Deleuze segue a linha de Bergson para o qual a memória sobrevive de duas diferentes maneiras: uma enquanto experiência vivida e outra enquanto reservatório de lembranças. A primeira teria como tarefa orientar a inteligência e o corpo a realizar suas funções de costume, sendo adquirida pela repetição de um mesmo esforço (movimentos automáticos). Antes hábito do que memória, ela formaria “o conjunto de mecanismos inteligentemente montados que
147TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 142. 148TARKOVSKI, A. Esculpir o tempo. p. 221.
asseguram uma réplica conveniente às diversas interpelações possíveis”149. A outra seria a memória verdadeira, a memória por excelência, extensiva a consciência. Essa memória seria capaz de armazenar todo o passado, mesmo que sem pretensão de utiliza-lo, retendo e alinhando “uns após todos os nossos estados à medida que eles se produzem dando a cada fato seu lugar”150.
Essa distinção feita por Bergson entre duas memórias vai explicar a distinção feita por Deleuze no terceiro capítulo de Imagem-tempo entre dois tipos de reconhecimento, que vai ser importante no que se refere à apreensão de dois tipos de cinema, como veremos mais adiante. Os dois tipos de reconhecimento são: o reconhecimento automotivo e o reconhecimento atento.
O reconhecimento automotivo tem seu fundamento na percepção e na ação. “É um reconhecimento sensório-motor que se faz, acima de tudo, através de movimentos: basta ver o objeto para entrarem em funcionamento mecanismos motores que se constituíram e acumularam”151. Neste reconhecimento o tempo está em decorrência do movimento.
Deleuze identifica esse tipo de reconhecimento no cinema das imagens-movimento. Onde o reconhecimento do objeto se dá de forma automática e a percepção se prolonga em movimentos habituais que visam respostas úteis. Bem diferente é o reconhecimento atento.
Esse outro reconhecimento se dá por intervenção temporal e implica um trabalho do espírito que não cessa de se reportar ao passado em busca de representações mais capazes de se inserirem na situação atual. O reconhecimento atento, a propósito, se dá por intervenção direta da memória. Quando nossa atenção nos introduz cada vez mais nas regiões mais profundas da nossa subjetividade. Nesse reconhecimento os movimentos retornam ao objeto para enfatizar certos contornos, reter outro aspecto e extrair características a fim de um conhecimento mais profundo.
Saltamos o tempo todo em regiões do passado, onde nos refugiamos todas as vezes que buscamos aí uma certa imagem. O tempo assume nesse reconhecimento um papel importante, pois vai-se da percepção à memória, e não mais da percepção à ação.
Em vez de uma soma de objetos distintos num mesmo plano, agora o objeto permanece o mesmo, mas passa por diferentes planos. No primeiro caso, tínhamos, percebíamos da coisa uma imagem sensório-motora. No
149BERGSON, H. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. pp. 176-177. 150BERGSON, H. Matéria e Memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. p. 177. 151DELEUZE, G. Imagem-tempo. p. 59.
outro, constituímos da coisa uma imagem ótica (e sonora) pura, fazemos uma descrição152.
Mesmo sendo uma “descrição” que “apaga” o objeto concreto, a imagem ótica e sonora pura, segundo Deleuze, é verdadeiramente rica. A sobriedade dessa imagem, a raridade do que retém, sempre eleva a coisa a uma singularidade essencial, a uma descrição inesgotável.
A imagem ótica e sonora pura sempre remete a descrição a outras descrições, adentrando em camadas mais profundas da realidade. Isso acontece porque quando a percepção não se prolonga necessariamente em movimento, ela entra em relação com imagens de outro tipo constituindo um circuito com as imagens abstratas e imateriais presentes em nossa memória.
A hipótese de Bergson é que o reconhecimento atento entra em relação com uma imagem-lembrança, todavia, Deleuze vai nos dizer que a imagem-lembrança não é virtual, mas apenas uma atualização da lembrança pura, essa sim virtual. Nesse sentido, a imagem- lembrança permite que se retorne ao fluxo sensório-motor. Como diria Sandro Kobol Fornazari:
O reconhecimento atento se faz por meio de imagens- lembrança. Isso significa que o fluxo sensório-motor é restabelecido: a imagem-percepção atual se encadeia não automaticamente, mas com uma imagem-lembrança que reconduz ao movimento, à imagem-ação. Assim, a hipótese não se confirmou, a imagem-lembrança não é o correlato da imagem ótica e sonora pura, não forma com ela o circuito de indiscernibilidade que procurávamos. É necessário procurá-lo, então, justamente quando fracassa o reconhecimento atento, quando não conseguimos lembrar e o prolongamento sensório-motor fica suspenso, não se encadeia nem mesmo com uma imagem- lembrança. É nesse fracasso que nos colocamos em relação com elementos autenticamente virtuais, contornos imprecisos da memória, sonhos, devaneios. Estes serão os correlatos autênticos da imagem ótica pura. Eles compõem um novo tipo de imagem, a imagem-cristal153.
152DELEUZE, G. A imagem-tempo pp. 59-60.
153FORNAZARI, S. “A imagem-cristal: a leitura deleuziana de Bergson nos livros sobre o cinema”. Artefilosofia. Ouro Preto. nº 9. p. 93-100. Outubro 2010. p. 98.
A imagem-lembrança apenas representa um presente que o passado foi, não o passado ‘ele mesmo’. O cinema clássico já utilizava tal técnica de evocar o passado através do
flashback. Podemos observar já no cinema mudo essa técnica de evocar o passado através do resgate de uma imagem-lembrança. Nesse modelo de cinema o flashback aparecia de forma bem demarcada - quase como se houvesse uma alerta: ‘atenção! agora é a lembrança!’ - como forma de criar suspense ou de explicar as motivações dos personagens. A imagem-lembrança cinematograficamente falando seria o flashback e para Deleuze há uma insuficiência do flashback face ao passado.