B. EĞİTİM VE ÖĞRETİM
B.5. Öğrenme Kaynakları
Na concepção de Marx (apud GONSALVES, 2009), o entendimento do processo de trabalho é percebido como uma atividade orientada a um fim para produzir valores de uso, apropriação do natural para satisfazer as necessidades humanas, condição universal entre o homem e a natureza.
Para Merhy (2002, apud GONSALVES, 2009), a respeito da produção, consumo e necessidade, o trabalho em saúde possui uma característica peculiar que o distingue de outros processos produtivos: ele não é plenamente estruturado, é um processo de intervenção em ato, ou seja, a produção de bens e seu consumo ocorrem ao mesmo tempo. Há um encontro do agente produtor e agente consumidor, quando interagem suas intencionalidades, conhecimentos e representações, configurando um processo de interseção compartilhada, operando relações de subjetividade.
Assim, na concepção teórica desenvolvida por Merhy (2002), o sentido social do trabalho em saúde é a produção do cuidado, por meio do qual pode ser alcançada a saúde. Logo, os processos de trabalho devem ter a capacidade de intervir nos problemas referentes à
saúde, modificando-os e produzindo um resultado com satisfação de necessidades (GONSALVES, 2009).
No Brasil, desde a constituição de 1988, o Ministério da Saúde comprometeu-se em reestruturar o modelo de atenção à saúde, partindo de um referencial de saúde como direito de cidadania, pressupondo a organização de serviços cada vez mais resolutivos, integrais e humanizados.
O modelo de Atenção Básica privilegia uma abordagem familiar centrada na qualidade de vida e na relação das equipes de saúde com a comunidade. A Estratégia Saúde da Família (ESF), criada em 1994, não limita seu trabalho a intervenções de nível epidemiológico e sanitário. Em seu planejamento, vislumbra trabalhar com a família, da qual se deve conhecer o contexto social, político e econômico, bem como sua organização, a fim de facilitar o processo de cuidado em saúde (CAVALCANTI, 2010).
A ESF surge, então, para desempenhar um papel estratégico na construção e consolidação do SUS, reafirmando seus Princípios e Diretrizes. O princípio que norteia o trabalho diz respeito à qualidade da relação entre o profissional e a família. Desta forma, esta estratégia tem a família como sujeito do processo saúde-doença, com características e relações próprias e que podem ser parceiras na construção de sua saúde e na melhoria da qualidade de vida de seus membros e toda comunidade (COSTA, 2009).
A equipe de saúde da família deve atuar através da interação entre os diversos profissionais que a compõem, no sentido da complementaridade dos saberes, compartilhamento de resultados, identificando os problemas de saúde e as situações de risco existentes na comunidade. Além disso, a ESF deve constituir-se como porta de entrada da população aos serviços de saúde na atenção básica e através de suas equipes tornar-se responsável por sua população adscrita de forma integral e resolutiva e instituir práticas que rompam com o modelo de atenção centrado no médico e na assistência hospitalar (COSTA, 2009).
Os serviços odontológicos foram inseridos nas equipes da saúde da família somente em 2001, pela portaria nº 1.444. Assim, foi definido pelo Ministério da Saúde que o trabalho das Equipes de Saúde Bucal (ESB) na Estratégia Saúde da Família estaria voltado para reorganização do modelo de atenção e para ampliação do acesso às ações de recuperação e promoção da saúde (BRASIL, 2000).
Dessa forma, o cuidado em saúde bucal passa a exigir a formação de uma equipe de trabalho que se relacione com usuários e que participe da gestão dos serviços para dar respostas às demandas da população e ampliar o acesso às ações e serviços de promoção,
prevenção e recuperação da saúde bucal, por meio de medidas de caráter individual e coletivo e mediante o estabelecimento de vínculo territorial (BRASIL, 2010).
Portanto, foi exigido um perfil profissional com visão ampliada sobre o novo modelo de cuidado em saúde, capaz de atuar na comunidade em seus vários aspectos, não apenas restrito às ações técnicas curativas destinadas à saúde bucal (BRASIL, 2004).
A essência desta prática necessita do processo de trabalho conjunto entre as Equipes de Bucal e Equipes de Saúde da Família as quais estejam vinculadas. É preciso que elas desenvolvam suas atividades em conjunto, garantindo assim efetividade e atendimento integral a sua população adscrita. Assim, recomenda-se que os profissionais de Saúde Bucal estejam vinculados a uma Equipe de Saúde da Família e compartilhem a gestão e o processo de trabalho com a mesma, tendo responsabilidade sanitária pela própria população do território junto à equipe a qual integra, e com jornada de trabalho de 40 horas semanais.
O Ministério da Saúde elaborou em 2004 o documento “Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal”. Estas diretrizes apontam para uma reorientação da atenção em saúde bucal em todos os níveis e para o desenvolvimento de ações intersetoriais, tendo o conceito do cuidado como eixo norteador do modelo, respondendo uma concepção de saúde não centrada somente na doença, mas, sobretudo, na promoção da boa qualidade de vida e intervenção dos fatores que a colocam em risco, incorporando atividades programáticas de forma mais abrangente. Segundo este documento, as Ações das Equipes de Saúde Bucal na ESF são (BRASIL, 2004):
• Ações de Promoção e Proteção de Saúde: podem ser desenvolvidas no nível individual e/ou coletivo e visam à redução de fatores de risco, que constituem ameaça à saúde das pessoas, podendo provocar-lhes incapacidades e doenças. • Ações de Recuperação: esse grupo de ações envolve o diagnóstico e o
tratamento das doenças;
• Ações de Reabilitação: constituem na recuperação parcial ou total das capacidades perdidas como resultado da doença e na reintegração do indivíduo ao seu ambiente social e a sua atividade profissional;
• Prevenção e controle do câncer bucal: consiste em realizar rotineiramente exames preventivos para detecção do câncer bucal, garantindo-se a continuidade da atenção, em todos os níveis de complexidade, mediante negociação e pactuação com representantes das três esferas de governo;
• Implantação e aumento da resolutividade do pronto-atendimento: versa em organizar o pronto-atendimento de acordo com a realidade local, avaliando a situação de risco na consulta de urgência;
• Inclusão de procedimentos mais complexos na Atenção Básica: deve-se considerar a possibilidade de inserir na atenção básica procedimentos clínicos de maior complexidade. Tais procedimentos contribuem para aumentar o vínculo, ampliar a credibilidade e o reconhecimento do valor da existência do serviço público em cada local, aumentando-lhe o impacto e a cobertura.
A ampliação das ações de saúde bucal também se faz através de organização de visitas domiciliares às pessoas acamadas ou com dificuldade de locomoção, visando à identificação dos riscos e propiciando o acompanhamento e tratamento quando necessário.
Em resumo, o processo de trabalho das ESB fundamenta-se nos princípios da universalidade, equidade, integralidade da atenção, trabalho em equipe e interdisciplinar, foco de atuação centrado no território-família-comunidade, humanização da atenção, responsabilização e vínculo (BRASIL, 2010).
É fundamental a compreensão que apesar do trabalho em saúde estar pautado em normas constitucionais, como no caso da ESF, para Merhy (2008 apud COSTA, 2009) cada profissional tem a autonomia de desenvolver o cuidado dentro do espaço se sua micro- política, entendida aqui como o seu agir cotidiano, de forma dinâmica e criativa, com grande capacidade inventiva ou simplesmente de forma prescritiva e mecanizada.
Desta forma, vemos a grande responsabilidade do profissional que, apesar de toda característica normativa presente no Saúde da Família, tem os resultados do seu trabalho condicionados de forma definitiva à sua conduta profissional e de toda sua equipe.
Para a Saúde Bucal esta nova forma de fazer às ações cotidianas representa, ao mesmo tempo, um avanço significativo e um grande desafio. Um novo espaço de práticas e relações a serem construídas com possibilidades de reorientar o processo de trabalho e a própria inserção da saúde bucal no âmbito dos serviços de saúde (BRASIL, 2004).
Diante do exposto, observa-se que o trabalho do CD na ESF extrapola, e muito, o âmbito da cavidade oral, pautando-se na necessidade de uma nova odontologia, no sentido de superar o caráter profundamente tecnicista da prática dominante de consultório realizado pelo dentista no serviço público. Necessita-se de um profissional empenhado em atividades de prevenção, promoção e educação, com disponibilidade para reunir-se com a equipe de saúde e
com a população do seu território. Além disso, deve participar dos processos de planejamento e desenvolvimento de ações na sua região, visitando os espaços sociais sempre que for necessário para conhecer intimamente a população e suas condições de vida.