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Em três datas distintas — 2003, 2006 e 2008 — Manoel de Barros publicou uma trilogia cujos volumes se intitulam respectivamente A Infância, A Segunda Infância e A

Terceira Infância. Em 2010, volta a publicar o livro Menino do Mato, em que retoma o tema

da infância.

A trilogia Memórias inventadas, publicada pela editora Planeta, vem dentro de uma caixinha em forma de presente, onde os textos são ilustrados por iluminuras feitas pela filha do poeta, Martha de Barros. As poesias reinventam a infância do autor, carregada de lirismo, levando à descoberta da poesia, dos animais e da sexualidade e provando que um quintal é maior que o universo. As três obras são prefaciadas pelo texto “Manoel por Manoel”, em que o autor se autodefine em sua função de poeta. Menino do Mato também é prefaciado por esse mesmo texto, mas é publicado pela editora Leya, e no formato tradicional do livro.

Por sua vez, o título Memórias Inventadas lança uma indagação causada por uma certa estranheza: se são memórias, como podem ser inventadas? A invenção é da ordem do novo, daquilo que ainda não aconteceu. E as memórias relacionam-se com lembranças do que, de alguma forma e com alguns limites, já existiu. É que no plano da infância as coisas acontecem de outra maneira: tudo pode ser inventado. A frase de Barros, “noventa por cento do que escrevo é invenção; só dez por cento é mentira” (BARROS, 2003, p. 45), reforça o valor da invenção na criação do novo. E como nada escapa a esta potência criativa, até as memórias são inventadas. Uma escrita do que foi experimentado no passado pode ser desdobrada em múltiplos sentidos.

O livro Memórias inventadas. A infância mostra uma outra concepção da memória, que não se constrói pelas rememorações do real. Geralmente a memória é considerada como “algo da ordem do não-inventado, da desinvenção. Ao contrário, a invenção parece indicar

algo novo, que se inicia, que começa, portanto impossível de ser lembrado... A memória e a invenção andariam em direções contrárias, desentendidas” (KOHAN, 2007, p. 56). E é justamente nesta contradição que Manoel de Barros cria a sua poesia, voltando-se para o passado e reinventando o tempo da infância. A linguagem poética é o diapasão que regula e afina esse processo polifônico que constrói, com os cacos da infância, os novos sentidos escondidos nas dobras das palavras.

Nestas contradições, são abertas possibilidades de se repensar o processo de criação. É algo que traduz um corte com a ordem contínua e sucessiva do tempo. Uma memória inventada está numa dimensão outra, que não comporta nem passado, nem presente, mas um instante contínuo de experimentação, algo muito próprio do imaginário infantil.

A maioria das histórias contadas pelos adultos sobre a sua infância não representa o mundo infantil em toda sua potência criadora. As infâncias, tais quais narradas em muitos textos biográficos, não conseguem traduzir a experiência do universo infantil. A poesia de Manoel de Barros não sofre dessa limitação. Na imaginação do autor, a infância é descrita como um poema, ele brinca com as palavras, criando imagens inusitadas em suas composições. Ao inventar suas memórias, o poeta apresenta uma forma outra de se experimentar a infância, que não é referencial nem verificável, mas singular em suas vivências criadoras.

A intimidade com os objetos de brincadeira infantil, a simbiose com os elementos naturais fazem do poeta um artesão que, na correnteza da linguagem, assinala sua singularidade. Este diferencial instaura relações novas com o mundo ao redor. As coisas pequenas e ínfimas são valoradas, ganhando espaço na poética de Barros.

Manoel de Barros escreve um faz-de-conta da infância, rompendo com os clichês e os valores cristalizados, uma escrita em expansão, traçando linhas em que passado e presente se cruzam. O futuro então aparece como possibilidade nas recordações e nas vozes silenciadas pelo tempo.

Ao compreender o texto poético de Manoel de Barros como uma infância da escrita, abrem-se vias, por meio da linguagem, para que muitas experiências possam ser experimentadas. As memórias afetivas seriam grafadas por um registro inaugural e originário de sensações que talvez nunca poderiam ser vivenciadas no período da infância. As memórias

podem então ser criadas, no reino da “invencionática”. Um desenho novo se delineia, como as lembranças de uma infância que jamais existiu, como aquelas evocadas por Barthes:

Do passado é minha infância que mais me fascina; somente ela , quando a olho, não me traz o pesar do tempo abolido. Pois não é o irreversível que nela descubro, é o irredutível: tudo o que ainda está em mim, por acessos; na criança, leio a corpo descoberto o avesso negro de mim mesmo, o tédio, a vulnerabilidade, a aptidão dos desesperos (felizmente plurais), a emoção interna, cortada, para sua infelicidade, de toda expressão (BARTHES, 2002, p.34).

Na poesia de Manoel de Barros, também se verifica esse irredutível de que Barthes fala. O que importa são os caminhos que se abrem, acessando pela palavra poética uma infância. No quintal em que se brincou na infância, o poeta revelou os “achadouros”, buracos que os holandeses faziam para esconder suas moedas de ouro. A partir desta história que uma descendente de escravos contava, Barros reflete sobre os “achadouros de infância”. Ao cavar buracos nos quintais das memórias, se podem construir caminhos até a redescoberta de uma infância, como no poema “Achadouros” (BARROS, 2003).

O quintal é o lugar onde as coisas ganham importância pelo grau de intimidade que se tem com elas. Retorna-se a um tempo através das lembranças que se valorizam pela carga emotiva estabelecida entre passado e presente. Assim percebida, a infância não se reduz a um tempo pessoal e imutável, podendo funcionar como um laboratório para repensar e ampliar sensibilidades e virtualidades não desenvolvidas, conforme postulação de Konder:

Todo passado está carregado de possibilidades de futuro que se perderam e que teriam (ou têm?) para nós uma significação decisiva: Benjamin sublinhava a importância desse “futuro do pretérito” na rememoração histórica.(...). É aí que o tema da infância assumia um papel fundamental: cada um de nós tem a possibilidade de rememorar sua própria infância, que é uma história que lhe é íntima, que pode lhe abrir segredos preciosos, que pode funcionar como um centro especial de treinamento para o sujeito desenvolver sua sensibilidade e sua capacidade de resgatar significações obscurecidas que ficaram no passado (KONDER, 1988, p. 55-56).

Para Manoel de Barros, a infância é lugar privilegiado. Na sua escrita, há sempre um futuro do pretérito, algo que se passou, mas que pode ser continuamente recriado. O empenho do eu poético ocorre no sentido de buscar os achadouros, abrindo caminhos em direção à infância, não diferentemente do que faz o narrador do romance Dom Casmurro cujo evidente fim é reencontrar o tempo antigo e redescobrir o frescor da juventude, ou, nas palavras dele,

“atar as duas pontas de vida, e restaurar a velhice na adolescência” (MACHADO DE ASSIS, 1959, p.730). Em Barros, lemos:“Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos” (BARROS, 2003).

O poeta não quer somente buscar o menino que ele foi, mas uma infância propícia à criação. Um reencontro constante com essa infância que torne os leitores uns “apanhadores de desperdícios”. É a maneira de resgatar a criança que imagina, inventa, valoriza os “inutensílios” e, por vezes, transgride a ordem adulta.

De acordo com o Dicionário Michaellis da Língua Portuguesa, há as seguintes definições para a palavra senda:

1 Caminho desviado, estreito, para pedestres; atalho, vereda. 2 O caminho que se segue na vida, quer praticando a virtude quer o vício. 3 Hábito, praxe, rotina. 4 Modo de proceder. 5 Via moral.

Tendo tal sentido em vista, também aqui se abrem sendas para descobrir uma infância da escrita na obra de Guimarães Rosa. São atalhos ou veredas que se estendem a uma poética infantil, percurso mediado pela “invencionática” de Manoel de Barros. E igualmente abre-se a possibilidade de pensar outras formas de proceder literariamente.

4.1.1.1 - Senda primeira: Comunhão

No prefácio incluído nas últimas quatro obras de Barros, o autor tenta se definir, reportando ao modo de ser menino. Eis o que diz o autor:

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui.

Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem.

Quando era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho.

Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio.

Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto. Cresci brincando no chão, entre formigas.

De uma infância livre e sem comparamentos.

Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

orvalho e sua aranha,de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas.

Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina.

É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor.

Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela.

Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol.

O menino e o rio.

Era o menino e as árvores (BARROS, 2003, Manoel de Barros por

Manoel de Barros).

A infância é descrita como o tempo das descobertas, do contato e comunhão com a natureza, espaço e tempo em que tudo se nos afigura uno, e o desprezível passa a ter valor, a merecer destaque. Manoel de Barros remexe com as possibilidades múltiplas do escrever, ou seja, demonstra o quanto criativo e libertador pode ser o trabalho poético. Essa possibilidade resulta sobretudo da comunhão, intermediada pela natureza, entre a infância e a escrita poética.

Na infância, há uma maior receptividade das coisas que são naturais, há mais comunhão com seres e linguagens primevas, pois a criança experimenta sempre, como se fosse a primeira vez, cada emoção, cada contato com a terra, com as árvores, com os bichos, enfim, com o mundo.

Conforme defende Linhares, na poética de Barros há uma interação do eu-atual e do

eu-do-passado: “Ele busca fazer a comunhão entre a criança que foi com o adulto que é, mas

sem conseguir desvencilhar-se da visão que nesse um conjugam-se dois” (2006, p.65). Assim, não há espaço para a comparação entre ser adulto e criança, pois pela escrita poética, instaura- se uma comunhão entre ambos, ou seja, entre tempos ou fases da vida que, via de regra, são considerados excludentes entre si.

Existe também uma relação íntima entre o menino e a natureza. O limite entre os dois é quase indistinguível: a criança se integra à natureza, torna-se natureza, comunga com ela. Isso se torna possível porque, ao compor seu mundo de brincadeiras, a criança nulifica os limites entre interioridade e exterioridade, dentro e fora, natureza e cultura. Além disso, o espaço na natureza é propício ao brincar e ao diluir fronteiras: nele, há comunhão da criança com as coisas, bichos e plantas. Pode-se, ademais, entender o quintal da infância representada

na poética de Barros como o espaço em que, criativas, as crianças constroem um mundo sem a intervenção, a limitação ou o direcionamento de adultos.

Esta senda da comunhão que Manoel de Barros abre para a compreensão da escrita poética infantil, leva em direção ao Sirimim rosiano. A comunhão para a qual aponta Barros ocorre pela retomada de uma singularidade que, através das palavras, se transmuta na criança e na fusão dos elementos da natureza. Tudo germina, cresce, transforma-se com uma escrita poética. Trata-se de uma poesia/vida que promove, na escrita da infância, um encontro cuja dimensão está fora do tempo sucessivo e linear.

Em toda a narrativa de “Recados do Sirimim”, de Guimarães Rosa, percebe-se a comunhão entre poesia, natureza e o modo infantil de agir/imaginar/escrever infantil. Encontram-se muitos exemplos que materializam sensações que podem ser experimentadas pelo leitor quando este percorre o riacho Sirimim. Por meio da escrita de Rosa, é possível se reportar à infância nas imagens criadas, ou desejá-la como uma infância que poderia ser vivida por qualquer pessoa. Assim, experimentando sensações e compartilhando imagens, pode-se viver de forma inaudita uma infância pessoal e peculiar, mas ao mesmo tempo bem universal. As experiências ou vivências forjadas na imaginação propiciam sensações que nos aproximam de realidades possíveis que se presentificam através do discurso.

Em “Recados do Sirimim” surge o narrador em primeira pessoa. Parece um aprofundamento gradual que se estabelece na relação entre o narrador e o leitor. Aos poucos, conforme se institui um maior contato com a narrativa rosiana, tece-se uma intimidade do leitor com a história do riachinho. “Nosso riachinho vai, vai. Dou a vocês notícias dele, nesse tempo de amores. De lá, o mundo é lúcil, transparente. É julho” (ROSA, 1994, 1175).

Os elementos da natureza se conjugam nesta paisagem invernal, compondo um mosaico sutil que sempre tem como personagem principal o próprio Sirimim. As “raízes crianceiras” citadas por Barros aparecem aqui em cada detalhe do cenário que vai se concretizando, como a neblina que se torna fiapos. “Com o sol, ela já dá de se esfiapando, subindo – os penachos de neblina” (ibidem).

Tudo está em comunhão na paisagem de Sirimim: as pedras, a neblina, as árvores, os animais, as pessoas. Neste sentido, as coisas de importância menor são ressaltadas na composição da natureza que circunda o riachinho. É assim que ocorre na gradação em que é apresentado o Sirimim, pois na sequência dos três contos (“Riachinho Sirimim”, ‘Recados do

Sirimim” e “Mais meu Sirimim”) aos poucos são inseridos os personagens humanos. O riacho é o eixo principal, em torno dele, em total comunhão, estão outros elementos da natureza e os seres humanos, sem que haja uma relevância maior para qualquer um desses componentes. Como Manoel de Barros, Rosa humaniza as coisas e os humanos, colocando-os num mesmo patamar.

Em “Recados do Sirimim”, a escrita de Rosa revela a comunhão entre os seres, entre as possibilidades. O sujeito é dissolvido na paisagem, não aparece nem como agente, nem como observador. Para o autor, o importante não está em grandes, mas em pequenos acontecimentos da vida. Descobre nos eventos locais uma valoração da simplicidade do viver. Essa atitude poética só acontece quando a escrita se constrói a partir de uma visão infantil, em homologia com estas palavras de Barros: “Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore” (BARROS, 2003, Manoel de Barros por Manoel de Barros).

Não é necessário vivenciar ou experimentar diretamente esta realidade para se identificar com a experiência de uma infância no Sirimim. Na verdade, experimenta-se, por meio da poesia, uma vivência do Outro, uma imaginação do Outro, da criação ou recriação da mente que “vê, revê e transvê” (BARROS, 2000, p. 75). Nesse sentido, citando Lopes (2007, p. 87), o mundo e a paisagem “implodem o sujeito” através da escolha de termos que evidenciam a pluralidade que integra a formação de uma singularidade: a comunhão, senda aberta para a compreensão da infância da escrita em Rosa, ocorre por uma distinção não de uma coisa fora de si mesma, mas distinta em si.

As palavras em Rosa estão povoadas de sensações, em uma comunhão sinestésica. Indistintos sentimentos podem brotar de expressões como “Pedro raiava feliz”, “o calor estava pesando forte”, “barulho de nino de água” (ROSA, 1994, p. 1175- 1176). Nesta comunhão de sensações, é muito forte a impressão de materialização do que parece impalpável, o que é próprio do infantil:

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento – mas o rabo do vento escorregava muito e eu não conseguia pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. (BARROS, 2008,

A necessidade de concretude deste ato é concomitante ao instante em que o menino tenta agarrar algo inconsistente. E a escrita poética deriva mesmo destas tentativas de captar aquilo que é impalpável, difícil de ser definido concreta e semanticamente. É o ritmo fluido da poesia.

Os personagens misturam-se ao ambiente que os cercam. A vivência e a comunhão entre os seres parecem completas, simbióticas, um amálgama. Como já visto anteriormente, não são priorizadas as narrativas dos personagens habitantes das margens do Sirimim. Não se conta uma história sobre a vida deles. O que ganha relevância é justamente essa comunhão das pessoas com os elementos naturais. São os olhos d’água no terreiro de Joaquim, o formigueiro na casa de Antonio, as plantações de Pedro, as rãs de Irene (ROSA, 1994, p. 1175-1177). Ao mostrar as histórias do Sirimim, Rosa logra também a comunhão entre os personagens e a natureza ao redor. Ao capturar o riacho em seu curso, o autor não quer somente assemelhar pessoas à natureza, mas transmutá-las na própria natureza.

Manoel de Barros, em entrevista à Martha Barros, diz que

(...) é preciso evitar o grave perigo de uma degustação contemplativa dessa natureza, sem a menor comunhão do ente com o ser. Há o perigo de se cair no superficial fotográfico, na pura cópia, sem aquela surda transfiguração epifânica. A simples enumeração de bichos, plantas (jacarés, carandá, seriema, etc.) não transmitem a essência da natureza, senão que apenas a sua aparência. Aos poetas é reservado transmitir a essência. Vem daí que é preciso humanizar de você a natureza e depois transfazê-la em versos” (BARROS, 1996, p.315).

É pela escrita poética que Barros, assim como Rosa, constrói uma singularidade, numa série de aproximações e distanciamentos, nas coisas em si. Assim, costura seu processo de identificação juntando permanência e singularidade, corporiedade e incorpóreo. Demonstra o ser no mundo e com o mundo, de forma que a essência se realiza na existência humana, não podendo ser entendido como tal, se fossem furtadas suas experiências de interação e descobertas com a natureza, com as pessoas, com os seres naturais. Assim sendo, nessas interações e descobertas, estão potencializadas as motivações que o conduzem ao poético.

4.1.1.2 - Segunda senda: Canto inaugural

mesmo, como o encantamento da palavra inaugural: “Transforma-se em poeta de um só tema: a palavra a ser inventada e, com ela, toda a realidade” (CASTRO, 1991, p.12). O poeta busca nas palavras, nomeando o ser nas coisas que brotam e emergem, conferindo-lhes presença na vida do poema. A palavra é original e originante. Manoel de Barros, encantador de palavras, comunga da visão a partir do horizonte das coisas, pois “o que desabre o ser é ver e ver-se” (BARROS, 2003, p.23).

Manoel de Barros cria o instante poético de uma infância que perdura na memória do adulto. O que não é, porém, uma simples recordação do passado infantil. O processo de revitalização da infância se estende além da rememoração, pois se vincula a um modo de constante criação e transformação. Recuperam-se os instantes vividos da infância pela imaginação criativa de uma memória poética, como nos sugere a seguinte passagem:

Meditar na origem da existência humana, recordar o tempo de infância significa poetizar a gênese da vida [...] A origem não é o início, mas o princípio dinâmico da vida, que assegura a sua razão de ser [...] O mundo da existência renasce porque mergulha as suas raízes no universo da infância (MELO E SOUZA apud CASTRO, p. 114).

O movimento poético de Barros, então, é o de “escovar as palavras”, para que se possam escutar os “clamores antigos” (BARROS, 2003, Escova). São as palavras-concha, lugares que se desdobram em inúmeras possibilidades para inaugurar sentidos outros.

A palavra poética de uma infância resgatada nas grutas pela memória desconhece a disciplina da ordem estabelecida pelo mundo adulto. Assim, também desconhece o sentido arbitrado para o que é útil e o que não é. A poesia de Barros se estabelece pelos “nomes que fertilizam a linguagem”, abrindo caminhos de “volta aos primórdios”, para “o início dos cantos do homem” (BARROS, 2006, Nomes). Descarta as coisas úteis, redescobrindo funções

Benzer Belgeler