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As representações sociais são tomadas, na perspectiva moscoviciana, como um processo social e se distinguem, assim, de uma mera noção subjetiva e individual. Este conceito, entretanto, não implica consensos simples entre os pesquisadores. É, contudo, esse caráter social que apresenta o mais alto grau de acordo entre eles. As representações sociais afirmam-se como um saber sobre o real socialmente elaborado e compartilhado, como consta da clássica definição de Jodelet (2001). No estudo que funda esta teoria, Moscovici (1989) alerta para a importância da construção social que permeia as manifestações discursivas dos sujeitos, não apenas sobre os outros, mas incluindo a si mesmos. De acordo com esse autor, sentimentos e ações resultam de representações produzidas nos diferentes contextos sociais nos quais se inserem. É particularmente por esta razão que a teoria das representações sociais reveste-se de grande importância para o estudo da reconstrução identitária do professorado envolvido: por suscitar uma melhor apreensão dos significados discursivos e por sua condição social de existência. Evita-se, deste modo, uma abordagem tradicional desse objeto, voltada para o eu, supervalorizando a dimensão pessoal, individual e cognitivamente elaborada da identidade, ao mesmo tempo em que o social, tão pouco, é tomado como uma estrutura definitiva, mas como um processo do fazer humano, sempre em construção. Moscovici vem enfatizando a íntima ligação entre o individual e o social, concebidos complementarmente, e não de maneiras opostas. Neste

sentido, aponta para “[...] a necessidade de fazer da representação uma passarela entre os mundos individual e social” assim como de associá-la, em seguida, à idéia de uma “[...] sociedade em transformação” (MOSCOVICI, 2001 p. 62 ). Objetiva-se, com isso, apreender nas representações não apenas as regularidades, as continuidades das coisas, mas também o seu desmanchamento, as rupturas e as mudanças. Como afirma este autor, o que nos interessa sobremaneira, é “[...] não mais uma vida social já feita, mas uma vida social em vias de se fazer” (MOSCOVICI, 2001 p. 62)55.

Neste sentido é que se insere a importância aqui atribuída ao estudo das representações sociais do professorado em tela, sobre o ser professor/a, consistindo em não tomar como algo pronto e acabado, em encontrar nesta teoria os elementos que configuram essas identidades em construção, pois a identidade de um grupo, como assinala Domingos Sobrinho (1998, p.120), “[...] é condicionada por uma oposição e suscita a elaboração de representações sobre os diferentes objetos que ocasionaram essa oposição”. Ou seja, a representação social, enquanto conhecimento capaz de guiar a prática é encarada como uma invenção lingüística, social e histórica. Assim, as representações sociais são tomadas como construções teóricas, cujas estruturas simbólicas são indissociáveis das produções históricas e culturais mais amplas. Contudo, a possibilidade de mudança que a envolve, por sua dimensão histórica, possui

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O autor insere aqui uma preocupação próxima da perspectiva construcionista, a partir da qual coloca como a finalidade do estudo das representações sociais não apenas a identificação do permanente, da continuidade, mas identificar o que muda ou o que está em vias de transformação. Esta é também a preocupação de Wagner (1996), ao se opor a uma idéia estática de representação, atestando a íntima relação entre representação e seu objeto, compreendendo que esta se constrói juntamente com seu objeto, posicionando-se contrário à representação do objeto.

elementos reativos, detendo certa “[...] espessura social”, como define Sá (1998, p. 62).

Reafirma-se neste estudo o objetivo de delinear as representações sociais sobre as identidades de um grupo social particular – o professorado polivalente que se encontra em situação de investimento em sua profissionalização -, procurando, encontrar, portanto, a partir desta teoria, os elementos que configuram suas identidades em construção.

A dinâmica da identidade profissional está articulada aos diferentes períodos históricos, demarcados não só por movimentos

mais amplos, como o referido momento do requerimento da especificidade do magistério, ou, mais adiante, a um novo movimento de

reintegração a uma categoria mais ampla, definida pelo movimento docente como trabalhadores em educação. Ao lado desses movimentos,

outras marcas mais sutis e menos perceptíveis permeiam essa construção identitária, como aquelas que envolvem os nexos da relação

saber/poder, além de questões que se articulam com o seu cotidiano, como aquelas que se referem a gênero, raça, etnia, ou sexualidade entre

outras.

Assinala-se ainda que não se tomou aqui por enfoque a teoria das representações sociais como objeto principal de estudo, mas como instrumento fundamental para a apreensão das estruturas estruturadas e estruturantes, assinaladas por Bourdieu (1983), presentes no habitus. Constituindo-se numa matriz geradora da ação, o habitus atravessa os discursos e as práticas do professorado envolvido, assomando nos elementos que configuram suas identidades. Considera- se esta noção bourdesiana de habitus primordial ao entendimento das disposições mais permanentes da organização identitária, por ele indicado como “[...] um sistema de disposições duráveis”. Esclarece, ainda, este autor que o habitus deve ser tomado como um “[...] princípio gerador e estruturador das práticas e representações, sem ser, simplesmente,“[...]o produto de obediência a regras” (BOURDIEU, 1983, p. 60-1).De modo que as representações sociais têm no

habitus a sua face mais solidamente instalada, culturalmente amalgamada na história de um

grupo social. Esta não pode ser desconsiderada, sobretudo por incorrer na construção identitária de um grupo social, cuja configuração repousa nas representações sociais.Como também não

pode ser desconsiderado no estudo das representações sociais de um certo grupo, o sentido da transformação que as encerram, por se tratarem de construções sociais e históricas.

Em suma, as representações sociais são aqui consideradas como decorrentes de um processo histórico e social de uma dada realidade, sendo, portanto, sempre uma produção discursiva, cujos processos de significação estão profundamente ancorados nas relações de poder gestadas no campo social. Trata-se de um processo que tem por efeito a intervenção social, cumprindo, assim, a sua vocação de organizar e dirigir a ação e as condutas em um dado campo social.

Benzer Belgeler