É imprescindível a justificativa neste item, de que não é pretendido aqui eleger um culpado acerca das práticas de violência, mas sim buscar subsídios para entender a dinamicidade de um fenômeno tão múltiplo, onde todas as informações se fazem necessárias para ilustrar tal estudo. Começando por uma parte mais conceitual do fenômeno, até mesmo para ter a noção do que os participantes trazem a respeito de violência, parte-se nesse próximo item para as causas que levam aos comportamentos citados por eles como violentos; chegando ao ambiente escolar, com considerações acerca dessas representações.
Os dados trazidos pelo grupo focal com os alunos assemelham-se em vários aspectos com os demais grupos focais, tendo grande enfoque no ambiente familiar e o papel dos pais na criação de seus filhos.
A1 - O principal motivo é a criação em casa, o que você tá aprendendo dentro de casa... desde pequeno ele convive com aquele ambiente estranho... se a pessoa tiver uma boa criação, mesmo que tenha influências na rua ele vai ter consciência do que é certo fazer.
A2 - a maioria é por causa da educação dos pais. Se botar limite tudo bem, agora se não botar limite ele não vai respeitar os outros.
A3 - Os pais muitas vezes ficam agredindo as mães aí eles vê e acaba agredindo na escola. Ele vê; se é normal eu também posso.
A4 - Professor tá na escola é pra ensinar. A educação desse tipo assim são os pais que deve dar; os professores só tão aqui pra complementar.
Idéia semelhante trazida por professores e equipe de direção, quando no ambiente familiar os exemplos se firmam como comuns e passíveis de serem repassados e reproduzidos, gerando intolerância, desrespeito e um conviver próprio dos alunos. Outro aspecto atribuído às causas dessas práticas de violência relaciona-se ao meio em que estão inseridos nossos alunos:
P – a violência aqui está relacionada à intolerância; eles não sabem respeitar o próximo; tem que ser da forma deles. Mas eu não os culpo por isso; eu acho que isso vem de uma desestruturação familiar, do meio em que eles vivem; eles trazem isso pra cá... eles acabam reproduzindo o que eles têm lá fora... eles exteriorizam todo aquele sentimento de raiva, de rebeldia tudo aqui na escola.
D - a violência na escola hoje tem muita relação com o meio social dos nossos alunos... hoje não existe escola que não tem violência. Os alunos hoje marcam território...
Os policiais, que vivenciam diariamente como se configura essa relação, trazem idéias bem concretas sobre como se dá o funcionamento dessa dinâmica familiar na contemporaneidade. As exemplificações trazidas contribuem muito para o entendimento de um ambiente influenciador de práticas violentas que, muitas das vezes, desembocam no ambiente escolar. Na opinião dos policiais:
PM1 - Mesmo pra falar de violência dentro do ambiente escolar, a gente precisa retroceder um pouquinho e falar do ambiente familiar. Pra mim a maioria da violência ou uma boa parte começa da desagregação familiar. A gente encontra alunos praticando atos infracionais porque a mãe trabalha o dia todo, o pai abandonou a família, o pai bebe, a mãe se prostitui, enfim, a base familiar deles normalmente é fraca, tá desestruturada ou eles não têm apoio nenhum, nenhum tipo de referencial dentro da própria família pra guiá-los e tirá-los desses tipos de atos. Então muito da violência lá dentro da escola, é por causa da desagregação familiar, e muitos dos alunos se rebelam, saem de casa, passam noites fora de casa e no outro dia vai pra escola. Tem aluno lá que a gente encontra que passou o final de semana todo longe de casa e na segunda-feira foi direto pra escola e a mãe vai desesperada atrás e ele faz questão de dizer que não vai pra casa, que não gosta de estar em casa.
PM2 - Nós tínhamos na família o quê, o pai que trabalhava fora e a mãe que cuidava do lar. Nas necessidades de hoje, esse papel da mãe que era de educar, ela deixou de lado e foi auxiliar o pai no trabalho. Então quando saem os pais de casa, os filhos ficam com quem... com isso, os filhos começam a fazer certas coisas pra chamar a atenção dos pais; “vou fazer algo errado aqui porque meu pai vai ser chamado e ele vai voltar a atenção pra mim.” Dentro da escola acontece muito isso, eles aprontam, cometem algum ato
infracional porque sabem que a direção vai chamar os pais, então com isso vão me dar um pouquinho de atenção.
Mesmo que a família em nossa sociedade se configure de várias formas, independente de sua estrutura é a primeira experiência vivenciada pelo indivíduo, podendo marcar e até mesmo determinar sua trajetória. E, dependendo dessas experiências, a forma como nossos alunos interpretam a realidade pode ser afetada. Um ambiente familiar marcado pela violência, assim como a perda de funções da família (Aquino,1998), pode influenciar a criança a ser agressiva e a ter comportamentos anti-sociais fora de casa, principalmente na escola. Some-se a isso a rua, vizinhança ou bairro em que vivem.
Outras causas apresentadas pelos grupos focais foram o aprendizado que a rua traz, independente da criação familiar, que acaba por influenciar o comportamento dos jovens; condições financeiras; a falta de segurança; o próprio aluno como causador da violência e a escola por não oferecer um ambiente diferenciado; e a crise de autoridade refletindo na escola.