Antes de apresentar o histórico da Fazenda da Barra, gostaria de expor, de forma breve, os caminhos que percorri no intuito de compreender o processo de organização do Assentamento Mário Lago, assentamento este que está localizado em um município símbolo da moderna agricultura brasileira. Meus primeiros contatos com o MST em Ribeirão Preto começaram em janeiro de 2008. Inicialmente, fiz uma visita ao Centro de Formação Socioagrícola Dom Hélder Câmara36, neste espaço existe uma biblioteca organizada pelo MST onde há um acervo com materiais (cartilhas, revistas, jornais, etc.) produzidos pelo Movimento; além destes materiais, lá encontrei também uma pequena coleção de obras referentes à questão agrária brasileira.
Consultar o acervo desta biblioteca era um dos objetivos da visita, o outro era fazer contato com os dirigentes do MST da regional de Ribeirão Preto. No Centro de Formação, conversei com uma das coordenadoras do Movimento e expliquei a ela os objetivos do meu projeto de pesquisa. Ela considerou importante o tema e sugeriu que eu procurasse os coordenadores do Assentamento Mário Lago para que eles também tomassem conhecimento da pesquisa. Ainda em janeiro de 2008, participei, no Centro de Formação, da abertura do curso de técnico em agroecologia que vem sendo desenvolvido pelo MST em parceira com o Colégio Técnico de Campinas (COTUCA), filiado a UNICAMP.
Em março de 2008, consegui um espaço para participar da reunião da Coordenação Geral do Assentamento Mário Lago. Na ocasião, expliquei aos coordenadores os objetivos da pesquisa que eu pretendia desenvolver. Após alguns questionamentos, todos concordaram com a minha presença dentro do assentamento. Ainda neste encontro, levantei informações sobre a agenda de reuniões dos demais setores existentes no Assentamento Mário Lago (setor de saúde, educação, finanças, esporte e lazer, segurança, produção, cultura, entre outros).
Como um dos objetivos do Setor de Produção do MST é discutir os aspectos ambientais dos assentamentos, decidi acompanhar as reuniões semanais realizadas por este setor. Logo na primeira reunião (abril de 2008), percebi que havia uma tensão instalada no assentamento sendo esta derivada da indefinição na demarcação dos lotes. Na opinião da
36 O Centro de Formação Socioagrícola Dom Hélder Câmara foi criado em 2002 por meio de uma parceira entre o MST e a Diocese da Igreja Católica de Ribeirão Preto. Este Centro está localizado no sítio Pau D´Alho e é o principal espaço de formação do Movimento na região, pois possui área para cultivo de hortaliças, espaço para criação de pequenos animais, para realização de palestras, salas de aula, área de lazer, refeitório, dormitório, capela, entre outras benfeitorias.
maioria dos membros do Setor de Produção, a demora na demarcação dos lotes individuais havia chegado ao limite; alguns assentados, inclusive sentiam-se incomodados com a situação de abandono de alguns lotes. Para eles, esta situação só seria resolvida com a demarcação oficial dos lotes.
Inicialmente, eu acreditava que as reuniões do Setor de Produção seriam um espaço privilegiado para acompanhar os debates sobre as questões ambientais do assentamento. No entanto, os membros deste setor ocupavam-se em discutir problemas emergenciais, tais como: a falta de água, as condições das estradas, da ponte, a demora no pagamento dos produtos fornecidos a CONAB, entre outros. Se, por um lado, havia certa decepção por não presenciar discussões sobre as questões ambientais, por outro, eu era recompensado pela riqueza de informações passadas pelos assentados naquelas reuniões. Acompanhando as discussões realizadas no Setor de Produção pude descobrir coisas importantes, entre elas, as experiências desenvolvidas por alguns assentados para solucionar, paliativamente, o problema de acesso a água. Uma destas experiências foi a instalação de uma roda d’água no Núcleo Che Guevara, que, no entanto, não apresentou um bom resultado, pois o desnível do terreno não ficou adequado para instalação correta da roda.
À medida que seguia indefinida a demarcação dos lotes, os membros do Setor de Produção decidiram reunir-se quinzenalmente. Nesta época eu estava empenhado em levantar o número de famílias alocada em cada um dos núcleos do Assentamento Mário Lago. Com o auxílio dos coordenadores, consegui levantar os seguintes números.
Quadro 05 – Número de famílias por Núcleo de Base do Assentamento Mário Lago, em agosto de 2008.
Ordem Núcleo de Base Nº de famílias
01 Antonio Conselheiro 11
02 Celso Furtado 21
03 Che Guevara 14
04 Zumbi dos Palmares 15
05 Frei Tito 10 06 Camilo Torres 08 07 Patativa do Assaré 10 08 Padre Jansen 10 09 Salete Strozaki 14 10 Paulo Freire 08 11 Caio Prado 11 12 Margarida Alves 12 13 Oziel Alves 10 14 Rosa Luxemburgo 10 15 Dom Helder 09 16 Dandara 22 17 Roseli Nunes 20 18 Josué de Castro 22
19 Terra Sem Males 16
20 Manoel Gomes 07
Total37 260
Elaborado pelo autor a partir de anotações no caderno de campo (agosto de 2008).
Em agosto de 2008, o INCRA retomou o processo de organização do Assentamento Mário Lago. A partir deste momento, passei a acompanhar as reuniões e assembléias organizadas, tanto pelo INCRA quanto pela coordenação do assentamento. Como a retomada deste processo se deu sob uma forte polarização entre o INCRA e os dirigentes do MST, ambos foram obrigados a recorrer a Promotoria de Conflitos Fundiários e Meio Ambiente de Ribeirão Preto38. Esta promotoria ocupa um papel central no processo de organização do Assentamento Mário Lago, e ele só pode ser compreendido retomando-se o histórico do
37 Quando o INCRA finalizou o cadastramento, havia no Assentamento Mário Lago um total de 264 famílias. 38 A polarização entre o INCRA e a regional do MST em Ribeirão Preto deve ser entendida numa perspectiva mais ampla, ou seja, ela não emana apenas do processo organizativo do Assentamento Mário Lago, mas sim, da disputa política pelo controle do processo de reforma agrária no território paulista.
processo de desapropriação da Fazenda da Barra. Tarefa que passamos a desenvolver no item seguinte deste capítulo.