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5. TARTIŞMA VE SONUÇ

5.6. Öneriler

Apesar da dominação do esporte de rendimento na nossa sociedade, a história do esporte é marcada pelo contexto educacional. Enquanto na Grécia Antiga, o esporte era praticado no gimnasio, um dos edifícios mais importantes da cidade, e ensinado dentro dos preceitos da educação integral, a “paidéia” (RUBIO, 2002:133)40. O esporte moderno nasceu dentro das public schools inglesas, a partir de 1820 com o pedagogo Thomas Arnold, que utilizou “jogos aristocráticos e burgueses como elemento pedagógico que foram sendo codificados e organizados pelos próprios estudantes” (RUBIO, 2002:136)41. Aos poucos, o trabalho iniciado por Arnold, reitor da Rugby School, levou o esporte à institucionalização e posterior proliferação pela Europa (TUBINO, 2007:2).

Para Scaglia,

pode-se transcender e pensar uma escolinha de esportes envolta por uma concepção de educação permanente, que através da aplicação de conhecimentos de pedagogia de esportes, terá a finalidade de possibilitar um desenvolvimento ao aluno, onde o esporte não se restringe a um ´fazer´ mecânico, visando um rendimento exterior ao indivíduo, mas torna-se um compreender, um incorporar, um aprender atitudes, habilidades e conhecimentos, que o levem a

39 http://www.pg.cefetpr.br/ppgep/Ebook/cd_Simposio/artigos/comunicacao_oral/art5.pdf, acessado em

17/08/08.

40 Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, pp 130-143, jul./dez. 2002. 41 Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, pp 130-143, jul./dez. 2002.

dominar os valores e padrões da cultura esportiva, como nos adverte Betti. Pois, devemos entender o aluno como um ser total, humano; um ser sujeito, nunca objeto, que é carente na sua busca pelo superar- se, como nos explica Manuel Sérgio. (SCAGLIA, 1996:37)

Para Kunz, é necessário:

um esporte que não necessariamente precisa ser tematizado na forma tradicional, com vistas ao rendimento, mas com vistas ao desenvolvimento do aluno em relação a determinadas competências imprescindíveis na formação de sujeitos livres e emancipados. Refiro-me às competências da autonomia, da interação social e da competência objetiva. (KUNZ, 2006:29)

Há, atualmente, duas grandes matrizes sobre a definição da educação física: uma que a entende como uma ciência e outra que a vê como uma prática pedagógica. Aqueles filiados à primeira matriz acreditam que a educação física “possui o seu próprio objeto de estudo (motricidade humana, ação motora, movimento humano etc.) e se caracteriza por ser uma área de conhecimento interdisciplinar”, sendo o ramo pedagógico uma subárea desta ciência (BETTI, 2003:16). Já os adeptos da matriz pedagógica entendem a educação física “como ‘educação’, como uma prática pedagógica balizada, em primeira instância, pela pedagogia” (BETTI, 2003:16).

Para Betti (2003:16), a educação física é “um conceito contemporâneo, que surge no século XVIII pela voz de filósofos preocupados com a educação, e que até hoje não desenvolveu todas as suas potencialidades culturais”. Segundo ele, a educação física deve ser repensada e transformada em uma prática pedagógica, que assuma “a responsabilidade de formar o cidadão capaz de posicionar-se criticamente diante das novas formas de cultura corporal”.

A educação é vista por Betti como um permanente processo de valoração, devendo a educação física ser um campo dinâmico de pesquisa e reflexão, cuja tarefa é “preparar o aluno para ser um praticante lúdico e ativo, que incorpore o esporte, o jogo, a dança e as ginásticas em sua vida, para tirar o melhor proveito possível” (BETTI, 2003:18).

“O esporte ensinado nas escolas”, assinala Kunz (2006:125), “enquanto cópia irrefletida do esporte de competição ou de rendimento, só pode fomentar vivências de sucesso para a minoria e o fracasso ou a vivência de insucesso para a maioria”. Para

ele, a solução é um processo educacional crítico-emancipatório que inclui, além do saber-fazer, o saber pensar e o saber-sentir.

Uma concepção de ensino que se orienta nos pressupostos apresentados da pedagogia crítico-emancipatório e que se explicita na prática pela didática comunicativa privilegia, pelos planos do agir para o trabalho, para a interação e para a linguagem, estes três atributos máximos da capacidade heurística humana: saber-fazer, saber-pensar e saber-sentir. (KUNZ, 2006:75)

O pedagogo francês Georges Belbenoit alinhavou, em 1976, algumas idéias sobre esporte, educação e escola, descritas por Betti (2003:25):

O esporte é a forma mais rica e adaptada ao nosso tempo de um tipo de “experiência de base”, carnalmente vivida, que permite construir, pela prática e pela reflexão, uma ética de saúde global. (...) O esporte é uma atividade de cultura, na medida em que a noção formal entre corpo e espírito é substituída pela de convergência de todas as tentativas educativas (...) é cultura porque há cultura onde se encontra, ao mesmo tempo, possibilidade de desenvolvimento pessoal e participação numa prática social significativa. (...) é um instrumento de cultura e libertação do homem moderno na medida em que desempenha a função biológica (filogenética) de preservação da saúde (no sentido lato do termo) e a função sociocultural de comunicação, participação e expressão. O esporte é o fenômeno sociocultural mais importante de nossa época e é tão urgente aprender a posicionar-se diante dele quanto em relação aos meios de comunicação de massa. Introduzir o esporte na escola é (...) fazer viver a escola com o seu tempo. (BELBENOIT apud BETTI, 2003:25)

Belbenoit adverte, no entanto, que a prática do esporte na escola não pode ter como missão a formação de atletas e nem de espectadores passivos. O esporte não pode usurpar o lugar do pensamento e, cabe à escola, “inclusive no domínio do esporte”, “pôr o homem em condições de enfrentar a vida em toda a sua complexidade”. Para ele, “integrar o “esporte para toda vida” à educação permanente é afirmar que esta não deve apenas permitir ao homem continuar na corrida da evolução tecnológica, mas salvaguardar para ele, ao longo da sua existência, e sob todas as formas, biológica, estética, social, pessoal, a qualidade de vida” (BELBENOIT apud BETTI, 2003: 28).

Foi neste contexto que surgiu a pedagogia do esporte. Segundo Tubino (2007:510), a pedagogia do esporte foi fundada em 1923 pela Fédération Internationale

d´Education Physique (Fiep), mas só muitos anos depois, em 1984, quando a Fiep se juntou a outros organismos internacionais, ela passou a ser difundida no âmbito internacional. A pedagogia do esporte abrange as interseções entre educação e esporte, em todas as suas manifestações e perspectivas (educação, lazer e rendimento) e tem como objetivo “informar e propiciar práticas educativas no domínio do movimento e do Esporte” (TUBINO, 2007:554).

Em entrevista à Universidade do Futebol, José Alcides Scaglia utiliza o exemplo do futebol para explicar a concepção da pedagogia do esporte:

Os estudos de ponta, hoje, sobre pedagogia do esporte (...) afirmam que a discussão sobre o ensino dos esportes deve se voltar para o desenvolvimento de competências (inteligência para o jogo) e não mais para o movimento técnico estereotipado, ou seja, os processos metodológicos devem partir sempre do gesto eficaz para o gesto eficiente (...). É necessário pensar que os pré-requisitos para a iniciação é querer jogar (e não adquirir determinado padrão de movimento técnico). Assim sendo, joga-se com as habilidades que possuem no momento, e depois estas habilidades se desenvolvem à medida em que os problemas vão aumentando de complexidade. Ninguém aprende se não tiver necessidade, já dizia Piaget, e todos os demais teóricos da psicologia da aprendizagem, por isso uma metodologia eficaz e eficiente é aquela que sempre traz problemas novos, quebrando o status quo, levando os alunos a construir as soluções. (...) Ensinar movimentos padronizados e de forma (método) mecanicista é o mesmo que dar o peixe, que pode até saciar a fome momentânea, mas não desenvolve a capacidade de raciocinar e descobrir as respostas (pescar) em um jogo que é por natureza imprevisível, ou seja, que não requer padrão estereotipado de movimentos (fundamentos). 42

O professor Kunz reforça a necessidade do jogo para a criança:

A criança, pelo seu brinquedo e pelo jogo, quer interagir com o mundo, o mundo real, dos objetos, e com os outros. O brincar torna- se para a criança a sua forma de expressão. No seu brincar, a criança constrói simbolicamente sua realidade e recria o existente. Porém, este brincar criativo, simbólico e imaginário enquanto poder infantil de conhecer o mundo e se apropriar originalmente do real está ameaçado de desaparecimento, alerta Oliveira (1991). O responsável por esse desaparecimento é, justamente, a indústria cultural do brinquedo infantil e a influência da televisão. Estes, como lembra-nos o mesmo autor, dirigem a lógica produtiva, dos objetos prontos, em

42 http://www.cidadedofutebol.com.br/Cidade/Site/Artigo/Materia.aspx?IdArtigo=2443, acessado em

substituição ao imaginário criador da criança pelo brinquedo. (KUNZ, 2006:95)

Segundo ele, o desenvolvimento da identidade exige uma conduta explorativa. O esporte, contanto que imbuído de uma “intencionalidade pedagógica”, pode contribuir para a emancipação dos educandos. Esta emancipação, descrita por Kunz, como o “processo de libertar o jovem das condições que limitam o uso da razão crítica e com isso todo o seu agir, cultural e esportivo, que se desenvolve pela educação” (2006:33), pode libertar o aluno do que ele chama de “estado inicial”:

O estado inicial é essa falsa consciência de que o modelo do esporte de alto rendimento é o modelo adequado para a prática de esportes para todo mundo. A sujeição às suas exigências e pelas pré-condições físicas e técnicas, cada vez menos adequados para sua prática, torna- se uma “coerção auto-imposta” e pelas limitadas possibilidades alternativas e criativas propicia uma “existência sem liberdade” no mundo esportivo. (KUNZ, 2006:34)

Segundo Kunz (2006:36), “para uma instituição repressiva como o esporte, a libertação de uma coerção auto-imposta implica, para uma pedagogia crítico- emancipatória, uma nova forma de coerção, desta vez imposta pelos próprios professores”.

Apesar do esporte poder ser educativo em todas as suas dimensões, pela legislação vigente (Lei nº 9.615/1998, artigo 3º), ele é reconhecido nas seguintes manifestações:

I - desporto educacional, praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer;

II - desporto de participação, de modo voluntário, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente;

III - desporto de rendimento, praticado segundo normas gerais desta Lei e regras de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados e integrar pessoas e comunidades do País e estas com as de outras nações.

Segundo Tubino (2007:41), o esporte educacional é “um direito de todos os jovens, na infância e na adolescência” e tem como objetivo “alcançar o

desenvolvimento integral do indivíduo e sua formação para a cidadania e a prática de lazer ativo”. A Carta dos Direitos da Criança no Esporte, aprovada no 10º Congresso Internacional do Panathlon, em 1995, explicita os direitos da criança no esporte (TUBINO, 2007:626):

1. Direito de praticar esporte 2. Direito de se divertir e jogar

3. Direito de se beneficiar de um ambiente sadio 4. Direito de ser tratado com dignidade

5. Direito de ser circundado e treinado por pessoas competentes 6. Direito de seguir treinamentos adequados aos seus ritmos 7. Direito de medir-se com jovens que tenham as mesmas

probabilidades de sucesso

8. Direito de participar de competições adequadas a sua idade 9. Direito de praticar o seu esporte com absoluta segurança 10. Direito de ter os tempos certos para repousar

11. Direito de não ser um campeão

O esporte educacional é referenciado por princípios socioeducativos, como inclusão, participação, cooperação, co-educação e co-responsabilidade, assim definidos por Tubino:

- Princípios da inclusão e participação: nenhum educando pode ficar à margem das práticas esportivas; todos devem ser incluídos nas aprendizagens que o esporte pode propiciar e, para tanto, pode-se alterar as regras para permitir o cumprimento deste princípio.

- Princípio da cooperação: o esporte deve contribuir para “o espírito comunitário entre os praticantes” e, portanto, vivências cooperativas devem ser incentivadas.

- Princípio da co-educação: as práticas esportivas devem acontecer “numa comunhão de alegria e emoção”, combatendo o preconceito e democratizando o acesso ao esporte a todos os gêneros, raças, situação social.

- Princípio da co-responsabilidade: faz com que os jovens se responsabilizem por suas decisões, como adaptação das regras, medidas organizativas etc.

Um conceito de esporte educacional, desenvolvido pela professora Vera Lúcia Menezes da Costa, avaliado e aprovado pelo Conselho Nacional de Desportos, afirma que:

O desporto educacional como, responsabilidade pública assegurada pelo estado, dentro ou fora da escola, tem como finalidade democratizar e gerar cultura através de modalidades motrizes de expressão de personalidade do indivíduo em ação, desenvolvendo

este indivíduo numa estrutura de relações sociais recíprocas e com a natureza, a sua formação corporal e as próprias potencialidades, preparando-o para o lazer e o exercício crítico da cidadania, evitando a seletividade, a segregação social e a hipercompetitividade, com vistas a uma sociedade livremente organizada, cooperativa e solidária. (apud MELO, 2006:33)

Benzer Belgeler