V. SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.2. Öneriler
José Odoraldo Medeiros Pinheiro nasceu em 1965 e é argentino. Ainda jovem, veio para o Brasil, após a separação de seus pais. Segundo conta, começou em 1981, no alto faltante da rodoviária de São Luiz Gonzaga. De São Luiz, foi para Santo Ângelo e, na sequência, Novo Hamburgo e Caxias. Em 1985, convidado por Armindo Antônio Ranzolin, no dia 4 de dezembro, foi para a Rádio Gaúcha e permaneceu até o dia 2 de dezembro de 1986. E foi justamente Ranzolin, segundo consta no projeto Vozes do Rádio (2005), que definiu o nome “artístico” que o narrador deveria usar, e que, desde então, é a sua assinatura. A frase de Ranzolin que Zé Aldo recorda daquele dia: “a partir de agora esse cara está chegando aqui na rádio e nós vamos trocar o nome dele. O nome dele vai ser José Aldo Pinheiro, porque José Aldo tem mais a ver que José Odoraldo Pinheiro” (PINHEIRO, 2005).
Ainda nos anos 1980, o agora rebatizado José Aldo Pinheiro, ou, Zé Aldo, como também é conhecido, se transferiu para a Rádio Guaíba, onde narrou durante nove anos. Porém, em 23 de janeiro de 1995, José Aldo Pinheiro retornou à RBS. Na Rede Brasil Sul, permaneceu o maior período de sua carreira, atuando como locutor esportivo. Em 2 de maio de 2012, passou a integrar a equipe de esportes da Rádio Bandeirantes, onde divide os microfones com o titular Daniel Oliveira e Marcos Couto150.
Em oito meses, eu saí de São Luiz, fui para Santo Ângelo. Aí o Seu Ballvé, que era presidente do Inter, ele vendeu a rádio lá de Santo Ângelo, que era uma rede em todo estado. Ele vendeu, e disse “olha, me disseram que tem um narrador que é bom aí. Eu vou vender a rádio, mas não vendo o narrador e ele vai comigo para Caxias”. Aí ele me transferiu para Caxias, eu fui para Caxias, e o Ranzolin me ouviu, o pessoal da Gaúcha me ouviu. Eles pediam os gols para rodar no plantão, depois das jornadas deles, do jogo lá de Caxias, né? E aí ouviram as minhas narrações, e me chamaram para fazer um teste, e perguntaram, “quem é esse cara?”. “Ah, é um guri de São Luiz, bem gurizão”, “bah, mas que idade ele tem?”, “ah, tem 18”. “Bah, mas tem uma voz que nem parece...”. E eu vim aqui, fiz um teste e tal, e perdi para o Ítalo Gall, e ficou uma amostra minha. Eles disseram que eu tinha ido melhor como narrador, mas que a vaga que eles queriam era para plantão, e que o Ítalo era advogado já, tinha uma informação intelectual melhor que a minha. Sugeriram que eu estudasse, então,
150 Marcos Couto iniciou sua carreira na Rádio São Leopoldo. Atualmente é narrador da Bandeirantes,
de Porto Alegre, e da Rádio ABC, de Novo Hamburgo. Em 2012, integrou a equipe de esportes da Rádio Guaíba, mas, pouco tempo depois, retornou à BAND. É conhecido pelo apelido de “Gigante do Vale”, tal a ligação com a região do Vale do rio dos Sinos.
quando surgisse uma nova oportunidade, e aí, em 85, eles me chamaram (PINHEIRO, 2015).
Figura 21 – Zé Aldo chega à BAND
Fonte: Grupo Bandeirantes de Comunicação
José Aldo Pinheiro é formado em Direito e exerce a profissão de advogado, além da narração de futebol na Band. Inclusive, divide com outros sócios, um escritório, localizado no centro de Porto Alegre, justamente no prédio onde também ficava a antiga sede da Federação151 Gaúcha de Futebol (FGF). Zé Aldo Pinheiro garante que a sua formação em advocacia também influenciou no seu estilo de narração no rádio e justifica que isso “sempre existe naqueles que têm uma outra formação, porque tu és uma única pessoa e, especialmente, em matéria de conteúdo, você acaba utilizando aquele conteúdo a mais que tu tens” (PINHEIRO, 2015). O narrador cita o exemplo de Joseval Peixoto, que, nos últimos anos, se tornou bastante conhecido como apresentador de telejornal do SBT.
É um grande advogado em São Paulo, e ele era companheiro de narração do Osmar Santos, na Jovem Pan, nos anos 80. A chamada dos caras, “na Jovem Pan, o futebol é um ou outro, Osmar Santos e Joseval Peixoto”. Em alguns
151 No dia 30 de março de 2015, a FGF iniciou seu primeiro expediente sem sua nova sede, na Avenida
Ipiranga, nº10. Bairro Praia de Belas, em Porto Alegre. A sede anterior se localizava Travessa Francisco Leonardo Truda, próximo ao Mercado Público.
momentos eu noto ele falando, e ele faz, tipo, uma crônica dentro do jornal, nitidamente, decorrente ao conteúdo da formação jurídica que ele tem. O José Carlos Araújo é professor de história, ou geografia, uma coisa assim. E às vezes a gente percebe o José Carlos Araújo, no meio de uma narração, dando uns “alôs”, e nos “alôs” vem um pé assim, “hoje eu estou abraçando os nossos ouvintes que são judeus, pois hoje é dia do Bar-mitzvá...”, e uma coisa assim, uma data de, não sei se essa é a expressão correta, enfim, o primeiro ano do calendário judaico, porque, essa formação paralela, ou essa formação prévia, simultânea, ela agrega conteúdo no comunicador. Na verdade, quando mais conteúdo tiver o comunicador, me parece que ele tem mais a oferecer para o seu ouvinte (PINHEIRO, 2015).
O narrador da Bandeirantes, além do Direito, teve muitas influências oriundas das narrações de outros profissionais, ao longo dos anos. “Algum louco pode dizer, ‘não, eu sou eu, eu me fiz sozinho, eu não me inspirei em ninguém’. Esse vai estar mentindo” (PINHEIRO, 2015). Segundo afirma, todos se inspiram em alguém, de alguma forma quando se ouve rádio, e o profissional procura seguir algum tipo de modelo. Para Zé Aldo, o rádio do Rio Grande do Sul segue uma escola absolutamente diversa do rádio do centro do país. O Rio, na sua avaliação, é mais “animado”, é “mais da festa”, é “mais da alegria”, com um texto mais alegórico. Já no Rio Grande do Sul, a narração é “séria”, é “tensa” e competitiva. A influência, na sua observação, não vem do centro do país. Existe aqui, uma característica “nossa, própria, bem peculiar”.
Essa nossa influência, querendo ou não, é absorvida da escola argentina de narrar futebol. A escola da Argentina, a escola do Uruguai, tem uma grande influência no estilo de narração do Rio Grande do Sul. Não sei se eles nos copiam, ou nós copiamos eles, ou se é por osmose, mas, nitidamente, essa influência está demarcada geograficamente. O Rio Grande do Sul tem, usando o português, um estilo argentino de narrar futebol. E os argentinos, utilizando o espanhol, têm um estilo gaúcho de narrar futebol. É uma coisa tensa assim, e tal. Então, eu sigo, genericamente falando, essa escola que é a de narradores do Rio Grande do Sul. Não é paulista, não é carioca, não é mineira, é o estilo do narrador do Rio Grande do Sul (PINHEIRO, 2015).
No Rio Grande do Sul, José Aldo Pinheiro assinala que a narração pode ser dividida em escolas: Mendes Ribeiro, que foi sucedido por Pedro Pereira, depois por Ranzolin, todos, numa linha de narração clássica, depurada, de uma linguagem sóbria, sem muitos adereços, sem muitos bordões. Um narrador clássico, na sua opinião, deve possuir uma linguagem séria, “porque o gaúcho vê o futebol como uma coisa séria, não como uma diversão, mas como uma competição que tem que ganhar, que tem que ganhar” (PINHEIRO, 2015).
E o narrador reflete um pouco nisso, e, avançando na tua pergunta, os meus narradores que foram, digamos, modelos para mim, Jose Maria Moraes, Vitor
Hugo Morales, bem, bem claramente o Ranzolin, o meu grande mestre Ranzolin, o Willy Gonser, Willy Fritz Gonser. Quem ouviu o Willy Gonser narrando, por texto ou por gravação, porque, agora, ele já é aposentado, daqui a pouco vai ouvir o Zé Aldo e dizer, “mas, bah, parece o Willy, alguma coisa lembra o Willy”. Então, a minha escola é isso. O Osmar Santos com a velocidade com dicção, claro. O Osmar tinha uma dicção espetacularmente limpa. Ele conseguia dar uma aceleração sem tropeçar, sem engolir sílabas, sem repetir palavras. O Osmar santos foi um mestre para mim. É um narrador de São Paulo, mas ele era diferente de todos os demais. Eu diria mais, ele era melhor do que todos os demais (PINHEIRO, 2015).
Pinheiro entende que seu estilo já se consolidou, e que já achou a sua própria identidade, porém, não se dá por finalizado. Em 35 anos de narração de futebol no rádio, se considera, ainda, aprendiz e diz que tem coisas a desenvolver. E, apesar dessa constatação, entende que, o momento de sua aposentadoria não está tão distante.
Eu considero que o José Carlos Araújo alcançou a perfeição como narrador. O Osmar Santos alcançou a perfeição como narrador. Eles tinham uma capacidade de controle da locução deles, conjugado com o texto jornalístico, que beirava à perfeição. E eu não consegui isso. Talvez se eu conseguir isso, eu me torne um narrador numa posição que, hoje, eu não ocupo. Hoje eu sei que eu não sou o primeiro narrador do Rio Grande do Sul. Hoje o Pedro Ernesto é o primeiro narrador do Rio Grande do Sul, quem sabe o Marco Antônio seja o segundo, com o Haroldo que está em uma descendente, mas que ainda é um grande narrador, que ainda está entre os melhores. Esses caras estão à frente. Mas eu não pretendo seguir depois dos 60 (PINHEIRO, 2015).
Pinheiro considera que sua narração se caracteriza, basicamente, em “muita alma, muito coração, muito regionalismo”. A regionalidade de sua transmissão, sua “alma campeira”, garante, está presente em sua narração. “Eu canto o meu estado, como se fosse o meu país, como se fosse a minha pátria” (PINHEIRO, 2015). José Aldo seguiu a mesma tônica de Armindo Antônio Ranzolin, no que diz respeito às prioridades da narração, isto é, “aos times daqui eu tento transmitir como se eles fossem os representantes da minha família, disputando uma competição” (PINHEIRO, 2015).
O locutor se considera parte de uma escola gaúcha, com influência espanhola. Quanto a criação de frases, bordões, apelidos, José Aldo segue uma linha semelhante às de Mendes Ribeiro, Pedro Carneiro Pereira e Ranzolin, de uma narração técnica, descritiva, sem “firulas” e “exageros”. Porém, criou uma frase que segue sempre a narração de seus gols, “a bola balança a rede, a rede balança a bola, essa emoção, balança o torcedor do...”.
Eu acho esse meu bordão uma grande porcaria e não deveria nem usar. Não sei nem porque que eu uso. Às vezes é até um recurso para tomar ar, na hora do gol. Mas eu não sou a favor dos bordões, acho que os narradores clássicos não são escravos de bengalas, eles caminham com as próprias pernas, sem amparos de bordões. Os narradores que fazem a linha mais popular, mais “povão”, se socorrem dos bordões, porque o “povão” vive de bordões. O “povão” gosta de frases prontas. Aquele público “mais exigente”, gosta de conteúdo limpo. A frase pronta é sempre um recurso que te remete para um caminho, assim, de mais pobreza de texto. Mas tem muita gente que tem perícia em fazer bordões. O Haroldo, por exemplo, é um exímio criador de bordões. Os bordões dele são cantados nas arquibancadas dos estádios pelos torcedores. O Paulo Brito152, por exemplo, assumiu um bordão que era
do povo, e transformou como “sendo dele”, o “Feito!”. Com uma palavra ele criou um bordão que vai levar ele para eternidade, quando ele estiver “a sete palmos”. Daqui 30 ou 40 anos alguém vai dizer “tinha o cara aquele que dizia Feito!”. É uma virtude dele. Ele conseguiu transformar um bordão, que era do povo, como se fosse dele, e deu notoriedade, ganhou um carimbo ali (PINHEIRO, 2015).
O que vale muito mais, o que é mais importante para José Aldo Pinheiro, é a capacidade do narrador de transmitir emoção. Cita também o caso do narrador uruguaio Victor Hugo Morales153, em especial as narrações de gols do jogador Maradona, contra a Inglaterra, em 1986. Segundo ele, são gols que, 30 anos depois, ainda emocionam, tal a forma que foram construídos, sem a necessidade de bordões. “E ele agradece a Maradona, ‘gracias por esta lágrima’. E, naquele momento, um uruguaio chora de emoção ao narrar um gol da Argentina, porque ele estava descrevendo uma obra de arte” (PINHEIRO, 2015).
Têm uns gols assim que marcam, às vezes eu ouço. Roberto Batata tinha morrido e quem cobrou a falta, puxa vida, não me lembro se foi Jairzinho. A narração é do Vilibaldo Alves. É um gol do Cruzeiro, e ele narra, assim, de uma maneira brilhante que a gente ouve e, pô, que gol bem narrado. E aí, depois do gol, ele dá aquele discurso, que hoje se usa menos, está mais em desuso, e ele disse que “os anjos lá do céu, dizem amém. Roberto Batata, onde você estiver, este gol é para você...”. Foi uma cobrança de falta, o Batata tinha morrido. E o Cruzeiro estava decidindo Copa Libertadores, acho que com o River Plate, a decisão. E é uma narração magistral. Ele era um grande narrador (PINHEIRO, 2015).
A narração mais inesquecível para José Aldo Pinheiro, foi, justamente, no início de sua carreira.
152 Atual narrador da RBS TV.
153 “Victor Hugo Morales siente la misma pasión por el medio que en la década de 60, cuando era un oyente en la pequeña ciudad de Cardona. Creció en el relato al mismo tiempo que la televisión se imponía en la sociedad. Trabajó en la televisión, pero, su vida siguió estando en el radio. Impuso un estilo de relatar fútbol que triunfó em Uruguay y Argentina; com uma voz excepcional, pero sobre todo con una pasión increíble por cada detalle del espetáculo radial. Cambió el perfil del relator de fútbol. Víctor Hugo, el relator más escuchado de Argentina y es protagonista de la historia de la radio de Río de la Plata”. Fonte: Un grito de Gol – La historia del relato de fútbol em la radio uruguaya. ROSENBERG
Do ponto de vista assim, enfático, histórico e circunstancial, um jogo que me marcou foi eu, com 18 anos de idade, é, por aí, 17, 18 anos, narrando a final da Copa Libertadores, o Grêmio contra a equipe do Peñarol, no Olímpico. Uma viagem curiosa, nós viajamos num chevette entre cinco, mais o equipamento e as malas, então, nós vínhamos como aqueles retirantes nordestinos, com malas pela cabeça. Uma noite muito fria, e fizemos aquele jogo no Olímpico. E aquele cruzamento do Renato, ele deu uma enganchada na bola, um balão meio espírita, sem ângulo, da linha de fundo, e veio o César para fazer o gol de cabeça. Eu infelizmente não tenho esse som dessa gravação, dessa narração. (PINHEIRO, 2015).
Zé Aldo diz que não é contra o uso de recursos e de efeitos sonoros durante uma jornada, com tanto que não haja exageros, que seja comedido. Além disso, não adianta a pessoa apenas desejar narrar futebol, na sua avaliação. Segundo ele, quem não nasce com a capacidade de ter velocidade de fala, não pode insistir em narração de rádio. Para Zé Aldo, cada indivíduo tem características inerentes ao seu ser. Para narrar futebol, o profissional precisa, obrigatoriamente, ter uma dicção que lhe permita a aceleração de fala, sem que este perca a naturalidade e a destreza da oratória.
Este trabalho analisa dois momentos da carreira de José Aldo Pinheiro. O primeiro, em 1994, pela Rádio Guaíba, um duelo entre Flamengo e Internacional, no Maracanã, Rio de Janeiro. A outra partida em destaque é um confronto da Seleção Brasileira, contra a Venezuela, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Assim como Armindo Antônio Ranzolin, considerado por José Aldo Pinheiro como um de seus “mestres”, há outro narrador que também teve uma parcela de importância na projeção de carreira de Zé Aldo. Este experiente locutor, padrinho de nascimento de José Aldo Pinheiro, chegou a Porto Alegre para narrar, na Rádio Guaíba, em 1995, onde permanece até hoje. Tem como uma de suas maiores características, o “mais longo grito de gol” do rádio esportivo do Rio Grande do Sul. Se trata de Orestes de Andrade, o “Galo Missioneiro”, o próximo personagem de Narradores de Futebol, dos
desbravadores aos contemporâneos: estilo e técnica da locução no rádio porto- alegrense (de 1931 a 2015).