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Ofício enviado ao Governador Civil

Com a presente venho dar conhecimento de que nesta data oficializei o meu pedido de demissão dessa Comissão Administrativa o qual tinha sido feito na vossa presença verbalmente ao Ex. Sr. Governador Civil no passado dia dezoito do corrente cerca das vinte e quatro horas. Junto se remete cópia do ofício que hoje mesmo entreguei ao sr. Governador Civil.

Com as melhores saudações democráticas me despeço esperando que não haja nunca razões que alterem as nossas relações particulares de amizade.

1.5. O polémico hasteamento da bandeira da União Soviética

Na Câmara Municipal de Setúbal.A astronauta soviética, Valentina Tereshko- va, membro do Soviete Supremo do Comité Central da União Soviética fez no início de junho de 1975 uma visita a Portugal, a convite do MDM. No aeroporto foi recebida por Álvaro Cunhal e por outros membros do Comité Central do PCP, tendo ainda participado em vários comícios e reuniões em Lisboa, Setúbal, Se- simbra e Grândola.

A sua passagem por Setúbal provocará uma inesperada crise política que determi- nará o afastamento do recém-nomeado Presidente da Comissão Administrativa. Valentina Tereshkova foi felicitada nos Paços do Concelho pelo Governador Civil e pelo Presidente da Comissão Administrativa da CMS e por Maria Isabel Velez do MDM de Palmela.

Vítor Zacarias, Presidente da CA, saudou a visitante em nome da cidade. Explicou o processo de mobilidade social ascendente nas sociedades socialistas e na União Soviética. Terminou o seu discurso afirmando: “É assim que nós queremos que seja também em Portugal. Viva a União Soviética, viva a Valentina Tereshkova, viva Portugal”.

Era desta maneira apresentado à sociedade setubalense um dos símbolos da mo- dernidade e também da “superioridade” da União Soviética face ao mundo capi- talista.

Durante a cerimónia, a bandeira da então União Soviética estava hasteada no mastro principal do edifício municipal.

Quando terminou o seu discurso, o Presidente da CA estava longe de pensar no terramoto político em que ele próprio estaria envolvido nos dias seguintes. Nesse dia mesmo, a quebra da rotina do hasteamento da bandeira iria provocar a reação da oposição política à Câmara. O Partido Socialista terá, mais uma vez, um papel de destaque, considerando que a colocação da bandeira soviética no mas- tro principal do edifício camarário integrava um ato de subserviência face a um país estrangeiro.

Num comunicado à população, esgrimirá os seus argumentos contra a ação da CA, pedindo ao Governador Civil, ao Governo e ao MFA que interfiram neste as- sunto, classificado como sendo da maior gravidade. Exige a exoneração da CA. Na reunião da CA, de 2 de junho, Vítor Zacarias, ainda antes do cumprimento da ordem de trabalhos, intervém para desvalorizar o incidente, desmentindo e repu- diando o “significado atribuído aos factos a que se refere o relato de um comuni- cado hoje distribuído na cidade”.

Tratar-se-ia, na sua perspetiva, unicamente de um lapso protocolar que explica desta forma: “Como acontece em todos os domingos e dias feriados tinham sido içadas à hora habitual nos três mastros da varanda do edifício as referidas três bandeiras que, portanto, ali se encontravam, quando, já próximo da hora da rece- ção, foi recebida a bandeira russa. Nessa altura quando lhe perguntaram se içava esta bandeira e à observação que só mastro grande estava livre respondeu: Ice.

Evidentemente que não havia qualquer propósito de colocar a bandeira russa em lugar de destaque. Tudo resultou de um mero ato impensado do qual porém as- sumia inteira responsabilidade”31.

Sertório Herrera, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos, tem outra versão des- tes acontecimentos. Refere que este episódio foi vivenciado de uma forma bas- tante intensa pelo seu pai que na época era o contínuo da Câmara Municipal, contínuo do Presidente, como era chamado na altura. José Barrosinha de Oliveira exercia aquelas funções há várias décadas na CMS e uma das suas tarefas era pre- cisamente o hastear da bandeira ou das bandeiras se fosse esse o caso: “Era o meu pai que hasteava a bandeira todos os dias. O meu pai ia todos os dias para a Câma- ra e a primeira coisa que fazia era hastear a bandeira. Na véspera desse dia foi-lhe dito que não seria ele quem iria hastear a bandeira. Esta ordem entristeceu-o muito. Isto foi uma grande tristeza para o homem. Ele já tinha sido contínuo do Major Mexia, do Góis, do Júlio Santos, e depois foi do Lobo. Foi um grande des- gosto para ele”32.

Nesse dia, quem iria hastear as bandeiras nos mastros da Câmara era o próprio Presidente da Comissão Administrativa, Vítor Zacarias. Hastear pela primeira vez a bandeira da URSS no edifício da Câmara Municipal era uma honra especial que não se poderia perder.

Vitor Zacarias hasteará a bandeira da União Soviética no mastro principal do pa- lacete camarário e numa posição subalterna a bandeira nacional e a bandeira do município.

Sertório Herrera tem uma explicação para a substituição do seu pai nas funções que desempenhava com tanto zelo e empenho há várias décadas: “Vaidade. O ho- mem [Vítor Zacarias] resolveu ser ele a fazer aquela grandíssima asneira. O meu pai nunca faria aquilo. O meu pai sabia que nenhuma bandeira podia substituir no poste principal a bandeira nacional (…). O meu pai tinha um grande orgulho naquilo que fazia e tinha um grande respeito por todos os presidentes da Câmara. Ele era o contínuo do Presidente da Câmara”33.

Independentemente das versões sobre quem é que foi responsável pelo hastea- mento da bandeira da URSS em lugar de destaque face à bandeira nacional, a análise das atas da Câmara permite-nos constatar que Vitor Zacarias dará conta de que teve uma reunião com o Governador Civil e com dirigentes locais do PS na qual explicou o sucedido.

Nesta reunião a CA ficou com a convicção de que o problema estava resolvido e o vereador Egas Sales considerou mesmo que a CA não devia redigir qualquer co- municado de resposta ao sucedido, porque isso seria perder tempo, dado que o assunto não teria importância e já estaria sanado.

Veio a revelar-se que esta convicção não era conforme à realidade.

31 Arquivo Municipal de Setúbal. Ata da reunião da CA, de 2 de junho de 1975. 32 Entrevista concedida por Sertório Herrera, em 20 de junho de 2016. 33 Ibidem.

De facto, quando se pensava que o assunto já havia sido dado por encerrado pelo Governador Civil e pelo Governo, o Ministro da Administração Interna decide exonerar o Presidente da CA.

Também aqui as versões são contraditórias. O Governador Civil assegura que teve um papel determinante na demissão de Vítor Zacarias: “Demiti imediatamente a Comissão Administrativa e o seu presidente, mas isso não foi muito bem aceite e mais tarde houve uma reunião tumultuosa na Câmara Municipal de Setúbal acer- ca dessas demissões, tendo eu sido convidado a participar.

Embora inicialmente tivesse dito que não ia, porque não achava interesse, tendo em conta que era uma reunião da câmara e da comissão administrativa, eles insisti- ram tanto que lá fui e acabei por ser sequestrado, já que não me deixaram sair quan-

Entrevista do capitão Adelino Reis Moura, Delegado do MFA em Setúbal

As pessoas que se indignaram com tal facto [hasteamento da bandeira da União Soviética], fizeram questão de fazer chegar o seu protesto junto do Governador Civil porque era a bandeira nacional que estava em causa e a cidade de Setúbal que, mais uma vez, via novamente perturbado o seu ambiente. Na altura, como Delegado do MFA, eu trabalhava bastante perto do Governador Civil, o então capitão-de-fragata Fuzeta da Ponte. Depois das queixas, entendeu-se fazer uma reunião entre o Governador, enquanto representante do poder civil, e o delegado do COPCON enquanto represen- tante do poder militar. Na sequência da reunião, e numa decisão perfeitamente acertada, o Gover- nador Civil decidiu apresentar o caso ao ministro da Administração Interna, que também era militar. Fomos lá no mesmo dia e ele ficou muito preocupado com o que se tinha passado. Mas ao mesmo tempo a sua preocupação transmitiu-nos algum receio sobre as medidas a tomar porque elas poderiam perturbar ainda mais a situação em Setúbal. Depois de uma longa conversa mais militar que política, falámos com o gabinete do então Primeiro-ministro, na altura o brigadeiro Vasco Gonçalves. Quando chegámos ao gabinete, por mero acaso encontrava-se lá o saudoso capitão Salgueiro Maia. Contámos o episódio e Salgueiro Maia disse-nos que as pessoas que permitiram a troca das bandeiras não podiam continuar na Câmara, mesmo sendo essas as mesmas pessoas que haviam lutado por um regime democrático em Portugal. Foi decidido demitir a Comissão Adminis- trativa e assim aconteceu. Chamámos os diversos elementos da Comissão ao Governo Civil e demitimo-los.

Isto gerou alguma celeuma, mas tudo foi rapidamente ultrapassado (…).

Numa cidade onde tinha ocorrido o fenómeno do içar da bandeira da União Soviética e onde nós sabíamos que haviam já algumas forças que queriam era democracia e liberdade, ainda hoje compreendo a dificuldade que gente como os elementos do PS e do PPD tinham em expressar-se. Isto porque havia uma organização que trabalhava de uma forma tão pouco transparente que quem quisesse pôr as coisas à discussão e analisar os problemas não tinha qualquer hipótese.

E este fenómeno da bandeira teve um grande significado porque foi exatamente o despoletar de um conjunto de democratas que não tinham voz em Setúbal. E acho que viram naquele momento uma oportunidade de questionar o MFA sobre se as coisas poderiam chegar ao ponto de se içar uma bandeira da União Soviética no mastro destinado à bandeira de Portugal.

Entrevista concedida pelo Capitão Adelino Reis Moura. Memórias da Revolução, vol.2, Coordenação de Etelvina Baía e Pedro Brinca. Op. Cit., p. 42.

do quis ir embora. Os fuzileiros souberam que eu estava lá e foram buscar-me”34. Esta posição do GC está em contradição com todos os relatos das atas da CA. Para além do que consta na ata de 2 de junho, também na ata da reunião de 9 do mes- mo mês, Francisco Lobo informa os seus colegas de vereação de que terá recebido um telefonema do Governador Civil assegurando que o assunto estava encerrado. A versão do capitão Adelino Reis Moura, à época Delegado do MFA em Setúbal, também não é completamente coincidente com a versão do Governador Civil, quando assegura que a demissão teria sido imediata. O Delegado do MFA repor- ta-se a uma reunião com o Ministro da Administração Interna e com o gabinete do Primeiro-Ministro. Há ainda que não subestimar a posição de Salgueiro Maia que terá considerado: “que as pessoas que permitiram a troca das bandeiras não podiam continuar na Câmara”35.

O assunto não estava de facto encerrado. Vítor Zacarias acabará por ser exonera- do apesar de todos os protestos da CA e da RIC, inconformadas com a decisão governamental.

A esta resolução do Governo não foi alheia a pressão que o Partido Socialista terá assumido em Lisboa. Nestas circunstâncias, a direção local do PS terá recebido um forte apoio da respetiva estrutura central.

Benjamim Carvalho, militante socialista, que viveu de perto este episódio, lem- bra que “os militares ficaram muito incomodados com a situação que foi criada” o que terá impedido o seu abafamento. A direção local do Partido Socialista ela- borou um relatório sobre o hasteamento da bandeira da URSS, para ser entregue ao Conselho da Revolução36.

Para Alberto Pereira, membro da CA, a “direita aproveitava tudo para criticar a Câ- mara” e a vinda da astronauta russa terá sido mais um pretexto: “uma russa que vem

34 Entrevista concedida pelo Almirante Fuzeta da Ponte. Etelvina Baía e Pedro Brinca. Op. Cit., p. 109. 35 Entrevista concedida pelo Capitão Adelino Reis Moura. Etelvina Baía e Pedro Brinca. Op. Cit., p. p. 42. 36 Entrevista concedida por Beijamim Carvalho, em 13 de abril de 2016.

Exoneração do Presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Setúbal

Na sequência dos acontecimentos ocorridos na Cidade de Setúbal, aquando da visita da cosmonauta Valentina Terechkova no dia 1 de junho corrente, em que não foram prestadas as honras devidas à Bandeira Nacional, foi efetuado um inquérito pelo Ministério da Administração Interna com a participação do delegado do MFA do Regimento de Infantaria de Setúbal.

Apurando-se a responsabilidade única nos acontecimentos, que se consideraram graves, do Presidente da Comissão Administrativa foi o mesmo exonerado das respetivas funções pelo Ministério da Administração Interna.

Setúbal, 6 de junho de 1975 O GOVERNADOR CIVIL

a Setúbal, ainda por cima, recebida com algumas honras causou engulhos na direita e no PS”37. No entanto este vereador da CMS acaba por ver alguns aspetos positivos neste episódio ao considerar que “no fundo eu reconheço que “o destino” escreveu direito por linhas tortas porque afastou uma pessoa menos competente e acabou por pôr no lugar uma pessoa mais competente. A cidade ficou a ganhar. Ficámos a ganhar uma pessoa prudente que sabia ouvir, pouco impulsiva”38.

Abílio Ferreira interpreta estes acontecimentos à luz da “ingenuidade e imprepa- ração por parte de Vítor Zacarias”39.

Lapso/ignorância protocolar ou subversão propositada do protocolo? Não sabe- mos. O que sabemos é que este episódio provocará mais uma crise no poder au- tárquico setubalense. A Comissão Administrativa e a RIC, apesar de aceitarem a decisão ministerial, afirmam em comunicado que irão “fazer todos os esforços para que a mesma não seja definitiva, pedindo a abertura de um inquérito”. Não sabemos os esforços que foram feitos por estas entidades no sentido da aber- tura de novo inquérito sobre este incidente. O que sabemos é que Vitor Zacarias não voltará à presidência da CA, apesar de ter sido nomeado outro Governador Civil, próximo do PC. E mesmo durante o V Governo Provisório, em que haveria condições políticas para proceder a esta regressão administrativa, a situação manter-se-á inalterável.

1.6. Documento do COPCON contesta funcionamento do Poder Autárquico

O designado documento do COPCON é uma resposta ao Documento dos Nove, ou Documento Melo Antunes. Nele se defende um programa político inspirado no modelo de Poder Popular. Apoiado por Otelo Saraiva de Carvalho e pelos mi- litares politicamente próximos da extrema-esquerda, este documento defendia perspetivas e propostas semelhantes às que constavam dos programas de alguns partidos, como o Partido Revolucionário do Proletariado/Brigadas Revolucioná- rias (PRP/BR), o Movimento de Esquerda Socialista (MES) e também a União Democrática Popular (UDP). O documento terá sido redigido por militantes li- gados ao PRP e UDP e militares do COPCON.

O documento faz um balanço bastante crítico do Poder Local emergente. Res- ponsabiliza as Comissões Administrativas por um certo desalento e descrença das populações locais face ao processo revolucionário. Para o COPCON as causas desta ineficiência são políticas: “A substituição das administrações fascistas das autarquias locais foi feita na maioria dos casos por elementos da pequena e média burguesia local, afetos ao PCP e MDP/CDE, que se revelaram incapazes de solu- cionar os principais problemas existentes”40.

Na reunião da CA de 25 de agosto de 1975, é lavrado um protesto público contra

37 Entrevista concedida por Alberto Pereira, em 28 de junho de 2016. 38 Ibidem.

39 Entrevista concedida por Abílio Ferreira em 17 de janeiro de 2017. 40 Reproduzido pelo jornal O Setubalense de 5 de setembro de 1975.

estas acusações: “A maioria dos indivíduos escolhidos para as autarquias locais são indivíduos com um passado reconhecido de luta antifascista que os identifica como garantes de apoio à revolução iniciada a 25 de Abril. São na generalidade pessoas que puseram muitas vezes em causa a sua existência na conquista e defesa dos interesses das populações. São pessoas corajosas, abnegadas dos maiores pro- pósitos de servir. São pessoas que mais uma vez, quando ainda o terror e o espec- tro de um governo fascista acobardava a maioria das gentes deste país, estiveram presentes e ocuparam corajosamente lugares de responsabilidade”41.

Recusando filiações partidárias, a CA reitera a independência e a autonomia dos autarcas nomeados: “A maioria das pessoas convidadas para as autarquias locais não tinham opções políticas partidárias. O MDP/CDE era uma organização anti- fascista unitária na qual se inseriam todas as correntes de pensamento, aonde desde as primeiras horas afluíram os antifascistas ativos. E hoje como no tempo do fascismo esses militantes dão tudo o que têm ao seu país. Trabalham 24 horas por dia, auxiliando as populações no que lhes é permitido, enfrentando estoica- mente os ataques desferidos maldosamente, raivosamente, inconscientemente, por todos aqueles que não estando interessados na revolução portuguesa dinami- zam as massas menos preparadas lançando-as em lutas injustas e odientas”42. Refuta igualmente a acusação de “pequeno-burgueses”, explicando: “A acusação de burgueses de que também são alvos esses militantes, é de todo injusta por- quanto não é unicamente nas condições económicas que se determina o ser ou não ser burguês. Não são burgueses os que lutam sincera e abnegadamente por uma sociedade justa e direitos e obrigações iguais para todos onde deixem de haver privilegiados. Burgueses são sim os que não querem abdicar dos seus como- dismos e privilégios e os sobrepõem aos interesses coletivos. Burgueses são aque- les que mesmo nada tendo se alheiam dos problemas das sociedades. Sobre a inoperância de que também são atacadas as autarquias locais só um desconheci- mento profundo das possibilidades económicas, estruturas técnicas e humanas e dos condicionalismos a que estão sujeitas ao poder central aliado ainda a uma máquina por sanear, a um código administrativo por queimar, a mentalidades tacanhas que tudo contrariam e receiam os pode levar a tais afirmações”43. Foi aprovado por unanimidade que estas considerações proferidas pelo vice-pre- sidente, e lavradas em ata, deveriam ser transmitidas ao COPCON, à RIC, ao Mi- nistério da Administração Interna, à Presidência da República e à Quinta Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas.

A 6 de setembro a CA irá redigir um longo comunicado à população que designa “Comunicado da Câmara de Setúbal sobre o Poder Popular”, onde se identifica com o documento “Linhas de Ação Programática e Tarefas do V Governo Provisó-

41 Intervenção de Francisco Rodrigues Lobo, vice-presidente da C.A. da CMS. Atas da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Setúbal. Reunião de 25 de agosto de 1975.

42 Ibidem. 43 Ibidem.

rio”, começando por fazer uma longa citação do documento do Governo presidi- do por Vasco Gonçalves.

É mais uma forma de separar águas e de alinhar politicamente com a corrente que ao nível militar segue Vasco Gonçalves e a 5ª Divisão do MFA, demarcando-se das críticas feitas pelo Documento do COPCON.

De acordo com o comunicado, o V Governo apontou o caminho correto para ul- trapassar as dificuldades que enfrentam “os órgãos tradicionais do poder local”. Nesta perspetiva as maiores dificuldades prendiam-se com “a insuficiência da resposta às carências concretas das populações e a insuficiência de ligação orgâ- nica entre estes órgãos (câmaras e juntas) e as unidades organizativas de base das populações (CM e CT)” 44.

Ainda segundo a CA, o Documento Guia Povo/MFA e as Linhas de Ação Progra- mática e Tarefas do V Governo Provisório abriam o caminho para uma relegitima- ção do poder autárquico “permitindo a curto ou a médio prazo a substituição das Comissões Administrativas por elementos efetivamente representativos não ba- seados em percentagens eleitoralistas”45. O que significava que para a CA da Câ- mara de Setúbal a legitimidade revolucionária e popular podia ser sobreposta à legitimidade eleitoral que tinha sido manifestada nas eleições para a Assembleia Constituinte.

Seis dias depois de a Câmara ter divulgado este documento, que configurava um apoio público ao chefe do V Governo Provisório, Vasco Gonçalves seria exonera- do do cargo pelo Presidente da República, Costa Gomes.

A Câmara até aqui tinha tido uma relação cordial e até de deferência com todos os militares. No caso do documento do COPCON, contudo, não vai hesitar em criticar publicamente, com veemência, as posições aí expressas pelos seus auto-