Entender o sistema de coleta seletiva no estado cearense exige um olhar para a dinâmica do Brasil e da Região Nordeste. Necessita-se de uma tomada de decisão dos poderes públicos, estes precisam ter como prioridade na agenda do planejamento urbano um gerenciamento efetivo de resíduos.
Relembrando, vale a pena destacar que na Região Nordeste, no intervalo entre 2011 e 2012, a coleta de resíduos teve um aumento de 2,4%, enquanto a geração dos mesmos cresceu menos, 1,4% inclusive esses valores são superiores
ao crescimento demográfico estadual (ABRELPE, 2012).
Assim,registrou–semenorgeraçãoemaiorcoleta,enquantodadosanteriores
atestam que houve ampliação dos serviços de limpeza pública. Todavia a disposição desses resíduos aindacontinuasendooslixões(65%) ou aterros controlados (35%). Em algumas cidades do estado foram instalados aterros sanitários mais de acordo comum diagnóstico, estes passaram a ser aterros controlados e/ou lixões.
Conforme o diretor da ABRELPE, em entrevista ao Diário do Nordeste, dada no dia 21 de setembro de 2013, a região Nordeste tem o maior déficit de destinação de resíduos no Brasil e se faz necessário efetivar urgentes mudanças nesse cenário. Ele ressaltou ainda que Fortalezaéacapital que mais coleta resíduos no nordeste; são 4.380 toneladas por dia para uma população de 2,5 milhões de habitantes, uma média per capita de quase 2kg/dia.
A população residente no Brasil em 1970 era de 93.134.846 e em 2010 passou para 190.732.694 demonstrando assim, seu ritmo acelerado de crescimento. O estado do Ceará não foge a essa realidade. Em 1970 tinha uma população de 4.361.603 e em 2010 de 8.448.055 habitantes, ou seja, nos 40 anos quase duplicou a população cearense.
Quando se compara a população brasileira com a do Ceará, no intervalo de 1970 a 2010, constata-se uma variação em percentagem de 4,68% em 1970 para 4,43%, demonstrando assim uma diminuição relativa da população se comparada ao total nacional. Já a população do Ceará com relação ao Nordeste brasileiro, no mesmo intervalo de tempo, observa-se uma diminuição nos anos 1970, 1980 e 1991 e volta a crescer no período de 2000 até 2010 (Tabela 5).
Tabela 5 – População residente: Ceará, Nordeste e Brasil (1970-2010)
REGIÃO POPULAÇÃO RESIDENTE
1970 1980 1991 2000 2010 Brasil 93.134.846 119.011.052 146.825.475 169.799.170 190.732.694 Nordeste 28.111.551 34.815.439 42.497.540 47.741.711 53.078.137 Ceará 4.361.603 5.288.429 6.366.647 7.430.661 8.448.055 CE/NE (%) 15,52 15,19 14,98 15,56 15,92 CE/BR (%) 4,68 4,44 4,34 4,38 4,43 Fonte: IBGE (2010).
Atualmente, o Ceará está buscando a universalização dos serviços de coleta regular de resíduos. Dados de 2012 mostram que, no estado, há uma coleta per capita de 1,098kg de resíduos sólidos urbanos, pouco menor que a per capita do Brasil, que é de 1,107, e maior que a do nordeste brasileiro, de 1,014 (ABRELPE/ IBGE,2012). Mas não basta ampliar os serviços de coleta, é necessária uma tomada de decisão para diminuir a quantidade dos resíduos gerados. A coleta supera 1kg por habitante dia, isso pode representar o consumismo da sociedade moderna e, o agravante é que, grande quantidade destes resíduos são jogados no solo, contaminando e poluindo área do território cearense.
A afirmação é evidenciada quando se verifica que entre os nove estados nordestinos, o Ceará está em segundo lugar na geração de resíduos, com 9.060 ton/dia, perdendo apenas para a Bahia, com 13.620 ton./dia. Quanto à coleta, o Estado fica em terceiro lugar no nordeste, com 7.106 ton./dia, quantia inferior à coletada nos estados da Bahia, de 10.754 ton./dia, e Pernambuco, com 7.118 ton./dia. Na região Nordeste, o serviço de coleta de RSU vem crescendo no intervalo de 2011 a 2012 (Tabela 6).
Tabela 6 – Geração e coleta de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) no Nordeste brasileiro
ESTADOS POPULAÇÃO URBANA RSU GERADOS (ton./dia) RSU COLETADO (ton./dia)
2011 2012 2011 2012 2011 2012 Bahia 10.171.489 10.241.337 13.509 13.620 10.623 10.754 Pernambuco 7.106.060 7.159.178 8.336 8.471 6.942 7.118 Ceará 6.411.067 6.471.917 9.011 9.060 6.998 7.106 Maranhão 4.193.266 4.238.099 6.642 6.754 3.911 4.061 Paraíba 2.859.893 2.880.280 3.324 3.405 2.660 2.754 Rio G. do Norte 2.490.496 2.514.779 2.728 2.795 2.349 2.432 Alagoas 2.317.116 2.336.035 2.729 2.807 2.233 2.299 Piauí 2.066.703 2.081.271 2.998 3.033 1.947 2.011 Sergipe 1.538.073 1.554.854 1.685 1.744 1.429 1.486
Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados da ABRELPE (2012).
A expansão dos serviços de limpeza urbana do Ceará, com a coleta em período regular de resíduos, chamada de coleta de lixo adequada pelo IPECE, no intervalo de 2000 a 2010, está evidente no mapa que demonstra a porcentagem dos domicílios atendidos pelo serviço (Mapa 2).
Mapa 2 – Classificação e distribuição espacial dos municípios por domicílios com coleta de resíduos (2012)
A coleta regular de resíduos no estado do Ceará, chamados pelo IPECE de “coleta de lixo adequada”, apresenta o seguinte cenário no ano 2000: dos 184 municípios, 111 atendiam entre 7,10 e 40% dos domicílios; 31 cidades atendiam de 40 a 50% de seus domicílios; por sua vez, 24 centros urbanos atendiam entre 50 a 60% dos domicílios; enquanto 12 cidades recolhiam de 60 a 70% dos resíduos domiciliares e apenas seis cidades prestavam serviços de coleta entre 70 a 80% das residências. Dez anos depois, em 2010, houve um aumento do serviço de coleta em todo o estado e a distribuição deste por domicílios sofreu alteração ficando assim: 16 cidades atendiam entre 22,64 a 40% dos domicílios; 37 cidades atendiam entre 40 e 50% de suas residências; e ainda, 59 centros urbanos atendiam de 50 a 60% dos domicílios; enquanto 30 cidades serviam de 60 a 70% dos domicílios e finalmente, 42 cidades prestavam serviços entre 70 a 98,7% de suas residências. Quando comparado o ano de 2000 com o de 2010 observa-se que 36 cidades buscaram atingir a meta de universalização da coleta regular dos resíduos nos centros urbanos. Mas o Estado ainda não conseguiu tal meta. A percentagem de domicílios que não foram atendidos pelos serviços de coleta geralmente está na periferia das cidades, onde o papel do Estado demora a chegar, quando chega.
O Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE), baseado no Censo do IBGE, de 2010, considera coleta adequada de lixo, aquela que recolhe misturados todos os elementos contidos na massa de resíduos. Será que esse tipo de coleta pode ser considerada como adequada? Pode-se considerar adequada, talvez,aabrangência do serviçoprestado àcomunidade. Citamos como exemploas cidades deCrato, com 84,11% dos domicílios atendidos, e Juazeiro do Norte, com 94,22%, municípios que aparecem posicionados entre os três melhores no cenário estadual da coleta de lixo, em 2010, perdendo apenas para Fortaleza, com 98,75% dosdomicílioscobertos pelo serviço. Mas o serviço de coleta de resíduos não atende aosprincípios estabelecidos pela PNRS de coletar, separadamente, os componentes dos resíduos gerados, sendo assim, esse serviço de coleta regular executado por grandeparteoupor quase todos os municípios cearenses não é adequado e, mesmo não sendo, apenas uma parte da sociedade tem acesso a esse serviço.
Universalizar os serviços de coleta deve ser um dos aspectos do gerenciamentodosresíduose,deacordocomasPNRS, manejá-los adequadamente exige o desenvolvimento de várias atividades que os tratem adequadamente. Para atender ao princípio da integração de ações, entende-se ser de suma importância
implantar nos espaços urbanos a coleta seletiva como base desencadeadora e norteadora das demais atividades de gerenciamento ambientalmente adequado de tratamento de resíduos urbanos. Como afirmou também o diretor da ABRELPE, em entrevista ao Diário do Nordeste, no dia 21 de setembro de 2013, os gestores necessitam, paralela à extinção dos lixões, implantar a coleta seletiva. Para tanto, alémdavontade política, é preciso a participação de todos os geradores de resíduos, consumidores, gestores, catadores e empresários do ramo da reciclagem.
Ementrevistapublicada no jornal Diário do Nordeste, o Diretor de operações da Marquise Ambiental, empresa responsável pela coleta seletiva em Fortaleza, disse que está funcionando como projeto piloto e sua universalização depende da participaçãomunicipal,estandoprojetadapara materializar-se a médio e longo prazo, aproximadamente, cinco a dez anos. O mesmo disse ainda, que além de coletar de maneira separada os resíduos, realiza ações de conscientização da população por meio de panfletos e carros de som, e que o projeto de segregação dos resíduos, na capital, atende a 1.600 residências. Disse ainda que foram coletados, no ano 2013, um total de 1.319 toneladas de material reciclável. Entre os componentes dos resíduosurbanos foram coletados: papelão, papel branco, plástico, alumínio e vidro. Quanto à separação dos resíduos, o executivo defendeu ser responsabilidade do poder público conscientizar as pessoas a fazerem a coleta seletiva, e entende que os resíduos devem ser separados em duas categorias, orgânicos e inorgânicos, como forma de facilitar o processo de separação. Afinal, admite-se que:
O mundo moderno, além de reclamar de aterros sanitários bem planejados e incineradores bem projetados, requer várias outras medidas, tais como educação ambiental, projetos de ecodesign e ecoeficiência, legislação restritiva para embalagens, programas de coleta seletiva de lixo e incentivos aos catadores, todos imprescindíveis para expandir a vida útil desses equipamentos, minimizar sua utilização e encorpar o fluxo de materiais destinados para as recicladoras (WALDMAN, 2010, p. 169).
Construir um quadro propositivo de coleta seletiva como alternativa social e solidária, de forma participativa, cooperada com inclusão social que atenda às necessidades locais e regionais, sob a ótica de uma gestão integrada e contextualizada quanto aos aspectos social, ambiental, econômico e educacional. Com esse objetivo rompe-se o modelo de resíduos considerado como mercadoria e oportunidade de negócios para os gestores públicos, esse foi o objetivo da pesquisa.
contidos nos resíduos não devem ser vistas como um negócio que beneficia as empresas coletoras de resíduos e as empresas recicladoras. Que os gestores se apropriem dos resíduos como subsídios para políticas de fortalecimento social, como aorganizaçãodoscatadores,gerandoempregoerenda,e sensibilizando a sociedade sobre a responsabilidade com seus resíduos.
Questões como coleta seletiva e logística reversa estão previstas por lei. Coletardeformaseparadaseusresíduosgerados é uma atividade do gerenciamento, contemplada pela PNRS e implementada por leis e demais normas que tratam especificamente do sistema de segregação dos resíduos, levando em conta características específicas dos estados e municípios. A indagação é: será que a regulamentação atende à efetivação no caso da seleção na fonte geradora e da logística reversa?