2.5. İlgili Araştırmalar
2.6.2. Öznel İyi Oluş ile İlgili Araştırmalar
Como já exposto no primeiro capítulo desta tese, a exposição Contemporary Brazilian Works on Paper 130a primeira experiência de Regina Vater em curadoria. Realizada na Nóbe Gallery, em Nova Iorque, em 1979, a exposição
129 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (00:59:52) 130
Como convite e cartaz foram feitos por pessoas diferentes a exposição tanto foi chamada de
Contemporary Brazilian Works on Paper, como também de Contemporary Works on Paper by 49 brazillian artists.
170 trazia desenhos de 49 artistas brasileiros, entre eles Lygia Clark, Claudio Tozzi, Cildo Meireles, Regina Silveira, Ana Bella Geiger, além da própria artista.
O contato veio por parte de um amigo131 da MPM, agência que estava com a
conta de publicidade do Banco do Brasil para um grande evento em Nova Iorque. A artista foi convidada para organizar uma exposição. Diante de uma boa oportunidade para divulgar a arte brasileira no grande centro da arte internacional, a artista fez contato com artistas brasileiros para que enviassem trabalhos em papel (desenho, colagens, xerox, fotografia, por exemplo) para a mostra.
A primeira dificuldade que Regina Vater encontrou foi com o texto do catálogo. A historiadora e critica de arte Aracy Amaral foi convidada para escrevê-lo. Seu artigo abordava a falta de tradição que os artistas brasileiros tinham com a linguagem e as dificuldades decorrentes. O texto intitulado “A dificuldade do desenho”, traz uma abordagem do desenho brasileiro entre as décadas de 1940 e 1970132. Alguns artistas não gostaram do artigo e reclamaram com Vater.
Com o catálogo em processo de elaboração na MPM, as fotografias dos artistas e dos trabalhos tiradas, os contatos realizados, já no final do processo a verba foi cortada. Segue o relato revelador de Regina Vater:
Eu quero que você faça uma coisa pra mim que eu acho que vai ser maravilhoso... eu tô...eu tô trabalhando com a conta do Banco do Brasil... lá na MPM... e o Banco do Brasil vai inaugurar... umas é:: agências... em Nova Iorque... uma agência em Nova Iorque... uma nova agência em Nova Iorque e tal... e a gente quer fazer um splat assim de convidar Tom Jobim... pessoas assim... de muita evidência na música... e ... eu tava pensando em fazer uma exposição na Leo Castelli de
131 Regina Vater preferiu não revelar o nome desse amigo.
132
Numa das passagens em que Aracy Amaral comenta sobre o desenho desenvolvido pelos jovens a tistas da d ada de , ela es eve: A ossa opi i o ue os dese hos ue ve os e postos po jove s ue pode ia se i luídos u a j vi iada o e latu a de va gua da ? os últi os te pos é o trabalho realizado com certo bom gosto, recorrendo a montagens refinadas, com a utilização de fotos ou te tos i p essos ou a i ados so e pap is uad i ulados, ela o ados ai da a a o colorido, nanquim ou lápis-cera, memórias individuais, anotações para futuros trabalhos irrealizáveis, ou seja, pseudoprojetos. A demasiada facilidade os caracteriza e, a par da pobreza conceitual, o esoterismo já mencionado os torna hermeticamente cerrados, aparece muito rara a inventividade e a alienação é uase total do po to de vista so ial . AMARAL, Aracy. Arte e meio artístico: entre a feijoada e o x- burger. São Paulo: Nobel, 1982.p. 323.
171 arte brasileira... eu disse assim... Você tá louco... a Leo Casteli meu filho num... nem sabe que o Brasil existe... o Leo Castelli nem sabe... o... o... o Brasil não existe pra aquele pessoal... e depois lá pra arranjar uma exposição no Leo Castelli você tem que programar com anos de antecedência... ele disse... Ah...mas o Banco do Brasil tem dinheiro... eu disse... Não interessa... não é assim também não... mas... ele disse... Não... mas é porque você conhece muita gente de vanguarda no Brasil... de arte contemporânea nunca foi vista por lá... eu disse... Não... isso a gente pode arranjar mas em outro lugar... eu tenho que fazer contato com as pessoas que eu ainda conheço lá e tal... Aí então eu comecei a contatar... contatei essa lista toda de gente que tá aí no... até na internet.... não é difícil de achar... Aí... é:: as pessoas se animaram todas... eu inclusive convidei a Aracy Amaral pra escrever... a primeira era pra ser uma exposição de desenho brasileiro...nós/eu bolei... fazer sobre desenho porque era papel e era fácil carregar... e... e fácil assim de passar mais pela alfândega e tal... Bom... Aí então... é::a Aracy escreve um texto contra o desenho brasileiro... depois... os/as pessoas souberam do texto... por exemplo... o Julio Plaza quase quis me matar... eu disse assim... Olha eu não posso dominar a cabeça da Aracy... ela escreve um texto... um catálogo inte/que ia ser uma exposição internacional... ela escreve um texto dizendo que no Brasil não tinha tradição em desenho... Aí então... infelizmente eu não tenho esses arquivos porque... tavam lá entre arqui/as coisas que tavam... que foram na casa da minha tia que ela jogou lá... tá entendendo... Bom... Aí é:: Mas com certeza se você falar com a Regina Silveira ela vai lembrar dessa história né... Aí então... é:: eu como tinha convidado todas as pessoas... o... o... também outras pessoas que são prova disso... Osvaldo... convidei o fotografo no Rio... era o Osvaldo... o... o... Pedrinho Osvaldo Cruz... e em São Paulo o Rômulo Fialdini... o Rômulo tirou fotografia de muitos artistas... tirou as minhas... ficaram muito bonitas até as minhas fotos... eu não tenho... as fotos que ele tirou de mim... Tirou de todas as pessoas... todos os artistas paulistas das artes... e os outros artistas de outros estados me mandaram as fotos pro catálogo... O catálogo... já havia/tava sendo mais ou menos planejado lá na MPM... porque ti/o cara tinha que fazer um dome lá pro Banco do Brasil... Aí um dia esse cara me aparece dizendo assim... me telefona dizendo assim... Olha... vai ter uma reunião no Brasil/ no Banco do Brasil... você tem que ir comigo... Eu nunca tinha ido no Banco do Brasil porque naquela época não tinha o CCBB nem nada... a gente foi lá no Banco do Brasil lá na cidade... Aí ele disse assim... você espera aqui no corredor... que eu entro pra reunião... Eu já achei aquilo estranho... Aí eu fiquei rezando... E olha tá perigando de não acontecer... eu disse... O QUE?... eu já tava com todo o pessoal... Lygia Clark... Hélio Oiticica... As pe/uns nomezões já ne naquela/quero dizer... naquela época não era o que é hoje... mas a lista vocês decidem se era gente importante ou não... Bom... Aí então... eu fico do lado de fora rezando... Aí daqui a pouco aprece o personagem lá de dentro dizendo... Olha nada
172 feito... Menina o chão abriu debaixo dos meus pés... eu fiquei assim... aí fui pra casa atordoada.133
Diante desse problema, Regina Vater pediu ajuda a Lygia Clark, que sugeriu que elas criassem uma lista de apoio financeiro para que a exposição acontecesse. Clark abriu a lista com a doação de cinquenta dólares. Infelizmente os outros artistas puderam contribuir com pouco dinheiro o que fez com que a arrecadação não fosse suficiente.
Então, Regina Vater procurou apoio tanto no Itamaraty quanto no consulado dos Estados Unidos em São Paulo. O Itamaraty, na figura do chefe da divisão cultural Edgard Teles Ribeiro134, e o consulado brasileiro em Nova Iorque
viabilizaram as passagens, hotel, o coquetel e os convites, além de facilitar a entrada da artista com as obras em território estadunidense.
A adida cultural americana Linda Shearer, que era curadora do museu Guggenheim, também entrou em contato com Earl Willis, dono da Nobé Gallery, pedindo o espaço para a mostra brasileira. Regina Vater conhecia Willis quando fez uma exposição individual na Marina Urbach Gallery, em 1977, o que facilitou o agendamento com a galeria, porém ficou claro que não haveria verba extra para um vernissage completo. Vater também conseguiu com a Varig o transporte das obras não precisando pagar o excesso de bagagem.
133 Comigo ninguém pode: a voz de Regina Vater, 2014. (01:02:23) 134 Vide anexo 17.
Figura 77: Convite da exposição, 1979. Fonte: fotografia: Arethusa de Paula, 2014.
173 É interessante observar na fala de Regina Vater o papel evasivo do governo em relação à promoção da cultura brasileira fora do país:
E eu consegui a casa de uma amiga minha... a Malu Karen pra ficar lá em Nova Iorque na casa dela... era um loft... só que não podia fumar e eu fumava desbragadamente... na... não podia fumar na casa dela... ela era... ela era muito psicótica... maluca... psicótica não... louca... A...a... e ela era psicanalista... imagina... Aí então é... ela me enxotou de casa porque ela sentiu cheiro de fu/sentiu cheiro de cigarro... Eu fiquei sem lugar pra morar em Nova Iorque... é... é... até que a mulher do consulado ficou com pena de mim e arranjou que o consulado me desse um dinheiro pra pagar um hotelzinho furreca... Porque eu não vi NADA do governo brasileiro... O que aconteceu foi o seguinte... eu comecei a pesquisar... é:: quero dizer eu voi... eu vi foi a passagem que o Itamarati me deu... eu... eu comecei a pesqui/ quando... quando eu dei o nome dos artistas... o ...o... esse cara... não sei o que lá Teles... me esqueço o primeiro nome dele... que foi graças a ele que eu consegui essa passagem... porque ele tinha sido o cicerone... da Linda Shearer que era curadora da Guggenheim... essa mulher tinha vindo ao Brasil com uma ideia de fazer uma exposição brasileira no Guggenheim... e ela visitou exatamente as pessoas que eu tinha convidado... nós duas batemos nas mesmas pessoas que sem uma saber da outra... quero dizer... ela veio primeiro... eu peguei as pessoas que ela tinha ido... sem eu saber dessa história... Então... ele... quando eu dei a lista... ele sabia das pessoas porque tinha ido com ela né... então ele se virou e arranjou essa passagem... e foi a única coisa que eu tive... tive a casa da Malu... e a passagem... Aí eu comecei a arranjar dinheiro... o Maçal fez o convite de graça... Aliás... o consulado brasileiro fez um convite mas eles... colocaram lá como se eles tivessem patrocinado tá entendendo?... é... E... o:: a:: eu pedi dinheiro ao Mindlin e ao Vilares... cada um deu cem dólares... pra/dei o nomezinho deles no: cartaz né... o José Mindlin e o Vilares... bom... cem dólares não é nada né... pra uma exposição interacional ((risos)) mesmo... mesmo naquela época... é... mesmo naquela época né... Bom é: aí... que...ah tá com frio... Aí eu fui tudo com debaixo da/ debaixo do braço... Aí o Te/ o tal do Teles escreveu lá pro pessoal lá em Nova Iorque... e tinha um adido cultural... um rapaz... porque eles não faziam nada... o consulado brasileiro no Brasil/ do Brasil nos Estados Unidos não faz NADA pela cultura brasileira... absolutamente NADA... não dão dinheiro pra eles fazerem e eles também não tão muito a fim de fazer né... Não tão a fim de ter trabalho... a coisa tem que vir pronta... do Brasil já... Aí... esse rapaz me recebeu no aeroporto e pelo menos ele me ajudou lá na alfandega... Aí o cara da Alfandega me pergunta... O quê que é isso?... e ele disse assim... Ah é cartaz... é uma exposição de cartazes... e era tudo trabalho em papel né.135
174 Sobre a montagem da exposição e de como com a junção de esforços de Regina Vater e da adida cultural dos EUA na época ajudaram a conseguir a Nòbe Gallery, a artista relata:
YA – E a montagem das obras como é que foi que aconteceu? Você levou elas desmontadas Regina e depois para montar lá? RV – O cara da parede... o cara arranjou uns acrílicos e as coisas foram colocadas debaixo de acrílico na parede... não tinha moldura.
YA – E qual foi o espaço?
RV – A Nòbe Gallery... que era uma galeria que eu com/entrei em contato com essa gente... antes... é... a... quando eu ainda morava lá em Nova Iorque... Qua/quando é... antes de qua/não... quando eu morava em Nova Iorque não... quando eu fiz uma exposição lá... e... eu conheci esse pessoal... ((tosse)) em 76 eu fiz... 77... um ano depois da Bienal de Veneza eu fiz/que eu participei... eu passem em Nova Iorque voltando da Bienal de Veneza... Foi na época que eu conheci o Cage... e conheci o... dono dessa galeria... na época dessa minha individual na Marian Urbach... na galeria C Space... E aí... quando nada deu certo... eu... eu entrei em contato com uma... com a adida cultural americana em São Paulo... ela disse... Não... eu vou te ajudar e não sei o que lá... me diz os seus contatos lá... também era evidente... que o governo americano não tinha... não quis ter participação de... monetária nisso... mas ela como pessoa disse que me ajudava e eu entrei... ela entrou em contato com a Linda Schearer... que a Linda Schearer também deu... escreveu carta assim dizendo que a exposição era de... interesse... e ela entrou em contato com esse rapaz dono dessa galeria que topou a exposição... mas ele... ele dis/disse assim... eu não tenho dinheiro nenhum.136
Com grande esforço de Regina Vater, com a ajuda de algumas pessoas e com alguns mal entendidos, a exposição abriu no dia 11 de setembro de 1979. Pessoas importantes compareceram à mostra como a própria Linda Shearer, John Cage e Joseph Beuys. O esforço de Vater não foi em vão.
175 Figura 78: Publico na Nòbe Gallery, 1979.
Fonte: Acervo da artista.
A repercussão da mostra chegou ao Brasil pelo jornal O Globo, com uma matéria veiculada em 15/09/1979 (Vide anexo 17), com o título “Alegre, inventiva, cheia de truques: a arte brasileira nos EUA”, escrita por Sônia Nolasco Ferreira, correspondente do jornal em Nova Iorque. Também a revista Arte Hoje, em outubro daquele ano, faz uma matéria com Vater, intitulada “Nosso Papel em Nova Iorque” e assinada por Flávia Toffoli. Nesta entrevista, a artista revela a Toffoli um dos motivos que a fez seguir em frente com o projeto: Na verdade, o que me pautou foi a intenção de reunir colegas que trabalham dentro de um espírito de contemporaneidade. Alguns já são fartamente conhecidos no exterior. Outros de acentuada atividade e importância locais, e outros ainda que só recentemente começaram a aparecer, mas que trazem um trabalho digno.137
A única nota que desagradou Regina Vater foi a que o Itamaraty enviou a uma agência de comunicação dizendo que a exposição era para comemorar o feriado de 7 de setembro. A nota foi divulgada e muito artistas tomaram conhecimento. Em plena ditatura militar, alguns artistas participantes acusaram Vater de contribuir com o regime, o que não era verdade. Nas palavras da artista:
O consulado brasileiro deu pra impre/pra... pra... tem uma agência de notícias internacionais... até me esqueço ...que fez uma entrevistazinha comigo... e o consulado evidentemente passou a nota pra eles também... e falou que eram comemorações do 7 de setembro... era época da ditadura... Os
176 artistas... Regina Silveira quase me matou... as pessoas... Você tá usando o nosso nome pra promover a ditadura brasileira... Imagina... Eu tinha recusado uma exposição no Galliera exatamente pra não acontecer isso... e usaram o meu trabalho de curadoria pra fazer isso... Usa/quero dizer... eles não deram dinheiro nem nada... eles... a única coisa que eles deram foi o convitezinho... a passagem e um coquetel brega tá entendendo?138
E assim, a exposição que deveria ter acabado apenas como um projeto frustrado foi concretizada pela persistência de Regina Vater. Sua primeira curadoria pode ser considerada também uma experimentação, pois a artista desempenhou o papel de vários personagens que trabalham para que uma exposição aconteça: produção, pesquisa, organização, contatos, montagem e preparação do vernissage.
A exposição Contemporary Works on Paper by 45 Brazilian Artists cumpriu o seu papel ao levar a arte contemporânea brasileira a um público que sequer imaginava o que era realizado no Brasil. E esta primeira exposição fez com que Regina Vater promovesse outras nos Estados Unidos a fim de não só divulgar a arte contemporânea brasileira, mas também a arte latino-americana.