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Com O futuro de uma ilusão, livro escrito em 1927, Freud retoma os estudos sobre a cultura, e assim volta refletir a religião como ponto de origem da sociedade humana, em cujo centro está a figura do Pai. Todavia, ele esclarece que a rigor, as suas investigações psicanalíticas não vão abordar o tema da religião propriamente, mas a sua necessidade premente na cultura. De fato, a obra O futuro de uma ilusão é uma tentativa freudiana de responder de onde adveio o sentimento religioso a que se aferra determinado conjunto de homens.

De certa maneira, a interrogação sobre a necessidade humana da religião já se prenunciara em textos anteriores. Em Totem e tabu, de 1913, percebera que as religiões, ou os sentimentos religiosos constituíram as formas primordiais de laço social humano, baseando-se sobremaneira em leis extremamente severas, que eram naturalmente acompanhadas de punições impiedosas; deixando entrever, segundo Freud, quão intenso devia ser o desejo proibido. Com os progressos alcançados pela cultura e pela civilização, a religião tornou-se mais simbólica.

Desse modo, o seu poder coercitivo sobre os homens, outrora realizado fisicamente, passou a operar segundo o retorno do recalcado, despertando o sentimento de culpa relativo ao desejo sexual infantil, que implicou em dois crimes: parricídio e o incesto. Assim, tornou- se hábito das religiões recordar, através de rituais simbólicos, o assassinato do pai.

Durante toda a construção do texto, Freud estabelece um diálogo franco e aberto com um interlocutor anônimo que segundo Roudinesco, era certamente o pastor suíço Oscar Pfister, com quem teve, durante os anos de 1909 até 1939, um longo e cordial diálogo envolvendo o tema psicanálise e religião. Na carta de 16 de outubro de 1927, Freud declara a Pfister sua hesitação em publicar a obra.

Nas próximas semanas sairá uma brochura de minha autoria que tem muito que ver com o senhor. Eu já a teria escrito há tempo, mas adiei-a em

consideração ao senhor, até que a pressão ficou mais forte. Ela trata – fácil de adivinhar da minha posição totalmente contrária à religião – em todas as formas e diluições e, mesmo que isso não seja novidade para o senhor, eu temia e ainda temo que uma declaração pública lhe seja constrangedora (FREUD, Ernest e MENG, Heinrich, 1998, p. 146).

Um ano depois, o inventor da psicanálise se depara com o refinamento intelectual do amigo Pfister quando este publica o livro intitulado A ilusão de um futuro, uma espécie de contraponto às concepções freudianas sobre a religião. Assim, no dia 21 de outubro ele responde a Freud com as seguintes palavras:

No tocante à sua brochura contra a religião, sua rejeição à religião não me traz nada de novo. Eu a aguardo com alegre interesse. Um adversário de grande capacidade intelectual é mais útil à religião que mil adeptos inúteis. Não poderia imaginar que uma declaração pública sua me pudesse melindrar; sempre achei que cada um deve dizer sua opinião honesta de modo claro e audível (FREUD, Ernest e MENG, Heinrich, 1998, p. 147).

Freud parecia viver no encalço do problema da religião. O que o inventor da psicanálise procurava saber? Certamente uma resposta plausível seria o „que é o pai‟, sobretudo se nos apoiarmos na ideia de que foram os estudos clínicos psicanalíticos, os primeiros a apontar a centralidade da figura paterna no processo de subjetivação do sujeito. E extensão das descobertas psicanalíticas aos fenômenos da cultura só vieram a reforçar o pai como fundamento do que constitui o sujeito humano. O que no sentido psicanalítico, significa o sujeito do inconsciente, da divisão psíquica, marcado pela falta, portanto.

Não há dúvidas de que o mestre de Viena tinha em mente o objetivo de dar inteligibilidade aos fios de ligação entre a origem dos sentimentos religiosos, o pai e a experiência do inconsciente. Se pertinente tal articulação, ela mostraria com maior clareza a sua tese de que as bases psíquicas sobre as quais se ergue a cultura são as mesmas que constituem a psique do indivíduo.

A noção de pai em psicanalise tem uma definição que lhe é bastante peculiar, não tem o sentido que é dado pela realidade comum, relacionado a um homem de carne e osso. Como esclarece Joel Door, o pai enquanto um conceito psicanalítico é um operador simbólico a-histórico, de caráter universal, que estrutura nosso ordenamento psíquico na qualidade de sujeitos (DOOR, 1991, p 14). Sujeitos que falam e como seres falantes, estamos remetidos à referência paterna que

implica a submissão à lei de proibição do incesto e possibilita encontrarmos um lugar no mundo.

Sobre esse assunto, Peter Gay (2012) lembra que, por essa época, grandes pensadores, além de Freud, também tomaram a religião como objeto de análise científica. Afirma que Max Weber, fundador da sociologia alemã, por exemplo, em A ética do protestantismo e o espírito do capitalismo, livro publicado nos anos 1904-05, “identificou que certas seitas religiosas, principalmente os protestantes ascéticos, um estilo mental favorável ao capitalismo”. O notável sociólogo francês Émile Durkeim, por sua vez, “tratou as crenças religiosas como expressões da organização social”, tendo em vista separar a sociologia da psicologia (GAY, 2012, p.531).

Contudo, salienta Gay, a abordagem de ambos os autores pareciam situar a religião no campo das organizações sociais, sem indicar consequências teórico- conceituais específicas para o entendimento da cultura humana. Enquanto em Freud, desde o início, o empreendimento de investigar a temática da religião trazia em seu interior o objetivo de refletir a gênese e os impasses da cultura. Por isso, ele não deixou de pontuar a relação paradoxal entre a religião e a gênese da sociedade humana. De um lado, o mestre de Viena sabia desde o Totem e tabu, que a religião é o fundamento primordial da cultura.

Através dela teriam sido instituídas relações necessárias de fraternidade entre os homens através sobremaneira do mandamento bíblico “Não matarás!”, decorrente da lei de proibição do incesto. O ódio ao pai que resultou no seu assassinato reuniu os filhos, tomados pelo sentimento de culpa, e instaurou os laços de fraternidade entre os irmãos. Desse modo, assevera que nas culturas primitivas o totem (em geral, um animal) nada mais seria que o substituto do pai da realidade, pelo Pai totêmico, simbolizado como um pai temido e amado.

Posteriormente com a civilização, o totem foi substituído pela figura de Deus, porém agora marcada por caracteres humanos. Em essência, o pai da religião não se difere do pai totêmico por amar e proteger os filhos igualmente e assim os retira do estado de desamparo, promovido pelas determinações adversas da natureza (catástrofes ambientais, envelhecimento, frustações amorosas). Desse ponto de vista, a civilização aparece como um porto seguro, uma forma de beneficio para a estabilidade de uma vida em comum entre os homens. Todavia, a mesma

civilização é uma fonte rica de descontentamento humano. Por meio dela, cada homem que nasce experimenta o dessabor de ter que renunciar a satisfação advinda das pulsões sexuais (eróticas e de agressividade) e do narcisismo.

Desse modo, o apelo a Deus nada mais seria que uma via de retomada da relação com o pai morto (aquele que tudo sabe, pode e ver tudo) e que por isso manteria cada homem sob o seu julgo em troca de amor e proteção. Nesse caso, o preceito de onipotência atribuída a Deus não refletiria nada mais do que a imagem do pai de uma criança que outrora o via dotado de superpoderes, causador de medo e de admiração.

Enquanto substituto do pai morto, Deus reinscreve na vida de cada sujeito o drama do complexo de Édipo, atualizando, por conseguinte, a dialética do amor e ódio da relação com o pai. Assim, ele evoca tanto a proibição quanto a realização do desejo proibido. Nessa direção, Freud ver a religião como um passo imprescindível na elevação do homem em sua condição animal. E isso por razão aparentemente simples. Acredita que a religião, em conjunto com as artes e as ciências, alcançaria certo sucesso com o desenvolvimento cultural, ao oferecer aos homens novas formas de satisfação pulsional.

Porém, logo esse pensamento cai em descrédito por que sabe que as promessas religiosas se apoiam no infantilismo humano. A noção de Deus, que partiu de ideais, acaba por indicar que pode dar à humanidade o que ela mesma não pode dar a si mesma: a felicidade plena. E assim a preenche de ilusões, impedindo que veja a vida de forma adulta.

Segundo Freud, as ilusões religiosas são prejudiciais à cultura ao se desacompanhar dos progressos realizados pela ciência, mas mais particularmente às ciências sociais. No tocante à ciência da psicanálise, caberia enxergar as aproximações das práticas religiosas com as neuroses, como a neurose obsessiva, que traz em seu funcionamento as mesmas problemáticas da religião: sentimento de culpa, autoflagelação, expiação, comportamentos ritualísticos, sentimentos ambivalentes para com o pai, etc.

Ainda desse ponto de vista, revela que a constituição de uma consciência moral, que atua como um agente crítico no interior do eu do neurótico obsessivo, chamado de supereu12, é resultante da internalização da lei paterna. E afirma que a

formação do supereu (uma modificação do eu) importa muito para a evolução da psicologia individual, no sentido de colocar em cena a relação de oposição entre o eu e a sexualidade e para a psicologia social, funcionamento como uma âncora, na qual poderiam se agarrar as medidas culturais de coerção.

Vale lembrar que, na verdade, a noção de sentimento inconsciente de culpa apareceu, pela primeira vez, no texto Atos obsessivos e práticas religiosas, escrito em 1907. Ali Freud antecipa vários aspectos relacionados à cultura, colocando em jogo a problemática da identificação do filho com o pai. Observa que os cerimoniais que marcam as religiões compõem a natureza das neuroses obsessivas, mantendo o sujeito afastado das tentações que o perturbam, gerando ansiedade.

O neurótico obsessivo se ver amarrado a certos comportamentos, como rituais, ainda que não tenha qualquer conhecimento do que o faz obedecer religiosamente a eles. Em suma, o sentimento inconsciente de culpa que aparece ano neurótico obsessivo é para Freud, o mesmo que um dia teria fundado a religião, exprimindo contraditoriamente o amor pelo pai assassinado de um lado, e por outro, sinalizando que o pai assassinado e a lei da qual era representante fez-se mais viva do que nunca.

Freud considera que o caráter conservador das religiões tem por efeito o prolongamento do infantilismo humano, um dos componentes centrais da psicopatologia da humanidade. Do ponto de vista individual, manteria o sujeito criança suscetível a superstições desnecessárias frente à realidade do mundo vigente, no qual a ciência já se mostrara muito mais útil e triunfante. Mesmo como um bom herdeiro do Iluminismo que era, Freud não se deixou cooptar pelas ilusões da ciência moderna, a ciência a que Freud se refere certamente não é a ciência positiva (como a de Emile Durkheim, por exemplo), e sim a ciência psicanalítica.

Freud acreditava que as descobertas psicanalíticas poderiam servir de alguma maneira à humanidade, não para lhe ensinar a viver melhor, mas para encontrar um destino mais próspero do que as culturas anteriores puderam dar aos homens. O Futuro de uma ilusão não é portanto apenas uma crítica aos efeitos da religião no mundo atual, que segundo ele, retardavam ou mesmo impediam a evolução do homem, tem abrangência maior, pois se recusa a olhar para a cultura com as lentes da utopia.

Sabendo que as ilusões da religião, não diferiam em essência daquelas das instituições totalitárias (Igreja e Exercito), o inventor da psicanalise estava atento os comportamentos narcísicos e regressivos que engendravam, tornando mortíferas as relações entre os homens sobrepujados pelo ódio à diferença.

Freud considera a religião como um fenômeno de alienação dos homens, evocando a ideia de Marx de que a religião é o ópio do povo, por isso sua visão crítica da religião segue em direção à cultura, de modo mais geral. Depois traz a lume a existência de um saber não-sabido, o inconsciente; Freud decide não separar os termos cultura e civilização, adotando o entendimento de que a

[...] [...] dimensão material da vida social (civilização)e a dimensão espiritual das instituições humanas (cultura), articuladas entre si, designam a cultura humana como a interioridade de uma situação individual – manifesta nos impulsos que vem desde dentro do sujeito – e a exterioridade de um código universal, subjacente aos processos de subjetivação e aos regulamentos das ações do sujeito com o outro (FUKS, 2003, p.10).

Freud começa o texto O futuro de uma ilusão, afirmando que a cultura humana abarca, de um lado, todo saber e capacidade que os homens adquiriram para dominar as forças da natureza e utilizá-la em beneficio próprio e, de outro lado, todas as normas necessárias para regular os vínculos recíprocos entre os homens. Essas duas direções não se dão separadamente, mas antes se determinam reciprocamente, pois o laço social é profundamente atravessado pela satisfação da pulsão que os bens existentes podem proporcionar.

Além disso, indica que o homem pode ser tomado pelo outro como fonte de riqueza, uma vez que venha a ser explorado enquanto força de trabalho, ou então como objeto sexual. E ainda sublinha o fato de que todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização (FREUD, 1988, p.16, vol. XXI) porque a vida comunitária exige-lhe sacrifícios, ligados à diminuição da satisfação pulsional, aos quais, via de regra, não está disposto a se submeter. Ao contrário, é despertado nele, impulsos hostis contra a cultura.

Por conta disso, a cultura viu-se diante da tarefa de se defender contra o ódio humano, criando instituições, leis e regulamentos para a sua proteção. Homem e cultura se separam e ficam em lados opostos, apresentando interesses divergentes. Enquanto esta segue em direção à manutenção dos ideais da vida social, aquele reclama para si a satisfação sexual perdida, ao ponto de tornar-se

capaz de destruir as próprias conquistas, alcançadas pela riqueza, ciência e tecnologia.

O paradoxo que se apresenta no confronto do homem com a cultura diz respeito ao confronto com o impossível da satisfação pulsional, uma vez anuncia que jamais a satisfação almejada vai ser igual à satisfação obtida. Essa diferença foi o preço do ingresso na cultura, remetendo-se a inscrição do humano no universo da representação e do desejo sexual. Desse modo, a problemática da cultura em Freud não se amarra a uma questão de qualidade, no sentido de uma cultura melhor, menos repressora ou mais democrática. Ou como ele mesmo diz: a insatisfação humana com a cultura não tem a ver com as suas supostas imperfeições. Na verdade, está relacionada com os trabalhos que implica, sendo o destino do ódio, provavelmente o mais difícil porque enquanto pulsão sua força é indestrutível.

Nesse caso, o trabalho da cultura (Kulturarbeit), envolveria três processos, segundo Freud: a frustração, que diz respeito à impossibilidade da satisfação da pulsão sexual; a proibição, referida ao regulamento através do qual a frustração foi estabelecida e por último, a privação, resultante da proibição. Em conjunto, eles implicam em renúncia à satisfação da pulsão sexual e no afastamento dos objetos libidinais primordiais (os pais), aos quais estava ligada inicialmente.

Tal afastamento resultou no trabalho de criar novos destinos para a pulsão sexual, para assim contornar o impossível da satisfação posto pela cultura. Daí, a invenção da religião, da educação, das artes e da ciência, formas de fazer borda à ao vácuo que se instituiu entre a sexualidade e os ideais culturais.

A religião, segundo Freud, foi a primeira que reivindicou para si a retificação das imperfeições culturais, projetando um mundo humano idealizado, bem distante das agruras da vida real. Não gozou de nenhum privilégio quanto à sua gênese. Ela surgiu da necessidade igual a das outras realizações do homem civilizado, a de se defender contra a força esmagadora superior da natureza (FREUD, 1988, p.30, vol. XXI).

Suas raízes podiam ser encontradas no início da vida psíquica, onde as ilusões sobre o mundo são proeminentes e os aspectos da realidade, pouco são considerados em virtude da condição do juízo de julgamento da consciência que ainda não está estabelecido no sujeito.

Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção – de proteção através do amor – a

qual, foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se á existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das exigências de justiça que com tanta frequência permaneceram irrealizadas na civilização humana. (FREUD, 1988, p.39, vol. XXI).

Os estudos psicanalíticos mostraram assim que o homem primitivo, a criança e o neurótico apresentavam as mesmas problemáticas da vida psíquica em seus primórdios: consideravam-se desamparados e ameaçados por forças do além, necessitados da proteção paterna, o que supostamente os livrariam de todo o mal na terra. Por outro lado, eram também tomados por capacidades extraordinárias de onipotência, fazendo o mundo girar ao seu redor. Tais construções psíquicas apoiavam-se em ilusões, remetidas ao desejo humano mais arcaico, diz Freud, e por isso não poderiam constituir um erro propriamente dito no futuro.

A esse respeito, menciona o caso de Colombo que achava que tinha descoberta as Índias, e também cita a crença de Aristóteles que atribuía ao esterco o nascimento dos insetos, o que se aproximaria dos delírios psiquiátricos. Por isso, chega à conclusão de que as ilusões religiosas não passam de uma construção inconsciente. Enquanto formação do inconsciente, as ilusões religiosas não compreendem realidade divina, sobre-humana, explicável por si mesma.

Desse modo, o inventor da psicanálise via com desconfiança a educação religiosa e por isso não era a favor que as crianças fossem imediatamente submetidas à ela, uma vez que poderiam se ver impedidas de encarar a realidade no futuro como maior disposição e espírito crítico, deixando para trás a tarefa de fazer avançar a cultura.

No sentido freudiano, o trabalho da cultura não pode ser senão o de permitir ao homem o encontro com o desejo sexual, com o ódio e com a realidade traumática que o fez tornar-se humano, um ser de linguagem. De outra forma, seria permitir sua captura por discursividades ideológicas de cunho religioso, e também político e científico. Por conta disso, a ética da psicanálise está centrada no desejo, e não se dispõe a oferecer ilusões de felicidade e harmonia, se opondo assim a uma ética que pressupõe ter o saber sobre o que deve ser o bem para o sujeito.