2.4. Öğrenen Örgüt
2.4.5. Öğrenen Örgütü Engelleyen Unsurlar
Narrar as passagens que se alternam em formas de consciência ou de memória requer mudanças na maneira de representar. Podemos nos perguntar se quem escreve na pós- modernidade provoca a perda de um fio narrativo ligando começo, meio e fim, ou se sustenta um tipo de subjetividade completando o sentido dado por outras vozes.
Levando-se em conta que qualquer unidade para ser coerente e dotada de sentido pode ser uma sucessão de acontecimentos transcorridos em linearidade, além de outras fragmentações esperando por conecção a uma nova realidade, as histórias pós-modernas captam um sistema arbitrário de símbolos fragmentados e os ressignificam para formarem novas perspectivas para a representação da realidade.
Sendo assim, o narrador pós-moderno desvenda e também revela um conhecimento que parecia esquecido pelas próprias repressões sofridas, e efetua um trabalho parecido com o de um arqueólogo explorando as profundezas do objeto, a fim de identificar quais figuras promovem tamanho estranhamento e medo para resultar a nova criação.
O discurso de Anzaldúa é um verdadeiro estado de coisas latentes, a espera de serem desvendadas por meio de uma outra linguagem, dispostas criativamente e alertas para explorar possibilidades significativas mais amplas.
Senso assim, no capítulo da obra intitulado “La conciencia de la mestiza / Towards a
New Consciousness” (p.99 a 113), a autora dá a ideia de que todo homem tem em si um
“outro” homem, quando não muitos deles, constituindo uma nova “realidade”, nesse caso, chicana, dúbia e incerta, confundindo os limites entre uma determinada certeza e suas abstrações.
Percebemos que a narrativa da autora , nesse ponto, promove a presentificação de uma problemática entre os mundos ficcional e real e, dessa forma, é como se esse homem visse
triplicado em si mesmo, todo o medo de pensar sobre aquela “realidade” que comporta não um único “lugar”, mas, outros, diferentes corpos, testemunhando novas formas se movendo sozinhas.
Mesmo depois de muitos anos sentindo-se “exilada” em si mesma, Anzaldúa tem seu próprio sistema e apresenta-o nesse capítulo: ama regularizar e regrar sua política sobre práticas (i)legais, religião, participação social e econômica. Ela traz assuntos que incomodam a maioria hegemônica, e luta para sua voz ser aceita nesse espaço que a considera tão multiplicada.
Esse lugar de estranheza se transforma, afinal de contas, em um “duplo”. Vemos surgir, assim, uma relação de limites entre “mesmo” e “diferente”. É importante observarmos neste capítulo que, se por um lado a autora usa o real para lhe servir de “ponte” transportando seus leitores para o mundo da ficção, por outro, quando percebe que pode haver aspectos de correspondência entre os dois “mundos”, ela se questiona sobre a “realidade” da construção criada, e joga com os dois planos.
Anzaldúa coordena sua narração para esses mundos se contrastarem entre si e revelar aquele pertencimento a um além quase inacessível, àquela “coisa” que deixa de existir no momento da escrita, mas que, ao mesmo tempo, está viva e deixa viver. Seus argumentos rumam em direção à “nova consciência mestiça”.
Anzaldúa, de fato, encontra-se estreitamente ligada à espacialidade cotidiana, assim como à possibilidade de se referir a uma outra abertura e, nesse caminho pelo qual deve passar, traz de dentro de si as inquietações presentes na palavra de suas personagens, como acontece quando ela comenta que pertence a uma “descendência híbrida, mutável” [“hybrid progeny, a mutable”.] (p. 99).
Anzaldúa refere-se à presença da pluralidade das subjetivações que tanto podem desencadear a produção de uma série de representações, quanto a autorepresentação de sujeito
como portador de uma “fala” sobre a descendência e a(s) identidade(s) chicana(s). Tendo como pano de fundo esse mal-estar vivido por ela mesma, Anzaldúa trabalha com a seguinte focalização:
José Vasconcelos, filósofo mexicano, imaginou uma raça mestiça, uma mescla de raças afins, uma raça
de cor – a primeira raça síntese do globo. Ele denominou-a uma raça cósmica, a raça cósmica, a quinta
raça envolvendo as quatro maiores raças do mundo. Opondo-se à teoria do ariano puro, e à política da pureza da raça que a América branca pratica, sua teoria é aquela da inclusão. Na confluência de duas ou mais correntes genéticas, com cromossomos constantemente “atravessando”, essa mistura de raças, mais do que resultar em um ser inferior, provê uma descendência híbrida, mutável, espécies mais maleáveis com um gene mais rico. Desse cruzamento polinizante racial, ideológico, cultural e biológico, uma conscientização “alienígena” está constantemente em formação – uma nova consciência mestiça, uma
consciência de mulher. É uma conscientização das Fronteiras. (1999, p. 99)1
O fato perturbador das propostas apresentadas por Anzaldúa nessa passagem é a constatação de indicar o duplo papel que o autor pós-moderno tem em relação a si mesmo e em relação ao mundo enquanto sujeito do conhecimento.
Entre tantas mutações e tantas conexões destacando uma série de máscaras que a vida lhe impõe como traço dominante representando o sujeito que escreve, Anzaldúa representa, com essa fala, uma verdadeira revolução atordoando o leitor. Ao narrar com tamanha pluralidade e rapidez os acontecimentos, ela abala de forma constante todas nossas certezas, pois sua voz onisciente não deixa de desdobrar a consciência de si mesma, para apresentar uma personagem narrador imbuída de seu próprio relato. Por esse e tantos outros motivos, Anzaldúa sabe escrever de si mesma e daqueles que compõem o fio da narrativa.
Uma autora como Anzaldúa, então, dá-nos uma produção de estabelecimento de mudanças identitárias ocorridas durante o processo de colonização do México e que estão presentes até a atualidade. Por gerações, os mexicanos têm sofrido um encapsulamento cultural, considerado por muitos, a essência nacional mexicana a ser desvendada por meio das identidades que se apresentam naquele lugar.
Dito de outra forma, Anzaldúa significa, na pós-modernidade, uma voz que tenta determinar o impasse das identidades mescladas, a fim de haver aprovação, por
reconhecimento de direitos, da nova sociedade chicana que vem se formando sob a ética do multiculturalismo.
A raça cósmica já estaria, assim, sendo reconhecida como possuidora de uma realidade sócio-cultural própria, com seus espaços jurídicos próprios e com políticas culturais e educacionais conscientes.
O sentimento de “identidade” chicana resulta em uma nova cidadania, e provoca, nesse grupo, a discussão de uma normatividade cultural de direitos em que são debatidas as aprovações desta ou daquela reformulação política para os chicanos se adaptarem a uma nova sociedade emergente, e poderem expressar seus valores nesse confronto com os opressores. De acordo com Stavenhagen,
O mestiço, esse personagem que surge nos intervalos da polarizada e rígida estrutura social da colônia, aparece no século XIX como o arauto de uma nova história e é proclamado no XX por José Vasconcelos como a “raça cósmica” cuja luz iluminará a humanidade. De repente, o mestiço que fora depreciado e negligenciado durante o longo período de sua gestação transforma-se no portador das virtudes nacionais, expressão da unidade e da identidade das vibrantes nações latino-americanas. A nova classe média que emerge do antigo regime assume como próprio o mito do mestiço (mito desconstruído por Guilherme de la Peña e outros), que afirma urbis et orbis a homogeneidade e unidade da cultura nacional e estabelece como objetivo das políticas educacionais e culturais a configuração do país mestiço por antonomásia. Neste processo de amálgama necessariamente se deverão perder os extremos: o elitismo crioulo de corte hispanicista – que se destaca com freqüência pelo racismo – e o indianismo restaurador que reivindica a ocupação e possessão originárias da estirpe e repudia toda contaminação com o estrangeiro, o alheio. (2003, p. 39)
Os chicanos encontram-se providos, na atualidade, de uma descendência híbrida que os leva a tomar a bandeira de luta por várias causas, além de mostrarem como resistir às políticas que tentam assimilá-los e discriminá-los como cidadãos inferiores, não os reconhecendo no âmbito internacional como “povo”, mas que os torna, por isso mesmo, na verdadeira origem da identidade chicana. Mais do que tudo, Anzaldúa tenta resolver esse conflito durante sua existência escritural afirmando que “somos um povo, somos uma gente” [“Somos una gente”] (p. 107).
A disputa para tornar as desigualdades menos gritantes nesse relato imparcial para formação das oposições associadas à sua ancestralidade, não terminou. Anzaldúa denuncia em