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5. SONUÇLAR VE ÖNERĠLER

5.2. Öneriler

Embora o senso comum insista em entender a prisão como entidade padronizada, e os presos como uma massa homogênea, previamente identificada por violência e condenação, é preciso insistir em que a prisão não é uma realidade dada. É construída dia a dia, em cada unidade, a cada período de tempo, e interpretada e reinterpretada pelos que dela participam,

29 A reincidência é subavaliada no país, o que impede o conhecimento preciso do desempenho da pena privativa de liberdade. O mau resultado, evidente no retorno do ex-preso ao cárcere, é apresentado como falha individual. Dentre raros os estudos ver BITENCOURT, 2004; ADORNO e BORDINI, 1986; REIS FILHO, 2001.

30 Matérias publicadas em Jornal do Brasil, 16/04/1961, 20/04/1961, 10/05/1961, 11/05/1961. 31 Jornal do Brasil, 27/12/1961.

ou a veem à distância. Ou seja, seus diferentes sujeitos interferem no cotidiano - incluídos aí presos, agentes prisionais, autoridades, familiares, profissionais, e, ainda, fortemente, as notícias, a cidade, o país, a situação pela qual estão passando as famílias, e, mesmo, questões sobre os lugares onde residiam. E interferem, também, o contexto político, a legislação, a opinião pública. Assim, permanentemente recebendo influências externas da sociedade livre, somadas às que são inerentes a cada universo interno, as prisões estão em constante construção, alteração e reconstrução, exigindo serem descritas de forma cuidadosa, mas flexível e datada.

Os presos se ressentem de informações superficiais e interpretações levianas a respeito do que se passa no universo onde vivem. Como exemplo, veja-se Graciliano Ramos, escritor que à época era preso político na Casa de Correção, no Rio de Janeiro, e que estivera preso também na Ilha Grande e na Ilha de Fernando de Noronha. Ele critica determinada obra que lhe chegara às mãos, e que havia sido recentemente publicada naquele distante ano de 1937. Segundo Graciliano, no tal livro, o autor analisara a Colônia Correcional de Fernando de Noronha, ainda que não tivesse estado nessa prisão, demonstrando desconhecimento sobre várias questões. Seu comentário indignado sobre a importância da vivência, da experiência pessoal para legitimar o relato sobre a prisão é muito significativo:

O indivíduo livre [o escritor] não entende a nossa vida além das grades, as oscilações do caráter e da inteligência, desespero sem causa aparente, a covardia substituída por atos de coragem doida. (...) O admirável romancista precisava dormir no chão, passar fome, perder as unhas nas sindicâncias. A cadeia não é um brinquedo literário (...) (RAMOS, 1979, 2: 206).

Aqui Graciliano está apresentando uma questão relevante: a limitação do estudo que havia sido realizado por pessoa de fora daquele universo. Sabemos que a prisão não é um ambiente, uma situação já formulada. E que se altera segundo o contexto exterior a ela. Seu conhecimento pode ser obtido quando for produto de proximidade, relativização e aceitação da diversidade. Semelhantemente às conclusões de Graciliano Ramos, o escritor Monteiro Lobato, preso em São Paulo, durante o Estado Novo, escreve sobre a experiência pela qual está passando, na Penitenciária do Estado: “quem vive aí fora, solto, só fica sabendo dum pedaço da vida; aqui aprendêmo-la inteira”32 (in POLI JÚNIOR, 2009: 133).

Ainda no mesmo sentido, Frei Betto33, em carta à família, no ano de 1972, referindo- se às relações estabelecidas com presos comuns, na Penitenciaria Regional de Presidente Venceslau, em São Paulo, escreveu:

Por sua vez eles [os presos comuns] me ajudam muito a entender melhor a vida. A diferença desse mundo de prisão comum para o de vocês aí, é radical. Por mais que vocês imaginem é impossível ter uma ideia do que isto aqui significa. Só mesmo convivendo com eles a gente pode sentir o que significa a existência de um homem analfabeto ou semianalfabeto, condenado a dez ou vinte anos de prisão por um ato do qual ele não se sente

culpado. Confesso que a constatação disso me surpreendeu (BETTO, 1977:

125).

O que a maior parte das pesquisas sobre o tema parece mostrar são determinados momentos em que predominavam variáveis, representando o comportamento de diferentes tipos de atores, normas, expectativas, arquitetura, entre muitos outros. A análise de um estabelecimento rapidamente torna-se um retrato duvidoso, demonstrativo da vida ali em tal tempo, e pode ser ultrapassado por diversos fatos, personagens e fatores surgidos posteriormente. Ademais, cada estabelecimento representa uma parcela móvel e volátil da comunidade carcerária de um sistema prisional estadual ou federal. Não se pode dizer, sequer, que o sistema prisional de um estado mantenha grande semelhança entre todos os seus estabelecimentos.

O médico Dráuzio Varella, que durante anos prestou serviços médicos na Penitenciária do Estado, em São Paulo, faz afirmação semelhante, quando expõe a dificuldade: “compartilhar esse universo com aqueles que dele não fazem parte é inútil. Podemos contar casos e comentar certos acontecimentos”, contudo, “aconselhar-nos, expor dilemas, contradições, perplexidades e as angústias que nos afligem na convivência com os detentos só tem sentido quando o interlocutor conhece o meio em que vivem os criminosos e as leis que regem a prisão”. Varella garante que “sem o domínio dos mesmos códigos não há diálogo possível” (2012: 224).

Como disse um preso à pesquisadora Karina Biondi, “cada cadeia tem um ritmo” (BIONDI, 2010: 82). Em termos do cotidiano prisional paulista, esta autora traz o termo

33

Carta em 12/10/1972. Frei Betto, nome adotado por Carlos Alberto Libânio Christo, religioso dominicano, foi preso político em São Paulo, entre 1969 e 1973, e esteve em alguns estabelecimentos prisionais. É autor de vários livros.

caminhada, que demonstra o sentido da constante reformulação e enfrentamento das situações

a que estão sujeitas as prisões e seus internos:

Caminhada é também um termo utilizado para se referir a uma situação, mas

que ainda implica movimento e inclui a própria maneira pela qual se lida com esta situação. O alcance e a densidade dessa caminhada variam conforme as experiências vivenciadas por eles e a forma pela qual tecem suas relações, constroem sua reputação, traçam suas estratégias, demonstram sua disposição (idem: 33).

Alguns presos tentaram estabelecer pontes com a sociedade. Procuraram alertá-la, e às autoridades, sobre práticas ilegais que ocorriam na prisão, e a necessidade de controlar várias formas de violência naquele ambiente. Mas não foram escutados, porque a promoção da união da massa prisional sempre foi evitada. Procuraram o Estado, através do Poder Judiciário, e entidades religiosas, meios de comunicação, organizações não governamentais, inclusive as internacionais. Em documento encaminhado em 1987, ao Presidente da República34, assinado por 616 internos do Presídio Ary Franco35, Rio de Janeiro, presidiários, clamavam:

Solicitamos a interferência de órgãos públicos competentes que com a nomeação de uma comissão idônea, por certo se constará o absurdo erro que somos vítimas, e a continuação deste quadro dantesco de absurdas discriminações e o seguimento da hipocrisia e ignorância dos tempos medievais onde era usual o enclausuramento sem tempo determinado, e o preso era acumulado como um lixo em depósitos imundos.

Como podemos constatar, nas décadas de 1960 e 70, e em parte dos anos 1980, muitos presos ainda insistiam em denunciar irregularidades. Embora se declarando culpados de crimes, e buscando incessantemente fugir, e mesmo resolvendo disputas internas através de violência, muitos presos reivindicavam dignidade no tratamento por parte do Estado. Denunciavam desrespeitos à lei em cartas dirigidas à mídia, às autoridades, a ONU, ao Papa. A ideologia de recuperação e de ressocialização da população prisional ainda estava vigente durante essas décadas, antes de desaparecer dos planos do planos do Estado, substituída pela

34

Documento CNPCP, proc. 19.468-87, Internos do Presídio Ari Franco, em Água Santa, RJ, acervo da autora. As assessorias da Presidência da República encaminham ao Ministério da Justiça pedidos, denúncias e outros documentos enviados ao Presidente.

35

Esse presídio, também conhecido pelo bairro em que se encontra, Água Santa, foi um dos mais inescrupulosos e abusivos do sistema prisional do Estado do Rio de Janeiro. Note-se que o número de assinantes do documento de protesto, 616, consistia na quase totalidade dos presos do estabelecimento.

mera função de isolamento. Os presos procuravam alguma coerência entre o que se enunciava em leis e regulamentos e o que ocorria: “Nosso objetivo não é um resultado esmerado, mas sim o acerto, de forma a não expor o ser humano, que jamais poderá ser degradado e diminuído em sua condição social, que é de inteira responsabilidade do Estado” 36

. Nesse manifesto de denúncia parecem tentar mostrar ao Estado o que estava fora do lugar: “Se manter um homem preso não é tão fácil e embora pareça; também não é só se construir com ferro e cimento grandes masmorras e colocar guardas fortemente armados”, escreviam. E lembravam que era “preciso ter uma infraestrutura que venha a atender as carências do apenado e seus dependentes. Somos um problema social sério e é necessário que exista uma solução lógica com o fim destas graves distorções”.

Pareciam entender que o desrespeito que estava ocorrendo com a comunidade carcerária era um desvio da legislação, ou de determinada administração, e conclamavam organizações para intervirem, para pressionarem pela aplicação da regra da lei. Receberam apoio pontual e condicionado de algumas delas, mas seus apelos não foram levados em consideração ao chegarem ao Poder Executivo e ao Judiciário, partes do Estado.

Já no ano de 1943, uma comissão de juristas foi a Ilha Grande para investigar denúncias contra o diretor da Colônia Penal de Dois Rios e Carlos Süssekind de Mendonça afirma, sobre o desrespeito a direitos dos presos:

Não se pode saber a que critério obedecem as transferências dos sentenciados. Dir-se-ia que ao puro capricho da politicalha daqui. Basta dizer que um condenado a três anos, cuja pena terminará no dia 11 deste mês (junho de 1943), foi para lá no dia 2! E, de seus assentamentos, nada consta a respeito do início e da terminação da pena! (MENDONÇA, 2006).

E o relator da comissão administrativa de investigação prossegue, referindo-se ao final de uma palestra do jurista Lemos Brito, dirigida à massa carcerária local, que consistia em 500 presos:

Quando debandaram, cobriram-nos de pedidos. Alguns de dinheiro. Na sua maioria, entretanto, apenas de justiça, de misericórdia. Mais de 200 já estão com suas penas cumpridas. Só não são postos em liberdade pelos tropeços da burocracia. Isso é um crime! Uma vergonha, que não pode continuar assim (idem)

Canais permanentes e legitimados de demandas e denúncias são importantes e deveriam ter sido incentivados. Veja-se que a maior rebelião ocorrida nos Estados Unidos, na penitenciária de Attica, que perdurou por três dias, em 1971, contou com grande parte dos seus 1.200 internos. Durante o evento foram mortos 11 guardas, 32 presos, e oitenta outros ficaram seriamente feridos; foram denunciados incontáveis atos de violência cometidos contra presos rendidos. O professor Heleno Fragoso diz que “a comissão que investigou a rebelião de Attica concluiu que uma das causas estava na falta de caminhos não violentos para que os internos pudessem expressar as suas queixas acumuladas” (FRAGOSO e outros: 22). O papel de mediadoras, facilitadoras e defensoras dos direitos das populações presas tem sido feito pelas igrejas e religiões, sobre o que falaremos adiante.

Ao final da década de 1980 a demanda regular por providências do Estado praticamente cessou, com a constatação de que a prisão nada mais pretendia do que a retirada do criminoso da sociedade, e, sempre que possível, a neutralização dos mais incômodos, dentre os quais sobressaíam lideranças. Por seu lado, a sociedade também desistiu de investir no presidiário, deixando de apostar em uma possível reintegração dele na parte positiva da sociedade. A escalada da violência contribuiu fortemente para que as pessoas que não tinham que estar à volta da prisão se afastassem dela – os familiares e os profissionais.

Assim, a instituição persistiu fechada em seus muros e ideário e dificultou ou impediu a divulgação de sua indiferença à legislação; não tolerava a possibilidade de limites impostos por órgãos de controle, nem mesmo os órgãos governamentais; tampouco admitia que a sua população conseguisse despertar solidariedade externa. Cessou a pressão social na defesa à integridade do preso comum em sua passagem por delegacias policiais ou pelo sistema prisional. Uma vez encarcerado, o Estado satisfazia a opinião pública com a justificativa e o discurso ultrapassado da ressocialização: o preso está em “tratamento”, encaminhado à recuperação, ao convívio social. "Deu um passo em falso", "caiu", mas agora o Estado vai

reformá-lo e devolvê-lo - melhor - à sociedade.

Benzer Belgeler