísticos (anteriores e independentes da experiência), que, consoante sua teoria, possuem as características da universalidade e da necessidade.

matemática (geometria analítica cartesiana e cálculo infinitesimal newtoniano) e pela física (estudos sobre o movimento e astronomia de Newton)81, que consistiam o modelo de

conhecimento científico (“certo e indiscutível”) no final do século XVIII.

Kant propôs fosse colocado no centro do estudo filosófico não mais a realidade (o objeto, sua natureza e qualidades), mas a própria faculdade de conhecer, as condições e o processo do conhecimento. O objeto é que deveria ser entendido como regulado pela faculdade da intuição, e não o contrário. MORA82 sustenta que o adjetivo “transcendental” acoplado à filosofia kantiana refere-se a um conhecimento que não se ocupa tanto dos objetos quanto do modo de conhecê-los, repousando sobre uma visão de que o sujeito constitui transcendentalmente, com vistas ao conhecimento, a realidade enquanto objeto. Kant realizou, na sua ótica, uma verdadeira “revolução à maneira copernicana”83, invertendo o foco de

81 Kant acreditava que a Matemática e a Física se constituíam através de juízos apriorísticos, verdades indiscutíveis, e

que a Metafísica pretendia a mesma validez. A partir dessa sua convicção, passou a investigar como se sucediam os juízos sintéticos a priori na Matemática e na Física, e se tais juízos seriam também possíveis na Metafísica. Como demonstra o excerto a seguir, a teoria kantiana foi construída a partir de um olhar sobre aqueles ramos do conhecimento que representavam o modelo de ciência da época: “Matemática e Física são os dois conhecimentos teóricos da razão que devem determinar os seus objetos a priori, a primeira de modo inteiramente puro, a segunda de modo pelo menos em parte puro (...). A Matemática desde os tempos mais remotos alcançados pela história da razão humana, já com o admirável povo grego, encetou o caminho seguro de uma ciência. (...) Ora, é fácil mostrar que no conhecimento humano realmente há tais juízos necessários e em sentido estrito universais, por conseguinte puros a priori. Caso se queira um exemplo das ciências, basta olhar todas as proposições da Matemática. (...) A matemática dá-nos um esplêndido exemplo de quão longe conseguimos chegar no conhecimento a priori independentemente da experiência.” KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Traduzido por ROHDEN, Valerio; MOOSBURGER, Udo Baldur. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 12; 26; 28.

82 MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomo III. Traduzido por GONÇALVES, Maria Stela; SOBRAL,

Adail; BAGNO, Marcos; CAMPANÁRIO, Nicolás Nyimi. São Paulo: Edições Loyola, 2001, p. 1626.

83 “Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm

que se regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos mesmos que deve estabelecer algo sobre os objetos antes de nos serem dados. O mesmo aconteceu com os primeiros pensamentos de Copérnico que, depois das coisas não quererem andar muito bem com a explicação dos movimentos celestes admitindo-se que todo o exército de astros girava em torno do espectador, tentou ver se não seria mais bem sucedido se deixasse o espectador mover-se e, em contrapartida, os astros em repouso. Na Metafísica pode-se então tentar algo similar no que diz respeito à intuição dos objetos. Se a intuição tivesse que se regular pela natureza dos objetos, não vejo como se poderia saber algo a priori a respeito da última; se porém o objeto (...) se regula pela natureza de nossa faculdade de intuição, posso então representar-me muito bem essa possibilidade. (...) Esta tentativa alcança o êxito desejado e promete à Metafísica o caminho seguro de uma ciência (...). Após essa mudança na maneira de pensar, pode-se com efeito explicar muito bem a possibilidade de um conhecimento a priori e, mais ainda, dotar de provas satisfatórias as leis que subjazem a priori à natureza enquanto conjunto dos objetos da experiência, coisas impossíveis segundo a maneira de proceder adotada até agora.” KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Traduzido por ROHDEN, Valerio; MOOSBURGER, Udo Baldur. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 14-15.

análise da questão do conhecimento: em vez de privilegiar e principiar pela análise da realidade, preocupou-se em indagar sobre o ato de conhecer.

O problema do conhecimento é enfrentado na obra “Crítica da Razão Pura” (1781), em que Kant distingue duas formas de conhecimento: o empírico, ou a posteriori, que compreende os dados ofertados pelas experiências sensíveis, e o puro ou a priori, que, ao contrário, é anterior e absolutamente independente da experiência, possuindo as características da necessidade e da universalidade84. Além disso, o filósofo diferencia o juízo analítico, no qual o predicado já está contido (ainda que ocultamente) no sujeito, de forma que tal juízo consistiria apenas em um processo de análise, a fim de se extrair do sujeito aquilo que já está incluído nele, do juízo sintético, que acrescenta ao conceito do sujeito um predicado que de modo algum era pensado nele nem poderia ter sido extraído dele por desmembramento. Para Kant, o verdadeiro núcleo da teoria do conhecimento deveria ser os juízos sintéticos a priori, universais e necessários, os únicos que, conforme sua visão, enriqueceriam e fariam progredir o “conhecimento sobre o conhecimento”85.

O filósofo prussiano propôs que a razão é uma estrutura vazia, universal (a mesma para todos os seres humanos, em qualquer tempo e lugar) e inata (nasce com o homem, não depende da experiência para existir): uma forma a priori. Compõe a estrutura da razão duas formas apriorísticas: a sensibilidade (faculdade da intuição) e o entendimento. A sensibilidade é, para o autor, o que permite que se tenha percepção sensível ou sensorial, e se desdobra em

84 Sobre a definição das duas formas de conhecimento (a priori e a posteriori), bem como à respeito de suas

características ver KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Traduzido por ROHDEN, Valerio; MOOSBURGER, Udo Baldur. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 25-26.

85 Uma explanação mais detalhada sobre o que significam para Kant os juízos analíticos e os juízos sintéticos, a

também do porquê o autor considera que a teoria do conhecimento deveria se alicerçar sobre os juízos sintéticos a priori pode ser encontrada em KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Traduzido por ROHDEN, Valerio; MOOSBURGER, Udo Baldur. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 29-30.

espaço e tempo86. O entendimento possui um conjunto de elementos (categorias) nos quais serão organizados os conteúdos empíricos87. Os conteúdos que preencherão a razão dependem

da experiência (por isso variam no tempo e no espaço), são empíricos, adquiridos a posteriori.

Para Kant o conhecimento seria constituído através da ordenação dos dados no espaço e no tempo pela intuição sensível, e então em categorias apriorísticas elencadas pelo entendimento. Por este motivo, não seria possível o conhecimento das coisas “em si”, mas tão somente dos fenômenos (phainomenon), das aparências, dos objetos tais como resultam das sínteses apriorísticas do próprio ato de conhecer. O filósofo criticou a Metafísica porque entendia que, diferentemente da Matemática e da Física, aquela teoria teria tentado ultrapassar os limites do ato de conhecer, buscando atingir o absoluto, a realidade “em si” (noumenon), e tratando de objetos que não podem ser apreendidos empiricamente.

No entanto, mesmo apontando que não se deveria continuar a trilhar esse caminho de mera especulação racional “edificada no ar”, Kant se negou a aderir ao ceticismo que

86 Espaço e tempo são, para Kant, formas apriorísticas (anteriores e independentes da experiência) inerentes à

sensibilidade humana, condições sem as quais é impossível conhecer. Dessa forma, não é porque o sujeito percebe as coisas como exteriores a si mesmo e exteriores umas às outras que ele forma a noção de espaço, e sim porque o sujeito (a intuição sensível) possui, inata e aprioristicamente, a faculdade de organização dos dados empíricos no espaço, que este pode ser percebido, tanto que é possível abstrair mentalmente todas as coisas que estão no espaço, mas não se pode fazer o mesmo com o próprio espaço. Raciocínio similar é aplicado por Kant com relação ao tempo: as coisas só podem ser percebidas pelos sujeitos como simultâneas ou sucessivas, então, como realidades temporais. Segundo Kant, é possível fazer desaparecer todas as coisas que se apresentam no tempo, mas não é possível suprimir o próprio tempo, pois o tempo é uma forma apriorística com que a sensibilidade organiza os eventos, consistindo condição de possibilidade do conhecimento. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Traduzido por ROHDEN, Valerio; MOOSBURGER, Udo Baldur. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 40-47.

87 Conforme a interpretação das idéias kantianas fornecida por Marilena CHAUI, “a forma do entendimento

organiza os conteúdos que lhe são enviados pela sensibilidade, isto é, organiza as percepções. (...) Essa organização transforma as percepções em conhecimentos intelectuais ou em conceitos. Para tanto, o entendimento possui a priori (isto é, antes da experiência e independentemente dela) um conjunto de elementos que organizam os conteúdos empíricos. Esses elementos são chamados de categorias e sem elas não pode haver conhecimento intelectual, pois são as condições para tal conhecimento. Com as categorias a

priori, o sujeito do conhecimento formula os conceitos. (...) As categorias, estruturas vazias, são as mesmas

em toda época e em todo lugar, para todos os seres racionais.” CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2003, p. 78.

apregoava a impossibilidade de acesso ao conhecimento seguro88, pugnando a necessidade de fundar a Metafísica, através de uma crítica fulcrada nas limitações da razão, para que aquela chegasse a se transformar em verdadeira ciência. Como percebe MORA89, Kant nega a Metafísica, mas com o fim de “fundá-la”.

Kant adverte que não se pode conhecer os fenômenos mediante o puro pensar (especulativo), que é “vazio”, tampouco por meio das puras intuições, que são “cegas”: os sentidos não pensam, e o entendimento não intui: somente a conjugação do pensamento com a intuição, do dado com o posto, permite o conhecimento. Conhecer o fenômeno, para o filósofo, é, em suma, constituir o dado como objeto do conhecimento, “sintetizar”, “ligar” o múltiplo na unidade do conceito90.

88 O conceito de ceticismo foi tomado de MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomo I. Traduzido por

GONÇALVES, Maria Stela; SOBRAL, Adail; BAGNO, Marcos; CAMPANÁRIO, Nicolás Nyimi. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p. 438.

89 MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomo III. Traduzido por GONÇALVES, Maria Stela; SOBRAL,

Adail; BAGNO, Marcos; CAMPANÁRIO, Nicolás Nyimi. São Paulo: Edições Loyola, 2001, p. 1947.

90 MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomo III. Traduzido por GONÇALVES, Maria Stela; SOBRAL,

RACIONALISMO TOTALITÁRIO – FINAL DO SÉCULO XVIII À SEGUNDA

Benzer Belgeler