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3. ONARIMLAR VE AYARLAMALAR

3.4 Ölçüm ve Kalibrasyon Sorunları

A literatura profética foi e é compreendida como palavra revelada por Deus aos seus mensageiros, os profetas. Assim, todo oráculo registrado nos livros proféticos deve ser estudado como literatura e como palavra teologicamente elaborada: revelação. Esta revelação fora mediada pelo profeta, que estava imerso em sua realidade histórica. Deste processo, a palavra revelada faz surgir uma nova consciência desta realidade. Uma nova consciência capaz de encorajar e efetivar alterações estruturais na vida das pessoas e dos povos.113

Os Oráculos contra as Nações (OCN) fazem parte desta revelação histórica na realidade do profeta, acerca do relacionamento de seu povo (Israel/Judá) com as outras nações à sua volta. O principal objetivo dos profetas era o de revelar a mensagem de Javé para a vida de seu povo (Israel/Judá). O eixo central de sua missão era o de denunciar as estruturas

111 CHRISTENSEN, Duane L. Transformations of the War Oracle in Old Testament Prophecy: Study in the

Oracles Against the Nations, Havard: Edward Brothers, 1975, p.1.

112 Idem, p.1

corrompidas e anunciar os conteúdos exortativos, da parte de Javé, para as mudanças na vida do povo da aliança (Israel/Judá). Todavia, as estruturas vigentes nas sociedades, israelita e judaíta, estavam profundamente relacionadas com as outras nações. Tal realidade sócio- política também demandaria as ações divinas sobre as outras nações.

De certa forma, os OCN inserem na mensagem profética a consciência de que toda realidade de Israel/Judá estava profundamente atrelada ao movimento da história de seu mundo. As transformações, desejadas por Javé, na vida do povo da aliança (Israel/Judá), necessariamente, passariam: pela correção de ações sócio-políticas; pela alteração das opções econômico-militares e pela reversão ou conservação das alianças constituídas durante a sua história (especificamente o período da monarquia). Assim sendo, os OCN cumprem o papel, nos livros proféticos, de esclarecer sobre a interação da vida política de Israel/Judá com as outras nações. Afirma também que, por todas as opções políticas na história, decorreriam conseqüências positivas e negativas para a vida do povo, incluindo a capacidade de permanecer fiel ou não ao seu Deus.

Os OCN destacam a importância da política internacional e, de como esta poderia afetar a vida do povo em todas as suas dimensões: arte, economia, comércio, posse da terra, guerra, sucessão monárquica, religião, entre outras. Os OCN estão inseridos no contexto da política internacional e, mais especificamente, nos conflitos políticos e militares (enfrentamentos por guerra). Estes parecem conservar vestígios de alianças políticas (algumas conservadas e outras alteradas).114

Os OCN, como obra literária, são poemas oraculares115 dirigidos a uma nação.

Normalmente, as coleções de OCN se dirigiam às nações vizinhas e, por vezes, às nações imperiais (Assíria, Babilônia)116. Esses oráculos proclamavam uma mensagem estruturada

dentro do esquema: Sentença – Crime – Castigo, denunciando os erros da nação frente aos acordos com outros povos e apresentando a forma com que o Deus Javé castigaria tais atitudes117. Os OCN se constituem como profecia de julgamento. Através deste, Javé

114 CHRISTENSEN, Duane L. Transformations of the War Oracle in Old Testament Prophecy, p.73. 115 Idem. p. 01.

116 CROATTO, José Severino. La Estructura de los Libros Proféticos: Las relecturas en el interior del corpus

profético. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana – RIBLA no 35-36: Los Libros Proféticos – La voz de los profetas y sus relecturas, Quito-Ecuador: RECU, 2000, p.19.

117 ALMADA, Samuel. La Profecía de Ezequiel: Señales de esperanza para exiliados – oráculos, visiones y

estructuras. In: In: Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana – RIBLA no 35-36: Los Libros Proféticos – La voz de los profetas y sus relecturas, Quito-Ecuador: RECU, 2000, p. 111. SILVA, Airton José. A voz necessária: encontro com profetas do século VII a.C., São Paulo: Paulus, 1998, p.54.

outorgava sua sentença às nações e, de certa forma, comunicava o seu governo sobre a história.118

Esta tradição profética (anunciar profecias sobre os inimigos) era antiga em Israel, bem como, na prática religiosa dos povos vizinhos (mais especialmente, nos dias da monarquia de Israel/Judá). A prática de consultar a Deus, através de um profeta, diante de um iminente conflito com um inimigo era muito comum. Por isto, pode-se encontrar a informação que o “oráculo contra as nações inimigas” foi uma das primeiras formas da profecia hebraica.119 Esta prática também pode ser encontrada em outras culturas e em outros

documentos antigos, como na liturgia egípcia de execração (tábua 1:3A), na qual se pronunciavam maldições contra inimigos estrangeiros e contra categorias de pecadores internos, como também, a prática profética de Balaão (Nm 22-24).120

A origem deste tipo literário foi o campo de guerra. Diante do inimigo pronunciavam- se as queixas, os crimes e decretava-se a punição em nome de Deus. Depois, este tipo literário deve ter evoluído para liturgias de execração e julgamento das nações, provavelmente, pronunciadas em santuários oficiais antes de batalhas ou de acordos políticos. Por isto, as coleções dos OCN estão repletas do imaginário de guerra. Os crimes são descritos como rompimentos com os aliados ou mesmo com os valores de Javé. Nesses ambientes, estava viva a imagem de um Deus Guerreiro, liderando suas hostes contra os inimigos: tanto na esfera humana, como também, na esfera cósmica (escatologia)121. O Deus Javé era visto como

um vingador, um promotor da justiça que pesaria as ações de todos os reis e reinos.

As coleções dos OCN conservam mensagens proféticas que buscam analisar as nações em suas posturas diante dos outros povos. A análise desses oráculos pode propor uma apresentação de um quadro da situação internacional; propõe ações para as nações estrangeiras e promove, em Israel/Judá, a consciência do poder universal de Javé.122 Os OCN

evidenciaram o conceito teológico de um julgamento divino, tanto sobre as nações estrangeiras quanto sobre o próprio povo de Javé (Israel/Judá).

Não se pode afirmar, homogeneamente, os conteúdos dessas coleções. Todavia, é possível uma aproximação de idéias comuns entre elas, a saber: 1) Os conceitos da “eleição”

118 WESTERMANN, Claus. Basic Form of Prophetic Speech, Cambridge/Luisville: The Lutherworth Press/John

Knox Press, 1967, 204-205.

119 CHRISTENSEN, Duane L. Transformations of the War Oracle in Old Testament Prophecy, p.06. afirmou: a

tradição OCN “foi uma das primeiras, senão a primeira, forma da profecia hebraica e que o estilo e os motivos foram tirados dos protótipos não israelitas...”.

120 GOTTWALD, Norman Kaiser. Introdução Sócio-literária à Bíblia Hebraica, São Paulo: Paulinas, 1988,

p.335.

121 CHRISTENSEN, Duane L. Transformations of the War Oracle in Old Testament Prophecy, p.17. 122 AMSLER, Samuel et al. Os Profetas e os Livros Proféticos, São Paulo: Paulinas, 1992, p.216

(Bahar - ) e da preferência de Israel/Judá sempre são polarizadores ao discurso às nações123; 2) As nações serviam a Javé como fonte de justiça e disciplina para o seu povo124 ou

como exemplos do que Javé poderia vir a fazer com os que falhavam no cumprimento de seus acordos; 3) Expressavam a nacionalidade (israelita/judaíta) em comparação com os outros povos, não simplificando a um estreito nacionalismo, mas analisando seu lugar e ações diante de seu mundo125; 4) Javé era visto como Senhor universal que controlava o movimento do

poder mundial e a aplicação da justiça nas relações internacionais126. Diante dessas idéias é

possível afirmar que as coleções dos OCN apresentam, muito mais, um pensamento teológico para Israel/Judá do que para as outras nações. Fato também percebido por causa do acesso as mensagens proféticas, normalmente comunicadas internamente em Israel/Judá. Por isto, ao analisar essas coleções é necessário atentar para a preocupação teológica dentro da estrutura literária dos livros proféticos.

Dentre as coleções OCN analisadas (Am 1-2; Is 13-23; Ez 25-32 e Jr 45-51) é possível identificar, pelo menos duas coleções (podendo chegar a três), que estão posicionadas no centro do livro. A única exceção é o livro de Amós que posiciona a coleção como sua primeira parte (1-2), assumindo uma idéia climática até chegar às denúncias contra as estruturas corrompidas do povo de Israel (3-6). Tanto o livro do Primeiro Isaías (1-39), quanto o livro de Ezequiel possuem as coleções de OCN dividindo-os ao centro (Is 13-23 e Ez 25- 32). Ainda, o livro de Jeremias na Bíblia Hebraica, tem a coleção de OCN posicionada bem ao final (Jr 45-51). Todavia, no texto da Septuaginta (LXX), a coleção dos OCN também foi posicionada no centro do livro. Tais constatações estruturais parecem indicar, não uma necessária centralidade do conteúdo dos oráculos, mas um importante esquema que favoreceria a consciência de um Deus que agiu universalmente para transformar a vida de seu povo e, principalmente, que desejava aperfeiçoar o relacionamento da aliança constituída para uma vida interna e externamente mais justa.

Os OCN, como um projeto literário-teológico, visava formar uma nova e, mais abrangente, consciência da ação divina na história. Tal realidade, provavelmente, estava atrelada à própria transformação sócio-política desta época (séculos VIII – VI a.C), onde o povo da aliança (Israel/Judá) se viu dentro do movimento político mundial, vitimado internamente pelo domínio dos grandes impérios (Assírio, Babilônico e Persa). Para atender

123 RAD, Gehard von. Teologia do Antigo Testamento, p.124.

124 CROATTO, José Severino. La Estructura de los Libros Proféticos. In: Revista de Interpretação Bíblica

Latino Americana – RIBLA no 35-36, p.19-20.

125 CHRISTENSEN, Duane L. Transformations of the War Oracle in Old Testament Prophecy, p.01. 126 CROATTO, José Severino. La Estructura de los Libros Proféticos. In: Revista de Interpretação Bíblica

essa nova e ampliada forma de pensar o mundo e a ação divina, o pensamento profético- teológico compôs um discurso mais condizente com essa nova realidade internacional.

O discurso profético nos OCN estrangeiras apresentou um Deus de extremo poder sobre a terra.127 Este em sua grandeza e domínio atuava na história das nações julgando-as,

por seus princípios de eqüidade, estabelecendo os destinos dos povos, bem como, exercendo a sua vontade soberana na lógica de predominância e dominação.128 Como Senhor Supremo, o

domínio de Javé fora dimensionado para além da realidade de Israel. Seu agir na história estava voltado para o governo mundial. Por isto, executava sua Vontade através da manutenção ou destituição do poder político-econômico, podendo beneficiar ou punir as nações em suas relações com os outros povos.129

O domínio de Javé foi apresentado dentro de uma lógica universal. Sua atuação como Deus Soberano do mundo ampliava a compreensão de seu poder e de seus valores eternos (leis) expressos para a vida humana. Desta forma, Javé julgava as nações com os padrões de sua justiça eterna e, por estes, definia o tempo e a amplitude do domínio dos grandes impérios na terra. Assim, os destinos mundiais e o controle das nações estavam sob seu comando. Javé não foi visto como um Deus alheio e alienado, ao contrário, foi descrito como agente de todo o movimento histórico: geria e definia as relações internacionais e os seus jogos de poder.

A teologia dos OCN apresentava Javé: Como Deus Soberano que revelou seu lugar de preponderância diante dos povos; Como Soberano Juiz que revelou seus julgamentos contra as nações opressoras e ampliou a comunicação do interesse de uma vida de justiça e de equidade entre as nações e seus negócios (direitos internacionais); Como um Deus que atuou ativamente na história e efetuou sua Vontade, intervindo e alterando a lógica do poder humano e político entre as nações.

A esta teologia estava resguardada a posição especial do povo da aliança com Javé (Israel/Judá). Javé era conhecido como o Deus de Israel/Judá, pois este povo possuía uma aliança com esse Deus. Por isto, os OCN parecem comunicar uma particularidade, um privilégio (mesmo que puramente comunicacional), uma proteção especial para o povo da aliança em relação às outras nações. O fato de se comunicar com seu povo (Israel/Judá),

127 WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento, p. 116. CROATTO, José Severino. La Estructura

de los Libros Proféticos. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino Americana – RIBLA no 35-36, p.54. HEIMER, Haroldo. A Tradição de Isaías, In: Estudo Bíblicos no 89 – Segundo Isaías: Is 40-55. Petrópolis:

Vozes, 2006/1, p. 12.

128 WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento, p. 116. CROATTO, José Severino. La Estructura

de los Libros Proféticos, p.54. AMSLER, Samuel et al. Os Profetas e os Livros Proféticos, p. 268. SILVA, Airton José. A voz necessária, p.55.

129 RAD, Gehard von. Teologia do Antigo Testamento, p.129. ALONSO SCHÖKEL, Luís. Profetas II: Ezequiel,

dando ciência de seu agir no mundo e apresentando as várias razões para tais ações promovia uma oportunidade maior de acerto. O privilégio de ouvir a mensagem profética, de conhecer a vontade divina e de ter acesso especial à revelação histórica deveria favorecer o processo de aprendizado, de conversão e de salvação para os seus eleitos. Os OCN comunicam a natureza divina de governar a história poderosamente e de perceber as oportunidades concedidas às nações pelas suas ternas misericórdias. O desenvolvimento desta consciência deveria gerar, no povo que ouviu a mensagem, temor e obediência aos valores de Deus.

A revelação divina nos OCN apresentava valores que deveriam ser recusados na vida de todas as nações, e mais ainda nas nações do pacto (Israel/Judá), tais como: a deslealdade, a falta de misericórdia, a violência, o vandalismo, a traição, entre outros.130 Além disto, também

revelava que Javé usaria as nações como agentes purificadores para a vida de seu povo e que por seu agir na história, através das nações, santificaria o seu povo.131 Acaso seria esta uma

justificativa para a vida na diáspora? Uma experiência que se prolongaria historicamente para as nações Israel e Judá.

As coleções dos OCN podem ser vistas como uma elaboração teológica da história “que relaciona o destino de Judá com a realidade da política internacional, pressupondo o amadurecimento da fé no período do exílio”132 e do pós-exílio. Todavia, há possibilidades de

parte desta tradição ter origem antes do exílio, apresentando um Deus guerreiro, interessado no movimento internacional, pronto a agir para o bem de seu povo (Israel/Judá)133, mesmo

como um pensamento embrionário. Assim sendo, o referido material literário pode expressar a origem e o desenvolvimento ao longo dos séculos VIII à V a.C., podendo-se admitir que, em seus conteúdos, há muito da dinâmica e do crescimento dos conflitos e rivalidades entre as nações (se forem comparados os oráculos entre as coleções). Por isto, esse trabalho passará a avaliar cada coleção individualmente, para que através desta análise, seja possível propor uma progressão literária que explique as rivalidades, os conflitos e o ódio entre judaítas e edomitas.

130 HESCHEL, Abraham J. The Prophets, Vol 01. New York/Hageraton/London: Harper Colophon Books, 1969,

p.29-30.

131 CROATTO, José Severino. La Estructura de los Libros Proféticos, p.57. 132 HEIMER, Haroldo. A Tradição de Isaías, In: Estudo Bíblicos no 89, p. 12.

Benzer Belgeler