UZUN VADELİ YAB
C) Özkaynaklara İlişkin İlkeler
A vontade de José Sampaio foi feita, e ele é nomeado juiz numa comarca de Fortaleza. Gracinha acha que ele agora terá mais liberdade para julgar: “não é Santana, onde a titia lhe botava a faca nos peitos. Fortaleza é uma espécie de Aquiraz grande: aqui ninguém lhe pede favores como juiz, ninguém lhe faz imposições” (CARVALHO, 2001, p. 163). José Sampaio não está tão certo assim pelo fato de ele ainda não ter se envolvido em questões de grandes interesses. Ele já estava aguardando um caso de mandado de segurança relativo a contrabando de automóveis, de uísque e de outras mercadorias valiosas. Sobre esse caso, ele fala “aí sim, eu saberei se o juiz na capital pode julgar com as mãos inteiramente livres” (CARVALHO, 2001, p. 163). No espaço da capital, esperava-se que não houvesse a troca de favores pela ideia que se tem de um lugar onde há mais liberdade de expressão. Os citadinos
estão num espaço de mais oportunidades para as pessoas. É um espaço mais instruído e mais ajustado ao modelo burguês democrático pela própria evolução da informação e dos valores da nova sociedade industrial. No entanto, José Sampaio ainda se mostra inseguro, talvez pelo curso da sua história até o momento e pelo seu modo fatalista e resignado de agir conforme os parâmetros de uma sociedade tradicional e particularista.
Gracinha, às vezes, fala palavras que atingem profundamente o problema de José Sampaio. Ela relembra ao marido episódios de Santana quando ele se entrega totalmente às vontades da tia dela. No episódio das eleições, Gracinha diz que somente quando ficou provado que dona Rosa não tinha eleitores foi que José Sampaio “levantou a voz e falou sério e grosso”. A esposa relata que quando estavam em Aquiraz, não havia necessidade de o marido ser dominado por um coronel. Mesmo trabalhando em Fortaleza, alguns fins de semana, José Sampaio continuava visitando Aquiraz com a família. Eles ficavam em casa de seu amigo Clóvis, a beber algo forte e falar sobre muitos assuntos, entre eles, as boas lembranças de seu trabalho na cidade, pois lá nunca recebeu imposição ou pedido de político. Ele diz “certo ou errado despachei e sentenciei como entendi. Oxalá que, um dia eu possa dizer o mesmo de Fortaleza” (CARVALHO, 2001, p. 172). Porém, logo a vida de José Sampaio voltava à rotina. Os processos, as pesquisas, etc. Em uma tarde, sofreu a primeira desilusão. O presidente da corte o chamou para uma conversa:
− A imprensa está escandalizando a propósito de um caso que ela diz ser de contrabando. Vários automóveis foram apreendidos. A firma acusada é uma das mais tradicionais do estado. Impetraram mandado- de- segurança e pela matéria o juiz é você. Aja com cautela. Não se deixe levar pela opinião da imprensa. Tenho uns acórdãos muito claros a respeito.
O juiz não deu palavra. No ônibus, foi pensando:
− “Só faltou dizer: conceda o mandado. Preferia ser substituto noutra vara menos encrencada”.
No dia seguinte, o cartório mandava levar-lhe a petição.
Já os jornais modificavam a linguagem. E admitiam a hipótese de informações precipitadas.
A segurança foi concedida. O presidente apertou a mão de José: − Li a sentença. Ótima. Bastante clara. Bem fundamentada.
À noite na mesa de pif-paf, o desembargador felicitava o impetrante: − Meus parabéns. Eu não lhe disse que o mandado caia em boas mãos? Narrando o caso à esposa, Gracinha advertiu:
− Tenha cuidado com esses elogios. Tenha cuidado com esses pedidos por meias palavras.
E, realista:
− Tanto faz um pedido assim como uma ordem da minha tia. Afinal de contas, um pedido do presidente da corte para um juiz novo, que precisa dele, não é o mesmo que uma ordem?
José Sampaio sentia-se fraco e sem força para questionar o sistema político da sociedade vigente. A organização política da época era forte o bastante para manter os grupos a seu favor. Um sistema social amparado pelo código da tradição que continuava na prática. Os discursos eram democráticos, mas continuavam os acórdãos, os apadrinhamentos, os favores, enfim, toda sorte de relações sociais advindas de um passado conservador carregado de vícios.
Para completar esse quadro desfavorável do espaço social representado, ressurge mais uma vez a seca, espalhando a cor cinza pelo sertão afora e trazendo a mendicância e a indiferença dos “donos do poder”. Os retirantes ficavam ao redor das cidades servidas por estradas de rodagem. Eles faziam pequenos serviços, pediam esmolas, saqueavam mercados públicos, entre outros atos. Os jornais noticiavam que “paus-de-arara” saíam de Crato, Juazeiro, Jaguaribe e Campo Sales levando os cearenses como mercadoria humana a ser vendida no Sul do País, e o governo não agia ao saber dos deslocamentos indevidos. Tardavam os serviços federais. “Em Fortaleza, a Hospedaria Getúlio Vargas recebia as primeiras levas de flagelados. Para Amazônia? Para São Paulo, para o Norte do Paraná?” (CARVALHO, 2001, p. 173-174). Tardiamente, chega ajuda federal por meio dos serviços de emergência. Nesses serviços, eram construídos açudes e rodovias. Paralela ao trabalho havia a exploração dos fornecimentos aos flagelados. Os comerciantes vendiam-lhes feijão, jabá e farinha por preços astronômicos. Sobre esse vergonhoso ato, surgiram as denúncias nos jornais. Leiamos um trecho que mostra uma nova faceta da seca e da sua maior vítima, o flagelado no sertão e na cidade, motivo, novamente exposto pelo autor, agora numa nova visão:
[...] Veio a primeira Dama. Descida rápida na construção de “Pentecoste”. Fotografias para os jornais do Rio e São Paulo. Ao retornar ao avião, a comitiva deixava tudo como encontrara: a mesma exploração nos “fornecimentos”, a mesma fome, a mesma nudez, o mesmo ritmo lento de trabalho. [...] A fome dos flagelados produzia os primeiros frutos de ouro: a construção de ricos bangalôs na Aldeota, cadilaques à porta dos clubes elegantes, viagens aos Estados Unidos, ao Rio de Janeiro e a Buenos Aires. [...]. (CARVALHO, 2001, p. 175-176).
Fortaleza crescia em casas de luxo, terrenos reservados para a classe média, os pobres iam afastando-se para lugares mais distantes do centro da cidade. Sobre os últimos, muitos eram oriundos do êxodo para a capital na fuga da seca. Os despejados de terrenos que diziam serem públicos recorriam aos jornais de Fortaleza, e havia alguns movimentos de defesa, puxados por comunistas, porém tinham-se infiltrado alguns advogados inescrupulosos, “esses acendiam a tocha da reação, porém tinham o cuidado de exigir dinheiro dos
desgraçados para o necessário e urgente procedimento judicial. Sabiam que nada conseguiam na justiça e da justiça” (CARVALHO, 2001, p. 176). Assim, Carvalho mostra a forma inescrupulosa dos advogados de se aproveitarem da miséria do despejado para ganhar dinheiro.
No caso do português contrabandista, sem proteção política que teve seu iate vindo das Guianas cheio de uísque e preso pela alfândega, o presidente da corte advertiu a José Sampaio que não havia firmas tradicionais interessadas no negócio de uísque, sinal de que era realmente contrabando. Acima vemos uma ironia, recurso estilístico frequente na narrativa de Carvalho e é clara nesse trecho em que mostramos a mobilidade dos conceitos legais manipulados de acordo com os interesses particulares dos envolvidos. Outro exemplo, também ligado ao mesmo episódio, encontramos no diálogo entre Gracinha e José Sampaio, quando esse confirma que o caso, a exemplo de outro, se trata de contrabando e mereceu dele o mandado de segurança por interesse do presidente da corte de justiça. Na conversa com a esposa, ele diz convicto: “estou falando alto pra fugir a recalques. Li no Freud que é um perigo a gente esconder a culpa. A gente precisa dizer a verdade, seja a quem for. Estou me confessando a você, que é minha mulher e minha amiga” (CARVALHO, 2001, p. 181). Gracinha escuta o marido, mas não sem uma crítica. Por isso, na narrativa vemos que seus questionamentos são importantes para fazê-lo refletir sobre suas ações e também para deixar clara para o leitor a condenação ao procedimento do juiz. Porém, o fato de que não há saída para ele não quer dizer que ele não tenha culpa.
Em certo momento de conversa com o marido, Gracinha, ao olhar para os livros de direito de José Sampaio, pergunta a ele se aqueles livros azuis que ele sempre consulta não o ajudam no julgamento dos casos. José Sampaio então confidencia:
− Quase tudo é jurisprudência da corte. Coisa terra-a-terra. Já não existem grandes juízes. Os julgamentos são apressados. Os acórdãos não revelam cultura. Repetem- se dolorosamente. Você sabe o que é um saco vazio, minha filha? Pois os acórdãos da nossa corte não passam de sacos vazios. Na presença dos desembargadores, é claro que eu não falo assim. Pelo contrário: acho tudo exato, justo, luminosos. − Tu és um hipócrita, meu marido! – reprovou a mulher, balançando a cabeça. − É a vida. Terei de chegar a juiz-de-direito efetivo. Depois preciso sentar-me na corte. E não é com independência que um pobre diabo, como eu, sentaria a bunda numa daquelas venerandas cadeiras. (CARVALHO, 2001, p. 182-183).
José Sampaio deixa clara a rotina da corte, afirma à esposa que tudo é um faz de conta, os julgamentos não têm consistência judiciária, são pautados pelas vontades dos governos. Gracinha já não era mais aquela moça ingênua e matuta de Santana do Cariri. Ela reage à resignação do marido e chega ao ponto de chamá-lo de hipócrita. Ela cresce ao longo
da narrativa e agora se interessa pelos problemas da cidade, em destaque os que afetavam a vida das famílias. E seu espírito não aceitava o fato de candidatos a deputados gastarem milhões de cruzeiros com eleitores, sabendo-se que, no total de quatro anos, não se ganhava nem um quinto dessas despesas. Outro fato para o qual ela queria uma explicação lógica era o despejo dos pobres com a derrubada das favelas. Ela questionava que, em toda parte, havia pobres e ricos e que ainda não conhecera uma separação dessas classes. Gracinha cita vários exemplos, defendendo a sua posição ideológica e, finalmente, pede explicação ao marido. José Sampaio diz que toda cidade grande é assim e tenta esclarecer, mas a esposa conclui que a ação dos despejos é injusta. Apesar da argumentação da esposa, José Sampaio retruca:
− Existe a lei, minha filha. A lei garante e protege a propriedade privada. A justiça para julgar bem, não é representada por uma deusa com venda nos olhos?
A esposa não se contentava de todo:
Na última campanha eleitoral, os candidatos a prefeitura não prometeram mundos e fundos aos pobres ameaçados de despejo?
− Prometeram, sim.
− E por que não cumprem? Os jornais por que não defendem a pobreza? (CARVALHO, 2001, p. 188-189).
Mais uma vez o autor critica e questiona a parcialidade da justiça. O juiz defende a instituição judiciária perante a esposa e justifica que a lei é a lei e a mesma existe também para defender a propriedade privada. A resposta de José Sampaio ignora, no entanto, os despejados que, segundo Gracinha, tinham recebido promessas de políticos nas últimas eleições de que não seriam afugentados de suas moradias, no entanto, a promessa não foi cumprida.
Surge um novo escândalo: um alto comerciante e político é surpreendido realizando uma vultosa importação clandestina de linhos. Doutor José Sampaio, ao ler a notícia nos jornais, fala:
− Virá, na certa um mandado –de- segurança. Com franqueza: eu me sentia muito mais feliz em Aquiraz.
Gracinha ironizou:
− Se vier, será concedido. Firma tradicional e conceituada se meteria em falsificação de documentos? Garanto como o presidente da corte tem o mesmo pensamento... − Você, Gracinha, está avançando o sinal – admoestou o marido − não lhe conto mais nada. (CARVALHO, 2001, p. 189).
Enfim, não foi dado o mandado de segurança, e as medidas judiciais, solicitadas pelo Banco do Brasil não surtiram efeito. Finalmente, o contrabandista, “foi cantado em prosa candente como o ‘ladrão tropical’. Ele ficou mais rico, mais forte, mais glorioso”. É
interessante a ironia do autor, por meio da personagem Gracinha, quando esta diz que deve tratar-se de firma tradicional e, como a mesma não se meteria em falsificação de documentos, deveria, portanto, receber o mandado de segurança. José Sampaio ofende-se com a ousadia de Gracinha em falar a verdade.
Os políticos manipulavam a imprensa para que ela fosse parcial, representando e defendendo as decisões deles. Por outro lado, o doutor José Sampaio vivia um desconforto interno, provocado pela sua consciência que o incomodava após ele tomar decisões injustas, negando a justiça a quem merecia. Esse desconforto serve para criar uma consciência interna à narrativa, que condena aquele comportamento, e denuncia, ao mesmo tempo, que esse é o único meio que ele encontra para subir na carreira judiciária.