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2.3. Harmanlanmış Öğrenme

2.3.4. Öğretmen Eğitiminde Harmanlanmış Öğrenme Çalışmaları

Fonte: Cedoc-UNISC

Ani Hass explica que o empresariado se originou de duas práticas profissionais: a do artesão e a do comerciante. O primeiro conseguiu superar os entraves da concorrência estrangeira, formando uma pequena indústria com recursos provenientes da própria poupança, enquanto que o segundo apresentou características diferentes, pois a maior parte das

iniciativas industriais de vulto no século XX proveio deste grupo, que foi objeto de estudo em Paul Singer:

O relato das realizações das principais figuras da dinastia Trein, Mentz e Renner mostra o papel destacado que o grande comércio alemão desempenha no desenvolvimento de Porto Alegre. A evolução da cidade, na segunda metade do século passado e nas primeiras décadas do atual, se acha dominada pelas conseqüências da colonização alemã, não somente devido ao intercâmbio comercial com as colônias, mas porque o capital que nelas se acumula acaba sendo, em boa parte, investido em indústrias e em empreendimentos comerciais de maior fôlego, cuja sede só poderia ser Porto Alegre. (Singer, 1968)

Hass cita o exemplo ilustrativo do industriário Antônio Jacob Renner, um dos principais líderes empresariais do Rio Grande do Sul, que atuou como integrante da elite econômica entre o final do século XIX e o início do século XX graças ao sucesso que lhe foi proporcionado pelo comércio fundado em parceria com a família. Jacob iniciou sua atividade empresarial em 1847 com o sogro, Franz Trein, numa casa comercial na cidade de São Leopoldo, e mais tarde conseguiu abrir uma tecelagem na cidade de São Sebastião do Caí. Em 1916, transferiu a sede da empresa para Porto Alegre, onde já tinha uma filial desde 1916. Esse grupo econômico ampliou o seu nível de negociação, sendo uma das maiores do ramo têxtil do país, com capacidade de exportação para Europa e Estados Unidos.

Ani Hass destaca que o processo de formação desse típico comerciante no interior do Rio Grande do Sul apresentou duas formas: o “vendista-agricultor” e o “importador- exportador”.

O vendista atuava por meio do “escambo”, pois trocava os produtos agropecuários dos colonos por produtos manufaturados que comprava na vila ou numa cidade próxima. Esse comerciante estava instalado numa cruzada de picadas (estrada aberta no meio do mato) e provavelmente possuía um lote de terra que cultivava com a família. Nesse grupo havia os mais ousados, que possuíam o pequeno estabelecimento comercial como fonte principal de renda e mantinham a agricultura familiar como fonte de renda complementar. O grupo mais cauteloso possuía a agricultura como fonte principal de renda e o estabelecimento comercial como complemento. Na medida em que se ampliava o mercado local, alguns comerciantes deixavam a agricultura familiar e passavam a investir diretamente na rede de negociação comercial entre os agricultores e os caixeiros-viajantes, sendo que a transferência do negócio para a vila ou cidade era sempre ambicionado por esse grupo.

O importador-exportador era constituído por um segmento que residia nas cidades ou vilas; estas pessoas recebiam os produtos agropecuários dos vendistas em troca de produtos manufaturados. No momento em que a economia se monetarizou, o comércio teve uma sensível expansão, pois as trocas foram simplificadas. É plausível supor que a maioria dos comerciantes que iniciaram o processo de industrialização estivessem ligados a esse último grupo – comércio exportador e importador – pois esses, em relação aos primeiros, possuíam maiores recursos financeiros e estavam localizados nos centros urbanos.

2.2 Notas sobre a formação econômica de Santa Cruz do Sul: base para a formação de uma elite empresarial (da estruturação do povoado até a internacionalização do setor fumageiro, 1849-1966)

Para a maioria dos pesquisadores que analisam a história do capitalismo de Santa Cruz do Sul, a economia fumageira passou por cinco períodos: o primeiro foi o processo de colonização, o segundo a estruturação comercial, o terceiro a acumulação capitalista, o quarto a industrialização do fumo e o quinto a internacionalização da indústria fumageira. Essa proposta foi elaborada pela Sociologia29, que fundamentou as mudanças e rupturas no município tendo a evolução do setor fumageiro como “pano de fundo”. Encontramos um padrão hegemônico nas pesquisas envolvendo Santa Cruz do Sul que consiste em tomar a trajetória do fumo como centro de delimitação da amplitude temporal.

Não há dúvida de que esse produto foi o principal gerador de renda e prestígio de uma elite localizada no interior do Rio Grande do Sul, pois Santa Cruz do Sul concentrou, por mais de meio século, todas as negociações referentes ao mercado fumageiro estadual. É nessa cidade que foi fundado o Sindicato da Indústria do Fumo, ocorreu a instalação da filial da British American Tobacco (futura Souza Cruz), originou-se a maior empresa de beneficiamento de fumo de nível estadual, a Exportadora Hennig S/A, teve lugar a formação da maior indústria de cigarros de capital nacional do sul do Brasil, a Companhia de Fumos Santa Cruz S/A. Destacamos que a cidade concentra atualmente um polo fumageiro de capital

29 A principal referência é GODINHO, R.; MONTALI, L.; CAMARGO, C. Estudos de população – IV Santa

Cruz do Sul. Estudo de caso: dinâmica populacional, transformações sócio-econômicas, atuação das instituições.

São Paulo: CEBRAP, 1980. No ano anterior, 1979, Lilian Montali defendeu sua dissertação de mestrado em Sociologia pela USP. Ela tinha a economia fumageira local como estudo de caso e foi a pioneira na caracterização dessa periodização.

estrangeiro que se estruturou no período posterior ao golpe de 1964. Toda essa riqueza permitiu a inauguração do maior banco privado do Rio Grande do Sul, a Caixa Cooperativa de Crédito Santa-Cruzense, futuro Banco Agrícola Mercantil, que teve sua sede em Santa Cruz até 1946, quando foi transferida para Porto Alegre tendo em vista a elevação do nível e a complexidade de negociação que a rede bancária havia alcançado naquele contexto.

Silvana Krause (2002) destaca que “as transformações econômicas ocorridas nessas zonas coloniais não se limitaram ao desenvolvimento da agricultura, mas desenvolveu-se também uma economia moderna baseada no comércio, em um sistema bancário e na formação de indústria apoiado no tabaco” (Krause, 2002, p. 15). A formação social, política e cultural da comunidade, ao longo do século XX, possui forte ligação com o setor fumageiro, que foi se consolidando em diferentes níveis de integração com o mercado nacional e internacional.

Deve-se a Lilia Montali (1979) uma das principais análises sociológicas e históricas sobre o capitalismo na cidade. A autora delimita a amplitude do recorte temporal de Santa Cruz do Sul em duas etapas subdivididas em cinco períodos30, tendo a evolução da economia fumageira como norteadora:

A primeira etapa abrange três períodos: 1) a instalação do núcleo colonial em bases não capitalistas: 1849 a 1859; 2) o início da produção simples de mercadorias: 1860 a 1881; e 3) a integração ao mercado capitalista e acumulação do capital comercial: 1882 a 1917. Por sua vez, a segunda etapa compreende dois períodos: 1) o início da dominação da produção pelo capital: 1918 a 1965; e 2) o domínio do capital monopolista: 1966 a 1976 (Montali, 1979, p. 08-09).

Destacamos que o tema do desenvolvimento “capitalista” em comunidades do interior do Rio Grande do Sul passou a ganhar notoriedade no campo intelectual dos sociólogos, historiadores, economistas e antropólogos, que passaram a reforçar essa metodologia periódica assentada no principal produto local em suas análises. Essa influência estaria no centro dos debates acadêmicos a partir de 1960 e se estenderia até os anos de 1990, quando ocorreu o início da crise do marxismo. A partir desse período, novos pressupostos se tornariam hegemônicos e o fator econômico seria posto em segundo plano. O que contribuiu para essa mudança foi o recorte metodológico na Micro-História, que permitiu focar um

30 Lendo a obra de Montali (1979) é possível identificar uma aproximação teórica da sociologia de Florestan

Fernandes, isso porque a autora utiliza a mesma divisão do clássico “Revolução burguesa no Brasil” para

determinado espaço em seus aspectos geográficos, históricos, políticos e sociológicos em inúmeras pesquisas.

Para efeitos de análise da história das elites, vamos examinar as condições que permitiram a formação do espaço burguês de Santa Cruz do Sul tendo essas duas etapas como fio condutor, pois elas possibilitam observar a emergência de uma vila (nascida de uma colônia entre 1849-1918) que evoluiria ao status de cidade, em 1905, bem como entender o espaço de atuação da elite econômica local. Vale destacar que a periodização de Montali para o contexto da “cidade de Santa Cruz” compreende o período de 1918 até 1976. Assim, manteremos o recorte da autora para o entendimento da dinâmica econômica local a partir da economia fumageira, mesmo que nosso ponto de partida seja 1905, ano da inauguração da estrada de ferro e da elevação da Vila de Santa Cruz à condição de cidade por meio de decreto publicado pelo governador estadual Borges de Medeiros na inauguração da ferrovia.

2.2.1 A primeira etapa, “da colônia para a vila” – entre a consolidação da agricultura familiar e a formação do comércio urbano (Vila de São João de Santa Cruz, 1848-1918)

Para Montali, essa etapa esteve dividida em três períodos e foi marcada pelo processo de colonização dos primeiros lotes destinados às famílias que trabalhariam em atividades agrícolas no contexto da imigração. O processo se encerra com a consolidação do espaço urbano que foi alavancado pelo comércio, sistema financeiro e industrial, a partir de 1918. Analisaremos cada um dos três períodos.

2.2.1.1 Primeiro período: instalação do núcleo colonial (1849-1859)

Este primeiro período foi marcado pelo processo de instalação da colônia, entre 1849 até 1859. Esta periodização é seguida por inúmeros pesquisadores tendo como base o nível de produtividade local. Segundo Montali, “as terras ocupadas pela colônia de Santa Cruz do Sul foram aquelas cedidas pelo governo imperial através da lei de 1848 de incentivo à imigração estrangeira” (Montali, 1979, p. 20).

Merece destaque que a maioria dos pesquisadores que tomam a evolução da cidade como estudo de caso, no contexto de formação, apoiam-se em pesquisas realizadas por “meta-

historiador” local, como o jurista João Bittencourt de Menezes (2005). Sua obra, originalmente publicada na década de 1920, foi reimpressa e revisada pela universidade local, servindo como excelente fonte para uma análise da evolução da cidade. Reúne diversas informações estatísticas sobre demografia, contas públicas, clubes, vida religiosa e economia. O autor destaca que a sede do município de Rio Pardo tinha sido elevada, em 1846, à condição de cidade e a Câmara local desejava estabelecer uma comunicação para os chamados “Campos de Cima da Serra”, na região de Soledade, então distrito de Cruz Alta, por meio de uma estrada ou picada, para encurtar o caminho e atrair o comércio daquela região.

Vale destacar que a cidade de Rio Pardo foi um importante entreposto comercial que atendia uma vasta área da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, compreendida entre o centro, a campanha, o oeste e parte da serra a noroeste. A abertura do caminho da Picada Santa Cruz, ou Picada Velha, mais tarde denominada Linha Santa Cruz, foi efetuada por Abel Corrêa da Câmara, o que deu origem à denominação “Picada do Abel”, como o lugar também ficaria conhecido. Nessa época a Província era governada pelo Tenente-General Francisco José de Souza Soares de Andréa, Barão de Caçapava, que autorizou, em 2 de dezembro de 1849, a formação da Colônia de Santa Cruz em terras do distrito rio-pardense da Serra do Botucaraí, entre a margem esquerda do Rio Pardo e o arroio Taquari Mirim.

Outra questão importante na análise de Montali foi identificar elementos que Jean Roche (1969) já havia reforçado no estudo comparativo entre o perfil dos imigrantes que inauguraram São Leopoldo, em 1824, e o do grupo que fundou Santa Cruz, conhecida naquele tempo (1849) como Picada Velha.

Um dos pontos que merece consideração é a diversidade profissional dos integrantes que migraram para a colônia de Santa Cruz: “Apesar de a maioria dos imigrantes serem agricultores e ocuparem-se da agricultura, sabe-se que muitos eram artesãos, como por exemplo, um grupo de 71 chefes de família chegados à colônia de Santa Cruz em 1853, entre os quais constavam 25 artesãos e 46 agricultores” (Montali, 1979, p. 31). Outra referência importante para a análise do desenvolvimento econômico e político da vila é a pesquisa de Silvana Krause (2002), pois, além de reforçar dados apresentados por Montali sobre a importância do nível de formação profissional e escolar desses imigrantes, analisou a sua filiação religiosa, que abordaremos no final desse capítulo.

Tanto Krause (2002) quanto Montali (1979) reforçam que a população local cresceu rapidamente nessa fase inicial. Os dados apresentados por essas autoras indicam o seguinte painel: em 1849 havia 12 habitantes, em 1852 esse número saltou para 254, e em 1853 ocorreu um incremento de 692 pessoas. Essa tendência foi mantida durante todo o primeiro período (1849-1859), que terminou com a comunidade constituída por uma população estimada em 2.723 habitantes, segundo os relatórios dos presidentes da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul31.

2.2.1.2 Segundo período: início da produção (1860-1881)

No segundo período, que se estende de 1860 até 1881, há um predomínio de atividades voltadas para o comércio e o artesanato. Para Montali, essas duas atividades passam à condição de “linha de frente” da economia na emergente colônia e estruturam o fortalecimento do processo de mercantilização das atividades voltadas para a agricultura familiar. A região passou a produzir excedentes agrícolas com capacidade de acumulação rentável, num quadro bem semelhante ao que ocorreu nas outras regiões de colonização do Rio Grande do Sul.

No caso específico de Santa Cruz do Sul, o fumo em folha passou a ser produzido em larga escala para a comercialização e fomentou a entrada de capitais industriais na localidade. Montali (1979, 33) destaca que “entre 1859 e 1881 verificou-se um salto no volume da produção do fumo, que passa, de 14 toneladas em 1859, para 97 toneladas em 1862, e para 1.552 toneladas em 1881. O fumo, além de ser o principal produto para a exportação, tinha 95% de sua safra exportada para outras localidades durante o período de 1862 a 1881.”

Nesse contexto, assistimos à integração do mercado capitalista com redes comerciais, ligando Santa Cruz do Sul com outras localidades do Rio Grande do Sul e tendo Rio Pardo como ponto de partida. Nessa mesma conjuntura, a comunidade passou a buscar sua emancipação política. Criaram-se instituições que possibilitavam a atuação de lideranças locais capazes de representar a localidade em outras esferas governamentais. Merece destaque a primeira Câmara Municipal, instalada em 1878, em que o presidente teria poderes políticos

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equivalentes ao de um intendente. Abordaremos a formação política local no próximo subcapítulo.

Foto 04 – Vista parcial da Vila de Santa Cruz no início do século XX. O prédio em destaque é a sede