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2.1.3. Örgütsel ĠletiĢim

2.1.3.5. Örgütsel ĠletiĢimin Amaçları, Görevleri ve ĠĢlevleri

A discussão do tema sobre o trabalho com adolescentes em situação de acolhimento institucional se deu através da leitura de um texto teórico que destacava o lugar do Abrigo em suas vidas e o momento de saída da instituição. Concomitantemente à leitura do texto, o grupo citou exemplos cotidianos do Abrigo, possibilitando uma relação entre teoria e prática. Os exemplos giraram em torno, especificamente, de dois casos: o de um adolescente de doze anos e o de Júlia, cuja discussão foi realizada no capítulo anterior.

96 A princípio, as educadoras relataram suas experiências na adolescência, relacionando-as com a realidade do Abrigo, como se pode ver em seguida. Educadora I: A adolescência é o momento em que descobrimos as coisas. E penso até na vida da Júlia, pois ela é uma moça que já teve uma casa, a vida dela, um companheiro. No que a educadora II completou: olhamos para ela e sabemos que tem idade para paquerar e passear e não sabemos lidar muito com isso. Porque ficamos com receio de relatar algumas coisas, por exemplo, ela conta que paquerou um rapaz no ônibus e não sei se os demais profissionais vão saber lidar com isso, com que olhos vão ver. Porque ela é uma adolescente e isso é natural.

As educadoras tinham compreensão do que era a adolescência e das vivências de uma pessoa nessa fase, mas havia um receio muito grande em relação à Júlia. Educadora V: Pensando em tudo isso, acho normal ela namorar. Mas, eu fico preocupada, porque a Júlia é muito carente, acho que ela vai se apaixonar muito fácil, estou pensando no sofrimento dela. Quando a Júlia veio me falar sobre algumas coisas, eu disse para ela conversar com a nova psicóloga. Eu quero ajudar, mas tenho medo, não sei o que devo falar, não sei se posso incentivá-la ela a namorar.

Educadora - Ivone: um dia eu conversei com a Júlia sobre relacionamento amoroso e ela me disse que quando saísse do Abrigo com a filha, teria um relacionamento e seria feliz, e eu disse para ela “isso mesmo”. Eu vi que a Júlia quer algo e ela me disse que tenta fazer tudo certo na casa, porque ela quer ir embora com a filha dela. Estou agindo com a Júlia sem tom de cobrança, valorizo os momentos bons e pergunto como foi o dia, pois se cobrança adiantasse, ela já estaria fazendo diferente há muito mais tempo.

Essas duas últimas falas indicam que as educadoras apresentaram posicionamentos bastante distintos. A primeira se mostrou receosa e preferiu não dar abertura para o diálogo com Júlia, em função de apresentar uma posição dúbia, pois entendia ser natural o namoro durante a adolescência, mas tinha dúvida se uma jovem carente e moradora do Abrigo poderia fazer as mesmas coisas que as demais pessoas de sua idade. Essa incerteza demonstra que a educadora via e tratava uma adolescente que morava em instituição de acolhimento de forma diferente.

Já a educadora Ivone, mencionada no capítulo anterior, se mostrou interessada por quem a adolescente era e incentivou-a a ir em busca do que almejava, o que, de certa forma, mobilizou o grupo a reconhecer que Júlia mudou sua postura com a filha. Assim, a educadora II pontuou: Algumas educadoras falaram que a Júlia não cuida da filha, mas não é assim, é o jeito dela. Fica muita coisa em cima da Júlia, ela tem um carinho enorme pela Taís e quer

97 cuidar, mas ela se sente sufocada, porque todo mundo fica em cima dela cobrando pra que ela cuide da filha.

Educadora VI: também acho que tem horas que ela precisa do momento dela. Nós levamos todos eles ao acampamento e a Júlia não queria sair de perto da Taís e eu falei pra ela, “pode ir se divertir, Júlia, eu olho a Taís”. Ela foi um pouco e ainda falou pra mim depois, “nossa, foi muito bom a Taís ter saído um pouco de casa. Ela ficou tão feliz!”.

Educadora II: muitas vezes a cobrança é exagerada e, realmente, ela ainda precisa ser cuidada.

As discussões do grupo foram um meio para que as educadoras lançassem outro olhar sobre Júlia e percebessem que a cobrança e a crítica à adolescente não eram suficientes para que ela adotasse uma postura mais responsável e dedicada à filha.

Outro ponto muito debatido nesse grupo, e que esteve relacionado ao trabalho com adolescentes, se refere à postura dos profissionais frente ao comportamento de Alan, um adolescente de doze anos que se encontrava acolhido. A discussão sobre o caso surgiu quando uma das educadoras contou que Alan aproveitou um passeio no parque para “fugir” para a casa de um de seus familiares, onde passou mais de uma semana, retornando ao Abrigo depois de uma determinação judicial. Este episódio causou muitas contestações por parte de algumas educadoras, que sentiram como se Alan tivesse cometido algo pessoal contra elas. Uma das educadoras pontuou: o Alan fugiu e foi totalmente compreensível, pois ele queria ficar no mundinho dele, com a família dele. Não é o adolescente chegar e todo mundo se revoltar contra ele, foi isso que aconteceu, as pessoas não conversavam com ele, não sabendo separar os fatos.

Algumas educadoras estavam descontentes com o fato de o adolescente ter desrespeitado uma regra161 em seu horário de trabalho, o que, para elas, denotava uma falha no desempenho de sua função, vivenciando essa “fuga” como uma prova narcísica.

A postura das educadoras - se deixar afetar e tentar punir o adolescente, não lhe dirigindo a palavra - transmitiu para ele que há uma cisão entre Abrigo e família, e que esses dois lugares não podem ser conciliáveis. A meu ver, essa postura tão radical das educadoras poderia causar prejuízos à reinserção familiar e à aproximação para adoção de crianças e adolescentes, pois tenderia a aprisioná-los ao seu meio de acolhimento e dificultar as

161 As crianças e adolescentes que estavam acolhidos no Abrigo poderiam passar alguns dias na casa dos familiares quando autorizados pela coordenação e equipe técnica. Tal autorização dependeria do acompanhamento familiar realizado e da informação ao juiz.

98 possibilidades de ampliação dos laços sociais. A psicanalista Maria Cristina Poli162 realizou um trabalho clínico com adolescentes que estavam acolhidos em abrigos e observou que a temática da “fuga” estava bastante presente para eles e, após certo percurso de sua atuação, ela passou a compreender que o “fugir” significava para os adolescentes um retorno à família e à sua história de vida.

Para algumas educadoras era difícil compreender esse significado da “fuga dos adolescentes” atribuído por Poli, uma vez que ainda não conseguiam se situar e atuar dentro dos limites de suas funções. Muitas vezes os educadores mergulharam nas relações afetuosas construídas dentro do Abrigo ou adotaram uma postura baseada somente em si mesmos e na sua libido, esquecendo-se do desejo do outro e da coesão do projeto educativo do serviço. Esses aspectos apontam a necessidade de os técnicos que trabalham em serviços de acolhimento sempre retomarem e levantarem discussões com os educadores sobre o lugar que ali ocupam, conforme fui adotando ao longo dessa intervenção em grupo, pois entendo que esse seja um caminho que evidenciaria o âmbito profissional do acolhimento institucional.